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Estela sentiu um nó no estômago no momento em que Agnes falou o que tinha acontecido. Podia ouvir os sons da mansão em seu redor, mas de repente eles não faziam sentido, estavam abafados em sua mente. Só conseguia pensar que Nicolas estava em um pesadelo. A informação parecia reveberar em seus ouvidos como um eco. A adrenalina começou a correr por seu corpo… Ela precisava sair dali, chegar até ele e tentar fazer alguma coisa.

— Quanto tempo faz que ele está assim?

Ela tentou manter a voz calma, assim como a postura, mesmo que tivesse a impressão de que começaria a tremer a qualquer momento. Sabia o que fazer, só precisava colocar a cabeça no lugar e respirar fundo. Foi isso que aprendeu a vida toda: “Fique calma, não se exalte”. Sentia o olhar de Luci nela, a questionando sem palavras, mas manteve o rosto fixo em Agnes.

— Descobrimos faz pouco tempo. Ontem ele me deu boa-noite cedo, disse que estava cansado, então pode ter sido em qualquer momento desse intervalo…

— Por favor, me leve até ele. Sei como ajudar — Estela quase interrompeu a frase de Agnes.

Tanto Luci quanto Agnes encararam Estela como se ela tivesse dito algo absurdo. Era preciso um mago de cura para estabilizar a condição de Nicolas, ou ao menos era necessário um sonhador para tentar acalmar a parte do subconsciente dele que estava presa no meio do pesadelo. Estela não tinha domínio em magia, todos sabiam, e ela sempre falou disso com orgulho, para que outros cientes que não praticassem magia pudessem se sentir incluídos.

— Estela, querida, não quero parecer grosseira, mas já chamei um curandeiro.

— O senhor do Ninho já me instruiu sobre o que fazer caso algo assim acontecesse.

— Por que Nicolas se prepararia para algo assim? — Luci não conseguiu segurar o comentário. Não era incomum para sonhadores passarem por isso, mas com magos mentais… A única possibilidade seria se Nicolas estivesse mexendo com assuntos do Sonhar, ou se a região da mansão tivesse apresentado alguma atividade anormal do Sonhar, o que não era o caso.

Não fazia nenhum sentido.

— Por favor… — Estela respirou fundo. — O curandeiro pode checar Nicolas o quanto quiser, é bom mesmo que ele faça isso, mas agora… Só deixe-me vê-lo.

Agnes ainda não parecia muito convencida de que Estela pudesse ajudar, mas, assim como Luci imaginou, não é como se ela fosse fazer mal. Agora que Luci já passara algum tempo perto dos dois, era possível perceber que Nicolas e Estela eram próximos. Agnes também sabia disso. Talvez ela tivesse alguma ilusão de que poderia ajudar alguém com quem se importasse, mesmo que a situação estivesse além de suas habilidades.

Agnes deu um passo para o lado, permitindo que Estela passasse. A senhora da Superfície disparou na frente, seguida por Luci. Elas atravessaram os corredores largos da mansão até chegarem ao quarto de Nicolas. Luci ouvia os sapatos de Agnes fazendo barulho atrás dela, acompanhando as duas pelo caminho.

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Estela sentiu o coração pesado quando abriu a porta e viu Nicolas na cama. Ela sempre temeu que aquela cena acontecesse, desde que Nicolas tinha compartilhado com ela coisas que não tinha coragem de dizer para mais ninguém. Enquanto Luci e Agnes entravam no quarto, Estela se aproximou da cama e se abaixou, olhando debaixo do móvel. Ela alcançou uma caixa de madeira pequena, que estava exatamente onde Nicolas havia lhe mostrado há meses.

— O que é isso? — perguntou Agnes, enquanto Luci tentava olhar por cima dos ombros de Estela.

A senhora da Superfície não respondeu. Ela se levantou, sentando na cama enquanto abria a caixa. Lá havia um anel, simples e pouco chamativo, prateado, parecendo uma das joias que Nicolas usava no dia a dia. Estela procurou nas mãos de Nicolas até encontrar o anel que ele normalmente usava. Estava no lugar, mas Estela não precisava vê-lo para saber que Nicolas o estava usando. Caso não estivesse, a aparência dele estaria diferente.

Tentando não tremer, ela colocou o anel no mesmo dedo em que Nicolas estava usando seu anel de sempre, pousando a mão com cuidado em cima de seu peito. Ele não parecia estar tendo um pesadelo, mas as aparências enganavam. Apenas esperava que aquilo funcionasse como Nicolas prometeu que iria. Estela conseguiu sentir um formigamento nos dedos que colocaram o anel em Nicolas, o que deveria ser um bom sinal de que o objeto encantado estava funcionando.

Antes que Luci pudesse expressar sua confusão, Agnes se aproximou da cama do filho. Sua expressão estava muito mais séria do que antes.

— O que está acontecendo, Estela? — perguntou ela. Sua voz era séria, exigindo informações, mas também com um tom de preocupação.

— Nicolas já havia me falado sobre os pesadelos que vinha tendo. — Estela não encarava Agnes, seus olhos estavam fixos no rosto de Nicolas, dizendo o que tinha ensaiado por tanto tempo caso aquele momento chegasse. — Ele tinha me contado, sabia que se as pessoas descobrissem que o senhor do Ninho estava passando por isso… Era uma atenção que ele não queria atrair.

Luci achou que Agnes perguntaria por que ele estava tendo pesadelos. Ainda não fazia sentido, na cabeça da guardiã, que Nicolas estivesse naquela situação. Se ele não estava mexendo com o Sonhar, só podia ser uma armação.

Para a surpresa de Luci, porém, uma sombra de tristeza passou pelo rosto de Agnes.

— Ele devia ter me contado… — lamentou Agnes. Em um momento, ela recuperou a compostura e limpou a garganta. — Vou checar onde o mago de cura está.

Era como se Agnes precisasse sair, como se algo tivesse feito sentido em sua mente. Luci, porém, ainda não compreendia. Acompanhou com os olhos a mulher saindo pela porta e logo ela já tinha se retirado. Depois, olhou para Estela, que agora segurava a mão de Nicolas.

— O que está acontecendo, Estela? — Luci se aproximou. — Isso não faz sentido, Nicolas precisa ter algum tipo de contato com o Sonhar, ou com uma região de risco, para que algo assim aconteça. Ele nem é sonhador.

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— Vou explicar, mas preciso de um favor antes — disse Estela. — Você pode checar o subconsciente dele? Ver o quão estável está? Sei que não é fácil, mas preciso saber…

— Não é melhor esperarmos o curandeiro?

— Não — disse Estela com firmeza. —Vou explicar, prometo, mas, por favor, faça isso por mim antes.

Luci sentia um nó em sua mente. Aquela situação toda parecia muito fora de algo que ela poderia imaginar. Há horas, estava pensando em sua irmã e no que tinha acontecido no teatro. De repente, Nicolas estava preso em um pesadelo e Estela parecia já estar preparada para a situação, sabendo o que estava acontecendo, mais do que a própria mãe de Nicolas.

Não queria fazer algo pelas costas de Agnes, mas também não queria recusar um favor para Estela, e ela parecia muito séria e preocupada. Toda sua expressão havia mudado a partir do momento em que Agnes tinha contado o que acontecera. Luci respirou fundo: entrar no subconsciente de alguém afetado por um pesadelo não era algo recomendado, mas era mais fácil do que entrar fisicamente no Sonhar. Ela estava melhorando com sua magia, precisava ao menos tentar.

Luci deu a volta na cama e se sentou do lado oposto ao de Estela. Nicolas não havia se movido nem um milímetro desde que entraram no quarto. Ela se sentou ao lado do senhor do Ninho e colocou a mão em sua testa. Repassou na mente como precisava usar a magia para entrar na cabeça de Nicolas daquela forma. Era um nível mais profundo do que um mago mental podia fazer.

— Caso eu demore muito, ou alguém apareça e eu precise sair, me belisque ou me bata, preciso sentir dor para sair rápido — pediu Luci a Estela.

A senhora da Superfície assentiu. Luci respirou fundo, fechando os olhos e se concentrando. Uma de suas mãos entrou em seu bolso, segurando o anel do Camaleão, que não saía mais de perto dela. Sentiu a energia mágica de Nicolas ali, afetada, fraca, mais fraca do que ela imaginaria, mas palpável o suficiente para que Luci a sentisse com a própria magia.

Quando um sonhador entrava no subconsciente do outro, a sensação era de ser rapidamente sugado para um lugar novo. A princípio, deixava o sonhador um pouco desorientado, mas não era tão complicado se reencontrar.

Estela percebeu a mudança de postura em Luci, como se o corpo inteiro da guardiã tivesse ficado mais rígido. Ela segurou mais forte a mão de Nicolas, torcendo para que ninguém voltasse tão cedo e ela tivesse que dar outra explicação.

Outra que teria que dar para esconder a verdade.

*

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A sensação era de estar presa, mesmo que não houvesse amarras em seu corpo. Era como se todo o ambiente do Sonhar ao redor de Luci estivesse empedrado, mais físico e denso do que aquela dimensão geralmente era. Tudo era muito claustrofóbico, Luci sabia que não precisava se abaixar para andar, mas não conseguia impedir a sensação que tinha de que só conseguiria seguir em frente se estivesse inclinada.

Luci sentia seu corpo mais pesado que o normal, sua visão estava desorientada e, se não estivesse no Sonhar, vomitaria. Aquela sensação estava por toda a parte, pressionando sua mente.

Era um pesadelo bem poderoso.

A situação não parecia boa, Luci não queria voltar com uma má notícia para Estela. Como Nicolas estava com um pesadelo daqueles e ninguém tinha notado? Não era algo passageiro, como costumava acontecer na maioria das atividades nas fronteiras. Era intenso e perigoso.

Luci foi andando devagar, vendo bem onde pisava e tentando, ao mesmo tempo, prestar atenção nos arredores, para não ser pega de surpresa. Pesadelos procuravam mentes para se fixar – aquele já estava em Nicolas, mas Luci sabia que podia ficar com parte dele em seu subconsciente. Não era tão perigoso quanto ser pega quando estava andando fisicamente pelo Sonhar, mas continuava sendo uma coisa que queria evitar.

O que mais preocupava Luci naquele momento era há quanto tempo Nicolas estava com o pesadelo em sua mente. Não podia ser tempo demais, se não ele já estaria muito afetado, até com a própria doença do pesadelo. Aquele pesadelo, porém, estava tão intenso em sua mente, parecia tão físico e grudado ali, que era improvável que fosse algo recente. Nada fazia sentido.

Ela continuou caminhando, parecia que estava andando por uma caverna com o teto baixo. Os tons roxos do Sonhar foram mudando para marrom; ao tocar as paredes em seu redor, sentia a textura rochosa. O pesadelo estava mostrando uma caverna, por isso a sensação tão claustrofóbica. Luci fez uma pausa, colocando a mão na cabeça, enquanto se encostava na parede da caverna. Era tão sólido o pesadelo que parecia estar em uma caverna de verdade, e se não fosse o uso excessivo de magia sonhadora que estava usando quase poderia se esquecer de que estava no Sonhar.

Respirando fundo, Luci juntou forças e continuou andando, um passo atrás do outro, focando na tarefa imediata. Conseguia sentir muito bem onde estava o foco do pesadelo. Quando o achasse, conseguiria saber o tamanho e a intensidade do pesadelo com mais certeza. Poderia dar uma noção para Estela de como estava a situação, mas, pelo que ela estava vendo até agora, não parecia das melhores.

Luci fez uma curva na caverna, sentindo o pesadelo ficando mais intenso. Adiante, o ambiente parecia ficar mais pesado, mais claustrofóbico. O teto tinha ficado mais baixo, quase esbarrando na cabeça de Luci. Ela focou o olhar adiante, vendo duas pessoas a sua frente. Na verdade, duas crianças. As duas eram muito parecidas. Eram gêmeos.

Um dos gêmeos Alba estava deitado no chão, de olhos fechados, enquanto o outro estava sentado, encolhido e abraçando os joelhos. O que estava sentado estava chorando, soluçando, apavorado com a situação. Luci havia passado tempo o suficiente com eles para reconhecer quem era quem. Nicolas estava sentado, ao passo que Tomas estava deitado.

Ver Tomas de novo era uma sensação esquisita. Luci sabia que não era ele de verdade, mas quase não via nada dele. Tirando um momento específico ou outro em que via uma foto, ou em que Sofia dizia algo na época antes de ser guardiã, era como se as pessoas não fizessem questão de se lembrar dele.

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A versão criança de Nicolas não parecia ter se dado conta de que Luci estava lá. Na verdade, a região ao redor dele parecia que era muito menor, como se a caverna tivesse menos espaço ali. Quando Luci se aproximou, percebeu que ele tremia, secando as lágrimas que desciam pelas bochechas. A guardiã não se lembrava de tê-lo visto tão apavorado daquele jeito.

— Nicolas? — chamou Luci, se aproximando — Você está bem? O que aconteceu com Tomas?

Luci tinha que se aproximar com calma. Sentia o foco do pesadelo ali, mas não sabia exatamente se era aquela cena toda ou algum elemento específico. Não era sábio fazer movimentos bruscos naquela situação, tanto para não se colocar em uma posição ruim como também para não danificar alguma parte da mente de Nicolas. Aquilo tudo era parte dele.

A criança na frente de Luci não pareceu ouvir, continuou chorando e tremendo. Agora que tinha se aproximado, Luci conseguia ouvir um sussurro bem baixo vindo de Nicolas: “Por favor, Tomas, volta logo”. Ele repetia a frase sem parar, como se aquilo pudesse acalmá-lo. Luci ficou confusa – não fazia sentido, Tomas estava logo ali, na frente de Nicolas. Sonhos e pesadelos, porém, agiam de formas esquisitas, eles podiam mostrar memórias, mas também era comum que usassem vários elementos misturados. Até porque não fazia muito sentido os dois irmãos estarem em uma caverna. Talvez a frase fosse da mente do Nicolas mais velho, depois que Tomas fora embora, pedindo para o irmão voltar.

Luci só teve tempo de sentir um peso no ar ao redor quando ouviu uma voz atrás dela:

— O que você está fazendo aqui?

Não precisava se virar para ver quem era. Luci reconheceu a voz do Nicolas criança, mas com algo diferente. Quando ela olhou, viu a versão de Nicolas mais nova atrás dela, agora finalmente se dando conta de que ela estava lá. Sua expressão era assustadora, seus olhos pareciam grandes demais para o rosto, sua boca também. Luci imaginou que fosse uma distorção de um pesadelo para assustá-la.

Deu uma olhada rápida na direção que os gêmeos estavam antes, mas Tomas e a versão chorosa de Nicolas haviam desaparecido. Luci se viu sozinha com aquela versão nada amigável de Nicolas e sentiu um nó no estômago. Sua ansiedade estava aumentando, seu medo começava a aparecer no suor de suas mãos. Não era só seu próprio trauma com pesadelos – a presença mais intensa dele estava afetando a mente de Luci. Ela tentou respirar fundo, sem se mover.

Agora Luci sentia que aquela versão de Nicolas era o próprio foco do pesadelo. O que era incomum, porque o pesadelo de alguém não costumava se manifestar na própria projeção da pessoa, e sim em materializações em seu redor.

A menos que o pesadelo estivesse muito fundo na mente de Nicolas, se espalhando, tomando conta…

— O que aconteceu aqui? — perguntou Luci, tentando manter a voz calma.

— Tudo. — Nicolas riu, mas a sensação que batia no peito de Luci era de raiva. — Aqui é o começo do fim.

— Fim do quê? Onde está Tomas?

— Não sei e não quero saber. — O sorriso que aparecia nos lábios de Nicolas ficaria na mente de Luci por um bom tempo, era assustador.

— Você estava pedindo para ele voltar…

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— Não!

Luci sentiu como se fosse uma rajada de vento, fazendo seu corpo recuar um pouco. Ela soltou um grito com o susto que tomou. Não esperava aquela resposta, muito menos aquela energia vindo de Nicolas. A voz nem parecia mais com a dele, e sim algo desfigurado e potente. Luci sabia que era perigoso continuar, não tinha ideia de como aquele pesadelo podia reagir daí por diante. Começou a acumular energia em sua mente, focando em seu corpo físico na mansão dos Alba.

O pequeno Nicolas andava devagar, dando um passo de cada vez na direção de Luci, enquanto ela tentava não perder o controle para o desespero.

— Eu não quero saber de Tomas! Ele que fez isso comigo! — A voz de Nicolas ia se distorcendo mais… Luci começou a sentir dor no corpo todo por causa da força daquele pesadelo, que ia crescendo em um ritmo maior do que ela tinha esperado. — Ele que me deixou assim!

Antes de Luci concluir sua magia e mandar sua própria consciência de volta para seu corpo, ela olhou na direção de Nicolas. Preferia não ter visto, aquilo era mais assustador do que qualquer coisa que o pesadelo tinha feito, não só pela imagem, mas também pelo que aquilo significava.

Nicolas estava com olheiras grandes, mas não eram comuns. Pareciam sulcos em seu rosto, falhas de tom roxo escuro, descendo pelo rosto como lágrimas. Algumas partes até passavam da altura do queixo, descendo pelo pescoço.

O sintoma físico da doença do pesadelo.

Luci voltou sua consciência para seu corpo com um grito, dando um pulo no lugar onde estava sentada e quase caindo no chão. Estela se assustou e segurou a guardiã pelo braço, tentando impedi-la de cair. Luci estava ofegante, seu corpo suava e suas mãos tremiam. Tocou em seus braços, depois na cama em que estava sentada, para acalmar sua mente e se assegurar de que estava em sua própria dimensão. Foi apalpando, com a visão ainda meio embaçada, até alcançar o braço de Nicolas, que ainda estava deitado na cama. Ela virou o rosto para ele, sentindo sua visão voltar ao normal. Sua cabeça latejava de dor, mas infelizmente se lembrava da última cena que viu no pesadelo.

— O que você viu? — perguntou Estela, preocupada com a reação de Luci.

A guardiã virou seu olhar para Estela. A situação parecia absurda, e Luci queria estar errada, mas até fazia algum sentido. Estela estava sempre muito próxima do senhor do Ninho, em muitas conversas em particular, e ela sabia exatamente o que fazer com o anel quando chegou, onde encontrá-lo…

— Eu vi a doença do pesadelo — disse Luci — Você sabia disso, né?

O rosto de Estela desmontou. Não de surpresa, agora Luci tinha certeza de que ela sabia, mas de tristeza. Ela mexeu com carinho na mão de Nicolas, que segurava entre as suas. O olhar dela ficou perdido, ela sabia que um dia descobririam, tinha imaginado aquele momento de várias maneiras diferentes, mas não estava preparada de verdade para falar sobre isso com outras pessoas.

— Sabia… — disse ela baixinho. — Só não sabia se você conseguiria ver…

— O estado dele é avançado o suficiente para qualquer mago que entrar na mente dele ver.

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— Por isso esse anel. Ele me mostrou um pouco antes de Sofia desaparecer. O estado dele estava piorando, ele pediu para eu colocar esse anel nele caso a situação chegasse nesse ponto. — Ela apontou para o anel que estava debaixo da cama de Nicolas. — O encantamento precisa de um tempo, mas quando o curandeiro chegar o encantamento já terá feito efeito o suficiente para que a doença fique camuflada. Pelo menos por enquanto.

— Há quanto tempo ele está assim?

— Anos — suspirou Estela. — Ele não me disse quando começou, ele fala muito pouco e evita o assunto. — A senhora da Superfície encarou Luci. — Eu queria poder ajudar mais, mas só sei o suficiente para ajudá-lo a esconder a verdade.

Nada mostrava que Estela estava mentindo. Luci olhou para Nicolas, deitado, adormecido. Por quanto tempo ele carregava aquilo? Por que não tinha contado para ninguém? Ela queria perguntar tantas coisas, mas não podia simplesmente acordá-lo.

— Você vai contar para alguém? — Estela interrompeu os pensamentos da guardiã.

— Eu preferia convencê-lo a procurar ajuda quando ele acordasse em vez de expor uma situação dessas.

— Boa sorte. — Estela deu uma risada abafada, indicando que ela já tinha tentado isso antes. Em seguida, ela limpou a garganta: — Vou ficar aqui até ele acordar.

A guardiã queria ficar, mas não ajudaria em nada, e talvez Nicolas ficasse ainda mais na defensiva se a visse ali e entendesse que ela sabia a verdade. Sem contar que precisava ajudar Ingrid com toda a questão do teatro. E ainda o fato de ter sentido Sofia no Sonhar… Tudo aquilo estava dando dor de cabeça em Luci.

— Avise quando ele acordar, tá?

Estela concordou. Antes de sair do cômodo, Luci olhou para trás, vendo por um instante a expressão de Estela quebrar. Dava para sentir a preocupação dela, quase palpável. Luci só queria que as notícias ruins parassem, ao menos por um instante.

Parecia que tinha levado muito tempo para voltar para a torre do Sonhar. Não prestava atenção nas coisas ao redor, nas ruas do Ninho pelas quais passava. Algumas pessoas a reconheciam e faziam comentários, até porque continuava usando seus braceletes, mas seguiu seu caminho sem prestar muita atenção até a torre. Sentia agora, mais do que nunca, que o tempo corria contra ela em vários aspectos e não podia perder um momento que fosse.

Quando chegou, pediu para que um dos sentinelas encontrasse Ingrid e a mandasse para o escritório da guardiã. Ingrid chegou rapidamente, poucos minutos depois de Luci entrar no cômodo. A sentinela percebeu na hora que algo havia acontecido. Mais alguma coisa.

— Está tudo bem, guardiã?

Não estava, não era preciso uma resposta, mas Luci não queria expor Nicolas. Aquilo não ajudaria em nada agora, não havia nada que Ingrid pudesse fazer e elas tinham outra questão para resolver.

— Algumas questões, Estela está cuidando de tudo. — Não era uma completa mentira, mas Ingrid conseguia ver através daquela resposta que tinha mais que Luci não queria contar. — Sobre o teatro…

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— Ah sim, estava ouvindo alguns sentinelas conversando na hora do almoço, os sonhadores de guarda nas fronteiras não costumam ficar o dia inteiro por lá, pelo menos não todos os dias. Pensei em aparecer e falar com seus pais para armar um plano para capturá-lo.

— Só vamos conseguir provar que algo está sendo armado se o pegarmos no flagra.

— Infelizmente sim, não queria colocar o teatro em nenhum perigo, mas é verdade.

— Vou avisar meus pais que você está indo para que possam armar alguma situação. Mas… — hesitou Luci — Tome cuidado. Não sabemos do que esse tal de Gabriel é capaz.

— Não deixarei nada acontecer com a fronteira.

— Não é só sobre o teatro, é com você também, Ingrid.

— Ah… — Ingrid havia sido pega de surpresa, agora estava se sentindo sem graça. — É claro, sempre tomo cuidado. Vai dar tudo certo.

Quando Ingrid se retirou, Luci soltou a respiração que estava segurando. Tinha sentido o próprio coração acelerar no final da conversa. Ela gostava de Ingrid, se importava com ela, mas não sabia dizer tudo o que estava sentindo. Assumiu que isso se dava porque sentia muitas coisas, já que vários acontecimentos estavam vindo ao mesmo tempo, mas sabia que sentia algo diferente quando Ingrid estava por perto.

*

Helena tinha pedido para que Giovani evitasse ficar muito tempo ao redor de Gabriel, ao menos o máximo possível. Ele tentou resistir à vontade de encará-lo, mas o que queria mesmo era extrair aquele pensamento do acidente durante a peça de sua mente e tirar satisfação. Era natural que os atores viessem perguntar o que eles fariam agora, e tudo que Giovani podia responder é que deveriam aguardar a avaliação de Gabriel.

Mas o sonhador era o responsável pelo acidente.

Giovani sentia seu sangue ferver toda a vez que aquele pensamento vinha em sua mente. A sensação de injustiça o fazia engasgar. Não que não tivesse vivido isso sua vida inteira, mas ele não era de ferro. Ninguém tinha tentado armar contra eles de forma tão cruel quanto Gabriel, e seja lá quem tivesse dado a ordem para que o sonhador fizesse aquilo.

Os cientes do teatro não percebiam a tensão e o nervoso que Giovani passava naquele dia. Ele tentava evitar pensar em seus problemas e externava aquilo. Giovani se convencia de que fazia aquilo porque as pessoas tinham que ter alguém para olhar e sentir segurança, mas era o próprio medo de olhar para a questão que o fazia agir dessa forma.

Sabia que devia evitar Gabriel, mas sua curiosidade foi mais forte. Ele procurou pelo teatro, sem dizer para ninguém o que buscava, até encontrar Gabriel examinando a entrada do prédio, perto da bilheteria. Como o teatro havia sido fechado temporariamente, depois do acidente, não havia ninguém ali além dos dois. Quando viu o sonhador, ele estava de costas, usando sua magia, provavelmente para fingir que procurava por algum sinal do Sonhar. Giovani se perguntou se era capaz de imobilizá-lo, levá-lo para algum canto e fazê-lo admitir. Poderia usar sua magia elemental para afetar o ar ao redor de Gabriel, fazendo-o desmaiar. Ou podia só descontar sua raiva.

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Respirou fundo, porém em silêncio. Giovani não era conhecido por explodir de raiva por qualquer coisa, mas tinha dificuldade em lidar quando agiam de forma injusta com ele. Sua mãe o ensinara a respirar fundo e buscar controlar aquela sensação como se fosse sua magia, algo que estava ali, mas não podia fazê-lo perder o controle.

— Descobriu alguma coisa nova, Gabriel? — perguntou Giovani, enquanto se aproximava.

O sonhador se virou para ele, com a mesma expressão de sempre. Giovani se perguntou no que ele estaria pensando, e como conseguia dormir à noite sabendo do que tinha feito.

— Olá, Giovani. Não encontrei nenhuma área de perigo na estrutura do teatro, acho que o garoto acabou errando a magia mesmo. Vou falar com ele ainda hoje.

— É uma pena… — Giovani usou de todo seu conhecimento em atuação para ser convincente no que dizia. — Trabalhamos tanto nessa peça… E Rafael nunca falhou antes.

Ele encarou o sonhador quando disse aquela última frase, esperando uma reação. Nada. Se Helena não tivesse confirmado o que aconteceu, ele poderia até assumir que Gabriel não tinha feito nada. Mas o colar não mentia. Gabriel suspirou fundo, parecendo se lamentar também por causa daquela situação.

— Às vezes foi o estresse. Sempre aprendemos na Escola dos Magos como nossas emoções afetam nossa magia, ainda mais quando é algo que envolva o Sonhar. Se entre nós é complicado, imagina aqui.

O que Gabriel queria dizer com aquilo? Será que tinha sido uma provocação do sonhador, querendo dizer que cientes que aprendiam magia por conta própria eram menores, menos preparados ou mais fracos? Giovani tinha ficado naquela sombra a vida toda, sendo um elemental autodidata. E isso não era segredo. Será que Gabriel buscava cutucar tanto a falta de preparo do teatro quanto Giovani pessoalmente?

Por mais que conseguisse manter a parte exterior em ordem, Giovani não conseguia parar de fazer sua mente girar em volta de pensamentos preocupantes, ainda mais em uma situação na qual sentia muita pressão. Era possível que estivesse exagerando, mas era difícil evitar. Era a mesma coisa com a situação de Sofia. Os cenários absurdos iam passando pela sua cabeça, tentando ler coisas e procurar pistas onde não necessariamente estavam e sua cabeça se transformava em um turbilhão de pensamentos.

Gabriel poderia ter falado aquilo sem qualquer significado a mais, mas agora, enquanto Giovani se afastava do sonhador, que continuava trabalhando, ou fingindo que trabalhava, ele se perguntava inúmeras coisas.

Enquanto eram perguntas, Giovani ainda sentia que estava no lucro. Quando esses pensamentos frenéticos passassem a ser de culpa, ele se sentiria muito pior.

Passou o resto do dia tentando evitar as pessoas, apenas seguindo de certa forma os passos de Gabriel. Não podia deixar que ele fizesse outra coisa contra eles. Giovani não teve nenhum controle sobre as coisas que tinham acontecido até agora. Não pôde ajudar Sofia, não pôde impedir Luci de fazer algo que não queria. Não pretendia falhar também com as pessoas da fronteira que contavam com ele.

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Sempre que ele tinha aquela sensação de impotência, uma parte de suas memórias voltava para o dia em que sua mãe morreu. Mal tiveram tempo de passar pelo luto quando ele foi chamado para fazer o teste para ser o guardião. A ideia o fez rir na época, literalmente, enquanto ainda usava roupas de luto pela mãe. Sabia de toda a tradição do Ninho, por mais que achasse tudo muito ultrapassado, mas sabia bem onde estava seu talento. Ele era um mago elemental.

Ele sabia, porém, que, caso se recusasse a fazer o teste ou não passasse, a responsabilidade cairia sobre suas filhas. Na época, não achou que esse cenário se realizaria. Elas ainda eram jovens e os mestres sonhadores mal podiam esperar para que o teste ficasse disponível para pessoas fora da família. Por isso vieram tão rapidamente após a morte de Carmela, mal dando tempo para Giovani passar pelo luto.

O Sonhar tinha sido uma experiência difícil, ainda mais com tantas emoções em sua mente naquela época. Depois de falhar no teste, pensou sobre como aquela pressa por parte dos magos tinha sido intencional. Os sonhadores sabiam que as emoções, ainda mais em uma pessoa que não sabia mexer com magia sonhadora, apenas atrapalhariam o teste.

Giovani estava muito certo de que sua falha não traria problemas para sua família. Um lado dele até ficou aliviado porque não teria mais que lidar com o Ninho daquela forma. Eles nunca foram gentis com Carmela, continuariam agindo de forma ruim com qualquer guardião que considerassem menor. Era melhor não estar no meio daquela disputa toda.

O que ele não imaginava era que Sofia passaria no teste. Quando Luci tinha acabado de nascer, Carmela comentara como Sofia indicava ter um nível alto de magia. Giovani já tinha pensado nos caminhos pelos quais aquela magia a levaria, mas só queria que ela pudesse escolher o que gostaria de fazer.

Ele e Helena queriam que as meninas fossem felizes e estivessem seguras, independente do que decidissem fazer. Podiam ficar surpreendidos com as escolhas, como quando Sofia decidia estudar magia sozinha, ou até tristes, como quando Luci decidiu se afastar da fronteira. Sempre buscavam entendê-las e aceitá-las de braços abertos.

Ver Sofia se tornar a guardiã tinha sido muito difícil, por mais que na frente da filha eles buscassem se posicionar de forma menos emotiva. Helena tinha ficado preocupada, assim como Giovani, mas ele sentia uma camada a mais de emoções. Até hoje, ele não conseguia tirar o gosto amargo da boca que, seja lá o que Sofia passasse como guardiã, era culpa dele. Se ele tivesse tido sucesso no teste, Sofia não teria que passar por metade das situações ruins que enfrentava diariamente, como Carmela tinha passado.

Sofia não teria desaparecido.

Não queria dizer aquilo em voz alta, nem encarar a culpa que carregava. Talvez, se a ignorasse, aquele monstro sumiria de sua mente. Naqueles momentos, porém, enquanto observava Gabriel em seu papel de bom moço, o sussurro da culpa voltava a sua mente.

Mais tarde, Giovani parou para fazer um sanduíche. Só depois de algum tempo com o estômago roncando percebera que não tinha comido quase nada naquele dia. Ouviu Helena entrando na cozinha quando estava considerando se fazia um segundo sanduíche.

— Finalmente — falou ela ao encontrá-lo. — Por onde ficou o dia inteiro?

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— Nada demais, meu bem. Estava me procurando?

— Sim… Vem comigo.

Giovani já estava imaginando, pela expressão de seriedade no rosto de Helena, que outro problema teria acontecido. Não podia ser nada que Gabriel tivesse feito, pois Giovani ficara na cola dele a tarde toda.

Quando o casal chegou no escritório, Giovani viu uma moça de cabelos curtos que não conhecia, mas reconheceu os braceletes.

— Muito prazer, senhor Giovani — cumprimentou ela. — Meu nome é Ingrid, sou uma sentinela e vim em nome da guardiã Luci. Ficamos sabendo do que aconteceu e gostaria de propor um plano para lidar com Gabriel.

Foram as melhores palavras que Giovani ouviu naquele dia.

*

A mente de Luci parecia muito mais leve agora. Com a ajuda de Juliano naqueles últimos tempos, a dose de Noite Calma tinha sido bem reduzida. Por mais que ainda tivesse medo de entrar no Sonhar, e ainda não tivesse feito isso sem uma forma de voltar rapidamente, ela conseguia sentir sua magia de forma diferente. Tinha chegado com muita dor de cabeça na casa dele, pelo excesso de magia que tinha usado recentemente, mas já começava a se sentir melhor.

Agora, quando Juliano examinava seu subconsciente, ela conseguia sentir melhor a presença dele. Era uma sensação que tranquilizava, não uma invasão, ou até mesmo algo desconfortável.

Não mexa em meus pensamentos. Luci formou a frase em sua mente, em tom de brincadeira.

Juliano foi pego de surpresa pela brincadeira, mas em seguida Luci conseguiu ouvir, como um sussurro que reverberou em sua mente: Eu não faria isso, agora pare de fazer esforço. O tom dele também era suave e divertido.

Toda vez que sua mente voltava ao normal depois do exame de Juliano, Luci demorava para se encaixar na realidade de novo, mas nos últimos dias parecia mais fácil. Juliano percebia isso bem, por mais que Luci tivesse medo de seus poderes. Era possível para perceber que ela tinha uma conexão forte, mesmo que no fundo de seu subconsciente.

— Queria te contar uma coisa antes de ir, Juliano — disse Luci, quando desceu da maca de exame. — Entrei no Sonhar e… Acho que encontrei algo de Sofia.

Luci achava que Juliano teria uma reação menos contida, expressando mais sua surpresa. Ele virou o rosto na direção dela, a expressão em seus olhos diferente, interessado no que ela tinha falado. Talvez ele não quisesse criar esperanças antes da hora.

— Como assim? O que você encontrou?

— Chamei por ela no Sonhar, tentei usar minha magia o máximo que pude e… Acho que a ouvi. Mas um pesadelo apareceu, não sei se isso quer dizer que ela está no meio de um pesadelo ou se ele me ouviu enquanto eu buscava por ela…

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— Não quero ser estraga-prazeres, Luci, mas não há possibilidade de o pesadelo ter tomado a forma de sua irmã?

A guardiã balançou a cabeça negativamente com firmeza

— Sei o que senti.

Juliano deixou a informação assentar em sua mente por um momento, absorvendo o que Luci tinha dito, antes de voltar a falar.

— Acho que é o primeiro sinal dela que temos desde o que aconteceu… — Juliano respirou fundo.

— Não sei direito o que farei agora, mas queria agradecer a você. — Luci se aproximou dele. — Se não fosse por sua ajuda, eu não teria conseguido.

— Eu não pude dar nenhuma informação que mudasse muita coisa.

— Com o tratamento,  senti que tinha mais força para entrar no Sonhar e tentar… Graças a sua ajuda. Obrigada, de verdade.

Luci abraçou Juliano. Uma das coisas boas que aquela situação toda tinha trazido foi fazer que eles se conhecessem e ele pudesse ajudá-la com sua magia. Saber que ele e Sofia eram próximos também trazia para Luci uma sensação de segurança ali, além de ser um lugar fora dos olhares da torre.

Ainda não sabia o próximo passo, mas sabia que tinha andado para frente.

*

Estela não tinha conseguido dormir ainda, nem tinha tentado porque sabia que estava muito preocupada para conseguir. Assim como tinha prometido, ainda não tinha saído da mansão Alba.

Felizmente, o anel encantado que ela havia colocado em Nicolas funcionara. O curandeiro sentia um pesadelo forte ali, porém não tinha encontrado a doença do pesadelo especificamente. Estela não sabia quanto tempo aquilo ia durar. Toda vez que encontrava com Agnes, e via como ela estava mal, Estela tinha vontade de contar a verdade. Ela tinha o direito de saber o que estava acontecendo, Estela mas não queria expor Nicolas, não enquanto pudesse evitar.

Naquele final de tarde, Estela tinha convencido Agnes a ir descansar enquanto ela ficava de olho em Nicolas. Estava tentando se concentrar em sua leitura, enquanto o senhor do Ninho continuava adormecido, mas os pensamentos dela estavam tão frenéticos que precisava ler cada linha cinco vezes antes de conseguir entender o que estava escrito e avançar na leitura.

Por mais que não quisesse expor Nicolas daquela forma, se perguntava se tinha sido certo manter segredo sobre a doença. Talvez devesse ter tomado uma decisão por si só. Nicolas não ia gostar, mas poderia ter ajudado mais do que a situação atual. Estela detestava ficar naquela posição em que nada parecia certo, ainda mais com o tanto que tentava se controlar todos os dias para provar que merecia estar onde estava. Sentia que, a qualquer momento, sua paciência iria embora de vez.

Do jeito que as coisas estavam, só queria tirar Maurício de cima das fronteiras. Queria fazer mais mudanças, mas estava tão frustrada que aquilo já seria o suficiente para ficar feliz por muito tempo. Mas agora, naquele exato momento, ela daria qualquer coisa para que Nicolas ficasse bem. Não pela questão política do Ninho, que ela às vezes só queria mandar para o inferno, mas porque… era Nicolas. Sua mente não conseguia aceitar que ele não ficaria bem, que as coisas não dariam certo.

Pensar em outra hipótese pior doía demais.

Como se estivesse no Sonhar e seus pensamentos pudessem ser ouvidos, ela escutou:

— Estela?