Já faz algum tempo que eu tenho pensado em como a cultura pop ajuda a disseminar uma ideia tóxica e prejudicial de relacionamentos. Não só a cultura pop em si, mas qualquer tipo de mídia. Como aqui nós nos focamos na parte nerd, vamos manter a conversa aqui.

No último COLABI que fizemos no nosso canal do youtube, eu estava conversando com a Camila Cerdeira do Preta, Nerd e Burning Hell sobre a relação da Ruby e da Sapphire, consequentemente Garnet, de Steven Universe. Eu já comentei em alguns lugares que sempre tive alguma preocupação sobre como o casal representaria a questão da dependência. Afinal, as duas juntas formam uma outra pessoa, então no começo da minha aventura de assistir Steven Universe, eu temi que Garnet passasse uma ideia de só estar completa quando as duas estavam juntas.

Nós crescemos e vivemos ouvindo histórias dos casais perfeitos, das almas gêmeas, as duas pessoas que estão destinadas a ficar juntas pelo resto da vida, que só vão estar felizes quando realmente se encontrarem. Junto com isso, passam a ideia de que todo o problema pode ser resolvido com amor e compreensão, afinal de contas aquela é a sua alma gêmea.

Há muitos aspectos desse assunto que dá para falar, mas vamos focar aqui na parte da dependência, nessa ideia das “duas metades da laranja”. A base de muitas das histórias românticas, incluindo as de princesas, é a ideia de que o príncipe encantado vai aparecer e ser tudo que a outra pessoa precisa para viver. Que independente do mundo inteiro, se as duas pessoas estiverem juntas e se amarem, tudo vai dar certo. Junto com isso, cria-se a ideia de que essas duas pessoas precisam sempre estarem juntas, afinal de contas elas precisam uma da outra.

Isso não parece um pouco… Problemático?

Não é um pouco absurdo pensar que, durante a sua vida inteira, você só vai encontrar uma pessoa e essa é a única que vai te amar, te completar, te fazer feliz, etc? Não parece um pouco demais esperar que uma pessoa, e apenas aquela pessoa, vai suprir todas as suas necessidades, vontades e desejos? Não parece um tanto quanto irreal que alguém vai ser 100% perfeito para você em todos os aspectos? E não parece um pouco desconfortável a ideia de ficar sempre junto e dependente de outra pessoa?

Eu não estou aqui tentando ser pessimista ou julgar nada. É ótimo ter alguém do seu lado pra te ouvir, apoiar e dar carinho. Também não quero dizer que essas coisas não possam vir de um amigo. Mas sim, é legal estar com alguém, eu sei bem que é. Também não quero dizer que estar com alguém que você ame e se sinta bem não ajude a enfrentar as coisas, a seguir em frente. Amar alguém é muito bom em vários aspectos sim. E também não estou aqui tentando dizer que “uma pessoa só não dá conta, então não-monogamia é a resposta” porque quem sou eu na fila do pão pra ditar qual o melhor modelo de relacionamento para as pessoas. Não existe “resposta”, existe o que funciona pra cada um.

O que eu quero criticar é essa ideia de dependência que criamos com todo esse mito do “verdadeiro amor”. Sim, é um mito, muito provavelmente você não vai ficar com apenas uma pessoa a vida inteira, desde a adolescência até o momento da sua morte, como acontece com as princesas da Disney. Não existe só aquela pessoa e nenhuma das outras que cruzarem a sua vida “não servem”. O que é o problema é esperar e cobrar que a pessoa com quem estamos seja essa perfeição, que ela e apenas ela é a resposta para todos os problemas. É ruim romantizar essa dependência, essa ideia de que só somos completo quando encontramos aquela outra pessoa.

Nós temos que ser completos por nós mesmos. E tudo bem se em certos momentos estamos infelizes e tristes, mas a resposta não está no outro. Não é uma ideia fácil de tirar da cabeça, porque ela é enfiada goela abaixo de todos nós desde sempre, principalmente das meninas. Eu passei a minha infância achando que um dia ia encontrar o cara que seria meu príncipe, que ia suprir todas essas expectativas e seríamos tão juntos que não conseguiríamos ficar separados. E isso é ruim, podendo virar um comportamento tóxico.

Ainda assim, nós romantizamos toda essa dependência. E, como já disse lá em cima, eu achei que isso fosse acontecer com o caso de Garnet, mas não. Na quinta temporada, existem episódios focados na relação de Ruby e Sapphire, onde elas podem passar um tempo separadas para saber o que realmente querem. Nessa parte do arco, em momento nenhum Rebecca Sugar as coloca como se só fossem completas juntas. Elas estão inteiras, mas querem a companhia uma da outra. Querem virar o 200%, que é Garnet.

Também acho que aí vale tocar nesse assunto tabu que é discutir a monogamia. Quando conversei com a Camila, nós chegamos a conclusão que, mesmo que as gemas apresentem elementos de não-monogamia, e algumas delas sejam não-mono de fato, Ruby e Sapphire são um exemplo muito saudável em vários aspectos de elementos que deveriam existir em relações monogâmicas representadas na mídia.

Eu não estou dizendo que só relações monogâmicas possuem problemas, nem que pessoas deixam de ser possessivas, dependentes ou ciumentas na não-monogamia. O que eu estou dizendo é que, a ideia do par perfeito que vai te completar e só querer você, é uma romantização ruim que sim, tem relação com a ideia da monogamia ser o único modelo visto como válido de relacionamento. Tá tudo bem ser monogâmico ou não-monogâmico, o que nós devíamos começar a falar é como certas romantizações de aspectos da monogamia nos passam essa ideia de dependência e uma pessoa “única” para a sua vida. Garnet poderia muito ter caído nesse ponto, mas Rebecca Sugar não cai no clichê, e insiste nas duas pessoas completas que estão uma com a outra. Não porque precisam, mas porque querem.