Isso com certeza cabe como um dos motivos para você assistir The Dragon Prince, no texto anterior que fiz sobre o assunto, mas essa questão merece um texto só para ela. Além de ter uma história incrível, The Dragon Prince é uma animação que está disposta a mostrar personagens diversos e também falar sobre questões de preconceito de uma forma muito coerente.

O texto não contém spoilers. Lembrando que é uma análise feita baseada na primeira temporada, se as coisas mudarem depois, a gente não tem como adivinhar, né?

Começando pelas minorias. The Dragon Prince apresenta personagens diversos. Nós temos personagens negros, como Ezran e Harrow, que inclusive são da família real de Katolis, um dos reinos dos humanos. Também temos a Ellis, que é uma personagem feita baseada em descendência tibetana. Amaya, além de ser deficiente auditiva, é uma personagem de descendência asiática. Há várias personagens mulheres de destaque, como Rayla, Claudia, Amaya, Ellis… Ainda não temos personagens declaradamente LGBT+, apesar de que há teorias de que Runaan tenha um namorado. Mas ainda temos mais temporadas para que a sexualidade dos personagens, e como eles se identificam, seja mostrado.

É um universo de fantasia medieval. De acordo com tantos outros exemplos que temos, ou as minorias praticamente não existem como em O Senhor dos Anéis, ou existem, e até podem ter um arco legal, mas sofrem constantemente por serem dessas minorias, como em Game of Thrones.

Geralmente, quando criticamos a falta de minorias, ou o tratamento ruim que elas recebem, muitos fãs reclamam dessas críticas, dizendo que “naquela época era assim”, portanto a história, mesmo de fantasia, deveria ter algum valor histórico para a era medieval. Pois bem, The Dragon Prince passou a ser o meu exemplo preferido de como é possível representar minorias em uma fantasia medieval, sem ser preconceituoso.

Nenhum desses personagens que citei acima, entre outros, sofrem por serem de minorias específicas. Rayla nunca é questionada por ser uma mulher, Amaya nunca é menosprezada por se comunicar em línguas de sinais, a autoridade de Harrow nunca é diminuída porque ele é negro. Todos esses personagens possuem conflitos e questões a serem tratadas, mas suas características que fazem deles minorias não são o foco da questão. É o tipo de obra em que podemos ver personagens diversos, fora do padrão, que são tratados com respeito, que tem direito a ter um arco narrativo que um personagem homem, branco e dentro do padrão teria.

Como eu sempre falo, é sim importante termos obras que falam sobre o preconceito com minorias da nossa sociedade, como Kindred, contanto que a história seja respeitosa com o preconceito que os personagens passam. Isso porque são preconceitos e dificuldades reais de parte do público. Não dá só para colocar violência gratuita, que pode ser gatilho, e usar de justificativa o fato de que “ah, mas naquela época mulheres eram estupradas assim, então tudo bem a gente relativizar o assunto”.

O que me leva a outro ponto muito interessante de The Dragon Prince, que é como a história trata de preconceitos. Os personagens daquele universo não sofrem por serem de minorias, porque naquele mundo ser mulher ou negro nunca é colocado como algo que os faria ser alvo de preconceito. O que não quer dizer que os personagens não sofram outros tipos de preconceitos.

Desde que Rayla começa a interagir com os humanos, percebemos que há um preconceito evidente em ela ser uma elfa. O que é explicado pela história, considerando a guerra que acontece há muito tempo entre Katolis e Xadia. Ainda não sabemos como os elfos reagem aos humanos. Mas isso fica para descobrirmos na próxima temporada.

A grande questão é: A série discute preconceito, fala como é errado e prejudicial ao mostrar como Rayla sofre diante de humanos intolerantes. Sim, Ezran e Callum não a tratam mal, mas ela corre risco sempre que outros humanos estão por perto. Quando isso acontece, a conclusão que a história dá é que o preconceito cria situações ruins, ideias erradas e ódio incondicional. No final da história, é possível que o preconceito não tenha acabado, mas The Dragon Prince mostrou que isso é errado.

Eles usaram sim uma personagem de uma minoria, a Rayla, para demonstrar isso, mas sem serem misóginos com a personagem, porque a questão é outra. E mesmo dentro do contexto, o que Rayla passa não é graficamente desnecessário. Sim, em parte por ser um desenho infantil, mas essa animação passa mensagens contra preconceito melhor do que muitas outras histórias por aí, que se dizem mais “fiéis àquela época”. The Dragon Prince conseguiu mostrar como o preconceito contra elfos funciona sem diminuir a personagem de Rayla.

Nós podemos sim ter obras com personagens diversos que passem por questões não relacionadas a preconceito, mostrar esses personagens fazendo todo tipo de coisa é representação válida. E também é possível debater preconceito sem acionar gatilho de ninguém, sem ser desnecessário e tendo cuidado com a questão. Sim, a briga entre Xadia e Katolis é uma questão importante, mas no final do dia o que mais se destaca é o desenvolvimento do trio principal para fazer o que é certo. Não só temos uma história ótima, como também personagens em que nós, minorias, podemos nos ver e nos identificar, sem sofrermos com cenas desnecessárias.

Então inclua The Dragon Prince na sua listinha de exemplos bons de representação e discussão de preconceito, porque essa é uma opção muito válida de lidar com esse tipo de personagem e história.