14. Página 1

13. Página 2

Quando Estela deu por si, já estava ao lado da cama de Nicolas, enquanto o senhor do Ninho tentava se sentar. A euforia e a felicidade eram intensas, e ela tentava conter suas reações, como costumava fazer. Mas o sorriso estampado em seu rosto era muito mais poderoso que qualquer autocontrole. Seu coração estava acelerado. Não queria pensar muito na hipótese de que ele não fosse acordar, mas tinha sido um medo real em sua mente.

— É melhor não se esforçar — Ela sentou ao lado dele — Você ficou umas boas horas fora.

Nicolas não discutiu. Ele sentia o corpo fraco e a cabeça pesada. Lembrava-se de se sentir cansado antes de dormir, tinha decidido encerrar o dia mais cedo por causa da dor de cabeça. Agora, depois de acordar, parecia que tinha dormido por dias, até semanas. E mesmo assim sentia-se cansado, como se não tivesse dormido nada.

Ainda não se sentia completamente acordado, como se o Sonhar estivesse logo ali, assim que ele virasse o rosto. Sabia que estava acordado, mas a sensação aérea era incômoda e constante. Porém estava aliviado, porque sabia que um dia ele podia muito bem não acordar.

— Quantos sabem? — perguntou, sua voz saindo mais baixa do que ele imaginava.

— Só Luci — respondeu Estela baixo, nada surpresa que aquela tivesse sido sua primeira pergunta — O mago de cura veio examiná-lo, mas seu anel funcionou e ninguém mais ficou sabendo. Sua mãe está abalada, talvez tenha começado a suspeitar.

— Ela sabe que eu tenho pesadelos, só não sabe a extensão do problema, e prefiro que continue assim — Nicolas olhou para a mão, vendo o anel a mais que tinha pedido para Estela colocar nele caso aquilo acontecesse — Como foi que Luci descobriu?

— Eu pedi para ela entrar em seu subconsciente, ver como você estava.

Estela sabia que Nicolas não reagiria bem àquilo. Era melhor só uma pessoa saber do que várias, mas ainda assim ele sempre ficava muito na defensiva naqueles momentos. Estava cansado demais para fingir que não tinha gostado do que tinha ouvido.

Depois do problema com as fronteiras, Nicolas acabou não vendo Luci. Agora, ele nem queria imaginar o olhar de pena que veria no rosto da guardiã quando se encontrassem. Só o pensamento de que aquilo poderia acontecer o deixava irritado. Não queria que tivessem pena dele, ou que o encarassem como alguém já perdido, mesmo que aquela doença não tivesse cura.

— Era só esperar eu acordar.

A senhora da Superfície hesitou para responder, tentando não dizer o pensamento que veio imediatamente a sua cabeça. Os dois sabiam que ele podia não ter acordado. Estela não queria ficar irritada com ele agora, mas teve que se controlar.

— Eu não tinha como saber qual era seu estado. Luci chegou aqui comigo, foi o que consegui pensar na hora.

12. Página 3

— E o que ela viu?

— Sua doença, eu disse, ela sabe…

— Disso eu sei — Nicolas estava ficando cada vez mais impaciente — Mas o que ela viu? Que parte de minha memória? O que minha cabeça mostrou para ela?

— Não sei, não perguntei.

Nicolas respirou fundo. Dependendo do que Luci tivesse visto, ele teria que responder mais perguntas do que gostaria. Odiava estar naquela situação, parecia que não tinha o controle de nada.

Se tivesse parado para pensar racionalmente, conseguiria imaginar que teria feito algo parecido com o que Estela fez. Caso fosse ela em seu lugar, não esperaria a sorte de ela acordar. Procuraria saber o que estava acontecendo. Mas ele não estava racional como gostaria. Pela primeira vez tinha ficado muito tempo preso no pesadelo, a ponto de as pessoas notarem, desde que descobrira sobre a doença do pesadelo. Era uma situação nova, e por mais que achasse que estava preparado para ela, não estava.

— Como você está se sentindo? — Estela tentou mudar de assunto.

— Como se um caminhão tivesse passado pelo meu corpo e parado em minha cabeça. — Ele falava devagar, procurando respirar com cuidado — Odeio isso… —murmurou ele — Luci não podia saber, ela vai fazer várias perguntas…

— Ela está preocupada, assim como eu — falou Estela com mais firmeza. — Você não está sozinho.

— Que seja — o tom saiu mais grosso do que o normal. — Eu ainda me sinto cansado. — Ele olhou para o outro lado.

— Vou avisar sua mãe —disse ela, entendendo que insistir em certas coisas agora não traria nada de bom. — Luci está com algumas questões para cuidar, vou tentar fazê-la focar nisso e dar tempo para você antes de ela vir aqui de novo.

Nicolas concordou com a cabeça antes de Estela sair do quarto.

*

Luci sentia o estômago revirando. Andava de um lado para o outro, sem parar, demonstrando fisicamente sua ansiedade. Não sabia se o plano funcionaria, só podia torcer para que tudo desse certo. Mesmo que não estivesse na fronteira, Luci tinha encontrado uma forma de participar do plano. Tinha colocado o anel do Camaleão e ligado o celular, colocando o fone em sua orelha.

— Ingrid? — Luci perguntou quando atenderam do outro lado.

— Estou aqui — respondeu a sentinela. — Por enquanto está tudo bem.

Ingrid estava sentada no fundo do teatro, usando roupas discretas e tentando não chamar atenção. Já tinha visto Gabriel naquela noite, falando com Helena. Nada indicava que ele a tivesse visto ou a reconhecido.

Depois que Ingrid tinha chegado no teatro, bolou com Helena e Giovani uma forma de expor Gabriel. Tinha perguntado para o casal dono do teatro em quanto tempo eles conseguiam se organizar para a peça voltar a ser apresentada. Dois dias depois, o teatro tinha conseguido fazer a primeira apresentação de O Guardião do Pesadelo sem acidentes. Na segunda noite, as coisas também tinham ido bem.

11. Página 4

Luci tinha se questionado se Gabriel teria percebido Ingrid ali, mas a sentinela pediu que ela se acalmasse, pois ele não demoraria muito para fazer algo se queria provar que a fronteira era mesmo um local perigoso.

— Três é o número da sorte — murmurou Ingrid baixinho para si mesma quando viu que a peça estava para começar.

Ingrid olhou rapidamente para Helena, sentada na primeira fileira e Gabriel a seu lado. Tudo parecia bem. Não achava que o sonhador teria coragem de fazer algo diretamente contra alguém ali.

A sentinela ficava feliz por Giovani apresentar a peça e Helena ficar perto de Gabriel, porque o pai da guardiã estava muito ressentido com o que o sonhador havia feito – o que Ingrid compreendia, mas precisavam de calma. Ingrid adoraria desmascarar Gabriel e qualquer outro sonhador que abusasse de sua posição, ela tinha muita pouca paciência com irresponsabilidade. E usar seus poderes para incriminar alguém era muito irresponsável, além de apenas piorar um problema que já era grave. Acidentes com o Sonhar aconteciam de verdade, aquilo não era uma brincadeira.

Luci se controlava para não ficar perguntando o tempo todo o que estava acontecendo. Não conseguia ouvir bem, mas distinguia a voz do pai quando falava alto suas narrações do teatro. Estava com o estômago embrulhado, só torcendo para que Gabriel fizesse algo de uma vez e pudessem dar fim àquela história toda.

Helena estava com seu colar de sempre por baixo das roupas, mantendo a calma da melhor maneira que podia. Os atores ficaram um tanto quanto confusos quando os donos resolveram continuar as peças. Ela e Giovani tinham feito segredo sobre os motivos, além de terem sido muito discretos quanto à presença de Ingrid assistindo às peças.

Ingrid já sabia como a peça corria, também sabia o ponto no qual o acidente havia acontecido da primeira vez. Tinha avaliado o rapaz que fazia o truque de transformação e, assim como Gabriel, chegara à conclusão de que ele não estava fazendo nada de errado mesmo. Queria um dia poder assistir à peça sem estar trabalhando. Por viver no Ninho durante sua vida inteira, se dedicando aos estudos, nunca dera muita atenção às fronteiras. Ouvira, de boa parte das pessoas com quem convivia, que eram algo perigoso por, mas tinha bastante consciência do preconceito das pessoas do Ninho.

A cada momento que chegava mais perto de a magia ser usada na peça, Ingrid ficava mais impaciente. Atrás das cortinas, Giovani não parava quieto, vendo Rafael se preparar para fazer sua magia. O rapaz olhou para Giovani por um momento e recebeu um aceno de cabeça, para que seguisse com o roteiro da peça.

Giovani só podia esperar que Ingrid estivesse de olho, que Helena estivesse bem e que Gabriel não tentasse nada mais perigoso do que já havia feito antes. Ele não queria magia perigosa em seu teatro, mas desejava que aquilo tudo acabasse. Giovani tinha prazer em fazer as peças, mas essas últimas só o estavam deixando cada vez mais ansioso.

Os três que sabiam das verdadeiras intenções de Gabriel prenderam a respiração quando a magia começou. O ator, que interpretava o guardião, seguia fazendo sua parte. Ingrid se inclinou na cadeira, Giovani sentiu o estômago embrulhar e Helena ficou imóvel, buscando não fazer nenhum movimento que fizesse Gabriel suspeitar que ela sabia de algo que ele desconhecia.

10. Página 5

A magia começou a se dissipar, o truque de Rafael estava acabando. Não seria daquela vez, novamente. Ingrid estava começando a relaxar na cadeira, vendo a imitação da magia do Sonhar no palco sumir. A plateia em seu redor estava surpresa com os “efeitos especiais” da cena.

Então, o corpo inteiro de Ingrid ficou rígido, sentindo a magia voltando. Ela ergueu os olhos para o palco.

A nuvem ao redor do ator, um truque de magia de transformação, estava praticamente toda evaporada quando outra magia começou a tomar conta.

— Agora — disse Ingrid, perto de seu fone, sem hesitar.

Assim que Luci ouviu o sinal da sentinela, na torre do Sonhar, ela começou a agir. Foram poucos instantes até que ela pegasse na maçaneta da porta a sua frente, visualizasse o teatro e entrasse pelo Sonhar. Era ainda mais fácil para ela, que tinha passado a vida inteira naquela fronteira. Ingrid sabia que Luci tinha ouvido o comando, porque seu fone começou a chiar. Só aí percebeu que tinha prendido a respiração de novo. Parte dela ainda duvidava de que Luci cumpriria com suas tarefas, desde os primeiros problemas com a vistoria do Sonhar. Sentiu um gosto amargo de culpa na boca.

Luci podia sentir as energias no teatro. Viu o palco, as pessoas assistindo, na plateia conseguiu ver sua mãe, sua expressão de preocupação e tensão. Não conseguiu ver seu pai, mas não perdeu tempo procurando por ele. Não podia perder um minuto.

Via a magia do Sonhar sendo usada, se manifestando no palco. Limpou a mente e abriu as mãos, procurando sentir se a fonte dela estava no Sonhar, se manifestando em algum pesadelo ou energia que estivesse passando para a dimensão material. Nada aconteceu. Não vinha dali, como eles já suspeitavam. Mas ela sabia de onde vinha.

Conseguia ver a forma do tal do sonhador, Gabriel, sentado ao lado de sua mãe. Não só sentia a magia vinda da direção dele, mas também praticamente via a aura em volta dele, a magia sendo usada, vindo do próprio subconsciente do sonhador. De onde estava, Luci poderia usar sua magia para atingir Gabriel de alguma forma, em seu subconsciente. Por um instante, o pensamento de fazer justiça com as próprias mãos passou pela cabeça, mas desistiu logo em seguida. Não adiantaria nada e podia até ser usado contra ela eventualmente. Ou pior, seus pais ou Ingrid poderiam serem culpados e ela não queria isso.

Luci foi rapidamente de volta para a porta, saindo para a dimensão material. Saiu tão rápido que perdeu o equilíbrio e escorregou no chão. Ingrid ouviu o chiado parando, dando espaço para um barulho de baque.

— Luci? — perguntou ela preocupada, nem notando que não tinha usado o título para chamar a guardiã.

— É Gabriel, pode pegá-lo.

A sentinela nem buscou confirmar, a voz de Luci veio tão firme que acreditou no que ela tinha visto. Ingrid visualizou a magia sendo usada em sua frente. Estava mais forte do que Helena tinha relatado que acontecera na primeira vez. Rafael, atrás do palco, percebeu também. Ele começou a ficar agitado, quando Giovani o segurou pelo braço.

— Está tudo bem — disse ele — Vá para dentro, leve os outros.

9. Página 6

Helena olhou para Gabriel, fazendo a melhor expressão de surpresa que podia. O sonhador continuava sem deixar transparecer nada. A magia durou mais tempo do que dá primeira vez, o que fez até alguns leigos começarem a se perguntar se havia alguma coisa errada. Só depois que as cortinas do primeiro ato já tinham descido a magia finalmente se dissipou.

Enquanto as pessoas se retiravam para o intervalo, Gabriel andou na direção do palco, como se estivesse avaliando o que tinha acontecido. Helena foi atrás dele, enquanto Giovani saía de trás do palco, onde ficava com o elenco que não estava se apresentando.

— Segunda vez… — disse Gabriel, andando na direção de Giovani — Isso é mais perigoso do que eu pensei, não há mesmo como continuar as peças…

Giovani respirou fundo, controlando a vontade de socar a cara do sonhador. Olhando por cima do ombro dele, viu Ingrid se aproximar, o que o ajudou a ficar mais calmo.

— Você tem razão — falou Giovani — Precisamos lidar com o problema.

— Gabriel — chamou Ingrid. Quando o sonhador virou para encará-la, ela continuou — Sou uma sentinela a mando da Guardiã — e mostrou os braceletes.

Ingrid olhou para Helena, que tirou seu colar de dentro da roupa. O pingente estava voltando a ficar branco, mas ainda tinha os tons roxos do Sonhar apontando para Gabriel, como da primeira vez que o acidente aconteceu.

Pela a expressão de Gabriel, ele entendeu rápido o que aquilo significava.

— Você deve algumas explicações — concluiu Ingrid.

*

Era esperado que Maurício não aceitaria bem uma sentinela detendo um de seus sonhadores. Ele poderia encarar isso como uma afronta, pensar que deveriam ter avaliado melhor a situação antes de terem feito algo contra Gabriel. Luci estava se dando por feliz que o teatro tinha sido protegido e, por enquanto, estava a salvo de qualquer ataque daqueles.

Estava esperando para poder falar com Nicolas. Fazia algum tempo que não conversavam, tinham se afastado um pouco depois de todo o problema com a vistoria do Sonhar. Mas a situação estava muito diferente e mais grave, em mais de um sentido.

Luci levantou os olhos quando viu Estela andando pelo corredor, saindo do quarto de Nicolas. Ela parecia cansada, mais do que o normal.

— Fiquei sabendo que deu tudo certo no teatro — falou Estela, depois de cumprimentar a guardiã.

— Gabriel está sendo interrogado, a última notícia que tive foi que ele estava desviando de todas as perguntas. Mas ao menos isso deu certo. Como ele está?

— Eu não sei dizer quanto à doença… Ele não quer ser examinado a fundo, com medo de as pessoas saberem, a história de sempre — falou Estela em voz baixa, para ninguém ouvir a conversa das duas — Já pegou o computador para trabalhar e está sendo… teimoso.

8. Página 7

Estela não precisava explicar mais a fundo para que Luci entendesse. Nicolas obviamente não fazia nada por mal, mas ao recusar ajuda ele não afetava só a si mesmo. Já não era difícil Luci entender que os dois se importavam muito um com o outro, não apenas como amigos, e o quanto isso afetava Estela estava estampado em seu rosto.

Quando a senhora da Superfície saiu, Luci andou pelo corredor até o quarto de Nicolas. Como Estela havia dito, ele já estava com o computador no colo, trabalhando como se não estivesse repousando na cama depois de ter sido abalado por um pesadelo.

Luci se sentou ao lado dele da cama. Ela e Nicolas se entreolharam, mas não sabiam como começar aquele assunto. Era uma situação esquisita entre magos quando um havia entrado na mente ou no subconsciente do outro. Luci sabia que para Nicolas era ainda mais complicado. Foi ele que começou a falar, depois de alguns minutos em silêncio, mas não sobre o que Luci pretendia conversar.

— Estela me contou sobre a situação do teatro. Nós sabíamos que poderia dar problema, mas ainda assim quando acontece… — suspirou Nicolas — Não tenho dúvidas de que Maurício está envolvido, mas se Gabriel não falar ou não conseguirmos outras provas da conexão isso será visto como uma ação unicamente de Gabriel.

— É o que ele tem dito durante o interrogatório. Eu não estava pensando em saber se tinha sido ordem de Maurício, eu só queria proteger o teatro e corrigir as besteiras que fiz.

— Você agiu bem, Luci, você e Ingrid fizeram um bom trabalho.

O silêncio caiu sobre eles novamente. Luci não sabia como perguntar sobre a doença do pesadelo sem deixar a situação ainda mais esquisita. De repente, parecia que Nicolas era um estranho completo. Ela apertou os dedos uns nos outros, sem saber o que dizer. Mas precisava começar de alguma forma.

— Como aconteceu, Nicolas? Há quanto tempo…?

Nicolas suspirou, tirando o computador de seu colo e colocando-o na cama. Aquele momento ia chegar, Nicolas podia se dar por feliz por ter demorado tantos anos para que tivesse que encarar aquilo. O monstro que por anos fingiu que não existia.

— Mais de dez anos — disse, encarando-a — O que você viu quando entrou em minha cabeça?

— Desculpe por isso, eu não invadi sua privacidade, só procurei pelo pesadelo. — Luci buscou as memórias em sua mente. Não foi difícil, não era um momento fácil de esquecer. — Eu vi você e Tomas, crianças, em uma caverna. Ele estava dormindo e você estava chorando no chão… Depois você começou a falar comigo, que aquilo tudo era culpa dele.

O senhor do Ninho ficou por alguns momentos em silêncio. Era muito difícil mexer naquele assunto, mal sabia como falar sobre o tema, porque aquilo tudo nunca saía de sua cabeça. Não falava disso em voz alta, só remoía a questão em sua mente por mais de dez anos.

— Essa foi a situação que o pesadelo criou para se fixar em minha mente, quando adquiri a doença. Você chegou no centro dele.

— Eu sei, mas… Como isso aconteceu? E mais de dez anos… Você já estaria mostrando características físicas…

7. Página 8

— Eu estou — Ele mostrou um dos anéis em sua mão, aquele que ele sempre usava, que estava junto com o que Estela tinha colocado nele. — Encantamento de transformação. Todos os Alba aprendem um pouco de magia de transformação, eu sou formada nela, além de mental. Só usei o anel da família para colocar um encantamento. Meu rosto sem isso não está tão bem assim.

Luci não pediria para ver, mas conseguia imaginar as marcas descendo pelos olhos de Nicolas, chegando ao pescoço, como tinha visto dentro de seu pesadelo. Era um encantamento muito bom para ninguém ter sentido algo fora do lugar por tanto tempo.

Mas, mesmo assim, havia outros indícios que agora faziam mais sentido para Luci. Nicolas parecia estar sempre cansado, com a saúde frágil, o sono complicado… Agora tudo parecia se encaixar.

— O que aconteceu? — insistiu Luci.

— O que eu disse no pesadelo. Tomas aconteceu. — Nicolas suspirou, não queria deixar as emoções tomarem conta dele naquele momento, mas não era fácil. — Você se lembra de quando ele foi embora, imagino.

Claro que ela se lembrava, tinha sido muito esquisito. Do dia para a noite, Tomas não estava mais lá e quase ninguém falava sobre isso. Sofia tinha ficado mais chateada que ela, já que eram mais próximos. O que antes parecia um ato de rebeldia, um Tomas que tinha decidido apenas seguir sua vida longe de tudo que conhecia, agora estava tomando uma proporção maior.

— Eu vou começar pelo que você viu. Eu sei que Sofia ficou sabendo, mas você era muito nova… Um dia eu e Tomas achamos que era uma boa ideia investigar os limites do Ninho, as áreas que são apenas cavernas. Tomas sentiu uma movimentação do Sonhar em uma delas, e você se lembra… Ele era tão fascinado pelo Sonhar quanto nosso pai. Ele foi ver o que era, eu fui junto. Estava com medo, mas não queria parecer medroso. Tomas encontrou a fenda com o Sonhar, resolveu tentar mexer nela e causou um desabamento que nos deixou presos.

— Foi a cena que eu vi.

— Sim. Tomas usou magia de sonhador para entrar no Sonhar e pedir ajuda para sua avó. Eu fiquei esperando, com medo, sentindo a magia agir em nosso redor. Não é uma experiência agradável.

— Mas… O que isso tem que ver com a doença?

— Antes de Tomas ir embora, muitas coisas aconteceram — a voz de Nicolas parecia ficar mais irritada. Sua expressão corporal estava mudando, seu corpo ficando tenso, assim como sua mandíbula. — Tomas sempre foi mais curioso do que prudente. Enquanto estávamos na Escola dos Magos, enquanto eu me formava como mental, ele lia e procurava estudar todas as magias em que conseguia colocar as mãos. E o Sonhar continuava sendo seu interesse. Ele começou a investigar o subconsciente das pessoas.

— Na Escola? Eles nunca permitiriam.

— Ele não estudou magia sonhadora na escola, essa parte de seus “estudos” ele fez por fora, por conta própria. Carmela ensinou muita coisa a ele, mas Tomas sempre foi muito inteligente, autodidata e disposto a experimentar o que precisasse. Ele sabia que no Ninho seria notado, então começou a usar o Sonhar para entrar nos sonhos de… leigos.

6. Página 9

Apesar do discurso de Nicolas carregar ressentimento, dava para perceber que ele também tinha certa vergonha, se sentindo culpado pelo que o irmão tinha feito. Era esquisito falar sobre Tomas em voz alta daquela forma, nenhum dos dois falava sobre ele havia muito tempo.

Luci sentiu o queixo cair com aquela informação. Entrar no subconsciente de leigos era algo muito fora dos limites do que um sonhador poderia fazer. Luci não conseguia imaginar que Tomas quisesse fazer mal a ninguém, mas aquilo podia afetar a vida de leigos, o que não só colocaria cientes em riscos, como também pessoas que nunca concordaram em ser parte de qualquer magia.

— Por que ele faria algo assim?

— Estudos, segundo ele. No começo eu achei que ele só ficava vagando pelo Sonhar, sozinho, sendo irresponsável apenas consigo mesmo. Devia ter contado para alguém, talvez tivéssemos descoberto antes e evitado muita coisa — Nicolas olhou para baixo.

O senhor do Ninho conseguia sentir a noite em que as coisas perderam o controle, como se estivesse acontecendo naquele exato momento. Era tudo muito real. Tinha esquecido algumas memórias com Tomas, mas aquela era impossível. Era triste que a lembrança mais marcante com seu irmão fosse aquela, mas não tinha sido ele a ignorar os avisos de cuidado, a mexer com o que não devia e a cometer crimes.

A guardiã quase podia sentir como o ar do quarto ficou mais tenso quando Nicolas continuou a falar.

— Um dia… uma noite, quero dizer, ele estava no Sonhar, se conectando ao subconsciente de outras pessoas na superfície. Eu não sabia dessa última parte, só estava sonhando e o ouvi pedindo ajuda. Nossa proximidade física e nossa conexão como irmãos me fizeram ouvi-lo antes de qualquer outra pessoa — Luci entendia aquilo, ela tinha usado a própria conexão que tinha com Sofia para chamá-la no Sonhar — Eu fui até ele, tentando ajudar. Tomas tinha mexido tanto no Sonhar que atraíra um pesadelo. Ele usou muita magia, perdeu o controle e por isso foi tudo tão rápido. O problema é que ele tinha trazido um pesadelo para si e para perto do subconsciente de leigos.

— Mas eu não entendo, como os sentinelas não perceberam que Tomas vinha fazendo isso?

— Ele nunca buscava pelo subconsciente de pessoas das fronteiras. Ele nunca tinha se descontrolado como naquela vez, mas é isso que acontece quando se usa tanta magia e não se tem o conhecimento suficiente para isso. Tomas sempre teve muita confiança de que conseguiria dar um jeito em tudo.

Luci ficou em silêncio, tentando digerir o que havia acontecido. Sabia que Tomas era curioso a ponto de fazer uma bobagem ou outra, mas mexer ativamente com o subconsciente de outras pessoas era muito errado, um dos maiores crimes do Ninho, porque quebrava regras de ética e colocava pessoas em perigo.

— Eu nunca fui bom em magias do Sonhar, mas sabia o suficiente para me movimentar até ele… e só isso — suspirou Nicolas — Quando alcancei Tomas, só vi vários borrões em meu redor, senti o Sonhar me consumindo e de repente… Estava naquela caverna de quando era criança. Foi tudo muito rápido. Só depois entendi que era um pesadelo, usando um dos momentos em que mais senti medo na vida para me fazer perder o equilíbrio. E ele conseguiu. Tomas devia estar mexendo com algo muito poderoso, porque para um pesadelo atacar rápido daquela forma devia envolver um tipo de magia muito intensa, ou um pesadelo muito poderoso.

5. Página 10

— O que aconteceu com vocês? E com os leigos?

— Ouvi dizer que o casal com quem ele estava mexendo foi parar no hospital em coma — Luci deixou o horror estampado no rosto — Eu… sinto que fiquei naquela caverna por dias, revivendo inúmeras vezes a cena de minha infância. Disseram que fiquei desacordado apenas por algumas horas. Quando acordei, não vi mais Tomas, aquele momento no Sonhar foi a última vez. Os magos de cura não me deixaram sair da cama por um tempo e os sentinelas detiveram meu irmão, com razão. Ele tinha cruzado uma barreira muito séria, todos ao redor sentiram que o Sonhar tinha sido mexido na região da mansão dos Alba. Minha mãe teve muito trabalho para lidar com o caso todo.

— Eu nunca fiquei sabendo de nada disso.

— Claro que não. Minha mãe usou todos os favores que lhe deviam para não deixar que soubessem que o filho dela quase abrira um buraco entre nossa dimensão e o Sonhar. O que não quer dizer que ela pudesse impedir que Tomas fosse punido — Nicolas olhou para o outro lado, para a janela falsa e mágica de seu quarto — Nós nunca conversamos muito sobre o assunto, é difícil para nós dois, mas… sei que ela fez o impossível para evitar que Tomas fosse mandado embora. Não funcionou, como sabemos.

As peças iam formando o quebra-cabeça da situação. Quebrar uma barreira daquela forma podia causar várias punições, uma delas era a que alguns magos não conseguiam lidar e mais temiam.

Exílio.

— Tomas não foi embora porque quis — disse Luci. — Ele foi exilado — sua voz mal podia ser ouvida.

— O julgamento decretou o exílio de Tomas, sim. Dizem que minha mãe nunca ficou tão séria em toda sua vida como naquele dia. Não posso julgar, não deve ter sido fácil, não sei como eu teria ficado se estivesse lá. Fiquei na cama por dias depois do ocorrido… Talvez tenha sido melhor.

Pelo que Luci se lembrava de Tomas, era possível que ele preferisse a prisão do que ficar longe do Ninho e da magia. Por isso sempre achou esquisito ele só ter ido embora. Ela mesma não saberia dizer o que era melhor, nem conseguiria ter julgado o que devia ser feito na época. Sendo proibido de ter contato com o Ninho e qualquer fronteira, Tomas corria o risco de ir ficando cada vez mais fraco em relação a sua magia, ou até esquecer que era um ciente. O contato com a magia era fundamental para um ciente manter seu conhecimento. Se Tomas praticasse magia todos os dias, era possível que, depois de tantos anos, ainda estivesse com a cabeça no lugar, mas sua relação com a magia, e com toda sua vida, teria sido mudada para sempre.

Mesmo que Luci tivesse uma memória afetiva dele, não podia, porém, esquecer que ele havia feito algo terrível. Sofia teria ficado horrorizada, e provavelmente Carmela teve dificuldade para lidar com a situação. Quanto mais velho Tomas ficava, mais arrogante ele se tornara com sua magia, até por sua posição de privilégio. Luci apenas achava que era um jovem cheio de si, talvez um pouco chato às vezes em relação a seu conhecimento, mas nunca com más intenções.

4. Página 11

Talvez ele não tivesse tido nenhuma intenção ruim mesmo, ele podia só ter acreditado que daria conta. Como a própria Sofia sempre tinha acreditado. Mas as coisas saíram de controle, o que não justificava as consequências.

— Nicolas… Como ninguém descobriu sobre sua doença?

— Ela não se manifestou imediatamente, minha mente estava fragilizada, o pesadelo estava incubado em meu subconsciente. O curandeiro avisou minha mãe sobre o risco, disse que deveríamos ficar de olho nos sinais, porque a doença do pesadelo podia se manifestar nas próximas semanas. Bem, foi o que aconteceu — deu uma risada debochada, nem um pouco alegre — Dormir era muito difícil. Fui até o curandeiro sozinho e pedi para ser examinado. Quando ele confirmou a doença… Não podia deixar que ninguém soubesse. Ele me explicou o que eu devia fazer e eu usei minha magia nele. Alterei sua memória — ele encarou Luci — Eu sei, não foi certo, não posso alterar as memórias das pessoas, mas entendo o desespero de minha versão mais jovem.

Magos mentais podiam alterar as memórias de outras pessoas, ler suas mentes e até apagar certos conhecimentos. Por isso só Estela sabia do que estava acontecendo aquele tempo todo.

— Eu entendo o Nicolas mais novo fazer isso também, mas não entendo você agir dessa forma agora.

A expressão de Nicolas mostrava que ele não esperava aquela resposta.

— Não sei o que é ter a doença do pesadelo —continuou Luci. — Mas sei o que é ignorar um problema. Não é fácil, mas hoje, depois de tanto tempo e tanta coisa… Você precisa se cuidar. Você pode achar que as pessoas em seu redor vão julgar você, e talvez algumas façam isso, mas há gente que só quer lhe ver bem. Você ficou esses anos todos sem falar sobre o assunto e isso só lhe fez mal.

Luci sentia um quê de hipocrisia em sua própria fala, porque ela mesma havia ignorado um trauma e evitava falar sobre uma questão. Mas, exatamente por isso, e pelo tanto que conheceu de Sofia depois que ela sumiu, entendeu que aquela sua atitude só havia agravado alguns aspectos de sua vida. Não queria que seu amigo continuasse passando pelo mesmo problema.

Nicolas a encarou por um momento. Em sua mente, já era uma certeza que seria visto como uma pessoa menor no minuto em que as pessoas soubessem o que havia acontecido. E pensar que sofria com pesadelos por causa de seu irmão… Era difícil olhar aquele lado de si.

— Eu quero ser mais do que o senhor do Ninho que tem os dias contados por causa da doença do pesadelo — confessou Nicolas.

— Você já é, Nicolas. Eu sinto muito que a situação com Tomas tenha lhe deixado assim, mas estamos juntos nessa. E não só eu, você sabe disso.

Depois que Luci saiu, Nicolas não conseguiu conter o choro entalado, de anos, que lhe subiu pelo peito. Havia outra pessoa além de Estela e Luci que sabia, ou pelo menos era o que Nicolas achava.

Quando Nicolas recebeu seu diagnóstico, depois do exílio de Tomas, ele não sabia o que pensar. Parte dele sentia uma falta, um vazio por não ter o irmão por perto. Sabia que Tomas tinha errado feio, sabia que ele ia enfrentar as consequências, era o certo. Não era porque eles eram da família Alba que estavam acima da lei, ou ao menos não deveria ser. Mas uma parte dele tinha a sensação de que estava sendo vingado quando Tomas foi embora, não queria nem olhar para a cara do irmão.

3. Página 12

Algumas semanas depois de todo aquele caos em sua vida e do exílio de Tomas, Nicolas acordou uma noite no Sonhar. Sentiu o medo subir pelo corpo, sabendo que aquilo podia ser uma ação de um pesadelo. Estava encarando aquela doença sozinho, ainda estava apavorado com o que podia acontecer.

Mas, ao contrário das visões assustadoras que o pesadelo causava, aquela parecia ser de um pedaço do Sonhar… Calmo, estável, como se alguém o tivesse colocado ali. Aos poucos, Nicolas foi sentindo uma sensação de que estava seguro, uma sensação quase… familiar.

Como quando Tomas criava um ambiente seguro no Sonhar.

Pensar naquilo fez que Nicolas ficasse com raiva na mesma hora. Depois de tudo que ele fez, Tomas vinha de novo, usando o Sonhar para mexer com sua cabeça. Nicolas fechou os punhos, cerrou os dentes, e a sensação era tão intensa que conseguia lembrar de cada detalhe todos os dias de sua vida.

— Eu sei que você está aí! — gritou Nicolas, olhando ao redor, mas sem ver nada além das ondas do Sonhar. — Aparece, covarde! Não é corajoso o suficiente para ferrar com tudo?

Tomas não apareceu. Não era surpreendente, ele nunca tinha sido alguém que caísse em provocações como aquelas. Mas Nicolas tinha cada vez mais certeza de que aquilo tinha sido criado por Tomas. Ele não podia demorar muito – se um sentinela o percebesse, ele seria detido por entrar em contato com alguém no Ninho quando estava em exílio.

— Por sua causa eu tenho a merda da doença do pesadelo! Está feliz?! — Nicolas sentia lágrimas de ódio escorrendo pelo rosto. Ele as limpou com as costas da mão, tão sem cuidado que quase se machucou com o anel da família que usava. — Por que você é tão arrogante? Você não é o mago mais poderoso do mundo, as regras do Sonhar, não, do mundo não mudam por sua causa! Quantas vezes Carmela pediu para você ter cuidado? Você nem formado sonhador é! Se você quer ferrar com sua vida, fica à vontade! Mas tinha que me levar junto?!

Nicolas às vezes pensava sim como Tomas era arrogante, pensava em como o irmão tinha que ser mais cauteloso e ter mais responsabilidade com certos assuntos. Mas, sempre que dizia isso, era com uma conversa, ou em tom de brincadeira que no fundo era verdade. Eles não eram de discutir assim, pelo menos não aos gritos como Nicolas fazia agora, sentindo sua garganta até doer.

— Você sabia os perigos do Sonhar! Nosso pai morreu em uma missão como sentinela, você sabe! Mexer com leigos, sinceramente… Entendo por que não me contou, eu nunca aprovaria uma coisa dessas! Espero que esteja feliz, Tomas! — Nicolas recuperou o fôlego — Não quero saber de você, se vira na superfície, eu já tive problemas demais.

Aos poucos, Nicolas sentiu que aquele espaço seguro do Sonhar foi sumindo e ele acordou em seu quarto. O jovem Nicolas sentiu seu rosto úmido de choro. Na época, chorou mais ao acordar, como fazia agora, depois que Luci tinha deixado seu quarto.

Ele amava o irmão, sempre tiveram uma relação boa, brincavam que iam dominar o mundo juntos quando eram mais novos. Por mais que Tomas não quisesse machucar Nicolas, ele não tinha considerado o mal que seus experimentos podiam causar. Infelizmente, para Nicolas o resultado todo parecia uma grande traição, ele precisou pagar por um erro que nem era seu. A doença do pesadelo não tinha cura, apenas o consumiria até ele não acordar mais.

Por causa de seu irmão.

2. Página 13

*

Luci raramente sentia vontade de conversar com sua irmã, mas naquele momento ela queria muito fazer isso. Será que Sofia sabia? O que pensaria? Não precisava se questionar muito, tinha certeza de que Sofia não aprovaria. Ela era tão curiosa e estudiosa quanto Tomas, mas nunca acreditou que os meios justificavam os fins. E o que Tomas estava estudando especificamente a ponto de achar que aquilo era algo aceitável?

Tinha vontade de entrar no Sonhar e chamar por ele. Seria estranho, há anos que não se viam, mas se ele não tinha perdido a memória de sua magia, conseguiria falar com ele. Será que deveria? Se Tomas fosse pego falando com alguém do Ninho, ainda mais com a guardiã, seria preso.

Luci estava cansada. Quando saiu do trem, na estação da torre do Sonhar, só queria descansar um pouco antes de voltar a trabalhar. Precisava pensar em como conseguir mais provas sobre quem mais estava por trás do ataque no teatro. E tinha de voltar a pensar na questão de Sofia. Poderia entrar no Sonhar de novo, quando sua mente estivesse mais tranquila, e tentar chamá-la novamente.

Também podia falar com Juliano sobre a doença do pesadelo. Não podia dizer que era o senhor do Ninho o afetado, mas talvez que um conhecido estava com a condição… Talvez não fosse muito seguro. Ela não conseguia pensar direito, sua mente fervilhava com tantos pensamentos.

Não ajudou nada quando passou pela entrada da torre do Sonhar e viu mestre Maurício andando na direção dela, saindo do elevador.

Parecia a situação na qual os dois se conheceram, mas muito tinha mudado. Agora, Luci carregava os braceletes de guardiã, que hierarquicamente eram maiores do que os de Maurício. Estela não estava com ela e, felizmente, Luci não parecia mais tanto com um bicho apavorado. Mas Maurício continuava com a postura de sempre, impondo respeito e buscando impressionar.

— Guardiã, muito bom encontrá-la aqui —cumprimentou-a Maurício — Vim aqui exatamente para falar com você. Gostaria de aproveitar o momento para dizer que eu sinto muito pelo que aconteceu no teatro. Um problema desses na fronteira já é ruim, mas para você deve ter sido ainda mais complicado.

— Agradeço a preocupação, mestre Maurício, mas lidamos com a situação e todos estão bem — Luci tentou manter o queixo erguido, sem desviar o olhar. Sabia que conversas com Maurício também podiam ser jogos de poder.

— Estou muito decepcionado com as atitudes de Gabriel — Ele balançou a cabeça. — Eu garanto que estou averiguando todas as ações dos outros sonhadores para me certificar de que isso não se repita.

Luci não sabia de onde a coragem tinha vindo, mas de repente se viu falando:

— Muito obrigada, mas gostaria que os sentinelas mesmo pudessem investigar essa questão de perto também. Não me entenda mal, mas… Não sabemos quem mais agiu junto com Gabriel.

1. Página 14

O instante antes de Maurício responder pareceu durar horas. Luci sabia que ele não tinha gostado de ouvir aquilo. Podia interpretar como um desafio a sua autoridade.

— Eu sou muito minucioso com minhas análises e investigações, guardiã, não aceito um trabalho incompleto dos meus.

— Claro que não, mas todo cuidado é pouco. Depois da Alvorada, sabemos que não podemos arriscar com as fronteiras, tanto pelos cientes da superfície como para não colocar os daqui em risco — Luci sentia seu estômago se revirar enquanto buscava manter sua postura da melhor forma possível — O senhor entende, certo?

Maurício deu um passo na direção dela. Luci imaginou que ele buscava intimidá-la, ao menos um pouco. Por mais que fosse a guardiã, aos olhos de Maurício ainda era uma moça jovem da superfície, sem formação na Escola dos Magos e portanto, em seu julgamento, não merecedora de estar ali.

Mas, como sempre, ele sorriu e acenou com a cabeça.

— Sem dúvida, você está correta. É muito bom ver como está se adaptando a sua posição — Luci tinha sentido aquela pontada — Se me permite, continuarei minhas investigações. Não hesite em me chamar, caso precise.

Enquanto Maurício ia embora, Luci considerava se ele estava envolvido naquela questão. Não queria julgar antes de ter certeza, mas sabia que aquele era um homem em quem nunca poderia confiar.