Pessoas que carregam traumas precisam encontrar maneiras de lidar com esse fardo, é uma questão de sobrevivência. Dentro de um espectro (bem simplista) que vai do saudável ao nocivo (e, em alguns casos, até do criminoso), as formas de enfrentar traumas não são capazes de apagá-lo – a pessoa vai carregar aquilo pro resto da vida e, se tudo der certo, vai aprender a lidar com isso. A maioria das pessoas, entretanto, não tem acesso a coisas que são necessárias nesse aprendizado, como tratamento psicológico, ambientes sociais e/ou familiares acolhedores, dentre outros. Muitos de nós que carregamos traumas passamos anos de nossas vidas sem ter ferramentas sequer pra nos expressar, pra articular nossas experiências.

(E o que não falta são obras literárias que falam dessa incapacidade de articulação, desde livros da “alta literatura” como Vidas Secas do Graciliano Ramos e Nova História de Mouchette de George Bernanos à incrível trilogia Imperial Radch da Ann Leckie, Ancillary Sword, Ancillary Justice e Ancillary Mercy; livros assim me ajudaram muito, inclusive.)

Existem muitas pessoas adultas que são ou se tornaram incapazes de lidar com sua própria carga emocional e usam alguém como suporte – ao invés de aprender a cuidar de si mesmos, essas pessoas delegam a alguém próximo o fardo de lidar com suas próprias ações e emoções. Isso cruza de forma perversa com papéis de gênero da nossa sociedade, que reforçam o ideal nocivo (e binário, portanto, excludente) de que são as mulheres que devem lidar com essas questões emocionais, inclusive no sentido de amparar e cuidar dos homens à sua volta.

Não é incomum encontrarmos pais que usam os próprios filhos como suporte emocional. As crianças, entretanto, não são capazes (e não deveriam ser) de aprender a lidar com a realidade emocional de uma pessoa adulta que demande isso delas. Esse tipo de relação, no fundo, é uma forma de negligência e abuso emocional.

Em Geek Love, Katherine Dunn nos apresenta os Binewski, uma família circense que é dona da sua própria comitiva itinerante. A trama é narrada por Olympia (Oly), uma das filhas de Aloysius (Al) Binewski e Crystal Lil. Oly nos conta a história em duas linhas narrativas: a do presente, num momento crítico para seus relacionamentos familiares remanescentes, e a do passado, na qual desvendamos como foi a ascensão e a queda do Fabuloso Circo Binewski.

Apesar do título, e do fato de que muitos nerds têm os mesmos problemas emocionais de que o livro fala, o nome da obra vem da forma como se chamavam nos Estados Unidos os artistas de trupes circenses com atos mais estranhos – a alcunha de geek teria vindo dos artistas que costumavam arrancar cabeças de galinhas vivas com os dentes (aquilo que depois passamos a chamar de Alice Cooper e Ozzy Osbourne).

Os pais de Oly, Al e Crystal, decidiram criar um “freak show” com seus próprios filhos. A cada vez que Crystal ficava grávida, os dois faziam experimentos caseiros com isótopos, produtos químicos, inseticidas e outros elementos, com a intenção de causar deformações nas crianças que sobrevivessem à gestação. O que eles esperavam conseguir pros filhos é uma mistura de garantir seus futuros (um “freak” sempre teria trabalho, pois sempre haveria alguém disposto a pagar ingresso pra vê-lo), mantê-los protegidos do resto da sociedade (que, ainda que estivesse disposta a admirá-los por serem “freaks”, também é um perigo por não entendê-los e, por isso, ameaçá-los), dentre outras racionalizações bizarras. O fato é: os dois e os filhos sobreviventes a esses processos experimentais se tornam um núcleo familiar isolado, fechado em si mesmo.

A descrição física de Oly e de seus irmãos, ainda que vista sob a própria perspectiva de Oly, é impactante. Oly é descrita como uma anã corcunda e albina; Arturo (Arty) é um garoto que nasceu com as mãos e pés deformados, parecidos com nadadeiras; Electra (Elly) e Iphigenia (Iphy) são irmãs gêmeas conjugadas; Fortunato (Chick), ainda que tenha a aparência de um bebê sem deficiências físicas, é dotado de poderes telecinéticos.

Uma das linhas temáticas do romance é sobre capacitismo, que passa pela aparência e pelas deficiências das personagens. A abordagem desse tema envolve também a fetichização com que a sociedade norte-americana (e a nossa também, óbvio) muitas vezes se volta para as diferenças corporais – a própria noção de espetáculo passa por isso, da forma como a família tira seu sustento do circo, que torna a própria existência e sobrevivência dos filhos uma “apresentação”, algo pra se cobrar ingresso e embasbacar o público. O assumir o papel de um Outro que nunca poderá se integrar à sociedade que a espetacularização (e a fetichização também) das condições de existência dessas crianças tem um impacto traumático imenso e é um dos causadores do clímax dramático da história.

A leitura de Geek Love não é fácil e com certeza dispara todos os gatilhos que se pode imaginar. O retrato das diferentes formas de violência e de abuso com que a sociedade “exterior” à família trata os Binewski é pesado e triste, e esse mesmo nível de violência vai se instalando dentro das próprias relações familiares.

A partir de um determinado momento da trama, Arty cria um culto e transforma todo o circo em uma comitiva itinerante que o apresenta como uma figura messiânica. Para atingirem uma suposta iluminação e se aproximarem cada vez mais de seu líder, os membros do culto são mutilados aos poucos (as vítimas acreditam que com seu próprio consentimento, não percebem que estão sendo manipuladas), até perderem todos os membros. Não é algo fácil de se ler, e nem de longe o único elemento desse tipo na trama.

Ainda que exista amor e cuidado na relação dos pais de Oly com os filhos, antes mesmo que Arturo tome as rédeas do destino da família e a conduza rumo a uma tragédia, a relação dos pais com as crianças é carregada por padrões de comportamento nocivas. Mesmo que eles se afirmem separados do resto da sociedade, tanto Al quanto Crystal reforçam um ideal de família que é pautado pela idealização, e não pelo afeto e honestidade emocional, pela proximidade.

Al e Crystal fizeram tudo pra ser uma família de “outsiders”, de “freaks”, pra proteger seus filhos dos inúmeros males que enxergavam na sociedade da qual faziam parte, pra que as crianças não tivessem que passar pelos mesmos traumas que eles provavelmente tiveram. Sem perceber, no entanto, compraram o mito do excepcionalismo individualista a tal ponto, queriam que os filhos fossem tão diferentes que os próprios corpos e capacidades deles fossem mutações, frutos da sobrevivência contra os violentos experimentos conduzidos durante a gestação. Crystal se permitiu ser cobaia nas mãos de um marido que ela enxergava muito mais como o ideal em que acreditava, ao invés de ver a pessoa de fato presente – seus valores e traumas a cegaram.

Ao fazer de Al um ideal de “pai provedor e protetor” da família, a quem não se questiona, um homem incapaz de errar, as relações familiares (já carregadas de inúmeros problemas de antemão trazidos pelos traumas dos pais, que os levaram a conduzir experimentos com os próprios filhos) são contaminadas por uma espécie de idolatria pelo papel exercido pelo pai – que abre espaço, num determinado momento, para o papel de líder espiritual de Arturo, que suplanta o próprio pai.

A idolatria pelo papel do pai provedor, sinal máximo de uma masculinidade que não deve ser questionada, a quem se dá o poder econômico, social e político do núcleo familiar, e a projeção dessa hierarquia masculina e tirânica de poder pra todos os aspectos da sociedade – pro CEO da empresa, pro presidente “pai da nação” – é uma forma política que tem nome: fascismo.

Essa idolatria que está na raiz das tragédias de Geek Love, a crença no papel masculino ditado pelo ideal da família tradicional, é o mesmo que contamina a sociedade brasileira há muito tempo. As sementes pro fascismo de Jair Bolsonaro não podem ser traçadas olhando apenas pros últimos anos – o Brasil também é fruto de uma série de experimentos sociais perversos, do qual nossa cultura nunca se recuperou e pelos quais nunca atravessou processos de reparações históricas.

O livro é narrado por Olympia pra sua filha, Miranda. Oly mora na mesma casa de Miranda e de sua mãe, que não é mais capaz de reconhecer a própria filha. Miranda, por sua vez, ainda que tenha sido sustentada por doações de Oly durante sua infância e adolescência, não a conhecia até determinado ponto da trama e não sabe que Oly é sua própria mãe.

Ou seja, se durante a juventude Oly era o apoio emocional da família, tanto na época em que seu pai mandava nos Binewski quanto no período do culto de Arturo, ela eventualmente se tornou a provedora de seus familiares remanescentes. Mas, ainda que tenha se tornado essa figura que provém pros familiares, ela ainda é incapaz de criar laços de afeto com sua mãe ou sua filha.

A incapacidade de Olympia de estabelecer laços afetivos sinceros e profundos é fruto direto da idolatria debaixo da qual sua família viveu – a idolatria do “pai provedor e protetor”. Por não se perceber aprisionada por esses valores e não os questionar, ela nunca foi capaz de superá-los.

Essa me parece a principal lição, se é que se pode chamar assim, de Geek Love. Quando as famílias e a sociedade tratam suas crianças como frutos de um experimento conduzido debaixo do ideal perverso de família tradicional, as pessoas se tornam “monstros” – mas não no sentido de “freaks” ou excluídos. O ideal da família tradicional e a submissão desinformada ao de “pai provedor e protetor” (que, via de regra, é imaturo emocionalmente) transformam o afeto em uma coisa que ele não é – no sentimento de “nós contra eles”. As pessoas se tornam monstros sociais, viram fascistas.

Pra construir laços verdadeiros e não aceitar o papel de aprisionados dentro do castelo, é preciso procurar e aceitar outras formas de viver em família que não a da família tradicional.


GeekLove é um lançamento da Darkside Books. Você encontra os dois livros na Amazon, e quem sabe utilizar os nossos links:


Carlos Norcia é roteirista, diretor e nas horas vagas lê livros que dão ruim na cabeça dos desavisados.