A vida de uma mulher não é um cupcake.

— Com spoiler.

A série retrata a vida com foco na amizade, no trabalho e nas relações afetivas. Gênero: romance, drama e comédia.

A sinopse, que destaca questões financeiras dos personagem principais (até entendo que seja o ponto de partida da narrativa), não tem nada a ver com a potência da série. Feliz daqueles que começaram a ver e se surpreenderam com a história de amizade entre mulheres e a exposição do que é ser mulher sul-coreana.

Onde mora o brilho da série

Romance é um dos focos? Sim, é. Só que vamos acompanhar em grande parte não apenas a vida de Yoo Ji Ho, como também suas reflexões a respeito de acontecimentos que tocam alguns personagens na série.

Representações femininas que nós queremos! Yoo Ji Woo, Yang Ho Rang e Woo Su (muito diva!)

O que é ser filha mulher? O que é ser uma profissional capacitada, mas com pouca oportunidade de trabalho? O que é e como surgem as violências contra a mulher no trabalho? Quais são as expectativas do papel da mulher no casamento para determinadas famílias sul-coreana e o que cada uma deseja dentro dessa instituição?

São algumas das questões pautadas não apenas no viés da principal, mas de suas amigas, mães e conhecidas. A série brilha quando se aproxima das realidades cotidianas daquelas mulheres, muito semelhante às nossas autobiografias femininas ocidentais. São papos curtos e precisos. Não apela no discurso direto — isso até ajuda a falar da luta feminista sem usar a tal palavra que afugenta quem não a entende, mas convive com os problemas expostos no drama. O diálogo intimista da personagem é certeiro na construção da série, suas reflexões não são pedantes, mas quem ainda não chegou aos 30 anos pode não se identificar com algumas experiências.

 

Yang Ho Rang e o chefe do restaurante. O arco dessa personagem está no seu relacionamento de 7 anos.

As representações femininas são complexas e o roteiro colabora com isso ao apresentar o contexto, os sonhos e as decepções das três amigas que são muito distintas. É revigorante ver um dorama fortalecendo laços de amizade entre mulheres e não isola a personagem principal num triângulo amoroso ou é cercada pelo universo masculino. *UFA!*

Outro ponto brilhante da série é lidar com o tema da mulher no mercado de trabalho e a falsa simetria sobre a igualdade de gênero nesse espaço. Woo Soo e Ji Woo sofrem diferentes violências que aos olhos de determinadas pessoas não é um problema. Os personagens em volta delas nunca se posicionam, ainda mais quando a figura de autoridade é conivente com a prática (quando tenta reduzir a gravidade da situação) ou é o próprio abusador. Vemos como são cruéis esses espaços machistas com as duas amigas, ainda mais que nós as conhecemos bem.

Woo Su Ji deixando claro à Ma Sang Goo quem sempre perde numa relação afetiva.

Por um bom tempo achei que a tentativa de estupro que Ji Woo sofre não seria vista com mais seriedade, porque deixaram sem desfexo no início do dorama. Felizmente, há um posicionamento jurídico e apoio de uma outra mulher para dar continuidade à denúncia. O roteiro não usa isso como um mote de amadurecimento da personagem, mas evidencia o fato de que uma mulher vulnerável pode ser abusada por pessoas conhecidas. Foi na medida certa para expor algumas consequências desse trauma.

MAAAAAS…

Eu acho muito pretensiosa a escolha desse ator principal, que foi denunciado e absolvido de uma acusação de estupro, numa narrativa que tem o apelo a empatia e ao apoio da figura masculina à feminina. Irônico, não?

Temos alguns diálogos que podem ser bem promissores, ao mesmo tempo falta de maturidade nos personagens masculinos em determinados momentos.

Fico de olho nos comentários dos telespectadores do Viki quando há diálogos como os dois últimos acima. Quando é o oppa que fala bacana sobre a autonomia da mulher, é maravilhoso. Só que quando é uma personagem feminina se posicionando sobre a dificuldade de ser mulher para seu par romântico, há uma clara defesa ao pobre homem que a ama e a deseja.

Comentário no Viki após alguns relatos desagradáveis sobre o diálogo entre a Woo Ji com o Ma Sang Goo.

A falta de empatia não vem apenas de alguns dorameiros. O próprio personagem Ma Sang Goo de início também não compreende. Pelo menos quando ele vê o que Woo Ji sofre no trabalho e conhece a vida pessoal dela, vai mudar a percepção de “você é muito confusa” ou “uma mulher malvada” para um bom companheiro que não a salva, mas a apoia a tomar uma atitude diante do problema. Isso é um amadurecimento importante enquanto casal e enquanto indivíduo.

Achei que eu ia terminar em posição fetal, porque haja situação ruim acontecendo com elas. Mesmo com alguns episódios com ritmo lento, deu tudo certo.

Because this is my first time (2017, 16 episódios) foi escrito por Yoon Nan Joong, mesma autora de Ho Goo’s Love (2015) e Flower Boy Ramen Shop (2011).

Onde ver? Viki e Drama Fever

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Samanta Coan é designer gráfico, feminista, ex-lady’s comics, pesquisadora de museus comunitários, é voluntária no Museu dos Quilombos e Favelas Urbanos… e ainda perde tempo com doramas, principalmente, aqueles com comida!