Disponibilizado pela Netflix, Aniquilação é uma adaptação do livro de Jeff Vandermeer. O longa foi dirigido por Alex Garland, o mesmo diretor de Ex-Machina. A história tem vários elementos de ficção científica, mas é classificado como weird fiction que, como o nome indica, é uma ficção com elementos que causam estranhamento e até agonia.

Lena (Natalie Portman), uma bióloga e ex militar, finalmente vê o marido militar Kane (Oscar Isaac) voltar para a casa, depois de uma missão onde, em tese, todos os soldados morreram. Kane volta, mas ele está estranho e, quando começa a passar mal, Lena tenta levá-lo ao hospital. Antes de conseguir, o exército leva os dois para sua base e explica o que aconteceu. Um farol nos Estados Unidos foi atingido por um meteoro alienígena. Aquela área, e tudo ao redor, foi consumido por um fenômeno que o exército está chamando de The Shimmer. Tudo está distorcido e nada que entra volta, menos Kane.

Por causa disso tudo, Lena decide se voluntariar para uma missão composta de um grupo de cinco mulheres. Elas vão investigar o lugar, tentar chegar até o farol, entender o que está acontecendo e, se tudo der certo, voltar com vida. Mas, como podemos adivinhar, vai ser uma jornada de mudanças e inúmeras descobertas.

Esta crítica não terá spoilers do livro ou do filme.

Como não li a obra original, não posso dizer o quão fiel o filme está. O que posso afirmar é que a adaptação é boa e funciona. Podemos concluir isso porque, mesmo não tendo qualquer ideia do que foi escrito por Jeff Vandermeer, eu entendi a história, não fiquei confusa (quer dizer, fiquei, mas era a intenção da história, não por conta de um roteiro fraco) e o filme funciona perfeitamente sozinho. Isso já faz com que ele ganhe muitos pontos comigo.

Uma das coisas que me chamou a atenção logo de cara é o número de mulheres na obra. Não só elas estão em vários lugares, mas toda a equipe que acompanhamos ao longo da história é composta por mulheres. Elas não ficam o longa inteiro falando sobre homem, o que é ótimo. Elas são diversas entre si. Suas narrativas são focadas nelas mesmas, suas dores, suas ações e seus objetivos. Nesse tipo de história, é surpreendente e ótimo ver essas interações em tela.

Todas as personagens são muito distintas. Mesmo que Lena seja o foco, tirando uma das personagens, que acaba ficando meio de lado, todas as outras tem seu espaço de tela. Conhecemos a motivação que as levou até aquela missão e entendemos as reações que elas têm diante das revelações daquele lugar.

Aniquilação é uma daquelas histórias que, apesar de ter várias coisas acontecendo na tela, a mensagem busca mesmo falar de coisas mais pessoais. Apesar dessa forma alienígena que caiu no farol, o filme está falando sobre humanos e a nossa natureza. Por que fazemos mal para nós mesmos? Por que maltratamos os outros ao nosso redor? Por que a resposta da destruição é sempre a mais rápida e mais fácil de entender?

O roteiro deixa sim espaços em branco e momentos abertos, mas é muito mais para instigar curiosidade do que uma falha em si. Aniquilação não seria a mesma experiência se entregasse todas as respostas de mão beijada. Talvez, vez ou outra, eu tivesse gostado de alguma explicação, mas se nem os próprios personagens dentro da trama entendem o que é tudo aquilo, como que nós vamos entender?

Apesar de não ser de terror, há vários elementos que vão ficar grudados na sua cabeça, que vem do estilo do weird fiction. E por mais agoniante que seja às vezes, o visual do filme é fantástico, porque também está contando uma história. Aquilo que nos causa estranhamento não são visuais gratuitos, não estão ali só para ser legal, as modificações que o shimmer causam está contando uma história, tanto quanto o roteiro, a direção ou a edição. É esquisito e causa sensação de desconforto, mas é bonito ao mesmo tempo.

O livro faz parte de uma trilogia, mas eu honestamente acho que tudo que tinha para ser dito da obra já aconteceu nesse filme. Não há mais o que mostrar, o que tinha que ser resolvido foi e o que tinha que ficar aberto está lá, pronto para as inúmeras interpretações que vamos fazer.

Por mais que tenha algumas confusões e estranhamentos, é um filme que eu recomendo muito caso algum desses tópicos tenha te chamado a atenção. Eu estava com um pouco de pé atrás, mas fiquei muito feliz (e confusa em alguns pontos) com o resultado e com o que eu assisti. É um filme que ainda pode ser falado por algum tempo. Então corre lá na Netflix e se prepare para entrar no shimmer.