Quando pensamos em adaptação de videogames para o cinema sempre fica aquele gostinho amargo de tudo que podia ter sido, mas não foi. As vezes é a total falta de conexão com o jogo de origem, as vezes a tentativa de enfiar tudo de um jogo imenso em duas ou três horas. Tomb Raider: A Origem quebra esse padrão.

No filme, Lara Croft (Alicia Vikander) está no começo dos seus vinte anos, afastada da fortuna Croft, trabalhando como entregadora em um restaurante indiano de Londres e sentindo falta de seu pai, Richard Croft (Dominic West), que desapareceu há sete anos. Após o encontro com sua ex-tutora, e amiga pessoal de Richard, Lara acaba encontrando pistas sobre o último destino de seu pai, o que a leva a embarcar na sua primeira aventura.

Tomb Raider entrega uma aventura consistente, focada não apenas na ação mas também no desenvolvimento de Lara como personagem. A transformação que vemos no jogo também está presente no filme, mesmo que o fato de ser um filme Live Action acentue as decisões de Lara e o impacto de cada uma de suas flechas.

A grande sacada do roteiro foi conseguir equilibrar o jogo com o filme. Inserindo momentos originários do jogo, mas sem exageros que impedissem a trama do filme de seguir em frente. A história, apesar de similar, diverge do jogo em uma mudança que pode ser considerada drástica. Não posso detalhar muito mais do que isso, ou seria spoiler, mas essa mudança tem o potencial tanto de agradar como de incomodar os fãs da série de videogame. Ao meu ver, apesar de talvez desnecessária, ela abre a possibilidade para que em possíveis futuras continuações, Lara possa se desenvolver de uma maneira diferente e como potencial interessante.

Há uma outra grande mudança, que eu posso detalhar um pouco mais já que ela é vista nos trailers, que é a substituição da equipe que Lara leva para a ilha por apenas um personagem: Lu Ren (Daniel Wu). Ren é o link entre Lara e o que aconteceu com seu pai sete anos atrás e, apesar de você talvez sentir falta de todos os companheiros de Lara, ele é um personagem que traz uma dinâmica interessante ao filme. Um dos aspectos legais de Ren é que apesar de ser um herói de ação asiático, ele não é limitado pelas suas habilidades em artes marciais (ele nem luta de verdade durante o filme) e, assim como Lara, também possui um propósito em seguir na aventura.

A substituição pode ser fruto de várias questões como orçamento limitado (um grupo de parceiros custa muito mais do que apenas um), ou o desejo de desenvolver mais personagens (o que também fica complicado quando se tem um grupo de parceiros – vide Mulher-Maravilha) mas eu fiquei contente que ao invés do tipo “Daniel Craig”, desta vez Lara é acompanhada por um homem não-branco.

Um dos maiores erros nas histórias de aventuras ocidentais sobre caçadores de tumbas é a maneira como eles representam as culturas dentro das quais a caçada acontece. Tomb Raider: A Origem, apesar de ser sobre uma mulher branca chegando até uma tumba japonesa, consegue trazer algum nível de nuance. Infelizmente não posso revelar mais por correr o risco de contar detalhes da trama, mas logo mais devo falar sobre isso em outra oportunidade.

Quando o filme, e o jogo, começam, Lara ainda é uma jovem com coração aventureiro mas ingênua sobre as dificuldades de seguir esse caminho. Ao decorrer da história ela vai desenvolvendo as suas habilidades físicas, mas também a maneira com que lida com os seus sentimentos – especialmente o sentimento conflituoso em relação ao pai. A escolha de Alicia Vikander para o papel permite que a personagem vá além da simples heroína de ação. Lara se machuca, grita, geme, salta, cai, escala, bate e mata. Tudo isso afeta a personagem de alguma maneira, e mesmo a superação física é algo bem incorporado à narrativa. Algo que deveria ser comum, mas não é, e por isso é positivo: a personagem em momento nenhum do filme é hipersexualizada ou diminuída por alguma ação de personagem masculino.

Tomb Raider: A Origem é um bom filme de aventura e ação, divertido e remanescente dos filmes de ação da década de 90 – sem o humor exagerado da trilogia A Múmia (1998), ou mesmo de suas adaptações anteriores. Talvez, se tivesse se permitido ir um pouco além no gênero e nas suas decisões criativas ele teria sido um filme maior (também seria preciso uma segunda revisão nos diálogos, que em alguns momentos são muito clichês). Teria sido muito interessante, por exemplo, ver mais mulheres ao longo do filme – eu não veria problema nenhum em mudar o gênero do vilão principal.

Nada disso, no entanto, tira o mérito do filme de conseguir alcançar um equilíbrio entre cinema e videogame. Acredito que a partir do que Tomb Raider: A Origem fez, talvez nós comecemos a receber uma leva de adaptações que entregue um produto bom e que agrade ambos os públicos: os fãs dos jogos, e os fãs de filmes de gênero.

Tomb Raider: A Origem estreia nesta quinta-feira, dia 15 de Março.