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Havia muita energia no Sonhar, muitos pensamentos fluindo, muitas ondas que passavam pelo corpo de quem caminhava por lá fisicamente. A mente precisava estar em foco para que o corpo pudesse funcionar – essa era uma regra bem conhecida entre os sonhadores. A sensação de formigamento que a magia causava era constante e estava por toda parte naquela dimensão. Fazia pouco tempo que Luci tinha entrado lá daquela forma, durante seu teste, mas agora seria cada vez mais parte de sua rotina e ela sabia disso. Ao menos dessa vez não estava sozinha.

        As formas que o Sonhar tomava em sua frente e em seu redor eram da superfície. Luci observava enquanto as ondas mostravam um bar se revelando aos poucos. Algumas cadeiras estavam ocupadas, outras vazias, o fluxo de pessoas não parecia intenso. Um homem trabalhava ao lado do balcão enquanto dois garçons tentavam dar conta do lugar inteiro. Um deles passou por Luci, sua forma se esfarelando, como fumaça, retomando a forma original depois de passar por ela.

        — O que me diz, guardiã?

        Era a voz de Ingrid. Sua voz ali era um conforto. A sentinela tinha vindo com ela para o Sonhar. Luci olhou ao redor, em seguida fechou os olhos e buscou sentir. Suas mãos se enfiaram nos bolsos de seu casaco, deixando sua mente se expandir por aquele lugar, sentir a energia do que a envolvia.

        Luci respirou fundo algumas vezes. Buscou por perturbações, uma energia diferente e caótica, mas não havia nada ali que indicasse um pesadelo tentando usar aquele local de passagem para a superfície, ou qualquer zona de perigo que afetasse o subconsciente dos que estavam no bar. Ela não sentia nenhuma aproximação de pesadelo, suas emoções não eram abaladas por nada externo. Depois de deixar a mente sentir o que acontecia naquele local, ela abriu os olhos e se virou para Ingrid.

        — Não sinto nada… Está certo?

        Ingrid sorriu e assentiu, o que trouxe para Luci uma sensação de alívio imediata. Era a primeira vez que entrava no Sonhar para vistoriar as ações de pesadelos. Ingrid tinha trazido os relatórios dos sentinelas e ela tinha escolhido um ponto de possível perigo para investigar. Nas próximas vezes, Ingrid não estaria lá com ela, a menos que fosse uma situação excepcional.

        Com o uso reduzido de Noite Calma, Luci já sentia alguma diferença em sua magia. Tinha ficado ansiosa o dia todo antes de entrar no Sonhar com Ingrid, não queria fazer papel de idiota naquela primeira vez. Com o mesmo cuidado com o qual haviam entrado, Ingrid guiou as duas para uma das portas do observatório, por onde tinham entrado mais cedo. A sensação de estar fora do Sonhar fazia Luci sentir seu corpo muito mais denso. Não havia mais ninguém no cômodo além das duas.

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— Como falei antes, não costuma ser uma tarefa muito difícil, só que requer atenção — disse Ingrid. — No final do dia, a maioria dos pontos que avistamos de possíveis perigos não resulta em nada preocupante. São pesadelos passageiros. No máximo, um pesadelo muito denso que precisa ser desfeito. No ponto de hoje, por exemplo, provavelmente foi uma atividade passageira mesmo. Como se sentiu em relação a sua magia? E sua mente?

        — Foi mais fácil do que eu pensava — disse Luci. A última conversa com Juliano e ter começado a de fato mexer com sua magia a fazia se sentir um pouco melhor. Além do quê, a presença de Ingrid fazia Luci se sentir mais segura.

        Mas esses não eram os únicos motivos.

        — Quanto ao resto, basta avaliar os outros pontos nos relatórios e fazer o mesmo. Se precisar de mim, pode me chamar, mas como hoje tudo correu bem, não acho que terá maiores problemas no dia a dia. — Ingrid estava muito feliz com o resultado; temia que Luci pudesse não dar conta de primeira, mas se enganara.

        — Farei o mais rápido possível. Obrigada, Ingrid. Preciso falar com o Senhor do Ninho agora, mas depois vejo os outros pontos do relatório.

Quando Ingrid se retirou, Luci sentiu uma onda de culpa e o sorriso se desmanchou em seu rosto. Em um de seus bolsos, segurava com força o anel que tinha recebido do Camaleão. Agora que sabia que era um anel de foco, entendia para que usá-lo. Ainda tinha receio de usar algo do Camaleão, ou até de alguém descobrir, mas havia poucos dias que tinha começado a parar com o Noite Calma. Logo não precisaria mais do anel, ou ao menos queria se convencer de que era o caso. Ingrid não tinha que saber daquilo.

        Nicolas havia pedido que, naquele dia, Luci fosse até a mansão dos Alba para conversarem. A mansão era bem grande, parecia ter sido construída de forma milimetricamente simétrica, o que tinha influenciado a arquitetura das fronteiras na superfície. Os seguranças estavam presentes em todas as entradas e nos cômodos públicos. Luci tinha ido lá para a reunião do Congresso, mas anos antes também havia visitado o lugar com sua irmã. Um dos seguranças avisou, assim que ela se identificou, que Nicolas demoraria um pouco para atendê-la.

        Como era a guardiã e também conhecida da família, Luci teve liberdade para andar por alguns espaços da mansão, passando pelos grandes corredores, espiando um pouco a biblioteca, algumas salas de reuniões, vendo quadros que, por serem encantados, se moviam sozinhos…

        Luci caminhou até a estufa da mansão. O lugar estava diferente da última vez que estivera ali. Tinha menos plantas do que há alguns anos, mais espaço vazio e menos dos mecanismos encantados que as mantinham vivas. O lugar era espaçoso, os vidros que delimitavam a área do cômodo eram encantados, para dar a impressão de que havia uma área ensolarada do lado de fora, junto com natureza, o que não passava de ilusão. Havia vasos com flores, plantas grandes que cresciam pelas paredes. Os vasos menores ficavam em cima de bancadas, com alguns bancos na frente. Era muito complicado criar plantas no subterrâneo, pela falta do sol e de terreno fértil, mas os que tinham mais dinheiro se davam esse luxo. Agnes, mãe de Nicolas, que costumava ser Senhora do Ninho antes dele, sempre tinha gostado muito de plantas e natureza.

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Não foi surpresa quando Luci viu Agnes sentada em um dos bancos, cuidando de algumas flores brancas que cresciam pela parede. Ela era uma mulher alta, seus cabelos eram parte grisalhos, dando para ver o castanho original. Agnes usava vários anéis. A senhora se virou quando ouviu Luci se aproximando.

        — Ah! Olha só você! — Ela se aproximou e lhe deu um abraço apertado, que quase lembrava o abraço de Giovani. — Está tão crescida! Como está, Luci?

        — Podia estar melhor, senhora, mas trabalhando para melhorar.

        — Sinto muito pelo que aconteceu. — Agnes se sentou no banco novamente. — A situação não é a mesma, é claro, mas simpatizo com seus pais. Sei o que é não saber o paradeiro de um de seus filhos… — Ela ia diminuindo o tom de voz à medida que falava.

        Fazia mais de dez anos que Tomas tinha ido embora do Ninho. A família Alba não falava muito disso. Eram poucas as pessoas que sabiam a história toda, mesmo a própria Luci não tinha ideia de tudo, imaginava que Sofia não soubesse também. Um dia, ele estava estudando para alguma aula que teria na Escola dos Magos; no outro, sem aviso, não estava mais ali.

        O que Agnes tinha explicado era que, com muito pesar, Tomas tinha seguido o caminho para a superfície, sem buscar se estabelecer em uma fronteira, mas sim seguir para longe da magia. Luci se lembrava de ter ficado muito triste, assim como todos de sua família, até porque Tomas nem tinha se despedido. Largar tudo e se perder na superfície sem magia significava, eventualmente, esquecimento da magia e de tudo que a envolvia. Não era à toa que o exílio do Ninho, o que envolvia as fronteiras também, era uma punição tão cruel para cientes. Era possível que hoje Tomas não tivesse ideia do que era o Ninho, e suas relações antigas não passassem de um borrão emsua memória. Agora, não devia nem mais saber usar magia, ou mesmo que ela existia. Até onde Luci sabia, Agnes e Nicolas não mantinham contato com Tomas, não tinham noção de onde ele estava e preferiam não falar sobre o assunto.

        Sofia às vezes dizia, quando as irmãs não podiam ser ouvidas, que achava que Tomas não tinha ido embora por vontade própria, que algo grave tinha acontecido que o fizera se afastar do Ninho. Ele amava a magia e seus poderes, assim como Sofia, e não fazia sentido ele ter abandonado tudo, a menos que algo tivesse mudado. Luci sabia que sua irmã tinha questionado Nicolas algumas vezes sobre o assunto, mas ele nunca havia respondido, só dizia que não sabia onde Tomas estava e cortava qualquer chance de uma conversa assim continuar. Elas não entendiam a atitude dele, já que os gêmeos sempre tinham sido muito unidos e amigos. Luci se perguntava se eles tinham brigado antes de Tomas ir embora.

        — Descobriram algo novo sobre Sofia? — perguntou Agnes.

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— Não muito, ainda. — Luci não desconfiava que Agnes estivesse envolvida na confusão de alguma forma, mas preferia não entrar em detalhes de sua investigação. — Encontrei algumas coisas nas quais ela estava mexendo nos últimos dias, mas só.

        — Espero que seja algo simples de resolver. Está se adaptando bem ao cargo de guardiã?

        — Sim, as coisas… estão indo bem. — A hesitação em sua voz não deixou dúvidas de que Luci não estava certa de sua afirmação.

        — A responsabilidade não é fácil, ainda mais em seu caso, com tudo que anda acontecendo… — suspirou Agnes, olhando-a novamente. — É difícil encontrar os amigos nessas situações, mas uma vez que os tenha, mantenha-os por perto.

        Luci assentiu. Ela tentava. Sabia que podia contar com Ingrid, Nicolas e Estela, mas não sabia o quanto eles poderiam saber sobre o que acontecia com seus poderes. E tinha Juliano que, por mais que não afetasse o poder do Ninho e vivesse na superfície, era uma das pessoas com quem mais se sentia segura. Até porque ele a estava ajudando a lidar com sua magia.

        Um segurança veio buscar Luci na estufa, levando-a pelos corredores até a sala em que Nicolas fazia reuniões. Ele indicou a porta quando a guardiã se aproximou, mas sem fazer qualquer movimento para entrar junto com ela.

        O escritório de Nicolas era do tamanho da sala da casa de Luci, na superfície. Não que sua casa fosse muito grande, mas, para um escritório, aquilo lhe parecia maior que o normal, ainda mais considerando que Nicolas costumava usar aquele espaço sozinho ou para reuniões pequenas. O que mais chamava a atenção era a grande janela do lado oposto ao da porta. Ela era ainda mais chamativa, considerando-se que não era uma janela normal, e sim uma ilusão. Era uma parte da parede em que molduras foram colocadas, e com um toque de magia a imagem mudaria para qualquer paisagem desejada. Nicolas costumava deixar a imagem como se seu escritório ficasse em um grande prédio no centro de São Paulo. Como era uma janela falsa, nem havia cortinas, bastava usar magia para mudar o ambiente.

        No meio, havia uma mesa com uma cadeira vazia à frente. A mesa do Senhor do Ninho tinha espaço para seu notebook, e ele estava com a pasta que Maurício tinha lhe dado, com o projeto sobre as fronteiras, aberta em cima de suas coisas. Também havia uma pequena planta na mesa, encantada como aquelas que estavam na estufa de Agnes.

        Atrás de Nicolas, havia uma estante que ocupava quase toda a parede, branca e cheia de objetos, livros, pastas e quadros. Como estava falando de Tomas antes, Luci não demorou para perceber uma foto do irmão gêmeo ali, no fundo, separado da foto que Nicolas tinha dos pais. Era a única foto do irmão que Luci conseguiu ver ali. Tomas devia ter por volta dos 15 anos naquela imagem. Ela sabia que era ele e não o próprio Nicolas porque, depois de tanto tempo convivendo com os gêmeos, tinha aprendido a identificar quem era quem.

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Nicolas ergueu o rosto quando Luci entrou. O segurança fechou a porta, dando privacidade aos dois. Ele deixou a caneta em cima das folhas na pasta aberta.

        — Obrigado por ter vindo Luci, sente-se, por favor. — Dava para perceber que ele estava um pouco cansado.

        — Você está bem? — perguntou Luci. Ela se sentou na cadeira vazia na frente do Senhor do Ninho.

        — Às vezes esqueço de me cuidar por causa do trabalho, nada que uma noite decente de sono não ajude — disse ele, sorrindo — Mas isso eu resolvo fácil. Vamos discutir as questões do projeto de Maurício. O que achou da proposta?

        Luci sentiu o rosto ficando quente, de vergonha e nervoso ao mesmo tempo. Com toda a questão de Sofia, o encontro com Juliano e seus próprios poderes, tinha se esquecido completamente de ler a proposta de Maurício. Ela tinha lido um pouco depois da reunião, mas não voltou para terminar de avaliar tudo. Tentou se lembrar um pouco do que tinha lido, qualquer coisa para começar uma conversa e dar a entender que ela tinha lido sim, mas apenas suspirou.

        — Desculpa Nicolas… Eu… — ela engoliu em seco.

        O rosto cansado do Senhor do Ninho pareceu ficar um pouco pior do que antes. Dava para ver a insatisfação. Luci se endireitou na cadeira, tentando se explicar.

        — Eu li parte dele, conheço também o projeto antigo. Se você tiver tempo, podemos avaliar agora.

        — Receio que não tenhamos outra opção, eu queria acelerar essa conversa, não sei quanto tempo terei nos próximos dias. — Ele se apoiou na mesa — Eu preciso que você leia essas coisas. Entendo que você caiu de paraquedas aqui, mas toda a decisão que tomamos não afeta só a nós mesmos.

        — Eu entendo. Sinto muito. — Luci queria enfiar a cabeça em algum buraco e ficar um tempo lá dentro. — A proposta era que todas as fronteiras tivessem um guarda sentinela, certo?

        — A primeira versão sim, a nova envolve um mago sonhador. Ele seria responsável pela fronteira. — Nicolas folheou algumas páginas. — Vistoriar atividades perigosas do, ou no, Sonhar é função da guardiã, como você sabe. Ele quer que parte disso fique por conta do guarda em questão. Dado o que aconteceu na Alvorada, ajuda para a torre não é ruim, mas não é a primeira vez que Maurício toma uma medida querendo “sujar” o nome das fronteiras. Também temo que ele possa usar isso como estratégia para provar uma possível incompetência sua. — O olhar de Nicolas ficou muito mais sério. — Isso, em parte, é um dos motivos pelos quais preciso que você preste atenção nessas questões.

        — Nicolas, com todo o respeito, se você desconfia tanto dele, por que não o substitui? Não tem mais ninguém entre sonhadores ou mentais, ou qualquer outro, que possa fazer esse trabalho?

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— Eu não posso simplesmente tirá-lo de sua posição. É a Escola dos Magos que escolhe seu representante, eu não posso interferir. Se ele cometesse algum ato que fosse contra as nossas leis, aí sim ele poderia ser removido, mas se a Escola o escolhe, o Congresso aceita.

        Luci apoiou as costas na cadeira, sentindo que podia fazer muito pouco para tirar aquele problema chamado Maurício de sua vida. Teria que se fortalecer e aprender a lidar com aquilo. Naquele momento, desejou poder falar com Sofia para descobrir como ela tinha conseguido; mas se a irmã estivesse ali, nada disso seria necessário.

        — A lei será usada como uma forma de controle, ao menos é o que a superfície acredita. — Luci se lembrava ainda da última vez que aquela discussão acontecera na fronteira. — A única diferença agora é que não são sentinelas?

        — Sim, da última vez votamos contra porque não havia sentinelas em número suficiente. Agora ele quer colocar magos sonhadores, provavelmente pessoas que respondam a ele — suspirou Nicolas.

        — Tem como eu convencer o Congresso de alguma forma de que posso dar conta sem essa proposta? Ou ao menos de que mereço um tempo?

        — Te dar tempo para se adaptar é o argumento que eu venho usando para não marcar outra reunião com urgência. Mas eu preciso que você faça sua parte. Sei que está empenhada em achar Sofia, o que é muito justo e correto, mas o Ninho e as fronteiras precisam continuar funcionando.

        Luci saiu daquele encontro muito mais tensa do que chegara. Sabia que não podia abrir brecha nenhuma para Maurício usar sua falta de preparo contra eles, mas também tinha que lidar com sua própria magia, seu trauma e Sofia. Parecia que tudo estava acontecendo ao mesmo tempo, sem lhe dar um minuto para respirar ou se organizar. Pouco tempo como guardiã e ela já sentia muito aquele peso.

        Passou o resto do dia considerando o quão resiliente Sofia devia ser para sustentar aquela posição tão bem como fazia; para, além de fazer tantas coisas, conseguir se manter de pé e com a cabeça no lugar. Mas será que sua cabeça estava no lugar mesmo? Luci queria ter entendido melhor dessas coisas antes. Mas a falta de comunicação sempre foi um problema entre as irmãs depois do acidente. Luci prometeu mentalmente que ia tentar fazer melhor para Sofia quando ela voltasse. Impediu seu cérebro de pensar “se ela voltasse”.        

*

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Estela passou o caminho todo para a superfície pensando em Nicolas. Estava preocupada com a saúde dele, com o jeito que ele andava levando as coisas. Ambos tinham o exemplo próximo de Sofia para saber que se sobrecarregar era o pior que alguém podia fazer, mas ainda assim ele insistia no mesmo erro.

        Os dois tinham se aproximado mais nos últimos tempos, ela tinha ciência de que sabia coisas sobre Nicolas de que outros não tinham conhecimento. Mas, ainda assim, não importava quantas vezes Estela o avisasse sobre ter cuidado, ele parecia não ouvir.

        Naquele dia, tinha recebido uma mensagem de Helena, pedindo para que ela fosse até o Teatro, sem atrair muita atenção. Coisa boa não podia ser, por isso preferiu não dizer para ninguém aonde ia.

        O teatro em si parecia normal, as pessoas estavam trabalhando como costumavam fazer. Na porta, uma pessoa colocava o cartaz que eles tinham feito para a peça O Guardião do Pesadelo. Estela sentiu um arrepio na espinha. Nunca teve nenhuma experiência forte com o Sonhar, seus pesadelos costumavam ser comuns, mas a ideia de um monstro daqueles perto de sua mente era assustadora. Não conseguia imaginar o que era dormir tranquila sendo um sonhador.

        Ao contrário do que acontecia no Ninho, quando pediu para falar com Helena não precisou ficar esperando. Ela não era considerada menos ali. Não queria ser considerada maior também, porque nem se sentia dessa forma. Só queria algum reconhecimento pelo que tentava fazer, ou que as pessoas não a olhassem de cima, com o nariz mágico empinado. Uma das moças da recepção apontou o escritório do casal, onde Helena estava de pé esperando Estela.

        — Está tudo bem? O que aconteceu? — Estela entrou sem muita demora, tentando controlar o nervoso que sentia no peito. — Não falei para ninguém que estava vindo para cá.

        — Obrigada pela rapidez — Helena a cumprimentou. — No começo da semana, uma das atrizes encontrou um dos nossos na cama, sem acordar e perturbado. Ele estava tendo um pesadelo bem intenso. — Estela respirou fundo, porque sabia o quanto aquilo era perigoso, ainda mais na superfície. — Hoje de manhã, a moça me mostrou outra atriz na mesma situação. Um caso eu poderia aceitar que não era nada demais, às vezes pode acontecer, mas o segundo… — suspirou Helena — Talvez eu esteja exagerando, mas não quero correr riscos. Depois da Alvorada, todos na superfície estão receosos com qualquer possibilidade de pesadelos vívidos.

        — Não está exagerando, isso não é comum mesmo. Como você sabe dos pesadelos? Algum sonhador falou?

        — Eu tenho um objeto encantado que aponta esse tipo de situação.

        Estela assentiu, pensando um pouco consigo mesma. É claro que, se fosse alguma atividade maior, Luci perceberia em suas vistorias, mas ninguém previu o acidente da Alvorada antes de acontecer.

        — O que você fez com essas pessoas?

        — Pedi para um curandeiro vir avaliar a situação e confirmar minhas suspeitas. Eles estão em repouso e estáveis. Todos estão quietos porque sabemos que espalhar essa informação pode nos causar problemas com a situação atual, mas não sabemos quanto tempo mais eles vão suportar.

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Helena viu a mulher a sua frente suspirando, passando as mãos pelos cabelos lisos.

        — Justo agora… — murmurou Estela. Ela confiava em Helena, muito. Foi uma das pessoas que mais a apoiaram na época em que ela começou a ser uma liderança entre eles. — Maurício está tentando aprovar a lei de “monitoramento” de fronteiras de novo.

        A expressão de Helena não escondeu a surpresa e a infelicidade que ela sentiu ao ouvir aquilo. Já tinha discutido muito sobre aquilo não ser uma boa ideia para os da superfície. Ela também sentia um gosto amargo com aquela notícia, pois Mauricio poderia se aproveitar da confusão com o cargo de guardiã para aprovar o que queria.

        Ele podia se aproveitar do sumiço de sua filha, do problema que, para ele, era só do Ninho, mas para Helena era pessoal.

        — Mais isso agora… — suspirou Helena, enquanto comprimia os dedos, contendo uma reação mais visível.

        — Vamos dar um jeito. — Estela se aproximou. — Ele pode fingir para todos do Ninho que não é mais um truque, mas ele não me engana.

        Helena apreciava a vontade de Estela de ajudar, e parte dela gostaria que ela conseguisse mesmo barrar aquela medida. Mas sabia que não era só decisão dela, sabia que as escolhas que o Ninho tomava eram complicadas e precisariam de mais que um desejo para resolver.

        — Obrigada, Estela. Sei que vai tomar a decisão mais sensata nesta situação. — Pelo menos boa intenção ela sabia que Estela tinha. — Como está Luci?

        Ela estava mantendo contato com a filha sempre que possível, mas Luci não era a melhor pessoa para se abrir em relação a seus sentimentos, ainda mais porque conhecia bem a filha para saber que ela devia estar pensando que “não queria incomodar”. Ela também poderia estar com medo de que alguém descobrisse que ela estava “tendo fraquezas”. Estela pensou um momento antes de responder.

        — Luci está se adaptando. Uma das sentinelas a está auxiliando com os poderes e deveres de guardiã. Mas acredito que ela vai estar à vontade em breve.

        Ela não acreditava completamente naquilo. Estela não achava que Luci era um desastre, mas sabia que ainda era complicado para a nova guardiã. Helena, porém, não ia ganhar nada ficando ainda mais preocupada com a situação de sua filha no Ninho.

        —Fico feliz que ela tenha você e Nicolas ao lado dela — suspirou Helena — E Sofia? Vocês tiveram notícias?

        Estela balançou a cabeça negativamente. Queria poder dizer algo bom, alguma novidade, mas por enquanto não havia mais informações. Ao menos não que ela soubesse; se Luci descobrira algo, Estela não tinha como saber. Queria muito poder dar notícias boas em breve.

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Por mais que não fosse culpada, Estela não conseguiu impedir a sensação ruim que sentia, que durou o caminho todo de volta para o Ninho. Em um curto espaço de tempo, Estela tinha virado alguém com quem aquelas pessoas da superfície contavam. Sentia a cobrança de ter respostas e soluções. Cobrança de não falhar, que infelizmente era uma sensação bem presente em sua vida, muito antes de achar que a magia era algo real.

        Já estava anoitecendo quando entrou no metrô de volta para o Ninho. Gostava de olhar pelas janelas para ver as estruturas do Ninho se aproximando, mas naquele momento só pensava se havia mais alguma coisa que pudesse fazer. Quando teve seu cargo de Senhora da Superfície oficializado, achou que não teria mais aquela sensação de impotência. Mas, quando pensava no sumiço da guardiã, realmente não tinha ideia de como avançar. Em sua cabeça, depois de tantos dias sem nenhuma resposta, ela imaginava que Sofia teria se extraviado no Sonhar e perdido a vida por lá de alguma forma. Mas não se atrevia a dizer aquilo em voz alta, muito menos perto da família da guardiã. A situação sozinha já era cruel o suficiente.

        Não estava nos planos de Estela voltar para o Ninho, mas queria ir até a mansão dos Alba. Precisou fazer algum esforço para convencer os seguranças de que precisava falar com Nicolas, mesmo sem ter reunião marcada. O Senhor do Ninho também precisava descansar, e ela, mais do que ninguém agora, sabia disso. Ficar mais próxima de Nicolas a fez entender como ele era péssimo em descansar, mesmo que ela soubesse o quanto ele precisava, principalmente nos últimos tempos. Mas estava preocupada, e não só com os pesadelos no teatro.

        Quase se arrependeu de ter pedido para falar com ele quando o viu. Nicolas tinha entrado na sala mexendo no anel em seu dedo, pela sua expressão dava para perceber o quanto ele estava cansado. Ele já estava assim desde o começo do dia, mas não fazia mais tanta questão de esconder seu cansaço quando estava perto de Estela.

        — Não quero más notícias —brincou ele, forçando um sorriso.

        Estela tinha pensado em falar da questão do teatro, mas desistira ao sentir o cansaço do Senhor do Ninho.

        — Nicolas, desculpe perguntar, mas quantas horas você dormiu esta noite?

        A expressão no rosto do homem mudou, dando espaço para irritação. Ele suspirou, obviamente incomodado com aquela pergunta.

        — O suficiente.

        — Não acredito. Acredito que você precisa… cuidar melhor disso. — Era um assunto delicado, poucas coisas tiravam Nicolas do sério como aquele ponto. — Sei que você não gosta que eu diga isso, mas é verdade.

        — Você já me disse isso muitas vezes.         — Estou preocupada com você. Se você me escutasse…

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Ele apoiou as costas na parede. Não se arrependia de ter compartilhado alguns de seus problemas com Estela, afinal precisava de ajuda e de alguém em que pudesse confiar, mas quanto menos pudesse voltar a esses assuntos, melhor. Ele era ótimo em encarar os problemas do Ninho, mas péssimo em fazer o mesmo com os que estavam dentro dele.

        — Eu escuto você, Estela, se não escutasse nunca teria contado sobre isso.

        — Quando foi a última vez que você viu um mago de cura?

        — Estou seguindo o que me foi dito da última consulta. — Ele se aproximou dela. — Não se preocupe com isso além do necessário, por favor. Eu não quero lhe trazer mais um problema.

        Mas isso não acalmou Estela e Nicolas percebeu. Ela cruzou os braços, não muito convencida.

        — Tarde demais, eu me preocupo. Não estou na sua pele, mas você não está sozinho nisso. E não pode deixar de se cuidar.

        Nicolas hesitou e desviou o olhar. Apesar de ser uma pessoa sociável e, aos olhos dos outros, fácil de conversar, mesmo tendo um cargo como o seu, ainda assim ele tinha questões que não sonhava compartilhar. Até pelas responsabilidades que carregava, sentia que certos problemas em sua vida tinham que ser mantidos no maior segredo possível. Certas coisas ninguém podia saber. Quando dividiu algumas delas com Estela, tinha sentido um peso sair de seus ombros, ainda mais por ter encontrado compreensão. Mas ainda era uma noção esquisita para ele. Porque sim, em certos aspectos, nas questões pessoais, ele sentia que estava sozinho.

        — Eu prometo que, assim que as coisas estabilizarem com Luci, vou falar com um curandeiro de novo.

        — Por favor — sorriu Estela, torcendo para que ele não estivesse mentindo. —Vou me retirar agora, aproveite para dormir.

        — Vou tentar, Estela. Obrigado.

        Enquanto ela se retirava, Nicolas mal percebeu que sorria.

        *

        Ingrid caminhava consciente pelos sonhos quando ninguém estava reparando.

        Os sonhadores eram aconselhados a não fazer isso em seu horário de folga, e por mais que fosse muito leal e séria com seu trabalho, Ingrid não era viciada nele. Era bom manter sua mente relaxada de vez em quando. Desde o sumiço de Sofia, porém, ela caminhava por certas regiões na esperança de encontrar qualquer coisa, mesmo quando as buscas organizadas tinham diminuído.

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Às vezes, acordava de manhã e tinha que se lembrar do que havia acontecido. Em certos momentos, era difícil acreditar. Sofia tinha sido uma grande inspiração para ela, uma pessoa que admirava muito. Não só como guardiã ou sonhadora, mas como pessoa, por sua eficiência, responsabilidade e também bondade. Sofia sempre parecera inabalável, mas agora ela não estava lá.

        No lugar dela, estava Luci, que apesar da aparência física era muito diferente da irmã. No começo, Ingrid duvidara um pouco de seus poderes mágicos, mas à medida que Luci ia se soltando, a sentinela percebia que ela também era poderosa. Sabia que era questão de tempo, tinha visto Luci agir no Sonhar, sem contar que ela passara no teste.

        Por mais que Luci parecesse perdida em muitos momentos, Ingrid admirava a determinação da nova guardiã. Não era visível para todos o tempo todo, mas a sentinela já tinha reparado no quanto Luci estava se empenhando mais nos treinamentos, e como passava noites pesquisando coisas que achava que teriam que ver com o desaparecimento de Sofia. Luci não falava muito sobre isso, mas Ingrid podia ver. Era muito reconfortante ver outra pessoa que acreditava que aquela era uma situação reversível. Luci era diferente do perfil dos sentinelas, o que causava estranhamento. Cada dia mais, porém, Ingrid acreditava que as coisas dariam certo. E Sofia voltaria em breve – ela se recusava a pensar em qualquer outra alternativa.

        Ingrid tinha recebido uma mensagem de Estela havia pouco tempo, comentando que “seria bom se avaliassem a região do Teatro dos Magos no Sonhar”. Não era uma mensagem reconfortante de receber, mas Ingrid não ficara tão alarmada quanto outras pessoas ficariam. Ela foi até o escritório da guardiã, onde Luci estava no meio de uma pilha de livros e papéis, só tendo espaço para o computador.

        — Desculpe o incômodo, guardiã. Queria saber se estava precisando de alguma coisa.

        — Ah, oi, Ingrid. — Luci mexeu um pouco nos cabelos quando ela chegou, ficando um pouco sem graça de ter sido pega em sua bagunça pela sentinela. — Não, estou bem. Só lendo umas coisas.

        — Posso dar uma olhada nos documentos de vistoria do Sonhar?

        Luci precisou mexer em duas pilhas até achar os documentos.

        — Está tudo bem? Eu… ainda não terminei.

        — Não se preocupe, só quero checar uma coisa. — Ingrid folheou e viu em uma das primeiras páginas a marcação de um ponto do Sonhar perto da fronteira do teatro. Não havia nenhum aviso de urgência, como Ingrid imaginava. — Está tudo certo. — Ela devolveu os documentos.

        Ingrid pensou em comentar a mensagem de Estela, mas não queria alarmar Luci por algo que provavelmente era rotina. Não era a primeira vez que Estela pedia a ela para ficar de olho em alguma área. Os cientes da superfície falavam com ela, Estela passava a mensagem, era comum. A guardiã avaliaria em breve e, se tivesse algo preocupante, com certeza avisaria.

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— Não deixe acumular muitas vistorias, tudo bem? —aconselhou Ingrid. — E você sabe que pode me chamar, mesmo que seja antes de saber se existe algo preocupante ou não.

        — Claro, Ingrid, eu sei. Desculpe a falta de organização.

        Antes da sentinela sair do quarto, Luci a chamou. Ela se virou novamente para encará-la.

        — Obrigada pela ajuda, Ingrid, mesmo. — Luci se endireitou na cadeira. — É muito bom ter alguém como você por perto.

        Ingrid foi pega de surpresa e hesitou por um momento na resposta, recuperando a compostura rapidamente. Ficava muito feliz por receber aquele reconhecimento.

        — Não é nada além de minha obrigação, guardiã.

        O que aconteceria a seguir não era maldade de Luci.

        Ela pensou mesmo em ler a proposta de Maurício, colocou a pasta de vistoria do Sonhar bem próxima de suas coisas, para não esquecer. Se tivesse folheado com atenção, teria visto que a região do teatro estava listada e com certeza teria feito algo antes. Mas tinha focado tanto nos estudos de Sofia, além de tentar entender melhor a própria magia, que as pastas foram ficando na base da pilha novamente.

        Não foi por mal, mas não quer dizer que não traria consequências.

        *

        Nicolas lavou o rosto algumas vezes antes daquela primeira reunião da manhã. Sabia que Maurício pediria para vê-lo em breve, teria que marcar uma nova reunião do Congresso sem mais demora.

        Encarou seu próprio rosto por alguns momentos. Girou o anel em seu dedo, mais escorregadio que o normal por suas mãos estarem úmidas, mas não o tirou. Dormiu um pouco mais naquela noite, mas longe de ser o que precisava. Pelo menos seu rosto parecia melhor do que no dia em que Estela veio visitá-lo.

        Arrumou seu escritório antes do horário da reunião, sem querer deixar um objeto fora do lugar. A planta encantada em sua mesa estava começando a florescer. Sua mãe ficaria feliz com aquilo. Apesar de ser uma maga mental poderosa, andava lendo muito sobre magia encantadora para manter suas plantas em ordem. Era bom ver Agnes relaxada.

        Nicolas foi ajeitando os quadros em sua estante até chegar na foto de Tomas. Seu irmão, que não via há tanto tempo… Uma ponta de desgosto apertou dentro dele, pegando o retrato. Não sabia por onde ele estava, às vezes não sabia ao certo se queria saber. Era uma eterna confusão entre sentir falta e querê-lo longe. Mas parecia muito estranho não ter Tomas ali. Às vezes, se perguntava se o irmão agiria diferente em sua posição. Seria muito diferente ser Senhor do Ninho com os conselhos de Tomas, talvez até uma tarefa menos pesada. Quando eram crianças, brincavam que trocariam de lugar o tempo todo durante reuniões e ninguém perceberia.

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Queria muito que as coisas tivessem sido diferentes. Nicolas mal se lembrava da época em que o irmão tinha ido embora, havia passado a maior parte daquele tempo na cama, e suas memórias da época eram confusas. Lembrava-se de brigar com ele, depois de flashes da confusão e… Tomas não estava mais lá. Agnes parecia ter achado um jeito de lidar com tudo, mas para Nicolas era uma ferida aberta, uma para a qual ele até se recusava a olhar muito. Não havia o que fazer para remediar certas coisas.

        — Senhor — chamou o guarda do lado de fora, batendo na porta do escritório enquanto cortava os pensamentos de Nicolas. Ele colocou o retrato de volta no lugar. — Mestre Maurício está aqui para vê-lo.

        Nicolas deu a permissão para que ele entrasse, enquanto se sentava em sua cadeira. Arrumou sua postura o melhor que pode, assim como a expressão em seu rosto. Maurício entrou no cômodo de forma elegante, como sempre, e cumprimentou Nicolas antes de se sentar a sua frente, com os braceletes mágicos à vista, como de costume.

        — Muito bom recebê-lo hoje, Maurício. Imagino que queira falar sobre a próxima reunião do Congresso. Lamento muito a demora.

        — Não se preocupe, Senhor, sei como tudo anda complicado. Mas receio que precise falar de assuntos menos felizes antes, apesar de estarem ligados.

        O Senhor do Ninho usou toda sua calma para manter a mesma postura, enquanto esperava que o mestre se pronunciasse.

        — Eu entendo que isso não é o protocolo, mas quando certos assuntos chegam até mim… —suspirou ele. — Bem, não posso ignorá-los. Veja, veio a meu conhecimento que há atividades de pesadelo em uma das fronteiras.

        — A guardiã lhe comunicou isso?

        — Ah, não, Senhor, foi um sentinela preocupado. De acordo com ele, o ponto de vistoria foi passado, mas não foi avaliado e de forma nenhuma quero passar por cima da autoridade da guardiã, porém não posso deixar de falar de algo assim, ainda mais depois do que aconteceu na Alvorada. Imagino que a nova guardiã ainda esteja se adaptando com a nova situação, mas isso é algo que me deixou preocupado.

        Nicolas sentiu aquela sensação ruim pelo peito. Sim, já era incômodo o suficiente que alguns sentinelas se sentissem mais confortáveis para fazer fofoca com Maurício e não lidar com a própria guardiã. Não era tão surpreendente, muitos viam o mestre sonhador como um grande guia. Mas Nicolas só conseguia pensar em uma coisa.

Caso aquilo fosse verdade, o que provavelmente era, Maurício não pediria uma reunião baseada em boato, Luci não estava cumprindo seu dever. Outro que ela deixava de lado, seja lá qual fosse o motivo. O problema é que agora tinha saído das mãos de Nicolas. A situação acabava de ficar mais complicada.

        — Explique-me melhor a questão, por favor, mestre Maurício.