Ficção-científica é o gênero que fez eu me apaixonar por histórias de maneira geral. Apesar disso, a fixação por regras e formatos pré-estabelecidos, convenções consideradas verdades indestrutíveis e conceitos tomados como verdades absolutas sempre me incomodou. Binti, de Nnedi Okarafor, escapa dessas convenções e abre espaço para algo maior e, ao meu ver, mais interessante.

Binti é uma garota humana de dezesseis anos, a primeira pessoa da tribo Himba a ser aceita pela prestigiosa Oomza University. Mas aceitar seu lugar na universidade significa abrir mão não só da sua cultura e tradição, mas também da sua família. Além disso, explorar o espaço também significa estar em meio à pessoas que não conhecem, nem respeitam a sua cultura – assim como enfrentar perigos que ela nunca enfrentou antes.

Ler a narrativa de Nnedi foi transformador por muitas razões. Primeiro, porque encontrar uma escritora que se permite fugir dos padrões fechados da ficção-científica foi incrível. Uma escrita sem o medo de caber dentro de cada quadrado considerado “de qualidade”. Uma escrita que torna-se maior do que esses quadrados. Foi quase como encontrar aquela amiga que gosta das mesmas coisas estranhas que você.

Segundo, porque mesmo para mim, leitora relativamente aberta e consciente, alguns elementos culturais da protagonista passaram despercebidos em uma primeira leitura. Isso me chamou a atenção não só pela riqueza de detalhes da construção desse universo, mas também pelo quão apegada eu mesma estou de padrões literários ou de personagens.

Binti usa otjize, um produto de fabricação própria, utilizando a argila do deserto no qual a sua tribo mora. Esse produto é espalhado por toda a sua pele, assim como seu cabelo, e é muito mais do que um cosmético, é um símbolo de valor cultural para seu povo. A capa do livro na versão americana mostra Binti, com as mãos sujas de otjzi, espalhando o produto sob seu rosto. AINDA ASSIM, eu só me dei conta de como Binti usava o produto ao final da novela.

Binti é uma história incrível sobre coragem, conexão, perdas, violência e, principalmente, sobre diálogo. Sobre estabelecer uma conversa, mesmo quando o ponto de partida é violento, mesmo quando tentamos encontrar objetividade em meio à tragédia. Poucas vezes eu fui tão positivamente surpreendida com os caminhos que uma história tomou, o tipo de coisa que me tira o ar.

As escolhas que Nnedi toma para o rumo da história de Binti não são só corajosas, mas complexas e realmente originais. A capacidade de trazer esclarecimento em meio ao caos é um dos pontos altos do livro, o modo como a escritora consegue controlar a narrativa e suas personagens através de escolhas, que pareceriam absurdas caso fossem descritas de maneira diferente.

Não se deixe afastar do livro porque a protagonista possui dezesseis anos, parte importante do tema da novela é exatamente encontrar sabedoria e conhecimento em lugares e pessoas onde não se espera. Nnedi traz para a discussão a visão preconceituosa que a sociedade ocidental branca possui de vivências e conhecimentos que desconhece ou que não se esforça para compreender. O modo como o livro aborda sabedoria e respeito, interligando tudo isso com a discussão de história vs atualidade (mesmo que a atualidade seja no futuro) também é incrível.

Se você procura uma aventura espacial que se disponha a discutir assuntos interessantes, profundos e com uma visão positiva porém realista do futuro, Binti definitivamente é uma opção certeira.

Binti ainda não está disponível em português, mas os livros da autora Nnedi Okarafor serão lançados pelo Grupo Editorial Record. A novela, no entanto, está disponível no Brasil através da Amazon, tanto a versão e-book Kindle, como a versão paperback. Quem teme a morte?, livro de autoria de Nnedi e que está em adaptação para a televisão pela HBO, já está disponível no Brasil.

Até mais! 😉

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