A nova série de terror do Netflix, A Maldição da Residência Hill, já tem todos os seus dez episódios disponíveis para serem assistidos. A família Crain se muda para a residência Hill, uma mansão antiga que é conhecida por ser mal assombrada. A ideia é ficar apenas por um período curto e específico, enquanto os pais consertam a casa. Durante uma noite, o pai, Hugh Crain, pega os cinco filhos, Steven, Shirley, Theodora, Luke e Nell, e foge, deixando a esposa, Olivia, para trás.

Anos depois, vemos a família lidando com o suicídio da mãe e os acontecimentos sobrenaturais que aconteceram na mansão. Hugh nunca falou direito o que aconteceu naquela noite, por isso muitos jornais montaram a própria versão. O próprio Steven escreve um livro sobre os acontecimentos, mesmo que não acredite em nada que escreveu. Mas eles são forçados a confrontar todo o passado de novo quando Nell resolve voltar para a casa Hill.

Este texto não terá spoilers da série.

Eu sou uma pessoa muito fácil de assustar, qualquer história de terror me dá medo. Eu passei os 10 episódios encolhida na minha cama enquanto assistia, e de noite eu tinha certeza que a mulher do pescoço quebrado ia aparecer na minha frente. No sentido de susto, a série não tem muitos, mas ela dá sim a sua dose de medo.

O mais interessante em A Maldição da Residência Hill, para mim, é que a série sabe quando focar no sobrenatural e quando focar nas pessoas. A história não é só sobre os fantasmas, os horrores da residência e o mistério da morte de Olivia Crain. Também é sobre a família, como os filhos lidam com tudo que aconteceu, os que acreditam nos fantasmas e os que acham que tudo estava na mente deles…

A série é tecnicamente muito bem feita. Eu não gosto de ser a pessoa que estudou cinema e fica “olha esse plano”, mas tem momentos que não deu para segurar. A direção toda é muito boa, além dos cortes de câmera, ou a falta deles, nos momentos certos. Por mais que a série não tenha tantos sustos, esses momentos favorecem que o público se surpreenda. Inclusive, há algumas cenas em que há fantasmas escondidos que não se tornam o centro da atenção.

As atuações são muito boas, principalmente as das crianças. Alguns episódios exigem muito dos atores, mas em momento nenhum a emoção se perde. Especialmente no episódio 6, que tem momentos muito pesados e os atores conseguem passar as emoções de forma muito real e honesta.

A história é redonda, fechando todas as pontas importantes. Há um ou outro mistério que fica em aberto, mas tudo que diz respeito à família Crain é resolvido. Cada episódio dá aquela sensação de que queremos assistir “só mais um” para descobrir o que está acontecendo. Nós vemos o passado, quando os filhos ainda eram crianças, encarando os mistérios da mansão Hill, e o futuro, quando eles já estão crescidos e lidando com os traumas.

Os primeiros cinco episódios são focados nos filhos, cada um tem seu arcos apresentados em um desses episódios, e aos poucos resolvidos nos próximos episódios. Ninguém é perfeito na família Crain, mas talvez por isso que seja tão fácil de entender o que acontece naquela família. Porque ter problemas com familiares é o básico da vida, é muito difícil isso não acontecer, ainda mais quando é uma família que não sabe conversar sobre problemas e as questões importantes são deixadas de lado.

Quanto aos personagens em si, eu tenho poucas críticas. A primeira é sobre Theo, que é uma personagem bissexual. Ela é a minha favorita da série, no entanto não posso deixar de apontar que a forma dela de lidar com seus traumas é se relacionando com várias pessoas, sem se apegar, o que é um clichê. Apesar de que eu preciso dar mérito para série por ter feito ela alguém além disso, e que os poderes sobrenaturais dela guiam muito mais suas ações do que a sua sexualidade. A outra questão é o tempo em que o arrependimento de Shirley é tratado. Eu entendi, e fez sentido, ainda mais porque a personagem se considera o grande arauto do que é correto. Mas senti que foi um pouco jogado no final da série.

O que eu gosto muito em A Maldição da Residência Hill é que há uma boa dose de drama real e sobrenatural. Seria decepcionante se tudo fosse racionalmente explicado, mas também é interessante que parte possa ser sim. Você pode ler essa história como uma família que não soube lidar com o suicídio da mãe, e por isso começa a ver e sentir coisas que não existem. Mas a casa é real, o seu poder nas pessoas é real.

A casa é uma metáfora, que pode ser interpretada como você quiser, mas há uma temática bem presente na história. Família, trauma, luto, aquilo que não é falado. Se Hugh não tentasse esconder o que aconteceu, tivesse tentado fazer as crianças entenderem o que aconteceu, talvez nenhuma delas tivesse que achar uma válvula de escape para seus traumas, algumas não muito saudáveis.

É sobre ouvir também, se a família se ouvisse mais entre si, tanto no passado quanto no futuro, eles teriam conseguido chegar a uma conclusão melhor do que as coisas horríveis que aconteceram. Ou não, mas talvez não existisse tanta culpa. Quantas casas não se tornam um inferno para as pessoas que moram nelas, porque a família não consegue ter uma boa relação? E de repente o trauma é tão grande que ele é tudo que você conhece, e não importa o quão longe você fuja, sempre volta para aquele momento.

Em um mundo em que não sabemos conversar e nos entender, olhar para o outro, A Maldição da Residência Hill é uma ótima série de terror que usa o sobrenatural para falar sobre isso. A dinâmica da família é muito fácil de identificar, mesmo com os fantasmas. É uma história muito boa, com personagens incríveis e que se conclui na primeira temporada. Recomendo muito que você assista, e se você for medroso como eu, assiste de dia e com companhia.