Falar que eu gosto de Black Mirror é chover no molhado. Eu posso ter sim algumas críticas sérias à nova temporada, mas eu ainda fico animada com a ideia de que, cada vez mais, teremos novos episódios de uma das minhas séries preferidas.

Sinto que essa quarta temporada conseguiu se destacar em alguns aspectos. Nesse texto eu vou falar especificamente de USS Callister, o primeiro episódio dessa última temporada. O texto contém spoilers, então recomendo que assista antes de ler. É um episódio leve, se considerando com os das primeiras temporadas.

O programador Robert Daly é um dos co fundadores de um jogo MMO famoso, chamado Infinity. Quando a nova funcionária da empresa, Nanette, começa seu novo emprego, ela demonstra toda a admiração que tem por ele. Em certo momento, Robert ouve Nanette comentando com uma amiga que ela não tem nenhum interesse nele, além do profissional. Robert fica revoltado e cria uma versão digital de Nanette, que prende dentro de uma versão que ele tem do próprio jogo. Nessa outra versão que ele tem escondido, Robert comanda a USS Callister, sendo que sua tripulação é composta de pessoas que o incomodaram em algum momento da vida. Ele fez cópias digitais dessas pessoas e as força e jogar essa encenação estilo Star Trek para satisfazer suas próprias frustrações com o mundo real.

Esse episódio é bom de inúmeras maneiras. Ele é divertido, tem personagens legais, um roteiro bem escrito que varia entre coisas dando errado e certo. Por mais que não seja tão presente, ele possui a assinatura de Black Mirror, de uma tecnologia sendo usada de uma forma que pode resultar em algo ruim no final.

Todo episódio da série busca, mesmo que falhando às vezes, fazer algum tipo de crítica. Neste ponto que USS Callister se destacou como um dos meus episódios preferidos da temporada. Robert se sente no direito de fazer qualquer coisa com as pessoas ao seu redor, mesmo que em um mundo virtual, só porque acredita naquilo, sem considerar as outras pessoas. Acredita que, por ter aguentado tantas coisas ruins no mundo real, pode punir os outros, mesmo que por coisas bem pequenas.

É interessante que USS Callister se foque na história de Nanette, uma mulher que foi “punida” pelo chefe por não querer nenhum envolvimento romântico por ela. Ou na história da mulher que foi humilhada pelo cara nerd porque ele se achava “o cara legal” e como assim ela não o queria? Isso tudo em um cenário gamer que lembra Star Trek, todas referências ao nosso amado (ou não) mundo nerd. Também é ótimo como Black Mirror coloque a questão de Nanette não o querer. Só porque ela admira seu trabalho não significa que ela deva algo sexual ou romântico à Robert.

Para mim, é mais do que óbvio que esse episódio foi escrito para esses caras, os que se acham os reis do mundo porque a vida não foi sempre perfeita. Robert passou por coisas desagradáveis no ambiente de trabalho sim, e talvez a dificuldade em criar amizades o tenha feito se sentir sozinho. A questão é que nada disso justifica ações ruins contra outra pessoas. Robert pode até se lamentar por Nanette não querer nada com ele, mas ele não pode puní-la de alguma forma por causa disso.

Quantas vezes não ouvimos a história do “cara legal”, que só porque ele não te trata mal (a princípio, aparentemente), a mulher deve alguma coisa para ele? O interessante é que USS Callister mostra isso tanto no meio nerd quanto no ambiente de trabalho. Há inúmeros homens que aproveitam da sua posição de poder para fazer o que bem entendem. Robert está usando da sua posição, que entende tudo do jogo e de cópias digitais, para atormentar as pessoas do seu trabalho.

E como o padrão do homem nessa posição, ele fica inconformado quando as pessoas se recusam a fazer o que eles querem. Nanette, em certo momento do episódio, é forçada a beijar Robert, porque todas as mulheres da tripulação deveriam. Ela se recusa e isso faz com que ela seja torturada por Robert até ceder. Ele precisa ser elogiado e louvado sempre que toma qualquer atitude. É uma pena que, ao longo da vida, ele não foi reconhecido pelos seus esforços, mas como o episódio mostra, isso não é desculpa para ele torturar pessoas, mesmo que sejam suas cópias digitais.

USS Callister é Black Mirror falando sobre homens nerds que acham que podem tudo, porque coitados, sempre tão legais… Só que não. E ainda bem que no final é a própria Nanette que derrota Robert, ganhando o controle da nave. Um bom começo para a nova temporada da série.