Durante a E3 deste ano a Bethesda apresentou o seu mais novo jogo da franquia Fallout: o Fallout 76, que será um jogo online multiplayer, fugindo bastante do tradicional formato single player dos outros jogos da franquia. Muito se falou sobre essa mudança na experiência do jogo, assim como sobre o fato deste ser o primeiro na linha do tempo da franquia – apenas 25 anos após o ataque nuclear que deixou os Estados Unidos em destruição.

Apesar de tudo isso me parecer muito bom, muito interessante, o que realmente me deixou de sobrancelha em pé durante a apresentação do jogo foi o anúncio de que ele vai permitir que você jogue bombas atômicas no vizinho.

Você pode ver o modo como esse anúncio foi feito no vídeo a seguir: 

Uma pesquisa divulgada no começo do ano mostrou que 41% dos americanos não sabem o que Auschwitz foi, esse número aumenta para 66% quando se limita o grupo de pesquisa aos “millennials”. Isso tudo aconteceu durante a Segunda Guerra Mundial, sabe, o Holocausto. Durante a guerra em que os Estados Unidos varreu da existência duas cidades inteiras no Japão, Hiroshima e Nagasaki, usando bombas atômicas. Eu sei que o Japão estava do lado errado da guerra, todo mundo sabe disso, mas ainda assim isso não justifica matar milhares de inocentes. Tudo isso enquanto o país negociava a rendição e já estava praticamente derrotado.

Mas o que isso tem a ver com Fallout 76?

Olha, eu sei. Videogames são joguinhos e muitos deles são sobre matar uns aos outros – eu jogo Overwatch, adoro Tomb Raider, Uncharted e Horizon Zero Dawn. Eu mato gente em todos eles e não sou hipócrita a ponto de negar isso. Mas assim que assisti a essa apresentação eu não consegui não ficar pensando na repercussão desse tipo de mecanismo dentro desse tipo de jogo – ainda mais na atual situação do mundo.

Em uma franquia de jogos pós-apocalipse nuclear causado exatamente pela detonação de múltiplas bombas atômicas… Não sei. Anunciar que uma das novas dinâmicas do jogo é lançar bombas nucleares no vizinho me parece, no mínimo, de mau gosto.

Eu sei que bombas nucleares já fazem parte de Fallout faz tempo. Mas a mecânica de ativamente poder lançar uma bomba em cima de outra colônia e, ainda por cima, colher prêmios que estarão espalhados pelo lugar destruído… Parece excessivamente casual, excessivamente despreocupado e um tanto revelador.

Em entrevista recente, Pete Hines disse que conseguir lançar uma das bombas não será fácil. São precisos pedaços diferentes de códigos, chegar até um dos lugares onde as bombas estão e, com certeza, enfrentar mais uma porção de desafios. Você também não pode escolher uma pessoa, apenas um lugar no mapa como alvo. E quem estiver dentro daquele espaço receberá um aviso para que possa fugir. Isso tudo é muito bonito, mas ainda assim não consigo ver a adição dessa mecânica como algo divertido/inocente.

Eu venho questionando o modo como nós consumimos violência dentro da cultura pop faz algum tempo. Eu escrevi ontem sobre isso. E não, eu não acho que videogames deixam as pessoas violentas e, definitivamente, eles também não são a explicação para crimes hediondos. Mas eu acho que o tipo, o modo e a frequência com que nós consumimos essa violência do espetáculo pode nos dessensibilizar diante de violências reais.

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A opção de anunciar o uso de uma arma de destruição em massa em um jogo pós-apocalíptico, e fazê-lo como quem anuncia a chegada de um bolo de brigadeiro em festa de criança me parece insensível. Insensível à história recente de destruição. Porque sim, Hiroshima e Nagasaki aconteceram há mais de 60 anos, mas até hoje sofre-se com o que aconteceu. Além disso, diversas pessoas e locais sofrem com as consequências dos diversos testes nucleares que governos diferentes fizeram ao longo dos anos.

Nós, como sociedade, temos memória seletiva e ela é bem curta. Se já existem aqueles que não sabem dizer o que Auschwitz foi, aqueles que dizem que o Holocausto não existiu, não é muito difícil acreditar que existem aqueles que não conseguem entender a repercussão de uma guerra nuclear. O tamanho da destruição humana e natural que esse tipo de guerra pode causar. Os EUA passam por um momento especialmente complicado da sua história recente, com ódio, xenofobia, racismo e misoginia não só ganhando espaço entre a população, mas sendo reforçado pelo governo. Esse sentimento de insegurança e ódio não está fechado apenas lá, é um sentimento praticamente global.

Se você, como game designer, decidiu incluir diversas bombas atômicas como mecanismo dentro do seu game, talvez fosse de bom tom não anunciar isso como um grande presente seu para a comunidade gamer – uma que já é tão regada a ódio todos os dias. Talvez, ao invés de recompensas por explodir uma bomba atômica, a mecânica do jogo pudesse trazer consequências negativas que vão além de mais monstros para o jogador, ou grupo de jogadores, que decidiu apertar aquele botão.

Eu não tenho respostas prontas para perguntas que tangem violência, videogames e muito menos o uso de bombas atômicas como mecânica de jogo. Eu só acho que esse é um mecanismo complicado, que poderia talvez funcionar se bem aplicado, mas que parece só ajudar a, mais uma vez, normatizar uma das maiores atrocidades já cometidas pela humanidade: Apagar duas cidades inteiras do mapa.