Alho-poró começa com um trecho da música Cell Block Tango, do musical Chicago. E ler essa citação é essencial para se chegar ao fundo do que é esse quadrinho.

A história gira em torno de três amigas que precisam fazer um quiche de Alho-Poró para um convidado especial, digamos assim. Grande parte do impacto da história do quadrinho está na revelação do porque as amigas precisam fazer esse prato, mas é aí também que o tema do quadrinho cresce e conecta com os demais elementos da história. Vou dar spoilers, mas quando eles começarem eu avisarei.

Um dos grandes méritos de Bianca Pinheiro na construção de Alho-poró são os diálogos, historicamente o elemento mais difícil de se acertar nas diversas artes, sejam quadrinhos, cinemas, séries ou livros. Naturais, divertidos e precisos, a qualidade dos diálogos faz não só a leitura passar muito rápida, como também injeta uma humanidade mundana nas personagens do quadrinho, seja para o mau ou para o bem. É através deles que algumas das revelações acontecem, e é por eles serem tão bem escritos e precisos que o casamento deles com as imagens funcionam tão bem.

Alho-Poró fala sobre conceitos de feminilidade, mulheres, violência e amizade de uma maneira sutil e muito conflituosa. Numa primeira leitura eu fiquei um pouco perdida sobre o que tudo aquilo queria dizer, e acredito que essa interpretação vai variar de acordo com a história pessoal de cada leitor.

O modo como Bianca Pinheiro liga os temas do quadrinho com o tom da história é outro ponto alto. Violência, um dos temas, é normalmente associado à um tom pesado e trágico, mas em Alho-poró ela é apresentada com um humor quase sereno que, ao mesmo tempo com que consegue fugir da acidez característica do humor criado em cima da violência, consegue falar sobre como a vemos como algo normal, corriqueiro e até banalizado.

Atenção para pequenos spoilers a partir daqui.

Eu não como Alho-poró, mas o quadrinho cai muito bem com um bolinho também!

Logo nas primeiras páginas uma das personagens conta que, na sua época de escola, garotas começaram a brigar todo recreio. Não era empurrões e xingamentos, era troca de socos – elas achavam mais justo resolver os problemas assim. E assim como a onda começou, acabou, e os adultos fingiram que nunca tinha acontecido. Essa história cabe dentro do tema do quadrinho pois fala exatamente de mulheres tomando controle sobre a própria história, resolvendo os seus próprios problemas, vingando aquelas que elas acreditam precisar de vingança. Se na adolescência somos ensinadas a odiar, temer e invejar e umas as outras, resolver esses dilemas fugindo do padrão de fofocas, intrigas e outros comportamento tão diretamente associados com brigas femininas é, por is só, quebrar com as expectativas.

A omissão dos adultos aos problemas dessas garotas, nunca realmente interessados no que pode ser a causa desses conflitos é uma relação direta com o silêncio das autoridades e da sociedade como um todo às violências que as mulheres sofrem ao longa da sua vida. Por isso a revelação ao final da história ganha um impacto maior. São mulheres tomando para si a responsabilidade de vingar àquelas que a sociedade acredita que não são merecedoras de justiça. E há muito impacto nisso.

De certa forma Alho Poró soa quase como um filme do Tarantino, não que qualquer filme do Tarantino seja tão bom quanto o quadrinho (não é), mas por ser um conto de vingança que no começo não se apresentava como conto de vingança. Fala sobre violência, do modo como a violência pode ser normalizada e como isso é algo negativo, como a sociedade e como nós mesmas vemos essa violência, algo tão corriqueiro quanto ir ao mercado comprar os ingredientes de uma receita.

Apesar das minhas expectativas para Alho-poró, o quadrinho conseguiu superar muito aquilo que eu podia esperar. A história simples não perde em profundidade nem em complexidade, ao meu ver é um ótimo exemplo de como menos pode muitas vezes ser mais. Sem grandes tramas mirabolantes, sem grandes tentativas apoteóticas de entuchar discussões descabidas, mas com a qualidade de conseguir equilibrar tema, trama e tom de maneira incrível, Alho-Poró consegue trazer humanidade, profundidade e temas muito marcantes para suas cinquenta e três páginas. É Bianca Pinheiro em seu ponto mais alto até hoje.

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