Antes de 2018 acabar, a Netflix lançou um novo episódio de Black Mirror chamado Bandersnatch. Só que não era um episódio comum, aliás nem episódio era. Bandersnatch é um filme interativo, onde as decisões de quem está assistindo definem qual será o final da história. Nem todos os dispositivos são compatíveis com o sistema, então prefira assistir no computador, tablet, celular ou até no videogame.

Esta crítica não contém spoilers.

Originalmente, o nome Bandersnatch em inglês é de uma criatura que aparece em algumas obras de Lewis Carroll, escritor de Alice no País das Maravilhas. O filme conta a história de Stefan, um jovem programador de jogos que está tentando lançar seu jogo, Bandersnatch, que é baseado em um livro de mesmo nome, em que o autor ficou louco e matou a esposa. No entanto, Stefan é muito fã dessa obra e acredita no seu jogo, mas ele precisa enfrentar suas próprias questões psicológicas, um mercado que nem sempre é amigável e a suspeita de que há algo a mais em sua vida. Bandersnatch é dirigido por David Slade, o mesmo diretor de Metal Head da quarta temporada, e escrito pelo criador da série, Charlie Brooker.

No começo da história, somos apresentados a algumas decisões que pouco afetam a história, até chegarmos em uma que realmente pode nos dar um gameover precipitado. Quando chegamos em um dos finais, o jogo nos dá a opção de voltar para a escolha que selou o destino de Stefan.

Black Mirror sempre nos apresentou várias histórias com viradas e, geralmente, finais infelizes para os personagens envolvidos, com algumas exceções, mas sempre uma reflexão que pode ficar conosco por algum tempo. Então Bandersnatch não seria diferente. Além do óbvio, de nossas escolhas resultarem em alguns finais trágicos, outros engraçados, Bandersnatch é um episódio ciente de que é uma obra interativa e traz isso para dentro de si, não só com as diferentes escolhas.

O episódio foca, principalmente, no personagem de Stefan, deixando os outros um pouco de lado, quase como NPCs mesmo. Colin e o pai de Stefan tem mais chance de aparecer, mas Stefan é o centro das atenções. Isso faz com que Bandersnatch tenha uma história bem fechada naquele núcleo, o que não é uma coisa ruim. Inclusive é uma forma de impedir algo muito grande que cause furos. Também é uma escolha que facilita as linhas de possibilidade para os produtores. É sempre um trabalho a mais fazer uma obra interativa, por causa de todas as opções possíveis.

Todo o episódio de Black Mirror costuma trazer uma mensagem sobre relações humanas, usando a tecnologia como ferramenta. Bandersnatch fala sobre liberdade, se somos de fato livre nas nossas decisões e, caso não sejamos, como podemos ser responsabilizados por qualquer coisa? Existe toda uma conversa sobre teoria da conspiração em Bandersnatch, sobre pessoas serem controladas. Por um lado, se filosofarmos sobre isso, podemos pensar o quanto nas nossas vidas somos manipulados pelo nosso sistema, como às vezes temos uma noção de falsa liberdade. No entanto, quando a conversa passa para responsabilidade sobre ações, como crimes, eu acredito que o filme peque um pouco na sua crítica.

A questão de manipulação e falta de controle dentro do universo do episódio de Bandersnatch funciona, junto com as escolhas que fazemos, tornando a experiência bem divertida. No entanto, fora dali, para as nossas vidas, não é tão fácil de nos conectarmos. Você talvez se sinta culpado pelo que fez com a vida de Stefan, mas é um episódio muito mais difícil de se relacionar na questão de mensagem que passa, ao contrário de outros episódios da série.

Bandersnatch demora para ficar cansativo. Só quando eu já estava nos dois últimos finais que eu comecei a me distrair com outras coisas. Como alguém que está acostumada a jogar games com escolhas e consequências, Bandersnatch consegue criar suspense e te deixar tenso, até culpado, pelo que acontece dentro do filme. Nesse ponto, em como a história é construída, funciona muito bem. Mas é uma experiência bem melhor quando vemos todos os finais, ou ao menos a maioria deles, porque com apenas um deles o episódio parece apressado e sem respostas. De certa forma, o fato de só com a maioria dos finais nós entendemos melhor a história, bate com o discurso de Colin dentro do filme. Porém, do ponto de vista da audiência, pode cansar em algum momento. Apesar de que o episódio não te obriga a ver o filme todo de novo para outros finais, o que é um ponto positivo.

Apesar de não ser a minha experiência favorita de Black Mirror, eu me diverti bastante e fiquei tentando abrir todas as possibilidades possíveis para entender melhor a história. É um filme que eu recomendo, não é tão agoniante quanto outros episódios, mas é preciso prestar atenção, ou será o Stefan que pagará as consequências.