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Quando uma mudança acontece, nem sempre é sentida por completo no momento exato. Às vezes demora um pouco para que alguém perceba o peso de algo novo em sua vida. Infelizmente, para Luci, isso tinha vindo de uma forma muito desagradável.

Ela já sentia as mudanças em sua vida, em ser a guardiã, em sua irmã estar desaparecida, em poder sentir de novo a magia trabalhando em seu corpo, depois de tanto tempo recusando olhar esse lado de sua vida. Mas o peso da responsabilidade, o peso que a guardiã precisava carregar e as consequências de seus atos eram algo que Luci ainda não tinha sentido por inteiro. Até o momento, ela se sentia uma aprendiz, uma estudante de algo importante, com algumas pessoas estendendo a mão.

Agora ela sentia um peso muito maior.

Luci nunca tinha visto Nicolas tão chateado antes. Seu rosto dizia tudo, mas ele detalhou as consequências de seu esquecimento quanto às vistorias do Sonhar. Ainda mais considerando que essa informação não veio da torre, e sim de mestre Maurício. Isso fez que a proposta dele fosse aprovada no Congresso. Não demorou para que os sonhadores de maior prestígio entre a Escola dos Magos começassem a ser recrutados para ir até as fronteiras.

Nicolas não estava feliz, mas, além dele, a expressão de Ingrid não mentia para Luci: ela esperava mais. A sentinela acreditou que a guardiã não faltaria com sua responsabilidade, assim como Sofia nunca fazia, porém estava enganada. Sem contar que ela também sentia um pouco de culpa por não ter procurado averiguar as coisas mais de perto pessoalmente.

Mas sua culpa não era nada comparada ao que Luci sentia. Agora não era só não ser o que as pessoas esperavam dela como irmã de Sofia, mas era um erro que ela mesma havia cometido. Não havia o que ela pudesse dizer para consertar, era algo que afetava todos os cientes. Principalmente os da superfície, nesse caso.

E pior, a região em questão, que fizera Maurício falar com Nicolas, era o teatro. O lugar que tinha sido sua casa por tanto tempo, onde seus pais estavam, inúmeros cientes e pessoas que ela conhecia. Ela tinha falhado com algo que podia ter afetado sua família. Uma irresponsabilidade, assim como na vez em que ficara presa no Sonhar e tivera que ser resgatada por sua irmã.

O que Sofia pensaria de tudo aquilo?

As semanas foram se passando, mas Luci sentia o tempo mais arrastado do que nunca. Estava envergonhada e mal conseguia olhar para Nicolas. Estela a fazia se sentir melhor, vinha conversar com ela às vezes, tentar acalmá-la e dizia que estava de olho nos acontecimentos das fronteiras. No primeiro sinal de abuso de poder, ela se manifestaria. Luci não tinha dúvida disso, mas estava muito abalada para ser otimista.

Outra coisa que estava mexendo muito com Luci era a mudança em sua relação com Ingrid.

Ela gostava da companhia da sentinela, de seu jeito e de como lidava com as situações de cabeça erguida. Sentia uma mudança entre elas depois do que acontecera. Ingrid continuava sendo muito educada e disposta, mas algo estava esquisito, um distanciamento, os olhares ainda mais formais… Luci queria ao menos tentar resolver aquilo, não aguentava mais aquela sensação de que tinha estragado uma relação que estava gostando de construir.

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Luci tentou puxar assuntos aleatórios com Ingrid algumas vezes, mas falhou. Sua relação com Sofia era o maior exemplo de que ela não sabia como se abrir. Ela só tinha conseguido falar do Noite Calma para Juliano, isso porque ele era um mago de cura. Por mais que tentasse falar sobre qualquer coisa, o assunto sempre morria e Luci se sentia envergonhada de continuar.

Durante uma noite em que não conseguia dormir, Luci levantou da cama e foi caminhando até o observatório. Ainda se recusava a dormir no quarto da guardiã, não se sentia confortável. Passou pelos sentinelas, que não fizeram maiores perguntas, e ficou de frente para as portas do Sonhar.

A guardiã segurou a maçaneta e deixou a magia fluir por seus dedos, sentindo o efeito que causava na porta. Depois que a magia se concluiu, Luci abriu a porta, vendo as cores do Sonhar diante dela. Fazia alguns dias que não treinava com Ingrid, mas cada vez mais sentia seus poderes melhorando. Ela passou pela porta, sentindo o ambiente todo em seu redor mudar.

Perguntou-se onde o Camaleão estaria, o que estaria fazendo naquele momento. Fazia tempo que ele não aparecia em seus sonhos. Luci ainda usava o anel que tinha conseguido com ele para ajudar com sua magia. Apesar das melhorias, temia o que podia acontecer caso não contasse com aquela ajuda. Olhou ao redor pelo Sonhar e, com sua magia, foi moldando aos poucos a sala de sua casa na superfície, movendo uma das mãos para ajudá-la a visualizar o lugar.

Havia lendas de que os sonhadores mais poderosos podiam usar o Sonhar para atravessar o próprio tempo, mas ninguém nunca tinha conseguido fazer ou provar aquela teoria. Luci desejava saber como fazer aquilo, poder voltar no tempo e sussurrar para si mesma que não brigasse com Sofia, para tentar conversar com a irmã

Tantos problemas entre as duas poderiam ser resolvidos se Luci não evitasse tanto as coisas, se não ficasse com medo e saísse de perto do que poderia parecer um possível problema. Era a mesma coisa que fazia agora com Ingrid. Ela queria pedir desculpas, queria conversar, tentar saber se ainda poderiam ser amigas, mas tinha medo do que poderia acontecer.

Luci se lembrava de seus treinamentos e, em seu redor, a sala se misturava com o espaço em que Ingrid treinava com ela. Por mais que estivesse sentindo melhor a magia, e que estivesse ao lado de uma das portas e pudesse correr rapidamente dali caso algo desse errado, ela ainda não tinha completo controle. Mal percebeu que as coisas ao redor mudavam, só ficava ensaiando em sua mente inúmeras vezes como podia conversar com Ingrid sobre o que queria.

Então, como se fosse chamada, Luci ouviu:

— Guardiã?

Luci se virou muito rápido ao ouvir a voz de Ingrid, temendo que fosse alguma brincadeira do Sonhar. Como se adivinhasse seu pensamento, Ingrid se aproximou. Luci demorou um pouco para entender que era a sentinela mesmo ali.

— Não sou uma manifestação do Sonhar. O que está fazendo?

— Não conseguia dormir, não vim fazer nada demais… — enquanto ela falava, tudo ao redor voltava a formar a sala de Luci. — Como sabia que eu estava aqui?

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— Eu estava dormindo e senti alguém me chamando pelo Sonhar. Achei que precisasse de mim.

Aquilo era algo que Luci ainda precisava controlar. Sentiu seu rosto esquentando pela vergonha. Pensar muito em um sonhador dentro daquela dimensão, sem controlar sua linha de pensamentos, podia criar uma conexão com a pessoa, ainda mais quando estavam fisicamente próximas. Não era incomum que um sentinela fosse chamado dessa forma quando estavam no Sonhar, seja dormindo ou entrando de forma física.

—Desculpe por isso, não foi nada, eu só estava pensando nos últimos acontecimentos. — Luci virou o rosto.

Ingrid assentiu, sem procurar por mais explicações. A sentinela olhou ao redor, avaliando o lugar que tinha sido moldado.

— Onde estamos?

— Na minha sala. Do meu apartamento da superfície… — a voz de Luci embargou um pouco, o suficiente para ficar evidente. Ela deu uns passos pelo “cômodo”. — Foi a última vez que vi Sofia, aqui. Lá, quero dizer.

A expressão de Ingrid ficou mais pesada, por mais que ela tentasse manter a postura. Luci já tinha percebido que o assunto do sumiço de sua irmã abalava umas pessoas mais do que outras, e Ingrid ficava no grupo de pessoas que sentiam mais o que ocorrera. Luci não sabia dizer se era só pela perda ou se havia algo mais.

— Faz muito tempo? —perguntou Ingrid.

Luci assentiu. Abriu a boca para falar mais e a fechou em seguida. Ingrid não se interessaria por isso, mas Luci estava procurando uma forma de conversar com ela… Então, olhou para a sentinela.

— Foi um pouco depois do que aconteceu na Alvorada —suspirou Luci. — A gente brigou… — Luci parou de falar quando sentiu a voz se alterar ainda mais, virando o rosto mais uma vez.

Ingrid não precisava ver o rosto de Luci para saber que a tristeza que ela sentia era forte. A sentinela sentiu as ondas do Sonhar emseu redor ficando instáveis, abaladas pelas emoções intensas da guardiã. Com o cuidado que todo o sonhador devia tomar, Ingrid se aproximou de Luci.

— É melhor sairmos. Esse assunto a deixa muito abalada, não é bom ficar assim no Sonhar.

Mais envergonhada do que antes, Luci concordou e foi com Ingrid até a porta próxima das duas, saindo do Sonhar e pisando novamente no observatório. A sala continuava vazia e escura. As sensações pareciam mais intensas no Sonhar, mas Luci ainda sentia no peito a angústia de todos aqueles sentimentos, guardados e afundados dentro de si por mais tempo do que eles deveriam ficar.

— Sinto muito —murmurou Luci, sentindo o queixo tremer com o choro que tentava segurar.

— Não precisa se desculpar, guardiã. Esses momentos são difíceis, é preciso tempo para aprender a lidar com as emoções por lá e…

— Não isso… Quero dizer, isso também, mas não… —gaguejou Luci —Desculpe por não ter feito as vistorias como devia. Sei que isso não vai mudar o que já foi feito, mas eu… Não quero que isso faça você me ver como uma criança irresponsável… Não sei, só queria me desculpar, você ficou decepcionada, você confiou em mim…

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Luci já estava chorando, segurou o máximo que pôde, mas as palavras vieram junto com lágrimas e soluços presos em seu peito. Não sabia onde enfiar a cara, só queria não ter se rendido a tudo o que sentia.

Foi mais difícil ainda segurar o choro quando Ingrid a abraçou. Ela sentiu os braços da sentinela, mas não relaxou o corpo completamente. Tentou não fazer muito barulho, não queria que outras pessoas a ouvissem daquele jeito. Ainda mais com a possibilidade de alguém falar para Maurício o que acontecia dentro da Torre.

Quando o choro de Luci foi parando, Ingrid se afastou, vendo o rosto inchado da guardiã.

— Vou levar você até seu quarto. Você precisa dormir.

A companhia de Ingrid era reconfortante, Luci se sentia melhor por ter falado, botado aquilo tudo para fora, por mais que, ao mesmo tempo, se sentisse exposta. Quando Ingrid a deixou, Luci pegou o Noite Calma de uma das gavetas, um dos que tinham sobrado de quando viera. Não tinha nenhum orgulho em usar aquilo para dormir, mas precisava de ao menos algumas horas de tranquilidade.

*

As últimas semanas tinham sido intensas para os cientes da superfície.

Estela reuniu uma assembleia para comunicar sobre a mudança nas fronteiras, informando sobre os sonhadores que serviriam como guardas, observando qualquer atividade perigosa para a segurança dos cientes. A maioria dos que estavam ali ficou muito incomodada, e a própria Estela não estava nada satisfeita com a situação.

Como era esperado, a mudança não foi recebida com calma por todos. Estela soube de brigas, discussões e desentendimentos em vários pontos da superfície. Acabou passando muito mais tempo por lá naqueles dias, tentando auxiliar as pessoas da melhor forma possível.

Helena temeu que no teatro as coisas ficassem bem conflituosas, pois muitos dos jovens ali não gostavam da ideia e se manifestavam bastante sobre o assunto. Para sua surpresa, Giovani foi muito calmo e até otimista quanto à mudança. Ele não era favorável a ela, mas tentou fazer que todos pensassem naquilo como uma ajuda a mais e, já que não estavam fazendo nada de errado, não tinham o que temer.

O mago sonhador designado para o teatro se chamava Gabriel. Era um homem alto, pálido, que aparentava estar em seus 30 anos. Usava óculos pequenos e limpava as lentes com alguma frequência. Ao contrário do que muitos no teatro esperavam, Gabriel foi muito simpático e solícito, tentando explicar como as coisas funcionariam. Também fez questão de explicar que o diálogo entre ele e o casal de donos estava completamente aberto para qualquer assunto necessário. O sonhador tomou nota dos casos problemáticos no teatro, de cientes com problemas de pesadelos, e chamou magos de cura da Escola dos Magos para lidar com a situação, que foi resolvida sem maiores problemas. Helena agradeceu por aquilo ter se resolvido rapidamente. Ela podia não gostar da situação, mas o bem-estar das pessoas ali era o mais importante.

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Os preparativos para a peça do Guardião do Pesadelo continuavam. A estreia seria nos próximos dias, o que fazia que todos ficassem empolgados e ansiosos. Giovani parecia cada vez mais empenhado em seu trabalho, chegando a dormir menos que o normal. Mesmo assim, ele sempre aparecia nos ensaios com muita energia, fazendo o clássico papel do narrador, deixando a voz mais grossa e que todos ali conheciam bem.

Helena estava sentada em uma das cadeiras do salão de apresentações, enquanto os atores seguiam com o ensaio. Giovani estava bem em frente ao palco, de pé, dando instruções e acompanhando tudo.

— O Guardião do Pesadelo. É uma temática pesada.

Gabriel estava logo atrás de Helena. Ela se virou para cumprimentá-lo, nem sabia que ele já havia chegado por ali. Helena se levantou. Não estava muito feliz de ser pega de surpresa, aquela sensação de que Gabriel observava todos os cantos a fazia se sentir desconfortável.

— É uma história muito contada. Acreditamos que nosso roteiro vai agradar tanto cientes quando leigos — sorriu Helena.

— Vocês não se preocupam? Quero dizer, em algum leigo descobrir de alguma forma? Entendo que muitos vão procurar uma explicação de efeitos especiais, mas ainda assim…

Não era inesperado que o Gabriel fizesse esse tipo de pergunta. Já tinha ouvido algumas vezes o questionamento. Depois de tantos anos, ela já tinha seu discurso bem ensaiado.

— Nós sempre fomos muito cuidadosos. Não recusamos ninguém, leigos também têm o direito de conhecer a magia em qualquer momento da vida — como tinha acontecido como ela mesma. — Temos explicações ensaiadas para nossos truques, porém o público costuma aceitar que o que vê é possível. Muitos ficam satisfeitos com um simples “um mago não revela seus truques”. É raro termos algum problema.

— Ser raro não significa que não possa acontecer, todo cuidado é necessário. — Gabriel dizia aquilo de forma simpática, quase condescendente, o que fez Helena se perguntar se ele apenas fingia prestar atenção em suas explicações.

Gabriel continuou assistindo ao ensaio em silêncio. No começo, alguns atores estavam visivelmente incomodados com a presença dele lá, mas Giovani era um bom diretor e buscava fazer que todos ali esquecessem que estavam sendo observados. Helena mantinha um olho na peça e outro no sonhador a sua frente. Talvez eles tivessem dado sorte com a pessoa designada para o teatro.

— Agora é o momento em que o guardião se perde no Sonhar pela primeira vez. Rafael, mostre o que você tem para nós.

O jovem ator esfregou as mãos e suspirou, se concentrando. Ele colocou as palmas das mãos no palco, a uma certa distância dos atores que estavam em cena no momento. Quando estivessem na peça de verdade, ele faria isso atrás das cortinas, para não chamar a atenção.

Todos sentiram a magia tomando forma. Helena teve tempo de ficar feliz por alguns instantes, até perceber que a expressão de Gabriel tinha mudado. Rafael estudava transformação, ele fazia uma ilusão no palco que fazia o cenário parecer menos sólido, com tons de roxo. Assim como o Sonhar. A magia de Rafael foi aos poucos pegando partes das fileiras das cadeiras onde o público se sentaria.

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Quando ele terminou, os atores bateram palmas para seu truque. Giovani estava radiante, muito feliz pelo desempenho, ainda mais porque Rafael tinha sido um dos afetados por pesadelos algumas semanas antes.

Mas uma pessoa não tinha ficado feliz.

— Vocês não pretendem fazer isso durante a peça, não é? —perguntou Gabriel, elevando a voz. Todas as palmas e sorrisos sumiram enquanto Rafael se encolhia.

— É claro que pretendemos —respondeu Giovani. — É isso que vai dar parte do efeito! O público vai amar.

— Não me importa o que os leigos acharão, isso é perigoso. Não faz muito tempo que o teatro ficou em risco de atividade de pesadelos, como vocês sabem bem. — Gabriel não estava convencido. Nessa hora, Rafael pareceu tremer.

Enquanto alguns atores pareciam chateados e até ofendidos com a intromissão, Giovani sorria e parecia calmo. Ele gesticulava com as mãos enquanto falava: — É magia de transformação, não é nada do Sonhar de verdade, nem mesmo mental.

— Magia de transformação é a terceira mais próxima do inconsciente, quanto mais ação do inconsciente, mais afeta o Sonhar — disse Gabriel. Todos sabiam a ordem. Começava pela magia dos sonhadores, mentais, transformadores, elementais, curandeiros e encantadores.

— Nós já fizemos alguns truques com transformação, nunca vamos além disso — disse Helena, se aproximando, enquanto ouvia a discussão. — Rafael não estará sozinho e será um truque rápido, só para efeito.

Gabriel olhou para Helena, depois para Giovani novamente. A expressão severa no rosto dele foi ficando cada vez mais serena, mesmo que ele continuasse parecendo não convencido. Os atores pareciam todos ter prendido a respiração com aquela discussão, esperando pela resposta.

— Espero que estejam certos. Gostaria dos horários da peça para ficar de olho caso algo dê errado.

— Mas é claro! — riu Giovani. — Você vai adorar o espetáculo, tenho certeza.

*

Quanto mais Luci se permitia sentir sua própria magia, mais parecia que sua mente fazia sentido, que as coisas estavam se encaixando internamente, mesmo que por fora o caos fosse total. Ela estava melhor por ter falado com Ingrid, mas ainda se sentia péssima por tudo que tinha acontecido. Ao menos tinha conseguido dar um passo à frente em sua relação com a sentinela.

Ela já se sentia mais à vontade nas consultas com Juliano, observando os efeitos da magia em sua mente e como reagia às mudanças na dose do Noite Calma. Não era sempre que Luci se sentia bem, mas quando foi naquele dia fazer a avaliação com Juliano, percebia que as coisas estavam mudando para melhor. Ao menos uma parte de tudo aquilo estava dando certo.

Aos poucos, Luci foi voltando para a completa consciência, enquanto Juliano anotava algumas coisas no computador. Ele estava satisfeito com os resultados, sabia que Luci não estava passando por nada irreversível. Tinha percebido, desde a mudança do Congresso, que as emoções se Luci estavam diferentes em seu subconsciente, mas em questões da magia havia nítidas melhoras.

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— Está tudo como o esperado, Luci. Logo isso não será mais uma questão para você.

— Eu espero. — Ela se sentou na maca. — Uma preocupação a menos seria ótimo.

As mudanças nas fronteiras afetavam pouco a Juliano, já que era um local pequeno e que não era público, mas de vez em quando ele recebia uma visita de um sonhador para avaliar como as atividades do Sonhar estavam por lá. Não que ele temesse algo que viesse deles, Juliano saberia identificar caso alguma coisa desse errado em sua casa.

— Sofia às vezes dizia que tudo acontecia por um motivo, que as coisas se acertariam de um jeito ou de outro — suspirava Luci. —Tento pensar assim de vez em quando, mas para ela os problemas sempre pareciam menores.

— Esse era um ponto do qual eu sempre discordei dela.

Luci achava bom ter alguém com quem conversar sobre Sofia. Alguém que a conhecia além de ser uma guardiã. Por mais que falasse com Ingrid, e agora estivesse tentando reatar uma relação que estava ruim, Ingrid também sempre viu Sofia como aquela figura importante e idolatrada.

— É estranho ouvir isso de uma pessoa que sempre esteve muito certa sobre eu conseguir melhorar.

— Isso é diferente. Sei os casos em que posso fazer algo ou não, mas tenho uma postura específica em minha profissão. Agora, sobre outros assuntos… — Ele deu de ombros. — Não é que eu ache que as coisas no Ninho não vão melhorar para você, tudo depende. Mas não compartilho desse pensamento positivo sempre, ainda mais nessas questões do Ninho. Às vezes, as coisas só não se ajeitam como esperamos.

Aquilo trouxe um gosto amargo à boca de Luci. Eles não estavam falando daquilo, mas era um pensamento que podia fazer ligação com a situação de Sofia. Ela poderia não ser encontrada, as coisas para ela poderiam não dar certo, ao contrário do que a antiga guardiã imaginava.

O rosto de Luci expressou exatamente o que ela havia pensado naquele momento. Juliano percebeu, notando a falha que tinha cometido. Ele se aproximou, levantando-se de sua cadeira.

— Não estou falando sobre Sofia, me desculpe se pareceu.

— Mas pode ser o caso… — suspirou Luci, tentando não ficar muito emotiva.

— Nenhum de nós dois merece pensar nisso, Luci. — Juliano tentou sorrir, mas também tinha ficado incomodado com a possibilidade. Ele já tinha pensado algumas vezes que talvez nunca visse Sofia de novo, o que lhe estragara várias noites de sono.

O silêncio tomou conta da sala. Se Luci ainda tinha alguma dúvida do quanto Juliano se importava com aquela questão, agora não tinha mais. Sua expressão tinha mudado, Luci imaginou se na mente dele se passavam alternativas tão ruins quanto na dela.

Depois que saiu da casa de Juliano, Luci foi até um café no centro da cidade onde Estela havia combinado para se encontrarem. Fazia tempo que Estela não passava muito tempo no Ninho, ocupada com as questões da superfície. O lugar era pequeno, com várias pessoas aproveitando o espaço para usar seus computadores. Luci encontrou Estela em uma mesa mais ao fundo, sendo atendida por um garçom. Aquele lugar não era uma fronteira. Estela não queria que alguém que respondesse a Maurício ficasse de olho nelas.

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— Como você está, Luci? — perguntou Estela, quando a guardiã se sentou.

— Estou tentando voltar a falar com Ingrid, acompanhar o máximo de atividades na torre, fuçar mais a vida de Sofia… Espero que as coisas estejam melhores para você.

— Muitas brigas e pessoas incomodadas nas fronteiras — falou Estela. — Estou procurando alguma coisa que mostre que a gota d’água para a aprovação do projeto de Maurício foi armada, mas ainda não cheguei lá.

— Ele não armou nada, Estela. Eu realmente não fiz o que deveria fazer. Nicolas sabe disso.

— Eu sei disso, mas nunca ficou muito bem explicado como a informação foi parar nos ouvidos de Maurício. Pelo que Nicolas me contou, teria sido alguém da torre, mas não acredito nisso.

— Mas faz sentido.

Muitos sentinelas, por serem os melhores alunos entre os sonhadores, tinham uma lealdade muito grande a Maurício e a seus pensamentos conservadores. Sofia tinha conquistado a maioria dos magos da torre por causa de sua competência, mas Luci parecia um animalzinho frágil perto do que sua irmã tinha feito.

Estela se endireitou na cadeira, se aproximando de Luci, como se temesse que alguém pudesse ouvi-las.

— Um pouco antes de Maurício falar com Nicolas, eu visitei o teatro. Sua mãe tinha me falado dos casos que tinham acontecido ali. Sem uma investigação maior no Sonhar, as únicas pessoas que sabiam, além de mim, estavam na fronteira.

— Então você acha que quem falou para Maurício estava no teatro? — Luci parecia confusa. — Ninguém lá vai muito com a cara dos grandes magos da Escola. Você sabe do preconceito que sofremos. Não imagino algum deles falando com Maurício sobre isso. Poderia colocar o teatro todo em risco.

— Levei isso em consideração. Mas quanto mais penso no assunto, e mais entendo os esquemas de Maurício ao longo desses anos todos, mais acredito que há algo que ainda não sei.

O consolo de Luci era que, pelo que indicavam as mensagens que trocava com seus pais, o sonhador designado para o teatro não era tão ruim quanto poderia ser. O que não a fazia se sentir menos culpada pela situação toda que havia causado.

— Nicolas ainda está chateado? —perguntou Luci.

Estela mediu suas palavras por um momento. Sim, ele estava, mas o problema não era apenas o que tinha acontecido com Luci. Não tinha sido uma época fácil e Estela conseguia ver aquilo piorando no Senhor do Ninho a cada dia que passava.

— Ele está muito ocupado, Luci. — Estela tentou desviar da pergunta.

— Quanto tempo mais será que ele vai ficar “ocupado”? — Luci fez sinal de aspas. Não duvidava que ele estivesse ocupado, mas sabia que não era só isso daquela vez.

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— Pretendo conversar com ele em breve para ver como tudo está caminhando. — Estela tentou acalmar a guardiã.

Luci assentiu, sabendo que não podia fazer nada em relação a isso. Já estava se dando por feliz que a relação com Ingrid parecia poder voltar ao normal. Estela suspeitava de alguma armação desde o começo, mesmo assim Luci ainda tinha algum receio do que a Senhora do Ninho poderia ter pensado naquele tempo. A guardiã pagou sua parte da conta e falou antes de se levantar:

— Desculpe por toda essa confusão, Estela. Não vai se repetir. E qualquer coisa que você precise eu estou aqui, de verdade.

— Você não precisa se desculpar. E saiba que é recíproco. Estamos juntas nisso, certo?

Depois que Luci seguiu seu caminho para o Ninho, Estela mandou mensagem para Nicolas para saber como as coisas estavam. Já tinha tentado falar com ele mais cedo naquele dia, sem sucesso.

Ele poderia simplesmente estar ocupado ou longe de seu celular. Nicolas também podia não querer responder, o que era uma escolha dele. Estela teve uma sensação esquisita de que poderia ser alguma coisa preocupante, mas tinha prometido que não falaria com mais ninguém sobre suas preocupações em relação a Nicolas. Por mais que ela não concordasse com suas escolhas, eram as que ele tinha feito e Estela não podia se responsabilizar por isso.

*

Finalmente o dia da estreia de O Guardião do Pesadelo tinha chegado.

Giovani estava muito animado. Ele havia colocado muito esforço naquela peça. Sempre se dedicava a todas que fazia, amava seu trabalho, mas aquela tinha necessitado de um esforço maior. O tema da peça era pesado em alguns momentos e a equipe sentia isso. Sem contar todos os problemas que tinham acontecido no mesmo período. Organizar a peça tinha se tornado um refúgio para que Giovani não afundasse em pensamentos que só fariam mal a ele.

Quem o via tinha a impressão de que ele tinha certeza de que tudo daria certo. Quando alguém mencionava Sofia, ele respondia com certeza de que ela voltaria sã e salva. Conhecia sua filha, ela era forte, e ele sabia que o Ninho não pouparia esforços para encontrá-la. Para ter certeza de que manteria aquele pensamento positivo, ele deixou seu trabalho artístico ocupar a maior parte de seu dia.

Helena sabia que tudo não era flores. Giovani passava o dia motivado, trabalhando, mas ela acordava algumas noites e não o via na cama. Estava lendo, ou andava pelo teatro para afastar qualquer pensamento ruim.

Naquela noite, sua felicidade era palpável. Já fazia muito tempo que ele queria adaptar aquela história, ouvira falar primeiro do Guardião do Pesadelo através de sua mãe e sempre achou aquela uma das histórias mais interessantes, por mais que tivesse um clima mais pesado. Ele estava se arrumando na frente do espelho de seu quarto: sua barba trançada, os cabelos arrumados e um chapéu preto por cima. Tinha escolhido um blazer bonito para vestir, cor de vinho, com uma camisa branca. Sua calça era escura, do mesmo tom do blazer.

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Apesar de não parecer, não importava quantos anos se passassem, Giovani sempre sentiria aquele frio na barriga antes de uma peça nova começar. Antigamente, ele tinha aquela sensação ruim na barriga durante a noite toda. Hoje em dia, qualquer insegurança sumia assim que ele subia no palco e começava a falar. Ele era o apresentador, quem narrava as peças e guiava os atores, sabia que não podia aparentar qualquer nervosismo. Era seu dever passar segurança.

Quando ele estava dando os últimos toques em sua aparência, Helena entrou no quarto. Ela havia se arrumado antes e tinha ido verificar se estava tudo certo com os ingressos. Estava usando um vestido azul, de mangas compridas. Seu colar mágico, que usava para identificar atividades do Sonhar, estava no pescoço. Ela o colocava por baixo da roupa para não chamar a atenção, então era possível ver apenas a corrente. Helena usava o colar durante todas as peças por segurança.

— Você está maravilhosa. — Giovani segurou uma das mãos de Helena, fazendo-a dar um giro.

— Você também, meu bem —respondeu ela, o fazendo girar também, tendo um pouco mais de dificuldade pela diferença de altura. — Está pronto? Como se sente?

— Eu me sinto ótimo! Estava ansioso para apresentar algo novo! Pelos ensaios, sei que vai ser uma das nossas melhores peças. Como estamos lá fora?

— Lotados. As pessoas ainda estão entrando, mas vendemos bem. Estão todos lhe esperando.

O casal foi para a área atrás do palco sem demora. Dava para ouvir o barulho da plateia chegando e se acomodando do lado de fora. Uma mistura de cientes e leigos. Os atores estavam todos preparados, com suas fantasias, se alongando, repetindo falas do roteiro e se abraçando. Quando Giovani e Helena chegaram, todos prestaram atenção nos dois.

— Eu quero mais uma vez agradecer a todos vocês que tornam esse sonho possível — disse Giovani, enquanto abria os braços. — Isso tudo é um trabalho nosso! E fica cada vez melhor por causa de todo o esforço e paixão que colocamos nisso! Sabemos que nem todos aprovam o que fazemos, que podem nos menosprezar, mas só nós sabemos a alegria que é fazer parte disso. — Antes de Giovani conseguir continuar, todos bateram palmas. — Lembrem-se de que Helena e eu estamos disponíveis durante toda a peça caso precisem de qualquer coisa. Merda para vocês!

— Merda! — falaram todos em coro, enquanto voltaram a bater palmas.

Helena limpou os olhos marejados. Apesar de tudo que pudessem passar, e de nem sempre terem os momentos mais fáceis, poder concretizar a paixão de todos ali era sempre uma vitória. Cada peça realizada era um pouco mais de força que eles ganhavam contra todo o preconceito vindo de outros cientes do Ninho. Quando Giovani criou aquele grupo, há anos atrás, ele só queria compartilhar alegria, diversão e, de certa forma, magia para as outras pessoas. Não era algo ruim, muito pelo contrário, era divertido e inspirador. Helena esperava que um dia todos pudessem entender aquilo.

Enquanto os atores se arrumavam, Helena sentiu seu celular vibrar. Quando puxou para ver o que era, percebeu que tinha recebido uma mensagem de áudio de Luci, com outra de texto logo embaixo escrito “Escute com o papai”. Helena puxou Giovani para um canto e trouxe o celular o mais próximo do ouvido deles que conseguiu.

Oi, mãe! Oi, pai! Queria poder estar aí. Espero que a peça fique por tempo o suficiente para eu poder assistir. Merda para vocês!… Amo muito vocês dois, estou com saudades.

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— Estou com tantas saudades… — murmurou Helena, sentindo aquela dor no peito que já tinha ficado bem comum durante todos aqueles dias.

Giovani assentiu, sorrindo. Luci era muito mais quieta e reservada para expressar seu afeto. Quando não ia a uma estreia, ela costumava só desejar boa sorte do jeito comum do teatro. Giovani entendia aquilo muito bem, teve aquela sensação forte de que queria muito Luci ali. Sofia também, as duas filhas assistindo à peça que ele tinha certeza de que elas iam gostar.

Todos atrás do palco ouviram o primeiro aviso de que a peça começaria em poucos minutos. Helena se despediu de Giovani com um beijo, enquanto saía de lá para se sentar com a plateia, em uma das primeiras fileiras, em seu lugar reservado.

Giovani respirou fundo para se concentrar, passar suas falas de narrador rapidamente pela cabeça. A peça que tinha montado passou diante de seus olhos. Tudo daria certo, sempre dava. Se tinha uma coisa que ele sabia fazer era um espetáculo funcionar. Era um momento difícil, cada dia era uma luta para manter a cabeça funcionando e não se render à tristeza, mas ele amava tudo aquilo e nada poderia tirar aquela sua felicidade. As coisas dariam certo.

Com o segundo aviso, Giovani checou no espelho para ver se tudo ainda estava no lugar. Os atores se arrumavam, o silêncio ficando cada vez mais presente, tanto ali quanto na plateia.

Enquanto as luzes ficavam cada vez mais fracas, indicando o começo do espetáculo, a cadeira vazia ao lado de Helena foi ocupada por uma pessoa. Quando virou seuo rosto para ver quem era, reconheceu-o imediatamente.

— Oh, Gabriel, que bom que pode vir.

— Estou ansioso para ver como ficará o resultado, vocês são muito dedicados durante os ensaios. — Gabriel se ajeitou na cadeira. Helena também sabia que ele tinha vindo vigiar, mas nenhum dos dois disse isso em voz alta.

As luzes foram se apagando aos poucos e Helena juntou as mãos, apertando os dedos e torcendo para que tudo desse certo. Toda a plateia ficou em silêncio. As cortinas cor de vinho do palco foram se abrindo, revelando o cenário de um escritório, com um dos atores ao fundo, a cabeça apoiada nas mãos. O escritório em questão estava uma bagunça. Tudo como planejado. Poucos ali conseguiam reconhecer que o cenário lembrava o escritório da torre do Sonhar.

Do lado esquerdo do palco, Giovani apareceu, dando passos largos e com uma expressão muito séria no rosto, quase assustadora. Havia um toque de terror na peça. Giovani estava com as mãos cruzadas na frente do corpo. Sua voz quebrou o silêncio do lugar.

— Cada pessoa tem uma relação diferente com a magia. Algumas se maravilham, outras a temem e ainda há os que a ignorem por completo. Já vou avisando que essa história não tem um final feliz. Aqui, vamos falar sobre como a obsessão afetou completamente a vida de um homem. Convido todos a conhecerem a história do Guardião do Pesadelo.

Giovani deu um passo para o lado, de maneira teatral, ficando por trás das cortinas novamente enquanto o ator começava a se mexer no escritório. Logo, ele seria abordado por um dos sentinelas e a história seguiria seu curso.

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Todo o momento em que o Sonhar era trazido no roteiro da peça, havia algum personagem que avisava sobre os riscos de sair andando a esmo por aquela dimensão, sem controle de seus próprios pensamentos. O ator principal, que interpretava o guardião, estava avisado de, a cada cena, demonstrar mais e mais como seu personagem mudava a postura com aqueles avisos. Giovani entrava eventualmente na cena para narrar algo que acontecia. As pessoas que frequentavam mais o teatro estavam acostumadas com a presença do narrador, gostavam daquela espécie de personagem que aparecia em todas elas.

Helena olhava no relógio com alguma frequência, para ver se o ritmo da peça batia com a minutagem que eles tinham programado. Por enquanto, tudo estava saindo conforme o planejado. A plateia tinha as reações esperadas. Até Gabriel, que tinha receio sobre o conteúdo da peça durante os ensaios, estava se surpreendendo junto com o resto do público.

A peça estava caminhando para seu primeiro intervalo. Seria o primeiro contato perigoso do guardião com o Sonhar, em suas regiões com mais pesadelos, onde ele deixaria suas emoções mais livres, se perdendo pela primeira vez. Naquele momento, Giovani viu Rafael se preparando no fundo do teatro, colocando as mãos no chão para fazer seu truque de transformação.

Giovani parou de olhar para a peça por um momento e prestou atenção no rapaz. Queria estar certo de que a magia dele estava funcionando, e que ele estava bem. A princípio, não havia nada de errado, Giovani ouvia as falas do ator do guardião e em breve as cortinas se fechariam para o primeiro intervalo. A plateia toda estava impressionada com os tons roxos que começavam a surgir no palco, envolvendo o palco todo. Alguns se levantaram para ver o “efeito” melhor. Helena deu uma espiada para o lado, procurando uma reação ruim de Gabriel, mas não viu nada.

O guardião agora encontraria a porta que dava acesso ao Sonhar, cairia de joelhos no observatório e começaria seu discurso de nunca ter se sentido tão vivo. Rafael esperou as falas do seu tempo e parou com sua magia, sorrindo, satisfeito com o que havia feito. Giovani estava feliz com o resultado e já passando o roteiro da próxima parte em sua cabeça.

Foi quando ele sentiu um arrepio de magia que não esperava.

Seus olhos foram na direção de Rafael, que olhava para o palco com uma expressão de confusão. O rapaz ainda estava sentado no chão. Giovani acompanhou a direção do olhar dele. O ator do guardião continuava suas falas, mas algo não estava certo. A fumaça que lembrava o Sonhar, que deveria ter desaparecido do palco, ainda estava presente. E mais intensa.

Não era mais apenas uma ilusão. Era de fato atividade do Sonhar. Giovani prendeu a respiração, sentindo as mãos começando a suar. Não conseguia entender o que estava acontecendo. Helena estava tão confusa quanto ele, sentada na plateia e se inclinando na cadeira.

Enquanto ele percebia aquilo, Gabriel começou a se levantar da cadeira, sentindo que aquilo não estava correto e se mexendo para sair dali. Ele passou por Helena com pressa. Ela segurou o colar que usava, puxando o pingente branco para seu campo de visão. Ele estava todo colorido com as cores do Sonhar, o que significava que a fonte principal da magia estava por perto, o que fez seu corpo gelar.

Antes que pudesse se levantar também, sentiu os tons se modificando, como se fossem se clareando e com apenas uma direção mantendo o tom mais escuro. Aquilo servia para mostrar de onde vinha a fonte de magia. Helena levantou os olhos para ver de onde era, mas já calculando a verdade que não queria acreditar.

O colar apontava que aquela magia inesperada no teatro vinha do próprio Gabriel.