A Forma da Água, o novo filme de Guillermo del Toro, tem dado o que falar há algum tempo. Premiado em inúmeros festivais, é o campeão de indicações ao Oscar e os elogios dos críticos fizeram nossa curiosidade pela criatura da água aumentar. Eu não fiz nenhum segredo sobre o quanto eu queria assistir ao filme.

Elisa é uma faxineira da OCCAM, uma base militar secreta dos Estados Unidos. Ela trabalha junto com sua amiga, Zelda, no turno da madrugada. Certo dia, novos agentes chegam na base, incluindo Strickland, que acabou de voltar de uma missão na América do Sul. De lá, ele e seus homens trouxeram uma criatura que chamam de Homem-Anfíbio (e eu chamo carinhosamente de homem peixe sexy). Ele será estudado enquanto Elisa cria uma conexão maior com a criatura.

O filme segue uma estrutura que me lembra O Labirinto do Fauno em vários pontos, mas com um tom menos melancólico e mais esperançoso. Apesar de proporções relativamente grandes, considerando que é uma base de alta segurança e uma criatura não conhecida, o roteiro deixa claro que ele quer explorar uma situação específica. A história que será contada é sobre Elisa se identificando e se apaixonando pelo Homem-Anfíbio. Desde o primeiro momento, temos os temas do filme sendo reforçados para chegar na conclusão final, imagens que voltam para o telespectador mais tarde.

Vemos a rotina de Elisa desde o começo, como ela se relaciona com Zelda e Giles, as únicas pessoas que não parecem tratá-la como menos por ser muda. O roteiro vai construindo aos poucos esse romance, sendo delicado nos pontos de conexão. Nós estamos acostumados a assistir histórias de amor com falas, mas nesse caso Elisa e o Homem-Anfíbio não podem falar um com outro, o que não quer dizer que não consigam se comunicar. Há um ou outro ponto facilitados no roteiro para fazer a trama acontecer mais rápido, mas no geral a história flui bem entre todos os acontecimentos.

Os personagens são divertidos e, mesmo o vilão, é possível entender sua posição na história e o papel que eles têm dentro dela. As atuações estão ótimas, sendo que às vezes alguns diálogos podem tocar no telespectador. Há algumas falas que eu optaria por tirar, por não serem exatamente as melhores escolhas. Gostei demais do trabalho de Sally Hawkins, mas também teria sido interessante ver uma atriz muda interpretando esse papel.

As indicações aos prêmios são muito merecidas. Tanto categorias técnicas quanto narrativas estão no ponto. Mesmo onde tem algumas falhas, não chegam a ser coisas que atrapalhem a experiência como um todo. O Homem-Anfíbio interage de forma diferente, mas ele é muito interessante. As características e dilemas dos personagens vão se revelando aos poucos, dá para ver o ponto em que eles são convencidos de tornar certas decisões.

O filme se propõe a discutir a questão do ódio e preconceito. A história deixa muito claro que as pessoas que tomam atitudes baseadas em julgamentos e preconceitos estão erradas. A pessoa mais padrão do filme é sempre colocada como vilão, e quem se relaciona com a dor do Homem-Anfíbio são exatamente aqueles que, seja por etnia ou orientação sexual, conseguem entender o que é ser tratado como menos. A Forma da Água não vai sempre tão fundo nesse tema, mas a mensagem está sim ali. Por que somos melhores que a criatura se a tratamos tão mal? O que atitudes de preconceito dizem sobre nós, seres humanos?

Eu entendo que, para nós, Guillermo del Toro é lido como um homem branco, mas no contexto de Hollywood, que é o que ele vive, ele não é um diretor branco. Esse contexto precisa ser levado em consideração. Talvez, exatamente por isso, ele teve a preocupação de tentar trazer o assunto de preconceito para o filme, em pontos específicos e diferentes na vida de vários personagens. E no final, a mensagem de amor prevalece, o que nós definitivamente precisamos nos tempos atuais, tanto nos Estados Unidos quanto aqui.

Não posso afirmar se A Forma da Água é o melhor filme do ano, mas para mim com certeza é um dos que mais gostei. A história soube alternar entre as dificuldades e os momentos para relaxar, mantendo a sensação de que as coisas podem dar errado até o final. É um conto de fadas para adultos, há aspectos de Elisa que pode permitir a conexão com o telespectador, que nos deixa ainda mais perto daquela história. E sim, como todo o romance, há momentos o suficiente para nos fazer suspirar.

Então sim, eu com certeza recomendo que vocês assistam A Forma da Água. Pode parecer esquisito, e em até certos pontos relativamente bobo, mas o filme vale sim o seu ingresso