Se você habita o universo nerd há pelo menos uns cinco anos, então provavelmente já escutou falar do GamerGate. O movimento, que proclamava defender “a ética no jornalismo de games” mas, na realidade, foi organizado para atacar e tentar excluir mulheres e outras minorias do ambiente gamer, foi amplamente discutido durante todos esses anos. Em 2017, o mercado de quadrinhos viu surgir um movimento semelhante, o Comicsgate.

Não, os ataques à minorias não é algo tão novo dentro do universo nerd e, muito menos, dos quadrinhos. Mas foi apenas no ano passado que um grupo de “fãs” e criadores conservadores começaram a se organizar para criar eles próprios um movimento de ataque e constrangimento de minorias. Esse movimento teve diferentes momentos e, como ocorre com o GamerGate, é bem turvo no que tange ao seu objetivo. Mas, assim como GamerGate fez com os games, o Comicsgate tenta enfiar uma narrativa racista, misógina e LGBTfóbica goela abaixo de um público dividido com as recentes mudanças no mercado editorial de super-heróis.

Antes de continuar, queria pedir para você, que já está indignado porque eu disse que o GamerGate e o Comicsgate são na verdade uma campanha de ódio, assistir um vídeo que gravei alguns meses atrás:

Eu vou tentar ser o mais didática possível, tentando abordar todos os temas e questões que costumam surgir quando falamos sobre Comicsgate. Para isso, a gente precisa voltar no tempo, para sete anos atrás.

2011 – 2014 e o empurrão da Diversidade nos Quadrinhos

Os quadrinhos de super-heróis sempre tiveram personagens femininas, e as primeiros personagens não-brancas começaram a aparecer na década de 60. Ainda assim, essas personagens não eram protagonistas únicas, e muitas vezes eram relegadas aos padrões de vilão, de interesse romântico (no caso das mulheres) ou de personagens secundários presas a estereótipos raciais e de gênero.

Durante décadas, o universo das duas principais editoras de quadrinhos americanas, DC Comics e Marvel, foi monopolizado por personagens brancas, masculinas e heterossexuais. Mesmo em revistas com protagonistas femininas, elas eram em sua imensa maioria mulheres brancas, sexys e dentro do padrão que despertaria um interesse sexual no leitor masculino e branco. E, apesar de termos tido o site Women in Refrigerators no final dos anos 90, pouco se discutia na mídia especializada sobre representação e a falta de diversidade nos quadrinhos.

No começo dos anos 2010, no entanto, esse cenário começou a mudar. Sites começaram a discutir a dominância branca e masculina, autores e leitores começaram a questionar o status quo não só das personagens, mas também dos criadores (em sua maioria homens brancos). E, em 2011, a Marvel lançou Miles Morales, o novo Homem-Aranha do universo Ultimate, que é negro e latino, e foi criado por Brian Michael Bendis. Miles Morales foi, e é, um sucesso. Tanto que, ainda no final deste ano sai um longa animado com ele como protagonista.

Em 2012, a personagem clássica da Marvel, Miss Marvel, ganhou uma repaginada pelas mãos de Kelly Sye Deconnick. Carol Denvers deixou de ser Miss Marvel para se tornar a Capitã Marvel, assumindo o manto que anteriormente pertencia a Mar-Vell, o Capitão Marvel. Essa reformulação fez com que a personagem se afastasse do sex-symbol, quebrando as expectativas e percepções do público sobre ela. Alguns fãs de quadrinhos acharam a personagem masculinizada, apenas por ela se afastar um pouco do padrão de feminilidade que se espera das super-heroínas, outros acharam que ela havia se tornado “feminista demais”.

O ano de 2014 foi, dentro desta década, o que mais trouxe novidades para a diversidade no universo de quadrinhos. Na DC, Barbara Gordon voltou a assumir o manto de Batgirl, numa reformulação focada em trazer um público feminino e mais jovens para editora. A revista foi um sucesso de vendas e de crítica, mesmo que algumas pessoas tenham ficado justificavelmente chateadas com a perda de uma das únicas super-heroínas em uma cadeira de rodas. A mudança, que havia começado ainda sob o teclado de Gail Simone, foi mais aprofundada quando o time Babs Tarr e Cameron Stewart assumiram o título. Sob o cuidado deles, a revista teve o primeiro casamento de duas personagens femininas, sendo uma delas a melhor amiga de Bárbara, Aisha, que também é uma das primeiras personagens Trans da editora.

Ainda em 2014, nós tivemos duas grandes chegadas na Marvel: a Thor e Kamala Khan. A Thor foi a razão para eu voltar a ler quadrinhos regularmente, Kamala a razão para eu continuar lendo. Quando o Thor, Odinson, deixou de ser merecedor do martelo Mjolnir, uma mulher assumiu o seu lugar e o nome de Thor. A princípio, sua identidade era mantida em segredo, mas depois foi revelado que ela era Jane Foster, a cientista e antiga namorada do Thor. As revistas da Thor foram sucesso de crítica e de vendas.

Kamala Khan nasceu nas mãos da roteirista G. Willow Wilson, uma escritora de fé muçulmana, que conseguiu trazer para a Miss Marvel um universo divertido, jovem e diferente do que havíamos visto com personagens adolescentes até então. A crítica amou a personagem, e os leitores a transformaram num sucesso de venda, inclusive digital (isso vai ser importante mais tarde). Kamala fez tanto sucesso, que assim que foi anunciada, começaram a pipocar cosplays em Cons.

Em 2015, a Marvel apresentou uma reviravolta em um de seus personagens: o Homem de Gelo saiu do armário e é gay. A revelação é feita por um Homem de Gelo mais novo, que estava preso no futuro, e colocou em discussão toda a história do clássico personagem. Apesar de ter sido feita de maneira estranha, a mudança na orientação sexual do personagem se tornou algo fixo no universo, além de trazer a possibilidade de abrir discussões interessantes sobre manter a orientação sexual em segredo durante boa parte da vida.

O sucesso dessa primeira leva do empurrão da diversidade abriu as portas para personagens como Riri Williams, a Ironheart, que estreou em 2016, e Moongirl and Devil Dinosaur, duas personagens femininas e negras, duas cientistas extremamente inteligentes e com histórias muito divertidas. Além delas, vieram os títulos A Incrível Garota Esquilo, Spider-Gwen e Gwenpool; Steve Rogers também deixou o cargo e quem assumiu como Capitão América foi Sam Wilson.

Muito do sucesso que essas revistas fizeram pode ser atribuído à preocupação em trazer talentos mais diversos também para trás das páginas dos quadrinhos. Esse sucesso, no entanto, trouxe também uma onda de medo e ódio. Mesmo Capitão América – Sam Wilson, um quadrinho com temas conservadores sobre política, sofreu ataque de grupos de fãs que não gostaram da inclusão de personagens que fossem não-brancos ou não-masculinos. Esses ataques sempre aconteceram; mas, em 2017, eles começaram a se tornar algo visivelmente coordenado.

De Chelsea Cain até o Milkshake de Heather Antos

Em outubro de 2016, Chelsea Cain, escritora da mini série Mockingbird, foi atacada no Twitter e acabou deixando a rede social. Cain, antes de se aventurar pelos quadrinhos, já era uma escritora Best Seller e Mockingbird é verdadeiramente uma obra muito bacana. Trata-se de um quadrinho sobre uma mulher que chuta-bundas, sob a perspectiva dela, sem hipersexualizar, abordando temas dentro do universo feminino. A última edição da revista veio com uma capa que condizia com a personagem e o conteúdo da revista – e causou a ira dos fãs.

Eu falei sobre a revista em mais detalhes num post na época do Collant, você consegue lê-lo neste link.

Os violentos ataques contra Chelsea Cain no Twitter e em outras redes sociais foi o primeiro passo do que viria a ser o verdadeiro ponto de início do movimento que hoje chamamos de Comicsgate.

Em julho de 2017, a Marvel perdeu uma de suas mais antigas funcionárias, Flo Steinberg. Uma verdadeira lenda dentro da editora, Flo começou como secretária de Stan Lee mas, como diz o obituário da funcionária no site da Marvel, foi responsável por estabelecer o ambiente acolhedor para os fãs (ela foi responsável por estabelecer o contato através das cartas, ainda nos primeiros cinco anos da editora) e para os criadores. Flo era, para todos os que trabalhavam na Marvel, um exemplo incrível. Mas, para as mulheres que trabalham lá, ela também era uma inspiração de força. Ela era tão amada dentro da editora, que ganhou o apelido de Fabulous Flo.

Quadro de What If #11, onde a equipe original da Marvel ganharam poderes fantásticos. Flo ficou com o papel de Sue Storm.

Flo também era conhecida por uma frase em particular: “Quando você realizar algo memorável, recompense-se com algo doce.” Por isso, uma semana após a morte de Flo, algumas das mulheres que trabalham na Marvel se reuniram com milkshakes e bateram uma foto com a hashtag que lembrava Flo, #FabulousFlo. E aí, o inferno resolveu bater na terra.

Heather Antos, a editora que postou a foto, foi bombardeada por todo tipo de ameaça e assédio moral. Eu também já falei sobre isso em outro post, ainda no Collant, e você pode lê-lo nest link.

Os ataques a Antos, no entanto, começaram a parecer menos o resultado de uma massa de fãs raivosos e descontrolados. Ficou evidente, dali em diante, que os ataques se tratavam de um trabalho organizado, planejado.

Como disse Melissa Morgue, do Capeless Crusader:

“Quando isso aconteceu, a atual coalizão dos grandes nomes da comunidade do Comicsgate já havia se solidificado. Com seus grupo secretos de Facebook, múltiplos servidores de Discord não-listados, eles foram capazes de coordenar um ataque premeditado e bem organizado contra Antos e outros membros da equipe editorial da Marvel. Os vídeos apareceram quase simultaneamente, às vezes com diferença de minutos um do outro. Logo depois da enxurrada inicial, o maremoto bateu com força, e os seguidores do Comicsgate se viraram para o Twitter para repetir o que eles haviam escutado”

As editoras da Marvel receberam apoio de diversos profissionais do meio e até das funcionárias da DC Comics. A Marvel postou uma foto de apoio às suas editoras e o Twitter foi tomado também pelo apoio dos fãs de quadrinhos. Mas o pior já havia começado; as ondas de ódio desse evento são identificadas como o ponto de partida para o Comicsgate como ele é hoje.

O que é o ComicsGate?

A primeira vez que li o termo Comicsgate foi em 2017, e eu optei por só acompanhar, sem me manifestar muito além de um tweet ou outro. A minha intenção era não dar plataforma para um movimento que tentava se firmar e que provavelmente contava com a indignação de pessoas pró-diversidade para crescer. Mas o movimento cresceu muito, em parte porque muitas pessoas optaram pelo mesmo caminho que eu escolhi na época, o de não discutir o assunto; hoje, entretanto, se a gente não falar sobre esse movimento, as coisas podem piorar bastante.

Assédio e agressões online contra mulheres e minorias não são exatamente novidade dentro dos quadrinhos. Exatamente por isso, é difícil precisar uma data para quando o movimento começou a pipocar pela internet. Mas, mesmo levando isso em consideração, o último ano viu o aumento dos ataques e a formação/revelação de uma rede de ódio muito lucrativa.

O Comicsgate se apresenta como um movimento que diz estar preocupado com a qualidade das histórias em quadrinhos. Segundo o movimento, a qualidade das histórias estaria em decadência. Eles defendem que essa decadência é fruto da contratação de artistas tendo como base unicamente o objetivo de cumprir uma cota de diversidade, sem levar em consideração os talentos dos contratados. As contratações atacadas pelo movimento são, em sua maioria, as de mulheres, de pessoas não-brancas e de LGBTs; segundo eles, esses artistas (cujas contratos de trabalho estão sendo questionados e atacados pelo Comicsgate) estariam trabalhando na mercado de quadrinhos sem serem qualificados o suficiente para isso.

Apesar do que eles dizem, o Comicsgate é um movimento, assim como seu primo GamerGate, cujo objetivo é assediar e expulsar minorias de dentro do universo nerd – que eles percebiam, anteriormente, como um espaço de predominância (se não exclusividade) masculina. Debaixo da retórica superficial de se afirmarem “preocupados com a qualidade das histórias”, ecoando a falácia que o GamerGate usou ao bradar sobre “ética no jornalismo de games”, está a desculpa para organizar ondas de ataques a criadores que não se encaixam dentro do padrão masculino, branco, heterossexual e cisgênero.

O movimento tem até uma lista de nomes de autores e artistas dos quais não se deve comprar quadrinhos, para boicotar a venda das revistas que eles chamam de SJW – Social Justice Warriors. Hilariamente, a lista possui nomes como Gail Simone, Kelly Sue Deconnick, Matt Fraction e Mark Waid – alguns dos quadrinistas mais importantes e famosos.

O Comicsgate possui muitos nomes entre “fãs” revoltados, mas é possível ligar a onda de ódio que ele libera a dois nomes.

Richard Meyer, Diversity and Comics e Ethan Van Sciver

A primeira vez que eu escutei falar do Twitter Diversity & Comics, fiquei um pouco confusa. Era uma conta com o nome Diversity & Comics, mas que debochava e vomitava ódio sobre diversidade nos quadrinhos. Apesar do nome da conta, esse é o propósito de seu dono: despejar ódio não só no Twitter, mas também no seu canal de YouTube.

Richard Meyer é o dono do Diversity & Comics. Ele é um fã de quadrinhos desde a infância, serviu o exército americano de 2000 a 2012, depois disso trabalhou com TI. O canal de YouTube de Meyer é repleto de vídeos quase diários, nos quais ele reclama da diversidade nos quadrinhos, dispara acusações e ódio contra quadrinistas e/ou jornalistas proeminentes, diz ser injustiçado e atacado por falar a verdade, além de indicar quadrinhos que ele considera bons – especialmente quadrinhos com pouca ou nenhuma diversidade. Esse tipo de toxidade também se repete na sua conta no Twitter, onde ele aproveita para comentar sobre os atributos físicos de criadoras e direcionar ataques.

Em entrevista ao Daily Beast, Meyer disse:

“Eu comecei a notar um monte de coisas estranhas. Feminilização de homens, masculinização de mulheres, basicamente pares heterossexuais clássicos sendo destruídos… E você vê que é uma tendência, e começa a se perguntar por que eles estão fazendo isso. Por que Luke Cage, o símbolo do cara forte da blaxploitation, por que ele está empurrando um carrinho de bebê e é um banana de fala mansa – isso não é feito por acidente.”

Sobre as editoras que ele atacou por causa do Milkshake, Meyer disse:

“Elas obviamente pareciam não ser qualificadas. Elas não conseguem notar erros de texto básicos, não notam buracos imensos de enredo, antagonizam com os fãs… Eu converso com essas pessoas, talentos legítimos e reais, que não conseguem um trabalho para salvar a vida deles. Enquanto isso, umas cabeças de vento que chamam os fãs de nazistas e entregam um trabalho risível estão ganhando prêmios Eisner.”

Sobre essa última observação, é engraçado como, ao dizer que as premiadas não merecem seus Eisners, ele se coloca acima dos principais profissionais do mercado. Na sua própria concepção, Meyer acredita saber mais do que quem trabalha e acompanha o mercado profissionalmente há anos. Ele acredita ter um conhecimento tão profundo sobre o mercado de quadrinhos, que esses dias, numa thread no Twitter, decidiu explicar pessoalmente ao Neil Gaiman sobre a carreira do próprio Neil Gaiman:

Meyer parece ser mais eloquente sobre o seu ódio contra pessoas trans, com diversos de seus fãs atacando artistas trans do meio. Tamra  Bonvillain, colorista de Doom Patrol, da DC, contou ao Daily Beast:

“Meyer é o menos sutil sobre o seu ódio por pessoas trans, e isso também vale para muitos de seus seguidores assediadores. Eles usam o gênero errado conosco e nos chamam de doentes usando termos errados. Eu tentei mudar o meu Twitter para privado por um tempo durante uma das ocorrências, mas eles pegaram prints de outras pessoas e ficaram se gabando… Nos piores momentos, acontecia durante todo o dia, por diversos dias de uma só vez. Eu bloqueei manualmente centenas de pessoas antes de recorrer ao blockchain.”

Como do Daily Beast também apurou, Meyer possui passagem na justiça por assédio, stalking e tentativa de agressão, que ele conseguiu diminuir para conduta desordeira. De acordo com Meyer, o caso foi sobre uma briga com um homem por causa de uma garota.

Meyer tem um extenso histórico de ataque contra mulheres, LGBTs e pessoas não-brancas que trabalham ou estão ao redor dos quadrinhos. Mas, ainda assim, um quadrinista americano acha que ele está certo e resolveu apoiá-lo: Ethan Van Sciver.

Ethan Van Sciver é um quadrinista com passagens pela Marvel (até 2003) e pela DC. O seu trabalho mais recente foi na revista Hal Jordan and the Green Lantern Corp. Em 2018, ele anunciou que não trabalharia mais com a DC e se dedicaria aos seus projetos pessoais. Um anúncio estratégico, ao lembrarmos que ele mandou um fã se matar, em seguida fez uma piada com suicide watch; depois que a presidente da DC veio a público falar que condenava a postura de Sciver, ele pediu desculpas e fez uma doação a um centro de prevenção de suicídio.

Ele possui um canal de YouTube, ComicArtistPro Secret, no qual ele já defendeu publicamente Meyer e onde diz querer discutir a questão da diversidade nos quadrinhos enquanto fala sobre HQ´s. Mas ele também o utiliza como maneira de coagir seus críticos e os do Diversity and Comics.

O Bleeding Cool News fez algumas matérias acompanhando as polêmicas do quadrinista e de Meyer, um bom resumo do tipo de iniciativa que ele tem com o público e com os quadrinhos. Vocês podem lê-las nos links: LINK 1, LINK 2 e LINK 3.

Ethan e Meyer estão cada vez mais próximos, e com o discurso cada vez mais radicalizado. E, além disso, ambos ganham dinheiro em cima desse discurso e da disseminação de um ódio desenfreado e desinformado. Os vídeos do Diversity and Comics saem quase diariamente, sempre incitando ódio e alimentando um público que busca escutar apenas aquilo que eles querem ouvir, sem levantar questionamentos. Mas, diferente do que eles dizem, a diversidade não está destruindo os quadrinhos, e nem tem como objetivo excluir os homens brancos das HQ´s.

A diversidade está destruindo os quadrinhos?

Nesta parte eu vou reproduzir um texto que escrevi na época em que explodiu essa polêmica sobre a diversidade estar destruindo a Marvel. Uma polêmica que foi construída em cima de mentira e extrapolação de fatos.

Em 2017 o executivo de vendas da Marvel disse em um evento para lojistas:

“O que nós escutamos foi que as pessoas não queriam mais diversidade. Eles não queriam mais personagens femininas. Isso foi o que nós escutamos, acreditemos ou não. Eu não sei se isso é a verdade, mas foi isso que nós vimos nas vendas.”

Nós vimos a venda de qualquer personagem que era diverso, qualquer personagem que era novo, nossas personagens femininas, qualquer coisa que não era um personagem de origem da Marvel, as pessoas estavam virando o nariz para eles. Isso foi difícil porque nós tivemos muitas idéias novas e animadoras que estávamos tentando colocar no mundo e nada realmente funcionou.”

Para quem acompanha o mercado americano, essa entrevista saltou os olhos, porque fazia pouco tempo que tinha sido anunciado que a revista da Miss Marvel estava há muitas semanas na lista dos mais vendidos do The New York Times. A fala de Gabriel bateu diretamente de frente com o que o então Editor Chefe da Marvel, Alex Alonso, falou em uma entrevista liberada dois dias antes. Lá, Alonso disse que a busca por diversidade tem mais a ver com negócios/dinheiro do que com política. Ele ainda falou sobre como o backlash que possa existir à diversidade tende a sumir assim que as revistas chegam às prateleiras. Para completar, o moço até contou sobre a história de como o seu sobrinho, que é americano de origem coreana, se identificou com a nova versão do Hulk, Amadeus Cho. De acordo com ele, mais audiências estão se conectando com a Marvel – visceralmente.

Depois que a polêmica se instaurou, Executivo de Vendas da Marvel soltou uma nota diferente. Nela, ele disse que lojistas e fãs continuam felizes com os novos personagens e que Squirrel Girl, Miss Marvel, The Mighty Thor, Spider-Gwen, Miles Morales e Moon Girl continuam a provar isso. Afirmou que a Marvel tem orgulho em continuar introduzindo personagens que conversem com novas vozes e experiências, que se conectem com os seus heróis icônicos. Eles também escutaram o outro lado, dos lojistas que querem que a Marvel volte a dar mais espaço para os seus personagens de base, e estão trabalhando nisso.

As vendas não estão lá essas coisas e ponto. Pra personagem nenhum da Marvel. Em 2016, ela deixou de ser a editora com maiores vendas, perdeu pra DC, algo que não acontecia fazia alguns anos já. E existem muitas razões pra isso:

  1. O número de lançamentos que ela jogou no mercado nos últimos dois anos. Foram muitos títulos novos, muitos que acabaram cancelados no meio do caminho, e muitos deles com narrativas que simplesmente não convenceram.
  2. All-New All-Different Marvel Now foi lançado em 2015 com todo um rolê de “Olha só toda essa mudança que a gente tá fazendo, olha só toda essa diversidade”. E eu não quero tirar o mérito da Marvel, porque ela realmente vem fazendo um trabalho de inclusão que talvez não tenha precedentes, com autores e personagens que a gente não tinha visto antes, mexendo com personagens clássicos e tudo mais. Mas All-New All-Different também manteve MUITAS das equipes criativas, e muitas delas eram formadas principalmente por caras brancos que, inevitavelmente, vão colocar a visão deles dentro do que eles escrevem. Ou seja, o All New não foi todo tão diferente assim.
  3. Os dados de venda de quadrinhos da Marvel, e de outras editoras, estão abertos na internet pra todo mundo que quiser comprovar. E o problema não era só dos quadrinhos com diversidade, era na Marvel inteira.
  4. Em fevereiro de 2017, só duas séries de super-heróis venderam mais do que 40.000 edições. The Amazing Spider-Man e The Mighty Thor, e ainda assim isso é quase a metade do que na época pré-Secret Wars, em 2015 (A Thor já existia nessa época).
  5. Dos TOP 10 livros mais vendidos da Marvel naquela época, apenas três eram estrelados por minorias – The Mighty Thor, que vinha sendo carro chefe de vendas da Marvel há anos, Invincible Iron Man, e Black Panther. Todos os outros, que também tiveram queda brusca nas vendas, são estrelados por homens ou equipes primordialmente masculinas. Eles também estão sendo desenhados e escritos por equipes majoritariamente brancas e masculinas.

E é aqui que a gente chega num ponto que poucas pessoas querem de fato ver: se olharmos os números de 2017, 2018 ou 1986, nós vamos ver uma massa grande de trabalhos feitos por homens brancos que perderam dinheiro. Seja nos quadrinhos, seja no cinema. Dos 20 filmes que mais tiveram prejuízo em Hollywood, 20 foram dirigidos por homens e 19 tiveram como alvo principal o público masculino. Mas, quando se procura pêlo em ovo para provar um ponto falso, é pras únicas três revistas com alguma diversidade que se olha, não nas outras 7 dos Top 10. Porque é muito mais fácil culpar a minoria, do que entender que o problema é muito maior e mais complicado. E tem a ver com o modo como o mercado entende o público.

Nos EUA, você não encontra edições únicas em nenhum lugar senão em comic book shops, lojas especializadas. Você não entra numa livraria e sai com Homem-Aranha #20. Lá também só há um distribuidor, a Diamond, que é responsável pelo mercado americano, canadense e inglês. Ou seja, ou você está dentro da área de alcance dessas comic book shops, ou não está.

Quem já foi em uma comic book shop sabe o quão incríveis esses lugares podem ser, mas eles também são ambientes que ainda são extremamente excludentes. O que não faltam são histórias de garotas e outras minorias se sentindo excluídas e mal tratadas dentro desses espaços. Se aqui no Brasil, que eu posso comprar meu gibi na banca, na comic shop ou na livraria, eu já tive que aguentar vendedor homem querendo me explicar sobre quadrinhos, imagina dentro de uma loja americana?

Agora a gente tem livros que são destinados a essas minorias, que antes ou não habitavam esses ambientes, ou que ainda são excluídos dentro desses espaços – e o mercado quer que elas vão até esses lugares para comprar.

O mercado de quadrinhos nunca foi a coisa mais consistente do mundo – assim como nenhum mercado é.

Em 1993, quando o mercado de quadrinhos americano estava num momento de ascensão, Neil Gaiman foi convidado para falar num evento para lojistas – se não o mesmo, um muito similar ao que o VP da Marvel estava quando soltou a polêmica. Era um momento em que as comic shops explodiam, tudo estava aquecido e se viam as HQs como fonte infinita de dinheiro.

No seu discurso, Gaiman contou sobre a história da Holanda e as Tulipas, no século 17. Sobre como o país inteiro investiu loucamente em Tulipas, que para eles era uma coisa muito importante, com o preço do quilo da Tulipa custando mais do que uma carruagem e, quando o resto do mundo não demonstrou o mesmo interesse, o país quebrou. Porque eles não se preocuparam em trabalhar a Tulipa, eles se preocuparam em fazer dinheiro.

Ninguém entendeu porra nenhuma. Alguns lojistas ficaram ofendidos com o que Gaiman disse mas, um ano depois, o mercado quebrou e com ele foram-se o sustento e as lojas de diversas pessoas. O mercado levou quase dez anos para se recuperar novamente.

Isso tudo pra dizer que não existe um tipo de quadrinho que vá vender bem 100% do tempo, ainda mais se você tiver expectativas irreais com o mercado.

O que Gaiman quis dizer ao contar essa história foi que não pode ser só sobre o valor do quilo da Tulipa, precisa ser sobre a qualidade dela. Ainda mais se você precisa concentrar as suas vendas em comic book shops.

No caso, Tulipas são Quadrinhos. E quadrinhos com boas histórias, vendem -histórias bem contadas com diversidade, com personagens bem construídos, atraem o público, e isso os números comprovam. Porque as pessoas falam sobre elas, porque o vendedor vai ler e colocá-la no display em destaque. Mighty Thor, Miles Morales, Kamala Khan, Squirrel Girl e Moongirl tão aí pra provar.

Pode ser que VOCÊ não queira ler essas histórias, mas alguém está consumindo elas vorazmente. Pode ser que VOCÊ não ache que elas são boas, mas tem todo um público imenso que acha. E tá tudo bem, porque continua-se contando histórias sobre personagens masculinos e brancos, ninguém apagou eles. Apenas se abriu espaço para novos personagens.

O que a Marvel fez nesses últimos anos foi trazer um público diferente pra dentro da marca, mas ela ainda precisa aprender a entender os hábitos de consumo desse público. O que está acontecendo agora, como a autora da Kamala disse no post que ela fez durante o fim de semana, é o aumento dos quadrinhos para Jovens Adultos e mulheres.

Esse é um público que vem dos livros, que segue os autores para onde eles vão – e alguns deles chegaram aos quadrinhos. Roxane Gay, que está escrevendo Black Panther: World of Wakanda, não é roteirista de quadrinhos originalmente. O mesmo para o roteirista de Pantera Negra, que fez sucesso escrevendo sobre questões da comunidade negra, e a roteirista de América, que também é autora de livros YA com temática LGBT. Nnedi Okorafor, que agora está escrevendo o quadrinho da Shuri, é autora premiada pelo Hugo Awards e escreveu seu primeiro quadrinho em 2012, para a DC. A Marvel foi atrás de um público maior, e os alcançou.

Mas esse é um público que não tem o costume de ir até uma comic book shop, ou não se sente confortável nesses espaços, ou simplesmente acha melhor comprar os colecionáveis, as edições que compactam várias single issues. Como eu disse lá em cima, a Miss Marvel ficou diversas semanas consecutivas no topo da lista de livros mais vendidos do New York Times – até que, em novembro de 2017, o jornal tirou os quadrinhos da contagem.

Mas esses colecionáveis, as edições com capa dura que também chegam aqui no Brasil, não entram na contagem dos números de queda ou aumento de venda – porque a Marvel ainda não aprendeu a lidar direito com eles, e nem mesmo com as edições digitais, se nós formos ser completamente sinceros. Durante a última semana, foi anunciado que Miss Marvel vendeu meio milhão de cópias do seu encadernado – no papel e em digital. Se isso não é sucesso, eu não sei o que é.

A diversidade quer excluir o homem branco?

Um dos principais focos dos envolvidos no Comicsgate é o argumento de que a diversidade está tentando excluir os homens branco, heterossexuais e cisgêneros; segundo eles, isso aconteceria tanto em relação aos personagens, quanto aos criadores por trás dos quadrinhos.

Meyer insiste na narrativa de que as mulheres e outras minorias que agora estão trabalhando na indústria só estão lá porque são minorias. Para ele, elas não seriam profissionais qualificados, mas apenas contratações forçadas pela diversidade. Esse é o tipo de pensamento que não faz sentido, especialmente se pensarmos que a Marvel e a DC são empresas multimilionárias, que dificilmente arriscariam colocar profissionais não capacitados por trás das suas revistas.

De acordo com o movimento, supostamente quase não existem mais personagens masculinos e brancos; a intenção “escondida” por trás da diversidade seria um plano de eliminar a heteronormatividade e os símbolos que configurariam uma masculinidade forte e tradicional.

Dizer que não existem mais personagens brancos e masculinos é de uma ignorância tremenda, é o tipo de afirmação feita apenas para incitar ódio e revolta – porque ela simplesmente não é verdade. E é muito fácil comprovar isso, é só olhar o headline dos quadrinhos e notar que todos os protagonistas masculinos e brancos continuam existindo em histórias, de uma forma ou de outra.

Sobre a eliminação da heteronormatividade, isso é outra falácia. O que está sim acontecendo é a introdução de outros padrões de relacionamentos, que vão além do heteronormativo, buscando representar personagens que não existem apenas para antagonizar com os protagonistas numa chave de gênero e sexualidade ultrapassada, e nem para servir de açúcar para os olhos misóginos. Não existem apenas relacionamento heteronormativos no mundo, muito pelo contrário. O que não faz sentido é tentar contar apenas um tipo de história, ignorando-se todas as outras que podem trazer leitores em potencial para um meio que precisa estar se renovando a todo momento.

Meyer critica o personagem Luke Cage ser representado empurrando um carrinho de bebê. Mas Luke Cage é pai nos quadrinhos, então faz muito sentido que ele esteja empurrando um carrinho. Assim como nós temos o desenvolvimento de uma narrativa super interessante quando a Mulher-Aranha se tornou mãe, por que não podemos ver um pai executar o papel de pai enquanto continua sendo um super-herói? Se há algo para ser tirado dessa história, é que Luke Cage ajude a construir um olhar mais positivo sobre os homens que dividem as responsabilidades com as mães de seus filhos, normalizando algo que deveria sempre ser o padrão, a divisão de tarefas na educação. Sem ridicularizar o personagem por assumir um papel padronizado como feminino, e sim mostrá-lo sob uma luz positiva.

Assim como eu disse no vídeo do começo desse texto, a diversidade não é sobre excluir homens branco, heterossexuais e cisgêneros. É sobre abraçar pessoas que fogem desse padrão, é abrir espaço para que todos nós possamos curtir e nos identificarmos com os super-heróis, para que nós tenhamos acesso a histórias que fogem do padrão e que estimulem emoções diferentes na gente. A diversidade é sobre agregar pessoas no universo nerd, não excluí-las.

O ataque à Marsha Cooke, viúva de Darwyn Cooke.

Talvez você esteja se perguntando sobre o porquê de todo mundo começar a falar sobre o Comicsgate agora, e não meses atrás (ou nunca). E esse último burburinho teve início há algumas semanas, quando os comicgaters resolveram falar sobre Darwyn Cooke.

Você pode não conhecê-lo de nome, mas Cooke foi um dos quadrinistas mais importantes da sua geração, e a sua arte ficou marcada exatamente por explorar um design mais clássico e cartunesco, puxando muita inspiração dos anos 50-60. Talvez por isso, o Comicsgate tenha achado que Cooke, que faleceu em 2016, teria apoiado o movimento.

Em resposta a essas afirmações, e em específico a um tweet que dizia ter provas em vídeo de que Cooke seria um comicgater caso estivesse vivo, Marsha Cooke, a viúva de Darwyn, respondeu:

Tradução: “Oi rapazes, aqui é a esposa de Darwyn e eu posso garantir que ele achava que vocês idiotas do comics gate eram um bando de bebês chorões perdedores estragando os quadrinhos. porque vocês são.”

Por razões infelizmente óbvias, os comicgaters não levaram a resposta na boa e teve início uma campanha de assédio e ameaças contra Marsha.

Bill Sienkiewicz, quadrinista de fama internacional, responsável (dentre várias outras obras) por Elektra: Assassina, veio a público defender Marsha e falar umas verdades em um post de facebook.

Para os comicgaters – mas também: para meus amigos e colegas de profissão. Preparem-se para o que vou falar. Estejam avisados.

Para começar.

Eu estou convencido de que foram os quadrinhos que ME escolheram como praticante, emissário, o que quer que seja — ao invés do contrário. Talvez por isso, eu veja outros criadores da mesma forma. Seja qual for o real motivo pelo qual as pessoas criam quadrinhos, contam histórias, vivem nesse mundo, ainda é um chamado maravilhoso. Criadores são família, cada voz é única e necessária.

Dito isso, os quadrinhos definitivamente não escolheram o tal Comicsgate para promover essas mensagens de ódio, misóginas e horríveis. Não, esses ‘gaters’ trouxeram essas coisas terríveis por conta própria.

Para ser honesto, eu não entendo vocês. Vocês são tão inseguros, têm tanto medo de dividir o espaço criativo com alguém que tem mais estrogênio que vocês, a ponto de sentir sua masculinidade e estilo de vida ameaçados? Muito heróico da sua parte. Eu até pediria para vocês me explicarem isso, mas sinceramente, o que eu ouvi de vocês até agora já me deixa entediado, além de irritado. Eu odeio bullies. Covardes.

O que vocês estão promovendo não é algo divino e criativamente indispensável, vocês só estão sendo babacas. São um clã, um saco cheio de idiotas. Seja qual for o nome que vocês se dão, não são os Vingadores. São apenas babacas.

Quadrinho não é o clube do bolinha. Não é “(insira aqui grupo étnico, gênero, religião e orientação sexual) NÃO SÃO PERMITIDOS”. É um lugar de encontro para criadores de todos os tipos. Como uma Legião de Super-Heróis da vida real, ou a Liga da Justiça. Apenas com caneta e tinta e notebooks e…

Parem de ser aqueles tios racistas e misóginos que aparecem em reuniões apenas para desaprovar de tudo. Parem de ser o primo esquisito que o mundo inteiro aponta para mostrar o que é o estereótipo do “nerd que ama quadrinhos”. Ou façam isso longe de nós. Parem de bancar as vítimas incompreendidas, reclamando de favoritismo, espalhando intolerância e machismo. Vocês são apenas racistas chorões. Vocês estão certos sobre o fato de algumas mudanças precisarem ser feitas, começando por vocês se olhando no espelho.

Então parem de ser esses embaixadores do pior da natureza humana. Parem de ser idiotas sem noção. Parem de ser machistas que só sabem falar bobagem para qualquer mulher que encontram.

Ninguém chamou vocês para serem os maiores babacas possíveis.

Parem com isso.

Melhorem ou caiam fora.

Nós, dos quadrinhos, a audiência, estaremos ótimos sem vocês.

Ninguém sentirá falta.”

Você pode ler o post em inglês neste link.

Depois dele, seguiram-se diversos artistas fazendo variações de tweets muito similares, sempre defendendo a inclusão e condenando a visão de que quadrinhos não são para todo mundo.

E Marsha chegou a uma triste, porém verdadeira conclusão:

“Com sorte este é o meu último comentário sobre o assunto, mas eu concordo com todo mundo dizendo que é irritante que as pessoas não tenham entendido a realidade do que esses idiotas estão fazendo até que uma esposa branca foi atacada. Eu não acho que tantas pessoas teriam se importando com o que estava acontecendo, mas eles estavam pensando em mim como a extensão de um homem então interpretem isso como quiserem.”

Para onde vamos daqui?

Olha, nós temos muito chão ainda. O Comicsgate como movimento pode até se dispersar com o tempo, como ocorreu com a cadeia mais agressiva do gamergate. Mas esse tipo de ataque e de resposta cheia de ódio a políticas de inclusão e à simples existência de mulheres, pessoas não-binárias, pessoas não-brancas, LGBT´s e qualquer tipo de pessoa que se distancie, mesmo que só um pouco, do percebido padrão branco, masculino, heterossexual e cisgênero, ainda vai demorar pra acabar.

As editoras, até agora, evitaram falar sobre o movimento. A única que deu uma declaração decente foi a Vault:

A Alterna Comics, através de seu fundador, se recusou a responder quando questionado sobre eles retwittarem twittes que usam a hashtag do Comicsgate de maneira pejorativa:

Apesar desse silêncio, o que a gente sabe é que as editoras continuam soltando e apostando em um público que vai além daquele que, até pouco tempo atrás, era considerado o único possível: branco e masculino. Ao se darem conta de que eles poderiam trazer para os quadrinhos a diversidade imensa de um público novo, ou que havia se afastado, eles foram rápidos em começar a produzir para essa nova fatia de mercado.

O que os quadrinistas podem fazer para ajudar a frear essa onda de ódio é deixar muito evidente o seu posicionamento, conversando com seus fãs sobre o assunto e assumindo responsabilidade pelo que falam. É muito fácil dizer que se apoia a diversidade, mas se calar quando se precisa dar voz. E eu entendo, mesmo, o medo e a dificuldade que é lidar com essas ondas de ódio, mas se a gente quer um ambiente que seja acolhedor e continue consumindo o material que criamos, então precisamos nos posicionar em momentos como esse. Porque essa onda de conservadorismo e ódio não está só na internet, e não está só nos quadrinhos, elas está em todos os lugares.

E aos leitores, fica também o importante papel de discutir esse assunto, falar sobre ele, mas não para tentar colocar mais lenha na fogueira, mas para tentar abrir os olhos daqueles que compram essa narrativa de maneira tão fácil e rápida. Explicar que diversidade não é sobre exclusão e sim sobre inclusão. Que, por mais que os comicsgaters digam que estão preocupados com o mercado de quadrinhos, eles estão mesmo preocupados em excluir aqueles que são diferentes deles.

O Comicsgate não quer um mercado de quadrinho mais forte. Eles querem a volta de um mercado de quadrinho que não estava mais se sustentando. Trazer novos nomes para dentro do mercado é um ponto crucial para ele sobreviver às ininterruptas mudanças do tempo. O que os comicgaters querem é a volta de uma época em que só homens escreviam, desenhavam e estrelavam as histórias. Em que só a história deles importava. Mas nós não vamos voltar, porque nós seguimos fortes.

Eu deixo vocês com esse vídeo que resume de maneira bem-humorada o meu sentimento sobre o comicsgate:

Links interessantes sobre o comicsgate, que me ajudaram a compôr esse texto:

Polygon

The Mary Sue 

Capeless Crusader 

The Daily Beast

Inverse

Paste Magazine