Nós Sempre Vivemos no Castelo de Shirley Jackson

Certos traumas nos forçam pra dentro de nós mesmos, perdidos na incapacidade de comunicar nossas dores, tornados fantasmas de quem éramos pelas mãos de outras pessoas. Em circunstâncias como essas, é comum que aqueles ao nosso redor se deixem conduzir pelo véu de silêncio que nos recobre, que nos afasta – o que só faz com que a experiência de sermos fantasmas de nós mesmos se intensifique, tome conta da forma como somos percebidos pelos outros. Com o tempo, a percepção dos outros sobre nosso silêncio, no âmago da qual reside a incompreensão, pode se transformar em ausência de empatia – podemos nos ver, subitamente, cercados por indiferença, por ignorância e até mesmo por ódio.

Fazia anos que eu queria ler Shirley Jackson, mas foi só em 2018 que eu juntei forças pra me debruçar numa obra dela: Nós Sempre Vivemos no Castelo.

Desde as primeiras páginas, a impressão que a obra me causou era de que se tratava de uma história sobre duas garotas tornadas fantasmas de si mesmas por situações que, a certa altura, se tornaram forças além do controle delas. Eu me identifiquei bastante com a luta interior quase absurda que Merricat, a protagonista, trava pra conseguir afirmar, nem que seja apenas pra si mesma, que ela é capaz de retomar o controle de sua vida, ainda que esteja lutando contra a espiral descendente de catástrofes pelas quais a trama (e o destino) lhe faz(em) passar.

Nós Sempre Vivemos no Castelo narra, sob o ponto de vista em primeira pessoa da Mary Katherine “Merricat” Blackwood, a história dos membros remanescentes da família Blackwood, que moram numa mansão numa cidadezinha em Vermont, nos Estados Unidos. Merricat está com 18 anos de idade e vive com sua irmã, Constance, 10 anos mais velha, e Julian, seu tio, que tem dificuldades de locomoção e um estado mental frágil, em decorrência de um envenenamento por arsênico de que ele foi o único sobrevivente. Foi nesse mesmo incidente que Merricat e Constance perderam seus pais, sua tia (a esposa falecida de Julian) e seu irmão caçula.

Logo de início, o livro nos apresenta um dos paradoxos que o tornam uma obra-prima: ainda que saibamos que Merricat é uma narradora não-confiável, a construção textual de sua voz é tão incrível, ela é uma personagem tão densa e carismática, que instantaneamente estamos junto com ela, dividindo suas dores, suas esperanças e nutrindo seus ódios.

Constance passou anos sendo acusada de assassinar os membros falecidos da família, num traumático processo judicial que terminou antes do início do livro. Ainda que o processo tenha sido concluído, a população local acredita que Constance é a culpada. Em decorrência disso, e das condições debilitadas da saúde de Julian, resta a Merricat a função de abandonar o refúgio do lar pra realizar os afazeres do lado de fora.

O nível de ódio que Merricat recebe da população da pequena cidade é assustador – mas não é surpreendente pra quem conhece cidades pequenas como essa retratada pelo livro, ou o Brasil. A escrita de Shirley Jackson é capaz de articular a forma como esse ódio atinge Merricat, os mecanismos interiores (sejam estes saudáveis pra ela ou não) com que a garota se arma pra dar um jeito de se defender da percepção nociva de si mesma com que o mundo exterior busca contaminá-la.

Um dos temas da trama é agorafobia – bem por cima, o medo de sair de casa. Aliada à hostilidade que Merricat enfrenta vinda dos cidadãos da pequena cidade, isso dá ao livro um clima bem opressor. É desse clima e dos nossos questionamentos sobre o que realmente aconteceu na noite em que a maioria dos Blackwood foram envenenados com arsênico que nasce o suspense da obra.

Dentro das cercas da propriedade da família, roubada de praticamente toda sua liberdade de agir, causar mudanças ou mesmo de se expressar do lado de fora daquelas muralhas, Merricat pratica magia simpática – ela acredita que seus pequenos e obsessivos rituais são capazes de alterar ou mesmo manipular o mundo à sua volta.

Existe uma camada do texto que se abre pra possibilidade de que as simpatias de Merricat estejam, de fato, servindo como um dos fatores determinantes dos eventos ao seu redor. Mas essa não é, nem de longe, a única explicação pros eventos da trama. Sob outra perspectiva, a necessidade de Merricat de exercer a expressão de seus desejos através desses rituais, que em tese não causam efeitos diretos perceptíveis sobre a realidade à sua volta, é mais um testamento da impossibilidade da protagonista de se posicionar e agir perante o mundo; uma incapacidade que não é inata, que não nasce de traços de personalidade, mas que é fruto dos traumas. Essa, me parece, é mais uma maneira do livro retratar um nível de agorafobia que é maior do que o medo de sair de casa, de situações sociais – é um retrato de um medo tão grande, que as outras pessoas e o mundo lá fora se tornam incompreensíveis.

É com a chegada do primo Charles Blackwood, por quem Constance rapidamente se sente atraída, que a frágil estabilidade da família começa a ruir. A repulsa de Merricat por Charles vai além do fato de que ele representa o que há de vil e interesseiro no mundo fora da propriedade; ao entrar na residência e passar a dormir nos aposentos do falecido pai de Merricat e Constance, Charles assume o papel que ele acredita ter por direito: o suposto “homem da casa”.

Alguns leitores encontram na personalidade de Merricat certos traços de sociopatia. Essa percepção se conecta com a maneira como o passado nos é revelado, que é parte da maestria da composição da personagem. Mas, se é que Merricat é uma sociopata, o livro também nos mostra que seu comportamento é fruto de uma vida social e familiar que a sufocava.

Assim como o mundo exterior, com seus rígidos papéis sociais, o universo familiar anterior à tragédia também era marcado pela presença de papéis familiares, com suas determinadas atribuições. Se, ao sair de casa, Merricat é vista como uma espécie de vítima e também uma cúmplice do crime atribuído a Constance, dentro de casa ela também costumava ser forçada a cumprir um papel no qual não se encaixava. Só que tanto os papéis sociais quanto os familiares estão presos a fatores que os retroalimentam – não importa o que Merricat faça, isso só irá reforçar a imagem que a população da cidade projeta nela, já que suas ações são entendidas como “tal coisa que a vítima/cúmplice fez ou falou”; não importava também o que ela fizesse ou dissesse antes da tragédia, o papel de filha do meio – entre a irmã mais velha, com suas responsabilidades, e o irmão caçula, o único herdeiro homem – antecedia a (e era a sentença de) tudo.

A escolha de Shirley Jackson de situar a trama numa mansão de uma família tradicional decadente, numa pequena (e também tradicional) cidade, torna a discussão sobre esses papéis – e as formas como eles nos sufocam – ainda mais ressonante. Ainda que só vamos descobrir lá na frente no livro de quem é a culpa, digamos criminal, pela tragédia que acometeu a família Blackwood, ao chegar nesse ponto da história já entendemos que a tragédia é frutos de laços familiares forjados não na empatia, na compreensão, no amor e na aceitação, mas antes fundados nos papéis sociais que lhes são tradicionalmente ditados – o ideal da família tradicional é a causa inicial de todos os males e traumas que levaram Merricat e sua família a entrar numa espiral descendente de autodestruição.

Num dado momento do livro, Shirley Jackson nos dá uma abertura pra entender a trama de outra forma, menos “realista”. Existem indicações de que Merricat e Constance podem estar mortas há anos, pode ser que elas sejam fantasmas a assombrar a mansão.

Mas, ainda que as personagens estejam vivas (que é a interpretação mais difundida), é evidente que a sobrevivência delas após um determinado ponto da trama é o início da criação de lendas ao redor da casa no falar das pessoas da região – inicia-se um processo de apagamento das maldades cometidas contra Merricat e Constance em prol da formação de uma fábula local que dita que a mansão Blackwood é “mal assombrada” por “espíritos malignos”. Ou seja, além de destituídas de sua capacidade de agir em liberdade do lado de fora das muralhas, a percepção social sobre o significado das vidas (e de suas mortes, quando isso ocorrer) das duas irmãs é outra vez deslocado pra outro papel – o de assombrações numa lenda da cidade. Assim como ocorre com a História oficial, muitas vezes os mitos e lendas são criados e mantidos pelos “vencedores” (os opressores).

No entanto, apesar de todos os traumas e do apagamento do significado social de suas vidas, existe uma esperança: a relação entre Merricat e Constance. Mesmo que a vida delas esteja presa a uma ausência de horizontes além dos muros de sua casa, mesmo que certos comportamentos entre as duas espelhem os papéis familiares que causaram a sucessão de tragédias – dentro do relacionamento entre as duas há espaço pra que elas sejam algo além do que as funções de irmã mais velha e irmã mais nova (além de herdeiras, supostamente refinadas, etc.) que a educação ditada pelos pais reforçava. Elas dividem um afeto baseado em compreensão e aceitação, o amor das irmãs não é controlado por ordens sociais ou familiares, mas sim por elas mesmas. Tanto pra Merricat quanto pra Constante, a independência de construir e manter (ao menos) uma relação de irmandade com alguém que lhe entende, que lhe ama pelo que se é de verdade, é maior do que a suposta liberdade do baile de máscaras vazias lá de fora. As duas irmãs, ao escolherem viver pra sempre (presas) num castelo, tomam pra si mesmas a liberdade de transformar o mundo ao redor delas num fosso onde os outros estão se afogando, sem vista pro céu.

Nós Sempre Vivemos no Castelo foi lançado aqui pela Suma. Você encontra o livro na Amazon, e pode utilizar o nosso link, se quiser: 

Carlos Norcia é roteirista, diretor e nas horas vagas lê livros que dão ruim na cabeça dos desavisados.