Voltar
Próximo

Página 2

O ônibus balançava enquanto o motorista seguia pelas ruas do centro de São Paulo. Luci Vidal tentou não deixar a cabeça encostada no vidro para não se machucar com os trancos do veículo, por mais que quisesse descansar um pouco. Tinha passado a noite inteira terminando de editar algumas fotos para um cliente e não teve tempo de dormir direito. Não que esse fosse o único motivo que tornasse o seu sono uma parte complicada de sua vida. Continuava ignorando as vibrações que sentia do seu celular, sabia exatamente o que era. Seus amigos provavelmente a estavam chamando para sair, ir fazer alguma coisa, reclamar que ela não estava mais saindo com eles. Ela estava esgotando as desculpas e muito cansada.

A São Paulo de sempre ia passando pelas janelas do ônibus. O tom cinza característico daquela cidade enorme, prédios que ocupavam toda a vista, para todos os lados que olhasse. Pelo menos era assim em várias regiões da cidade. O final da tarde ia chegando lentamente, dava para saber ao reparar na luz do sol misturada com poluição. Aquele também era o horário que tinha muita gente na rua, as pessoas mal se davam ao trabalho de reparar na cidade ao seu redor. Mas Luci reparava, assim como outros que nem ela. Aquela cidade caótica, onde as pessoas andavam apressadas e sempre estressadas, dava algum conforto para ela. Um senso de vida normal e banal que aprendeu a apreciar.

Luci desvencilhou os olhos da janela para se levantar. Desceu no seu ponto, no meio da Sé, e seguiu seu caminho. Ela andou pelas ruas estreitas sem olhar para os lados, sem paquerar os produtos mágicos que foram feitos por encantadores, com uma certa dose de magia para fazer o olho brilhar, convencendo leigos a comprarem, mesmo que eles não precisassem tanto daquilo. Não eram todas as lojas que tinham aquele tipo de produto, claro que não, mas cientes como ela sabiam diferenciar. Ao contrário dos leigos. Regiões de comércio como aquelas costumavam ter algumas lojas de cientes. Durante a infância, Luci gostava de andar naquelas ruas com seu pai, tentando adivinhar quem era leigo e quem era ciente como eles.

A diferença era bem simples. Cientes, como o nome indicava, sabiam de coisas que aconteciam entre as linhas daquela cidade. Sabiam que os produtos de certas lojas de fato eram encantados para vender mais. Sabiam que algumas pessoas precisavam apenas de um estalo para fazer faíscas aparecerem em seus dedos. Sabiam que existia toda uma cidade debaixo dos pés daquelas pessoas apressadas. Cientes sabiam da magia, do Ninho, a cidade subterrânea povoada apenas por pessoas como eles. E os leigos não tinham a menor ideia de qualquer uma dessas coisas. Seus olhos eram pouco treinados, nunca assumiriam que algo era mais do que o que viam. Caso os amigos de Luci, na grande maioria leigos, visitassem onde seus pais moravam, dificilmente identificariam qualquer sinal de magia.

Não costumava ir muito para aquele lado comprar em lojas de cientes, então geralmente, quando ia, Luci não gostava de se apressar muito. Mas hoje era diferente. Não tinha tempo ou vontade de enrolar a sua estada.

Voltar
Próximo