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Ingrid bocejava enquanto seguia Luci pelos corredores da torre do Sonhar, na mesma noite em que a estreia de O Guardião do Pesadelo ocorria no teatro. A guardiã parecia mais agitada desde o problema com a lei aprovada por Maurício, tentando provar que não era inútil. Ingrid estava desapontada com ela desde o ocorrido, mas não recusaria um pedido da guardiã, por mais que ainda não entendesse o que estava acontecendo. Desde que ela encontrara Luci no Sonhar, estava reestabelecendo a boa imagem que tinha da guardiã.

As duas passaram pelos corredores na direção do observatório. Os poucos sentinelas acordados na torre olhavam para as duas, pensando no que elas estariam fazendo. Luci nem percebeu direito os olhares, estava tão focada no que queria fazer que apenas seguiu o caminho até o observatório, abrindo a porta e indo para o meio da sala, onde podia ver as passagens para o Sonhar.

— Algo a está incomodando, guardiã? — perguntou Ingrid, fechando a porta do cômodo atrás delas, torcendo para receber alguma explicação.

—Pensei em uma coisa esses dias… — Luci andava pelo cômodo, olhando as portas. — Naquela noite em que eu vim aqui e você me “ouviu”… Estava pensando sobre isso e… Será que consigo fazer o mesmo com Sofia?

Ingrid suspirou, um pouco sem paciência. Não é como se um punhado de sentinelas, incluindo ela mesma, não tivesse pensado e até tentado isso assim que se percebeu que Sofia havia sumido.

— Nós tentamos, mas não tivemos resposta.

— Mas se ela estiver fora do Sonhar, perdida ou presa em algum lugar, ela podia não estar dormindo naquele momento — falou Luci, mostrando certeza. — Sem contar que emoções contam no Sonhar. Parte de você ter me sentido naquele dia era porque eu me sentia triste sobre… nós. — Aquele foi o único momento em que ela hesitou na frase. — Nossa amizade. Eu sou irmã dela. Talvez eu consiga chegar aonde vocês não chegaram.

A sentinela foi pega de surpresa. Quando Luci falava sobre assuntos mais sérios, ela parecia um bichinho assustado, hesitando e com medo de agir. Mas, naquele momento, quase parecia outra pessoa. Estava determinada, e só então Ingrid percebeu como o olhar dela era muito parecido com o de Sofia. A determinação que ela tinha sentido na nova guardiã não tinha sido um engano. Dava para perceber que Luci tinha pensado seriamente sobre o assunto, por mais que a tentativa não resultasse em nada.

E ela não estava errada. Havia uma base de lógica ali. Mas também havia perigo.

— Não estou dizendo que os sentinelas não são bons — continuou Luci, quando percebeu o silêncio de Ingrid. — Muito pelo contrário, vocês sabem mais de magia do que eu. Mas acredito que valha a pena tentar, mal não vai fazer…

Luci tinha considerado, à medida que sentia mais força e estabilidade com o tratamento de Juliano, se conseguiria fazer aquela tentativa. Ela tinha muito mais assuntos não resolvidos com Sofia do que tinha com Ingrid, e a sentinela conseguira senti-la no Sonhar. Talvez alguma parte de Sofia estivesse conectada ao Sonhar ou algo acontecesse.

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— Entendo seu ponto, mas você está esquecendo como emoções sem controle podem afetar o Sonhar. Você pode até achar algo de Sofia, mas também pode atrair um pesadelo.

— Por isso pedi a você que viesse. Os outros achariam que estou sendo irresponsável, e talvez esteja mesmo. Minha reputação já não é das melhores aqui. Mas confio em você. Ingrid, me observe enquanto ando pelo Sonhar. Caso eu esteja em muito perigo, me ajude a sair.

A sentinela não estava feliz, mas Ingrid sabia que era capaz de fazer algo caso o plano de Luci desse mais errado do que elas gostariam. Talvez Luci precisasse daquilo, podia ser uma forma de melhorar a sensação de impotência da guardiã nos últimos dias. Ingrid ouvia a parte responsável de seu cérebro dizendo que podia dar errado, mas resolveu dar uma chance.

— Não é sábio ficar por muito tempo, mas vou observá-la, guardiã.

— Obrigada, Ingrid. — Luci sorriu, se virando na direção da porta diante delas.

A magia de Luci ativou a porta e, quando ela colocou a mão na maçaneta, sentiu um frio no estômago. Já estava começando a se acostumar com aquela sensação. Ingrid observou enquanto a guardiã abria a porta e entrava na dimensão do Sonhar. Ela puxou o celular do bolso para ver que horas eram. Não poderia permitir que aquilo durasse muito tempo e deixar a guardiã em risco.

*

A sorte de algumas magias no teatro é que elas pareciam tanto com efeitos especiais que os espectadores não estranhavam. Mas algumas pessoas percebiam que havia alguma coisa diferente com aquele “truque”; provavelmente, cientes que identificavam a diferença entre um truque de transformação e uma manifestação do Sonhar.

Naquele momento, infelizmente, não era um truque.

Helena se levantou o mais rápido que pôde para seguir Gabriel, escondendo o pingente de seu colar entre os dedos, apertando-o com força. Precisava manter a calma agora. O colar nunca falhava, ela sabia que aquele “truque” tinha vindo do sonhador, mas se ele havia mesmo feito isso tinha um motivo, e não podia ser bom. Não era seguro que ela o acusasse sem pensar melhor na situação.

Gabriel se escondeu da plateia, fechou os olhos e se concentrou. Helena sentiu a magia acontecendo antes de alcançar o sonhador. Seu passo ficou acelerado, imaginando que ele pudesse piorar a situação, mas estava apenas revertendo o processo, fazendo que a atividade do Sonhar no teatro fosse desaparecendo aos poucos. Giovani e os outros atores perceberam quando os tons roxos desapareceram da sala. O ator que fazia o guardião já tinha terminado seu monólogo e manteve sua posição, ajoelhado no chão, durante todos aqueles minutos de atraso. Ele notara que havia algo errado, mas o show precisava continuar. Apenas quando a magia desapareceu que as pessoas levantaram e aplaudiram. Giovani fez um sinal para que os assistentes de palco fechassem as cortinas, agindo como se fosse tudo planejado, mesmo que um pouco fora do tempo.

Helena chegou perto de Gabriel quando ele estava terminando de usar sua magia. Ela colocou o colar dentro da roupa, como estava antes, para evitar que ele visse o que era. O sonhador estava com um semblante muito sério quando voltou a abrir os olhos. Dava para ouvir a plateia saindo da sala, indo tomar um ar ou comer alguma coisa durante o intervalo.

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Todos se juntaram atrás do palco, onde os assistentes costumavam ficar. Não era preciso conhecer muito Giovani para ver a insatisfação em seu rosto. Ele abraçou Helena quando a viu, pois havia temido que algo pudesse ter acontecido com ela. Todos estavam preocupados com o que Gabriel ia dizer. Era óbvio que ele tinha alguma coisa para falar depois do que acontecera; afinal, ele estava ali para evitar aquele tipo de situação.

Só Helena sabia que, ao que tudo indicava, o erro tinha acontecido por causa dele.

— Onde está o garoto que fez a magia?

Rafael apareceu, passando por algumas pessoas, já que estava mais no fundo, com vontade de sair correndo de medo do sonhador. Gabriel se aproximou. Todos sentiram a magia dele voltando a ficar ativa, enquanto passava a mão diante do rosto do ator. Helena discretamente olhou para seu colar, para ver se algo vinha de Rafael. Nada.

— Eu não fiz isso, juro — gaguejou o garoto. — Quero dizer, fiz o truque de ilusão, mas não o que aconteceu depois.

— Talvez não intencionalmente, mas algo aconteceu e precisa ser investigado. — Gabriel se virou para Giovani. — Cancele o resto da peça.

As reações foram imediatas e diversas. Alguns atores se manifestaram, dizendo que aquela ordem era um absurdo. Outros ficaram olhando uns para os outros incrédulos, em busca de alguma resposta. Alguns também estavam assustados com a manifestação do Sonhar que tinha acontecido. Giovani arregalou os olhos, mal acreditando no que ouvia. Helena deu um passo para a frente.

— Você não pode fazer uma rápida avaliação no local? — Ela mediu suas palavras. Tinha bastante certeza de que não havia problema nenhum com a peça. O problema estava diante dela. Queria poder fazer uma acusação ali mesmo, mas não teria como provar. Por mais que as pessoas ali confiassem mais nela, se Gabriel passasse um relatório ruim para mestre Maurício ela não teria como saber o que aconteceria com o teatro.

— Estão dispostos a colocar a plateia em risco? — Gabriel se aproximou — Estão dispostos a colocar uns aos outros em risco?

— Claro que não, por isso sugeri a avaliação. Nunca colocamos ninguém em perigo em nosso teatro. Nunca.

— Não faço meu trabalho pela metade, não farei uma avaliação rápida para que a peça continue se isso significa colocar todos aqui em perigo.

Ninguém poderia argumentar contra aquilo. Giovani estava devastado. O show sempre precisava continuar, e todos ali se certificavam da segurança da fronteira. Mas, depois da Alvorada, não havia nenhuma forma de ir contra o que Gabriel dizia. Era o mais seguro, de fato. Ele só não conseguia entender por que e como aquilo tinha acontecido.

Helena precisou acatar. Não tinha como provar que Gabriel estava mentindo sem colocar as pessoas ali em mais risco. Se ele era capaz de forjar um problema desses, arriscando a vida das pessoas, para qualquer que fosse seu plano, o que faria com ela caso percebesse que Helena sabia a verdade? Precisava levar aquela situação com calma, talvez conversar com a Senhora da Superfície antes. Aquilo podia provar o que Estela estava suspeitando desde o começo. Helena devia ter imaginado que só vigiar as fronteiras não seria o suficiente para Mestre Maurício e seus seguidores.

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— Vou avisar a plateia quando o intervalo acabar — falou Giovani. — Fechamos o teatro e você pode fazer o que precisar.

— Obrigado pela compreensão. Farei o relatório e passarei para meus superiores. Resolveremos a questão o mais rápido possível.

O clima pesado e de medo tomou conta de todos os membros do teatro. Quando o público voltou, Giovani subiu no palco, sem qualquer interpretação, e comunicou que um imprevisto tinha acontecido no teatro que impossibilitava que a peça continuasse. Cada suspiro e reação de decepção ou raiva parecia atingi-lo diretamente. Ele pediu a todos que se encaminhassem para a recepção e passassem seus contatos, para que o teatro conseguisse ressarcir seu dinheiro da melhor forma.

Enquanto as pessoas se retiravam, Giovani foi até Helena atrás do palco. Ele ainda ouvia uma ou outra reclamação do público passando por sua cabeça.

— Vai dar tudo certo — disse Helena, passando a mão no rosto do marido.

— Eu sei. — Tudo no corpo dele indicava que Giovani não acreditava no que dizia. — Vou ficar com Gabriel enquanto ele faz a investigação.

— Não precisa, querido, você está…

— Chateado? Estou, mas é minha responsabilidade e isso nunca aconteceu antes. Vá descansar, eu quero ficar.

Helena não discutiu, mesmo achando que era melhor que ela ficasse no lugar dele. Não confiava em Gabriel, mas ele não devia fazer nada contra as pessoas dali, ao menos não diretamente. Ela deu um beijo no rosto de Giovani antes de ir até seu quarto, procurando por seu celular enquanto segurava o colar de novo. Caso sentisse qualquer coisa estranha, correria de volta.

Não foi difícil encontrar o contato de Estela. Ela ligou algumas vezes, mas ninguém atendeu. Era possível que a Senhora da Superfície estivesse dormindo. Helena deixou uma mensagem dizendo que precisava falar urgente com ela.

Helena sentou em sua cama e respirou fundo algumas vezes, tentando controlar as próprias emoções. Os magos de maior prestígio do Ninho se importavam muito pouco com qualquer um. Se precisavam passar por cima de quem eles consideravam menor para provar um ponto, eles o fariam. Era tudo sobre poder e ter razão. Helena sabia que havia um interesse maior do que “proteger as fronteiras”, mas nunca achou que seria tão rápido e tão perigoso. Ou logo em sua própria casa.

Tinha se enganado completamente sobre Gabriel. Achou que estavam com sorte em terem ficado com um sonhador tão razoável. Não tinha como ele, com todo o conhecimento de magia, ter feito aquilo sem querer. Ainda mais com todo o discurso sobre cancelar a peça para investigar a situação. Sabe-se lá o que ele diria para seus superiores. Ele podia falar o que quisesse, e era muito possível que a fala dele valesse mais do que a de qualquer um ali.

Independentemente do que os outros sonhadores podiam achar, Helena ainda tinha que lidar com o fato de que havia um perigo em sua casa e só ela sabia, e não era uma atividade estranha do Sonhar, como os outros achavam. Ficou se perguntando se não tinha se confundido, mas não tinha, sabia que não. Ela podia não saber usar magia, mas objetos encantados eram confiáveis. Alguns falhavam, mas Sofia tinha se certificado de que seu colar era de boa qualidade, e Helena sabia interpretá-lo bem.

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Fazia pouco tempo que o teatro tinha sofrido com algumas pessoas com problemas de pesadelos, e não seria absurdo que a região estivesse com problemas daquele tipo. Mas aquilo tinha sido armado.

Será que os acidentes de antes tinham sido armados também?

Uma sensação de desespero subiu pelo peito de Helena. Ela voltou a respirar fundo, apertando as mãos e tentando manter a calma. A sensação de que eles não estavam seguros era muito apavorante. Ao longo desses anos, tanto Helena quanto Giovani tinham criado uma armadura para lidar com o preconceito, o descaso e as dificuldades. Giovani usava muito do otimismo e Helena, do pragmatismo; com o tempo, os problemas eram superados. Por mais que inúmeros cientes já tivessem demonstrado sua insatisfação com as fronteiras, ainda mais uma tão “chamativa” quanto a deles, eles nunca tinham sido um alvo direto.

A pousada da Alvorada, que era bem mais discreta, tinha sofrido muito. Nenhum ciente da superfície se esqueceria daquele evento. Agora, Helena já começava a pensar sobre a possibilidade de o desastre da Alvorada ter sido armado também.

Helena sentiu suas mãos tremerem com o pensamento. Será que devia mandar todos embora antes que algo pior acontecesse? Não queria desistir do teatro, mas imaginar que alguém tinha sido cruel o suficiente para atacar uma fronteira…

E Sofia ainda estava desaparecida.

Ela foi se deitando devagar na cama, sendo tomada pela tristeza e pelo medo. Helena não queria acreditar que haviam armado para cima de sua filha, mas depois do que acontecera naquela noite ela não duvidava mais da capacidade das pessoas de armar planos cruéis. O teatro era o lugar de onde a guardiã tinha vindo. As duas, Luci ainda estava lá, haviam sido colocadas no meio de pessoas que não eram confiáveis.

Ficou bons minutos perdida em seus próprios pensamentos, sentindo as lágrimas rolarem pelo rosto. Sentia saudades de Sofia, queria a filha de volta, queria ao menos descobrir o que tinha acontecido. A incerteza era dolorida demais. Não tinha o que fazer além de esperar por notícias que os ajudassem de alguma forma. Helena sabia que a política do Ninho era perigosa, assim como as atividades no Sonhar. Seu coração ficara apertado quando Sofia assumiu o cargo de guardiã. Nunca duvidou dos poderes da filha, mas Sofia era uma menina na época, tinha apenas dezesseis anos. Considerava a situação cruel, tinha perguntado inúmeras vezes para Giovani se não podiam fazer algo a respeito para impedi-la de assumir o cargo, mas o marido sempre disse que não havia o que fazer, as regras do Ninho eram assim. Ele tinha insistido em que tudo daria certo, assim como acontecera com Carmela antes de Sofia.

Helena limpou as lágrimas e se levantou. Queria encontrar Giovani. Continuou usando o colar enquanto saía do quarto e fazia o caminho de volta pelo corredor. Agora o teatro estava vazio, silencioso. Antes estava tão cheio de vida, todos tão animados… Helena voltou para a sala de apresentações. Gabriel não estava mais lá, mas Giovani estava sentado no palco.

— Onde está Gabriel? — perguntou Helena, enquanto se aproximava e sentava ao lado do marido.

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— Já terminou a avaliação aqui. Não encontrou nada preocupante por enquanto, mas falou que ia continuar averiguando os outros cômodos — suspirou Giovani. — Como deixamos isso passar? Sempre somos cuidadosos, não havia nada de errado, eu não entendo…

Era palpável o que ele estava sentindo. Giovani sentia-se incompetente, ele era o responsável por todos ali, não era apenas seu nome como diretor, mas também a segurança de todos na fronteira. Nada de grave tinha acontecido, mas Giovani sabia muito bem que bastava um momento para que um acidente daqueles virasse algo muito maior. Por isso evitavam usar magias de sonhadores ali, ele sempre pensou com cuidado em tudo que faziam. Não conseguia encontrar onde tinha sido descuidado daquela vez.

— Não é sua culpa. — Helena segurou a mão dele.

— Você estava chorando? — perguntou Giovani quando a encarou, seu olhar era de preocupação.

Helena sabia bem que Giovani não queria ser o foco da conversa. Não que ele não se preocupasse com a esposa, mas era uma forma de ele mesmo não ter que falar sobre o que sentia.

—Fiquei nervosa com tudo o que aconteceu e comecei a pensar em Sofia… — A voz dela ficou mais carregada. —Sinto tanto a falta dela, só queria que ela estivesse bem…

Giovani passou um dos braços pelos ombros de Helena, trazendo-a para perto enquanto ela sentia toda aquela tristeza de novo. Ela cobriu o rosto com as mãos. Há poucos meses atrás estava tudo tão bem, tão normal… Por que eles tinham que passar por tudo aquilo?

— Você precisa descansar, meu bem. — Giovani beijou o topo da cabeça da mulher. — Vamos, não precisamos perder uma noite de sono…

—Tenho algo para lhe contar — disse Helena, tão rapidamente que mal deu para entender. Ela tirou o colar de dentro da roupa, ele não sinalizava magia nenhuma. — Quando a peça estava acontecendo, quando o Sonhar se manifestou… Não acho que tenha sido culpa nossa. — Giovani a encarou sem entender o que a esposa dizia. Helena se aproximou do ouvido de Giovani e falou baixinho: — O colar me apontou a fonte de magia, e ela vinha de Gabriel.

Giovani precisou de alguns minutos para que a informação assentasse em sua mente. Nunca duvidaria de Helena, muito menos do colar que Sofia tinha se esforçado tanto para dar para mãe, um que funcionasse perfeitamente. Fazia sentido, nada tinha dado errado em momento nenhum, o único elemento novo era… Gabriel.

Na hora em que Giovani foi se mexer para sair do palco, e sair andando em fúria atrás de Gabriel, Helena segurou seu braço.

— Não faça isso — pediu Helena. — Sei que você está irritado, sei que quer expulsá-lo daqui…

— Pode apostar que sim!

— Ele é um sonhador, Giovani. — Ela baixou o tom de voz de novo. — Deve estar preparado para ser pego, ele conhece o Sonhar melhor do que nós dois. Não podemos confrontá-lo diretamente, não agora. Por favor, tenha paciência. Avisei a você para que me ajude a manter as pessoas aqui seguras e não quero que nada aconteça com você.

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— Mas o que temos que esperar? — Ele tentava não falar muito alto. — Ele pode acabar conosco! Se foi capaz de fazer isso, o que mais pode fazer?

— Eu sei, meu bem. Já mandei mensagem para Estela. Vamos tentar resolver isso com calma, sermos mais espertos que ele. Confie em mim.

Giovani usou toda sua força de vontade para controlar sua impulsividade. Não saberia nem dizer o que faria quando visse Gabriel de novo, mas Helena costumava conseguir pensar melhor naquelas horas, ele confiava na esposa. Respirou fundo algumas vezes, como Helena sempre insistia para ele fazer. Por que tudo estava acontecendo ao mesmo tempo daquele jeito?

Nenhum dos dois dormiu bem aquela noite.

*

Luci tentava calcular quanto tempo já tinha passado no Sonhar, mas era difícil ter uma boa noção. Ingrid estava de olho em seus passos, então sabia que podia continuar avançando. Seguiu em frente pelas brumas roxas, longe da porta pela qual havia entrado, longe de qualquer coisa palpável. Buscou sentir se havia algum pesadelo ao redor, mas tudo parecia bem, pelo menos até o momento.

Ela parou de andar, buscando se concentrar em todo o mar de energias em seu redor. Respirou fundo algumas vezes, apertando o anel de Camaleão em seus dedos, dentro de seu bolso. Isso e a presença de Ingrid a observando a impediam de entrar em pânico. Tinha medo, mas não estava sozinha, por mais que parecesse.

Fechou os olhos e pensou em Sofia. Buscou vários momentos bons em sua memória, em que não brigavam, em que conseguiam conversar tranquilamente, em que aproveitavam a companhia uma da outra. Não era tão simples quanto Luci achou que seria, mas nem tudo tinha sido só brigas e complicações com a irmã.

— Sofia… — chamou, primeiro baixinho, e foi aumentando o tom de voz. — Sofia, você está aí? Consegue me ouvir?

Luci focou na imagem dela em sua mente, tentando expandir sua magia de dentro para fora, buscando por algum sinal de sua irmã. Nada havia mudado, a única energia que sentia era a própria. Se fosse fácil a ponto de acertar de primeira, os sentinelas com certeza já a teriam encontrado.

— Mande um sinal, qualquer coisa… Quero saber onde você está, por favor…

Ela deu alguns passos em volta de si mesma, tentando buscar no movimento físico alguma mudança na sintonia do Sonhar. Sua energia ficava mais intensa, mas ainda não recebia a resposta de que gostaria. Luci respirou fundo de novo, dessa vez colocando o anel de Camaleão no dedo. Não fazia diferença no efeito do objeto, mas fazia Luci se sentir mais confortável, e como ela se sentia podia afetar sua magia no Sonhar.

Tentou focar na última vez em que tinha visto Sofia, na superfície, enquanto brigavam. Ela ficaria feliz em saber que Luci agora estava tentando parar o Noite Calma. Talvez até gostasse mais porque ela estava sendo ajudada por Juliano, já que eram amigos, ou até mais do que isso. Tinha que focar na memória, naquele sentimento. Ela sabia que podia ser perigoso, mas era a chance que tinha e queria fazer alguma coisa certa.

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— Sinto muito por como falei com você… — disse Luci, fechando os olhos. —Não sabia pelo que você estava passando, mas devia ter tentado entender seu lado… Sinto muito sua falta, pode não parecer, mas sinto de verdade…

Luci teve aquela sensação de agonia subindo pelo pescoço, deixou os sentimentos ocuparem sua mente, sentindo os olhos encherem de água, mas sempre focando na imagem de sua irmã. Apertou a mão que agora estava usando o anel de Camaleão, esperando qualquer coisa.

Luci…

            Estava a ponto de dizer algo de novo quando ouviu aquilo. Ou será que sentiu? Podia ter sido impressão, mas algo veio, sussurrando seu nome de alguma forma que Luci não sabia explicar. Uma voz no fundo daquelas ondas mágicas. Não lhe parecia uma energia estranha, o que fez seu coração pular de esperança.

Abriu os olhos e olhou ao redor, o Sonhar não tinha tomado forma nenhuma, mas estava instável, como se tremesse ao redor de Luci. Isso era um sinal forte para que o sonhador estabilizasse suas emoções e pensamentos, procurando uma forma de ficar seguro, mas Luci tinha que aproveitar a chance. Sentia medo, suas mãos tremiam, mas tentou manter em mente que Ingrid estava pronta para fazer algo a qualquer momento. Focou no furacão de sentimentos dentro de si e continuou.

— Tem alguém aí? Sofia?!

Foi como se o ambiente todo ao redor dela estremecesse de uma vez. Luci teve uma sensação gelada e esquisita. Era como se fosse um sonho, tinha sido jogada em um novo lugar sem nem ao menos saber como havia chegado lá. Mas ela conhecia aquela nova área, de certa forma, ou ao menos já tinha sentido aquela energia.

Um corredor, vários quartos, aquela sensação de esmagamento. A visão de Luci estava confusa, embaçada, e se mexia, como se ela estivesse no meio de uma tempestade. Via pessoas caídas no chão, ouvia gritos e choro. As paredes pareciam estar sendo rasgadas por unhas afiadas, cada grito dava essa sensação em seu corpo e ouvidos, fazendo que Luci caísse de joelhos no chão, apertando o anel com as duas mãos.

O medo ia tomando conta de seu corpo. Repetiu em sua mente várias vezes que era um pesadelo, e ela conhecia aquele pesadelo. Era o mesmo, ou ao menos muito parecido, com aquele que tinha visto durante seu teste para se tornar guardiã. Isso não era algo inesperado, os pesadelos que atormentavam uma pessoa no Sonhar costumavam se repetir, ou ao menos terem elementos semelhantes, já que eram baseados no subconsciente da pessoa em questão. Mas, como da primeira vez, Luci não tinha ideia do que era aquele lugar, não se lembrava nem reconhecia o que via em seu redor ou a energia que sentia. Com o poder do anel mantendo seu foco e sua facilidade natural, ela conseguia discernir isso em sua mente, o que não a impedia de estar apavorada e chorando de medo no meio de um pesadelo de novo.

Assim como da primeira vez, aquele corredor cheio de quartos aparecera enquanto ela tinha Sofia em mente.

Vá embora!

            O grito veio até Luci como um golpe, uma lufada de vento em sua direção, jogando seus cabelo para trás. A guardiã colocou um braço na frente do rosto para se proteger. Não reconhecia a voz, até porque não parecia uma voz – era como se o próprio vento tivesse falado quando atingiu seu peito, as palavras se formando em sua mente, sem ter uma fonte exata.

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Luci levantou o rosto, tremendo, com medo do pesadelo que veria diante dela. Teve a impressão de que soltou um grito quando viu uma figura no fundo do corredor, com os tons do Sonhar, agitando o que estava ao redor. Não havia um rosto certo, apesar do aspecto humanoide. Luci abaixou o braço, focando melhor naquela imagem, sem ter forças para se levantar.

Não conseguiria continuar assim, fechou a mão em que usava o anel e focou sua magia para estabilizar o lugar em seu redor, tentando pensar em um lugar mais agradável do que aquele corredor. A materialização do pesadelo no final do corredor não parecia estar feliz com aquilo, dava para ver sua forma tremendo um pouco por causa da magia que estava sendo usada contra ela. Luci pensou no escritório da torre, foi o primeiro lugar conhecido que veio a sua mente. O corredor, com as pessoas caídas e os quartos, continuava ali, mas perto de Luci surgia uma escrivaninha, estantes…

— Luci…

Aquilo veio com a potência de um grito, mas nos ouvidos da guardiã parecia um sussurro. Ela tirou as lágrimas da frente de seus olhos e ficou de pé, sabia que aquilo tinha vindo da coisa a sua frente, mas dessa vez não parecia só um golpe. Havia um tom de voz humana ali, ou pelo menos Luci achou que tinha.

— Sofia?

Um grito agudo tomou conta de todo o ambiente, fazendo Luci se abaixar de novo, estremecendo, colocando as mãos em cima dos ouvidos, tentando se proteger. Tentou só pensar no escritório da torre, usando toda a magia que tinha em seu corpo para manter aquele espaço seguro. Sentia a agitação do Sonhar, violenta e poderosa em seu redor, e só queria que aquilo acabasse. Será que tinha cometido um erro? Não tinha Sofia agora para salvá-la, nem Camaleão…. Talvez aquela tivesse sido uma péssima ideia mesmo.

Quando Luci sentiu uma mão em seu ombro, ela se afastou, sacudindo os braços como se tentando atingir aquilo que estava próximo dela. Afastou os cabelos dos olhos e viu a sentinela diante de si.

— Ingrid…?

— Sou eu, Luci. — Ingrid estava abaixada na frente dela, seu rosto expressando confusão. Ela mostrou os braceletes que usava, para que Luci soubesse que não era um pesadelo e a guardiã sentiu a magia vinda deles.

Luci sentiu sua respiração pesada, olhando ao redor e vendo o escritório da torre que tinha criado com a matéria do Sonhar. Ainda estava lá, mas não sentia mais o pesadelo por perto, apenas a sensação de desespero que ele tinha deixado quando passou por ela. Algumas partes do escritório estavam erradas, estantes tortas e livros de cabeça para baixo, mas era algo que podia acontecer quando um sonhador fazia aquele tipo de magia, ainda mais em uma situação tão instável como aquela pela qual tinha acabado de passar.

Antes de levantar, Luci abraçou Ingrid e a sentinela sentiu o corpo da guardiã tremendo. De seu ponto de vista, no observatório, apenas viu a guardiã ser consumida por um pesadelo poderoso e entrou no Sonhar para tirá-la de lá. Ouviu o grito quando acertou a criatura com a própria magia e a mandou embora, sem conseguir prendê-la ou desmanchá-la, como preferia fazer, para que não voltassem a ser atacadas antes de saírem dali. Mas Luci tinha se saído bem com seu truque.

— Sei que foi uma experiência ruim, mas precisamos sair daqui e…

— Sofia está viva.

*

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Camaleão tinha ficado surpreso com aquele número no Sonhar.

Ele tinha sentido a energia mágica de seu anel. Sabia que Luci o usava, isso não o incomodava. Um dia, aquele anel tinha lhe trazido boas memórias, que se tornaram ruins com os anos. Mas sua atenção foi chamada quando sentiu a movimentação intensa de pesadelos. Ficou alarmado quando sentiu essa energia próxima às portas da torre e foi observar.

Sabia que os poderes de Luci estavam melhores do que antes, mas aquela era uma onda de pesadelos anormal. Talvez a própria guardiã ainda não soubesse disso, mas ele sabia muito bem. Ainda mais com aquele tipo de energia.

Era mais do que apenas um pesadelo. Camaleão já estava acompanhando aquele tipo de manifestação do Sonhar há algum tempo. Enquanto os nomes grandes do Ninho se preocupavam com suas discussões políticas, em títulos vazios, ele se preocupava com o que era importante de verdade, desde sempre, por mais que muitos insistissem em não ver.

Não tinha tempo de ser babá de Luci, mas a movimentação que o atraiu e era sempre bom ver alguém com a resistência de pesadelos da guardiã encarar uma situação daquelas. Com a chegada da energia de Ingrid, Camaleão deixou sua presença discreta e se afastou rapidamente. Era melhor não se expor daquela forma. A primeira vez que ajudara Luci, estava devolvendo um favor. Camaleão não gostava de ficar devendo, dívidas não pagas poderiam se tornar pedidos perigosos no futuro, ainda mais um favor que devia para a guardiã Sofia.

Apesar de não gostar de dever favores, não tinha sido uma má ideia estender a mão para a atual guardiã Luci. Era melhor do que ter um guardião em seu pé. Além do quê, isso dava uma boa imagem de si diante de Luci: afinal, Camaleão a havia ajudado.

Quando saiu do Sonhar, Camaleão usou sua magia de forma tão automática que mal precisava pensar. Mudou sua forma física para a que costumava usar quando não aparecia como a persona que havia assumido anos atrás. Não podia correr o risco de que suspeitassem de sua presença em qualquer lugar.

Aquela tinha sido a única atividade no Sonhar suspeita naquela noite. O que tinha acontecido no teatro era ruim, mas não tinha sido uma atividade de pesadelo natural. Camaleão sabia que aquilo tinha sido uma armação, uma muito conveniente, já que o teatro dos magos era um lugar muito ligado às guardiãs que tinham vindo da superfície.

Algumas coisas nunca mudariam no Ninho, e aquela briga com a superfície era uma delas, assim como a arrogância de Mestre Maurício.

No entanto, Camaleão agora estava mais preocupado com a energia adicional que tinha visto no pesadelo que capturara Luci. Quando ela encontrora a mesma energia durante o teste, ele já havia notado algo de diferente. Não era nada impossível que Maurício tivesse armado para atrapalhar Luci, Camaleão conhecia bem o tipo. Mas ele sabia que havia algo a mais desde a primeira vez, e agora só estava confirmando sua percepção. Isso poderia dar toda uma nova dimensão sobre a questão de Sofia e o que ele procurava há anos.

Estava ansioso para conseguir falar com Luci de novo.

*

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Nem Ingrid nem a guardiã tinham conseguido dormir direito depois do que acontecera no Sonhar, seja por preocupação ou por ansiedade. Luci ainda se sentia cansada pela quantidade de magia que tinha usado, além de ainda reviver a sensação desconfortável e apavorante de estar tão dentro de um pesadelo de novo. Mas não conseguia parar de pensar que talvez tivesse visto Sofia, ou alguma coisa dela, naquela manifestação do pesadelo.

Como se já não fosse o suficiente, Luci tinha ficado sabendo do que acontecera no teatro e agora esperava Estela chegar para tentar entender melhor a situação. Ela estava sentada em uma das cadeiras de seu escritório, e sua perna estava agitada, revelando sua ansiedade. Ingrid andava de um lado para o outro, pois também estava preocupada e não conseguia parar de pensar no que Luci tinha contado de sua incursão ao Sonhar. Os sentinelas tinham feito várias buscas e não encontraram nada do tipo. Nunca tinham achado qualquer rastro de Sofia até aquele momento.

— Ainda não tive a chance de dizer — Ingrid parou de andar e ficou diante da guardiã — Mas seu poder ontem foi impressionante. É preciso muita coragem para usar as emoções daquela forma em uma magia no Sonhar.

Luci ficou alguns instantes absorvendo o que Ingrid tinha dito, sem saber o que responder. Coragem não era uma palavra que relacionava consigo mesma normalmente.

— Você me ajudou a sair no final.

— Controlar esse tipo de sentimento no Sonhar exige bastante de um sonhador. E nenhum de nós aqui tinha conseguido sentir qualquer traço de Sofia, até agora.

Luci desviou o olhar. Não considerava aquilo algo para se orgulhar. Só tinha conseguido fazer o que fizera porque se agarrara a um sentimento de culpa, a uma dor que não queria estar sentindo, nas palavras que tinha dito para Sofia sem nenhuma consideração. Não era algo que gostava de se lembrar.

Ingrid percebeu como o olhar de Luci mudou. Ela puxou uma cadeira para perto dela e se sentou próxima da guardiã.

— Eu me arrependo de não ter falado melhor com Sofia — lamentou-se Luci. — Pelo menos o que fiz serviu para alguma coisa. Só que na época fiquei tão brava… — A guardiã se lembrou de quando Sofia encontrou o Noite Calma, mas cortou a própria frase. Ingrid não sabia daquela parte e era melhor que não soubesse. — Agora parece muito idiota…

— Relações familiares nunca são fáceis.

— Nós não fomos sempre assim. Em minha infância, Sofia e eu éramos muito amigas. Mas depois de um tempo… — suspirou. — Tanto faz, agora não importa…

— Luci…

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As duas ouviram quando alguém bateu na porta do escritório. No segundo em que Estela pisou no escritório da guardiã, Luci agarrou seus ombros. Seu rosto era a própria personificação da preocupação.

— Como eles estão?! O teatro está bem? Meus pais me falaram muito pouco sobre o que aconteceu.

Estela tinha se assustado quando recebeu a mensagem de Helena, ainda mais quando, antes de procurar falar com Luci, tinha recebido uma mensagem da própria, também falando que tinha algo importante para dizer. Sempre tinha ouvido que as coisas tendiam a acontecer juntas, ainda mais se fossem ruins, mas preferia que não fosse daquela forma.

— Eles estão bem, Luci. O teatro está bem, foi um susto. Eu estava mesmo querendo vir aqui falar com você quando recebi sua mensagem.

— Foi uma noite agitada… — disse Ingrid, ela estava mais perto da mesa da guardiã. — Pode nos dar detalhes da situação do teatro?

— Helena me disse que uma atividade do Sonhar se manifestou no meio de uma peça, que teve que ser cancelada. O sonhador designado para a fronteira está averiguando a situação, é provável que já tenha feito um relatório para Mestre Maurício sobre o ocorrido. — Luci soltou os ombros de Estela enquanto ela continuava. — No entanto, uma coisa que só seus pais sabem e não contaram para os outros é que a atividade foi forçada, não foi um pesadelo de verdade.

— Como assim? — perguntou Ingrid.

— Helena estava com um colar que detectava magia e percebeu que não foi o Sonhar se manifestando no teatro, e sim alguém fazendo uma magia sonhadora lá.

— Minha mãe conseguiu ver quem foi?

— Ela está convencida de que o sonhador que está vistoriando a fronteira é o responsável, o nome dele é Gabriel. — Estela direcionou seu olhar para a sentinela. — Você o conhece?

— Um dos protegidos de mestre Maurício se chama Gabriel, mas só sei de nome.

— Preciso voltar para lá e fazer alguma coisa… — Luci começou a andar de um lado para o outro do escritório. — Ele só tem permissão para estar lá porque eu falhei! Não posso deixar ele mexer com meus pais…

Estela se aproximou com cuidado, tentando acalmar a guardiã.

— Luci, é melhor não. Todos sabem quem você é, e se isso é armado mesmo e você sumir para ficar lá, qualquer coisa que esteja sendo planejada vai ser interrompida — suspirou Estela. — Quero pegar esse sonhador no ato, pois assim não poderão dizer que estou inventando alguma coisa porque não gosto dessa mudança nas fronteiras.

Elas não tinham como ter certeza de que Gabriel faria algo de novo, mas tinham que tentar resolver a situação antes que ficasse pior. Um acidente pequeno em uma fronteira não era o suficiente para os magos fazerem uma interferência séria no lugar. Se Gabriel forçasse um acidente de novo, maior, ele teria como argumentar que aquilo era um padrão, além de fazer as pessoas no teatro parecerem irresponsáveis, o que já era um pensamento dos magos conservadores do Ninho.

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— Posso ir — falou Ingrid. — Qualquer truque que ele tente vou sentir e poder impedi-lo.

— Mas e se ele reconhecer você? Pode tentar ataca-la — disse Luci, preocupada.

— Vou conseguir ficar fora de vista durante as próximas apresentações, ou posso usar uma poção simples de transformação.

— Acredito que pode funcionar — concordou Estela. — Avisarei Helena o mais rápido possível, assim ela pode auxiliar você em qualquer coisa. — Ela fez uma pausa — O que vocês queriam me contar?

Luci tinha ficado tão nervosa com o possível acidente no teatro que tinha esquecido por um momento o assunto que precisava falar com Estela.

— Ontem entrei no Sonhar procurando por Sofia. Acho que… Encontrei alguma coisa.

Os olhos da Senhora da Superfície se arregalaram no mesmo momento.

— Como assim? Sério? — Estela estava surpresa — Os sentinelas fizeram tantas buscas e não acharam nada…

Ingrid estava prestes a abrir a boca para explicar, tinha se acostumado a falar sobre assuntos mágicos no lugar de Luci para que a guardiã não entrasse em uma situação constrangedora, mas Luci tinha sido mais rápida:

— Sentimentos podem afetar a magia de um sonhador dentro do Sonhar, tentei usar tudo que ando sentindo para entrar no Sonhar e tentar me conectar com Sofia. Um pesadelo veio na minha direção, mas alguma coisa dentro dele… Parecia Sofia.

Estela olhou para Ingrid, que apenas a encarou de volta. Ela tinha ouvido o relato de Luci assim que ela tinha saído do observatório e também tinha ficado confusa.

— Você acredita que ela pode estar dentro de um pesadelo? — perguntou Estela.

— Pode ser muitas coisas, o Sonhar é volátil — explicou Ingrid.

— Só sei o que eu senti. Algo está lá e sei que ela está viva. — Luci parecia muito confiante no que dizia.

A segurança com a qual Luci falava fez que, por um instante, Estela quase tivesse a impressão de que estava vendo Sofia.

— Certo. Então, qual seria o próximo passo?

— Precisamos resolver o assunto mais urgente — falou Luci. — Vamos fazer algo sobre o teatro antes que outra Alvorada aconteça. — Luci não queria que aquilo acontecesse de jeito nenhum. — Quanto a Sofia… Seria bom falar com Nicolas. Nós passamos a infância juntos, e se os gatilhos emocionais podem nos ajudar com o Sonhar, a ajuda dele seria muito bem-vinda.

Ingrid ficou na torre enquanto Luci e Estela foram até a mansão dos Alba. Luci ainda estava envergonhada de falar com Nicolas depois do que acontecera, mas a situação exigia que ela colocasse a cabeça no lugar, pelo menos por enquanto. Ainda não sabia se era sábio falar com Nicolas sobre o plano que elas estavam armando para resolver a questão nas fronteiras.

Era normal que os seguranças tratassem Estela com certo desdém quando ela chegava à mansão, em razão do preconceito que os da superfície sofriam. Mas até Luci sentiu que algo estava fora do lugar ali, como se o lugar inteiro estivesse tenso. Algo estava errado. A guardiã pediu para falar com o Senhor do Ninho, sabia que um pedido dela não poderia ser recusado facilmente.

Os seguranças hesitaram, mas saíram da sala. Para a surpresa de Estela e Luci, não foram eles que voltaram para falar com elas, e sim Agnes. Apesar da postura que mantinha e do ar de autoridade, Luci percebia que havia algo de errado em sua expressão, o que a fez ficar tensa antes mesmo de ouvir o que Agnes tinha a dizer.

— Sinto muito, Nicolas não poderá falar com vocês. — Antes de Luci perguntar qualquer coisa, ela viu a expressão de horror passando pelo olhar de Estela, como se ela já tivesse adivinhado o que Agnes diria a seguir: — Ele está preso em um pesadelo.