Em Guerra Infinita, vimos os maiores super-heróis da Marvel lutando frente a frente contra Thanos. O filme-evento reuniu diversas franquias do MCU e culminou na morte de dezesseis personagens, deixando muita gente em estado de choque nos cinemas – euzinha incluída.

No filme, Thanos está procurando as Jóias do Infinito para reuni-las na manopla (um tipo de luva) e colocar em prática o seu plano: exterminar metade da população do universo. Thanos acredita que o universo está populoso demais, que causaria uma escassez de recursos e a única forma de resolver seria eliminando metade de seus habitantes. Thanos se vê como um salvador, o único e real herói, capaz de sacrificar até aquilo que mais ama para que o Universo continue existindo.

Thanos acredita que a sua solução é a única solução possível para uma questão complicada como a distribuição de riquezas (seja ela natural ou econômica). A loteria de quem vive ou não atingiria todos da mesma maneira, sendo rico ou pobre, verde ou branco. Essa visão unilateral e absolutista (porque ele tem certeza de que é dono da única verdade) de um problema complexo caminha lado a lado com a visão do candidato à presidência Jair Bolsonaro – mas não é só isso que eles têm em comum. Eu explico.

Assim como Thanos, Bolsonaro tem a capacidade de identificar a superfície dos problemas: falta educação, falta saúde, falta segurança. Mas é incapaz de se aprofundar nas origens desses problemas, oferecendo apenas uma solução rápida e que acaba retroalimentando os problemas originais.

Como solução para a violência nas ruas brasileiras, Bolsonaro sugere a descriminalização das armas de fogo. Dentro dessa visão, se um bandido me abordar na rua eu poderia sacar a minha própria arma da cintura e matá-lo antes que ele me matasse ou roubasse o meu celular. Dentro dessa lógica, existem dois tipos de pessoas: os bandidos (que vão tentar te matar) e as pessoas “de bem” (aqueles que vão matar o bandido antes que o bandido as mate).

O que essa lógica ignora é que nós já vivemos em meio ao caos da violência. Brigas de trânsito, por desentendimentos em bares ou na fila do banco não são novidade e, mesmo sem a descriminalização das armas de fogo, essas situações já terminam em morte. Fornecer armas para todos os lados não é, de maneira nenhuma, a solução. Esse tipo de pensamento só acaba retroalimentando o problema: A violência. Mas a solução para a violência precisa vir de base, precisa vir através da educação, da saúde, da cultura e das oportunidades iguais.

Essa visão unilateral é algo que Bolsonaro carrega para todas as pautas que ele aborda. Sobre a homossexualidade, não faltam vídeos do candidato sugerindo violência física contra membros da comunidade LGBT+, se não isso, então a solução é ser gay, mas escondido. Sobre a violência contra a mulher, é uma questão de moral da mulher, que precisa se dar ao respeito. Sobre o estupro, a única solução possível é a castração química e sobre o aborto, a única solução é a criminalização total dele.

Todas essas questões são complexas e vão muito além de uma resposta simples, principalmente se a única solução que você é capaz de oferecer é violência. Bolsonaro só consegue responder a questões e problemas complexos com violência, assim como Thanos.

A violência contra a mulher, seja a doméstica, seja a corretiva contra a comunidade LGBT+, seja o estupro e o assédio, não são problemas que serão resolvidos da noite para o dia. Acredite, eu adoraria que fosse o caso. Mas aqui entra a necessidade de uma educação sexual real, que fale sobre sexualidade de uma maneira saudável e educadora. Nós estamos no patamar em que estamos hoje, de violência contra essas minorias, porque nós não conseguimos educar a nossa sociedade sobre respeito, liberdade e consentimento. Ao invés disso, nós parabenizamos os meninos que beijam meninas à força, incentivamos as meninas a serem subservientes e aos LGBT+ à se manterem escondidos. Nós ensinamos violência, e não respeito ao próximo. Ao invés de ensinarmos tolerância, ensinamos ódio.

Quando falamos do aborto o assunto fica ainda mais complicado, mesmo que pra mim parece algo simples. Se um homem possui liberdade e autonomia sobre o seu corpo, então as mulheres também deveriam ter. Mas, ao invés de enxergarmos o aborto do ponto de vista científico, com os dados sobre a formação do feto fornecida por especialistas, centramos a discussão no que parece certo ou errado para um grupo de pessoas. Criminalizar o aborto é tirar das mulheres a autonomia do seu próprio corpo e da sua própria vida.

O acesso à educação e à saúde seriam as peças chaves para lidar com a questão do aborto. Com mais educação sexual, nós teríamos uma sociedade mais informada sobre métodos contraceptivos, com mais acesso à saúde e esses métodos se tornariam mais acessíveis. Caso ainda assim fosse necessário o aborto, não estaríamos condenando milhares de mulheres à morte – porque o aborto seria algo a ser resolvido dentro de hospitais, e não de clínicas clandestinas. Diminuir a autonomia da mulher sobre a sua vida e sobre o seu corpo não é solução, é violência.

Essa violência atinge em massa uma parcela da população que já vive em situação de fragilidade: Pessoas pobres ou de baixa renda, que moram em condição de miséria ou nas periferias, sem acesso nem à educação e nem à saúde. É dessa parte da população, que é em sua maioria negra, que Bolsonaro faz de alvo quando fala em responder violência com violência. Nós já somos um país com encarceramento em massa, nossas prisões estão lotadas de pessoas que cometeram crimes e que não estão passando por um processo de recuperação para se reintegrarem à sociedade. As nossas prisões, que estão lotadas de pessoas pobres cuja única oportunidade foi o crime, não são um lugar de onde um criminoso sai recuperado, mas sim um lugar de onde ele sai ainda mais quebrado. Então tiramos um criminoso da rua apenas para devolvê-lo ainda mais perigoso, porque mesmo lá dentro a única solução que oferecemos é a violência.

Assim como Thanos faz com o universo, Bolsonaro promove que o país está em caos e que apenas leis mais rígidas poderiam resolver. Mas leis mais rígidas contra quem? Não contra ele, não contra as empresas bélicas, não contra os extremistas religiosos cristãos, não contra os grandes empresários que operam em trabalho escravo. As leis que ele quer enrijecer vão acertar diretamente pessoas em situação de vulnerabilidade social e econômica: Mulheres, pessoas não-brancas, LGBT+, outras minorias e a classe média branca que compra a narrativa de que está acima desse patamar também.

Esse acirramento de leis, que são feitas em bases de violência e de uma moral que permite apenas uma visão sobre o que é certo ou errada, a dele e dos grupos religiosos e econômicos que o apoiam, divide novamente a sociedade em pessoas “de bem” e monstros. Essa é uma visão que busca eliminar de nós, da nossa sociedade, a humanidade, mas deixando uma superfície de civilidade. Nós não nos importamos com o outro, não se ele for diferente de nós mesmos. Porque se ele é diferente então ele não é merecedor, ele não é “de bem”.

Thanos decide eliminar metade da população do universo depois de presenciar a ruína do seu planeta por causa da má distribuição de riquezas. Ele ofereceu a sua solução ao governo, dizimar metade dos habitantes de Titã, e foi tratado como um louco. Ao invés de tentar encontrar outra solução, ao invés de tentar entender porque a sua solução não era uma opção, ele se resignou e viu Titã morrer. Depois disso resolveu aplicar a sua verdade ao universo, mesmo que ninguém tenha pedido por ela. Bolsonaro e seus seguidores estão certos de que a verdade deles é a única possível, sem levar em consideração que nós somos muitos e que nenhum problema complexo como os que o Brasil tem hoje é resolvido com uma única solução.

Eu não estou fazendo campanha por nenhum candidato, para falar a verdade eu ainda não decidi em quem vou votar. Mas aos meus olhos, é muito óbvio que Bolsonaro, assim como Thanos, não é e nem nunca deveria ser uma opção. Porque o que ele promove é ódio e barbárie, ao invés de lutar por um país melhor e com as mesmas oportunidades e direitos para todos, o seu discurso só sustenta uma visão de mundo extremista e excludente. Ele pode dizer promover civilidade, mas o que ele realmente quer é a barbárie. Em que a violência é a única resposta para a violência, em que a violência é a única resposta para qualquer assunto, em especial se ela ajudar a fomentar um ideal misógino, LGBTfóbico, racista e classicista de sociedade. Se nesta eleição colocarmos Bolsonaro como o presidente do país, estaremos apenas retroalimentando os nossos problemas, tornando o Brasil um país ainda mais caótico, violento e desigual.

#EleNão

#EleNunca