Desde seu lançamento na Netflix, Bird Box tem sido assunto nas redes sociais, além de ter sido assistido por 45 milhões de contas na plataforma. Ame ou odeie, Bird Box abriu margem para várias interpretações e algumas delas serão faladas neste texto, com spoilers.

Bird Box é baseado em um livro do mesmo nome, escrito por Josh Malerman e lançado em 2014. A adaptação é dirigida por Susanne Bier e estrelado por Sandra Bullock. Eu não li o livro, então o que estará aqui será baseado apenas no que foi apresentado durante o filme.

Um evento começa a acontecer no mundo: Pessoas enxergam uma coisa, criatura, que faz com que elas cometam suicídio. Malorie, a protagonista, está grávida e se refugia na casa de um senhor que não conhece, com outros vários desconhecidos. O grupo busca sobreviver enquanto usa vendas nos olhos para ir até o lado de fora, evitando a tal coisa que faz com que as pessoas se matem.

  • O que são as criaturas?

Essa resposta o filme nunca dá. Não acho que seja crucial para a história que isso tenha uma resolução, mas eu queria que tivesse uma ou outra informação a mais, ao menos para saciar a curiosidade. A única coisa que sabemos é que, quando humanos as veem, eles se matam.

Algumas pessoas conseguem ver as criaturas sem se matarem. Um dos personagens, que consegue entrar na casa, faz alguns desenhos do que eles possam ser. Há teorias de que são demônios ou alienígenas. O que eu acredito ser o maior acerto do filme é nunca mostrar, visualmente, como essas criaturas realmente são. Se os personagens não conseguem ver, nós também não deveríamos.

  • Por que só algumas pessoas conseguem ver as criaturas?

Também não temos essa resposta, o que me deixa um pouco triste, porque eu adoraria saber. Acho que, dependendo de como fosse organizada a informação na história, poderia ser algo interessante de ver.

De qualquer forma, o filme dá algumas pistas do motivo pelo qual algumas pessoas não se matam quando veem as criaturas. Dá a entender que são pessoas que já tinham algum histórico de alguma questão psicológica antes do evento todo começar. Nós sabemos que o homem do supermercado era assim. O que entra na casa mais tarde sustenta essa teoria.

Caso seja isso mesmo, eu não acho uma boa solução. Acredito que é uma representação ruim de pessoas que já sofrem preconceito na sociedade. Em Bird Box, elas são as “vilãs” que ajudam as criaturas a matarem os humanos. Não precisaríamos de uma explicação muito elaborada, há várias histórias sobre fim do mundo em que pessoas são afetadas de formas diferentes. Algumas delas resolvem a questão dizendo que é aleatório, e funciona.

  • A questão da maternidade

Esse talvez tenha sido o tópico do filme que mais causou debate e fez Bird box dividir opiniões. No começo da história, Malorie não parece muito animada em ter um filho. Quando ela está na casa, depois das criaturas aparecerem, Malorie conhece Olympia, que tem uma relação muito diferente com a sua gravidez. Sempre que Olympia tenta falar com Malorie sobre gravidez, a protagonista foge do assunto.

No dia em que as duas crianças nascem, a maioria das pessoas na casa são mortas pela criatura, incluindo Olympia. Malorie consegue convencê-la de entregar a criança antes de se matar. Nas cenas do futuro, vemos Malorie cuidando das duas crianças, sendo bem rígida e sem nem dar nome para as elas.

Durante os momentos finais, vemos Malorie se desesperando em perder Garota (o nome da menina, o menino se chama Garoto) enquanto ela tenta chegar no lugar seguro, mas se perde do caminho do rio. Só quando admite seus sentimentos por Garota que a encontra e depois consegue levar as duas crianças em segurança para o destino. No final do filme, vemos que Malorie dá nome para as crianças e parece mais feliz com a situação.

Isso passa uma imagem que de, só quando Malorie aceita a maternidade que ela consegue ser feliz e resolver seus problemas. Já faz algum tempo que é discutido o problema da representação romantizada da maternidade. Essa ideia de que a mulher nasceu para ser mãe, sempre vai querer ter um filho e tudo será perfeito é errada. Antes de ser mãe, ela é uma pessoa e deve ser representada de várias formas, não apenas essa ideia romantizada. Isso foi um dos grandes erros do filme que fez com que algumas pessoas se manifestassem contra nas redes sociais.

  • Sobre conexão e não estar sozinho

Quando eu assisti Bird Box, outra mensagem ficou mais evidente para mim. Avaliando o filme, a questão da maternidade é a mensagem de maior destaque, mas também há uma outra leitura (que em nada justifica a romantização do papel de mãe que o longa faz).

Desde o começo do filme, vemos Malorie distante das pessoas. Ela mal tem contato com a família, só fala com a irmã porque recebe visitas dela, seus quadros falam sobre solidão e falta de conexão. Na casa, Malorie tem dificuldade em trabalhar em grupo ou se abrir, só se colocando na frente quando alguém é muito mais grosseiro do que o esperado. Quando ela se abre para ter essa conexão com os filhos, que ela tem negado desde o começo, ela descobre um novo lugar que a salva das criaturas.

É claro que tem a questão dela ter se conectado com Tom e os dois ainda ficaram anos sobrevivendo de uma maneira difícil, mas eu me perguntei se não existe alguma mensagem no filme sobre como a conexão deixa os seres humanos mais fortes. Tenho pensado muito no assunto, dado o momento de ódio em que vivemos na nossa sociedade. Bird Box pode também conversar sobre como, quando as pessoas se unem, elas têm mais chances de passar pelas adversidades.

Apesar dos problemas, para mim a grande graça de Bird Box é poder ficar pensando sobre o que aconteceu na tela depois que o filme acaba. Há várias teorias e leituras que possam ser feitas, essas são só algumas delas.