Nos últimos tempos, aqui no Nebulla, temos falado muito sobre a questão da violência em produções de cultura pop. Hoje, resolvi falar um pouco sobre universos violentos e como as minorias acabam sendo alvo de situações mal construídas e desnecessárias, em prol de alimentar esse “mundo cruel”.

Conhecemos vários universos na cultura pop que são violentos, pesados e que levam seus personagens ao extremo. Seja psicologicamente falando, ou até fisicamente. Esse elemento se mostra presente em inúmeras formas de mídia. Em séries, o exemplo mais evidente atualmente seja Game of Thrones, que se repete nos livros também. Na literatura também temos obras como Battle Royale, que depois foi adaptado para filme e mangá. Em jogos, o game premiado de The Witcher entra nessa lista. Em animes/mangás também existe o exemplo de Berserk.

Em todas essas obras mencionadas (lá vou eu pisar em ovos) encontramos problemas na construção dessa violência quando falamos de minorias. Não porque os mundos sejam mal construídos, ou porque as histórias são ruins, mas porque, com o argumento do “mundo cruel”, os autores e criadores se sentem no direito de explorar personagens que fazem parte de minorias, com a desculpa de sustentação da crueldade do mundo.

Antes de qualquer coisa, eu queria dizer que, dos exemplos citados, três deles eu gosto muito e um deles acredito ter elementos bem feitos. Eu busquei exatamente por vários exemplos que eu gostasse, porque acredito que temos que ser críticos naquilo que gostamos.

Eu geralmente gosto de histórias que tratem de universos cruéis. É um gosto pessoal, mas acredito que fazer um mundo que trabalhe em cima disso, podem ser muito explorados, de formas que expões, criticam e explicam coisas que vemos acontecendo no nosso próprio dia a dia (não que outros universos também não façam isso). O problema é que, no intuito de chocar, muitas vezes a crueldade cai apenas para o gráfico. Nós vemos cenas violentas só para ficarmos chocados, mas que no subtexto dizem muito pouco.

O estupro de Cersei, por exemplo (você achou que eu ia falar da Sansa, né? Calma). Tudo bem, no livro isso nunca aconteceu, mas na série a cena foi adicionada por nenhum motivo. Além de colocar elementos nos personagens que, honestamente, não faziam sentido até ali, é uma violência gratuita que em nada adicionava à história.

É muito comum que, para demonstrar como o mundo é ruim, a violência contra as minorias sejam usadas. Mulheres sendo estupradas, pessoas negras sendo humilhadas por racismo, personagens LGBT+ sendo punidos por serem quem são… Não é que os personagens homem padrão não sofram, Jaime Lannister perdeu a mão, Robb Stark é morto no próprio casamento, Guts é estuprado e perde todos que ama…

Sim, esses personagens padrão também sofrem, mas a violência em cima das minorias tendem a serem específicas, construídas em cima de noções de preconceito, mesmo que o universo tivesse chance de nem ter esses preconceitos para começo de conversa. Muito se falou do estupro de Sansa, não só porque a personagem já tinha passado por inúmeras violências típicas de personagens femininas sofrerem, mas também por ser completamente desnecessário. Isso sem contar tantas outras mulheres estupradas. Não só em Game of Thrones, em The Witcher muitas das feiticeiras são queimadas e perseguidas, além do estupro que Caska sofre em Berserk. Para pegar um exemplo de Battle Royale, Mitsuko é uma adolescente com um histórico de abuso, e no mangá a coisa piora muito, porque ela é sexualizada de uma forma desnecessária. Sem contar que o único aluno gay é retratado como um completo depravado antes de morrer.

Por que isso é tão repetitivo? Além do preconceito na nossa sociedade, que acha isso comum e aceitável, também é um lugar fácil e cômodo. Fazer uma minoria passar por algo violento por ser minoria, sem nenhum subtexto e reflexão por trás, é preguiçoso. Todo mundo está mais do que acostumado a consumir isso, é uma maneira simples de estabelecer o quão cruel é o seu mundo sem nunca parar para refletir sobre isso.

Além de que, fazer isso normaliza um tipo de representação ruim. Expõe as pessoas que consomem, que fazem parte de minoria, a uma violência desnecessária. A resposta não é tão simples quanto “se não quer, não consuma”, porque é mais uma forma de normalizar preconceitos na nossa sociedade. Personagens que são minorias merecem tanto espaço, e respeito, quanto personagens homem padrão. Mas isso é negado em muitas obras pela visão preconceituosa de minorias na nossa sociedade.

Não é que minorias não possam sofrer em universos violentos, mas violências específicas baseadas em preconceitos precisam ser bem pensadas. Existem personagens que são minorias que sofrem, não por estarem fora do padrão, mas porque foi pega em uma situação ruim do universo estabelecido, é consequência real daquele mundo. Também existem obras que se dispõe a escrever uma violência que vem de preconceito e criar uma reflexão em cima disso.

Essas são os casos de The Handmaid’s Tale (primeira temporada e livro, não vi a segunda) e Kindred. Ambos são obras que representam mundos e épocas violentas, e como esperado, mostram esses atos de violência durante a história. Mas nada está ali gratuitamente, de forma sexualizada ou colocada como entretenimento. As duas obras buscam refletir sobre as crueldades que as minorias passam, exatamente por serem quem são.

Como eu disse antes, mundos cruéis e até momentos assim nas histórias podem dar chance da produção fazer muita coisa que traga elementos importantes para as obras. Mas quando falamos de preconceito, que resulta em violência, física ou não, é preciso avaliar a situação com cuidado. Caso contrário, a obra perde a complexidade, além de não pensar em parte do público que consome essas histórias.