Quarta-feira de noite, antes de dormir, eu me peguei sentada de madrugada conversando com o meu namorado sobre o país. Não é nada novo, a gente tem longas conversas do tipo pelo menos algumas vezes durante a semana. Mas dessa vez foi uma conversa muito mais pesada e triste e, para ser muito sincera, mais desesperada.

Porque na quarta-feira de noite a vereadora carioca Marielle Franco foi assassinada em uma emboscada por bandidos, uma morte que muito provavelmente foi uma execução, e que pode estar ligada aos problemas de segurança do Rio de Janeiro. Sim, a cidade é perigosa e todo mundo sabe disso, mas há muito mais do que isso na equação.

Marielle era uma mulher negra, periférica, vereadora, mãe, bisexual, defensora dos direitos humanos e que lutava por um tratamento mais digno à pessoas que moram nas favelas do Rio. Ela era também redatora da Comissão da Intervenção Militar no Rio de Janeiro, ação conjunta dos Governos do Rio e Federal. Além disso, Marielle era muito vocal quando via os abusos da polícia militar nas ações dentro das favelas. Não há como não politizar a morte de uma mulher cuja existência era tão política.

Aqui no Nebulla a gente sempre comenta Cultura Pop pensando no modo como ela pode nos influenciar, tanto para o bem quanto para o mal. A gente sabe que Cultura Pop, sejam filmes, quadrinhos, jogos ou literatura, têm um alcance muito grande e pode nos fazer pensar durante dias sobre um tema que nunca antes tínhamos pensado. Pode mudar a nossa visão sobre um monte de coisa.

Estamos em um momento em que sinto a necessidade de aprendermos a olhar o mundo como ele é, um lugar político e de luta, onde nem todos têm os mesmos direitos à vida, mesmo quando eles estão escritos nas leis. Um lugar onde uma mulher negra, da Maré, política e que continuava a se expressar e lutar pelo que acreditava apesar da insegurança que vem com essa luta, pode ser executada desta maneira.

Com isso em mente, organizei uma lista com filmes, séries e livros que podem te ajudar a pensar sobre onde nós estamos hoje como sociedade, sobre como precisamos, cada vez mais, pensar os nossos privilégios, os nossos lugares na sociedade, e como podemos auxiliar a desconstruir essa cadeia de violência que vai muito além do que é abertamente comentado na mídia tradicional.

Essa lista é tanto pra você, quanto é para mim, já que alguns dos indicados eu também ainda não li/assisti. Você vai notar que a maioria da lista é composta por títulos norte-americanos, mas como estamos querendo pensar sobre, acho que são obras válidas que podem nos ajudar a refletir e entender a nossa situação atual. Lembre-se, apenas, que alguns elementos culturais dos EUA não se encaixam na nossa realidade.

12. Angela Davis  

A Boitempo Editorial vem lançando desde 2016 os livros da Filósofa e Ativista americana Angela Davis: Mulheres, Cultura e Política (2016), Mulheres, raça e Classe (2017) e  A Liberdade é Uma Luta Constante (2018).

Angela foi um dos nomes mais importantes do movimento pelos direitos civis nos EUA e, até hoje, é um dos nomes mais importantes para as discussões de raça e gênero nos EUA. Seus livros discutem raça, classe, os efeitos da escravidão na sociedade e os efeitos das políticas norte-americanas em outros países.

11. Libertem Angela Davis (2011)

Documentário dirigido por Shola Lynch, o filme conta a história de Angela Davis, ativista e filósofa estaduniense.

Em 1970 Angela defendeu três prisioneiros negros, o que acabou gerando uma acusação de que ela teria organizado uma tentativa de fuga e sequestro, que culminou na morte de um juiz e quatro detentos, além de colocá-la na lista dos 10 mais procurados do FBI.

10. A 13ª Emenda

O filme dirigido por Ava Duvarney discute a Décima Terceira Emenda da constituição norte-americana, que proíbe que pessoas seja usadas como escravas – a não ser que eles sejam criminosos encarcerados.

O filme fala sobre como essa emenda vem sendo usada para basicamente transformar cadeias em centros de trabalho forçado desde a sua concepção. A emenda, apoiada mitologia do criminoso negro e na criação de centros de detenção privados, está diretamente relacionada ao boom de encarceramento de pessoas negras a partir décadas de 80/90 e na onda de violência policial contra pessoas negras.

9. Sem Pena

O Brasil possui a terceira população carcerária que mais cresce no mundo, vivemos um constante clamor por penas mais pesadas. O documentário dirigido por Eugênio Puppo, procura lançar um olhar sobre como a estrutura carcerária e a Justiça no Brasil propicia o crescimento dessa população.

Sobre o filme:

O documentário Sem Pena retrata as adversidades vividas pelas pessoas presas e processadas criminalmente e para tanto apresenta vários depoimentos. O filme traz ainda testemunhos de juízes, promotores, advogados e especialistas do sistema de justiça criminal. A partir de imagens impactantes de prisões brasileiras, o documentário pretende estimular uma análise crítica da realidade do sistema de justiça, destacando temas relativos à alta taxa de encarceramento e a falta de acesso à justiça no Brasil.

 

8. A Nova Segregação

Michelle Alexander é uma das principais vozes de A 13ª Emenda, documentário indicado anteriormente. Professora de diversas universidades nos EUA, advogada e jurista na área de direitos humanos.

Publicada originalmente em 2010, a obra vendeu mais de 600 mil exemplares e permaneceu na lista de mais vendidos do The New York Times por mais de 150 semanas.

O livro desafiou a noção de que o governo Obama assinalava o advento de uma nova era pós-racial e teve um efeito explosivo na imprensa e no debate público estadunidense, acumulando prêmios e inspirando toda uma geração de movimentos sociais antirracistas. Ao analisar o sistema prisional dos EUA, Alexander fornece uma das mais eloquentes exposições de como opera o racismo estrutural e institucionalizado nas sociedades ocidentais contemporâneas

 

7. Cara Gente Branca

A série da Netflix segue a história de um grupo de alunos negros em uma Universidade Ivy League majoritariamente branca dos EUA.

Cara Gente Branca aborda não só as dores particulares de cada personagem, mas faz um retrato de como as estruturas hierárquicas dentro da instituição ajudam a criar um ambiente hostil para os alunos negros. Um dos pontos altos da série é conseguir equilibrar os dramas pessoais, as pressões externas e o modo como se dispõe a conversar abertamente sobre racismo, tanto o escancarado, como aquele que passa “despercebido” no dia-a-dia.  

6. Lugar de Fala – Djamila Ribeiro

Quando entramos nas discussões sobre identidade de gênero, classe, raça e orientação sexual, acabamos sempre caindo no conceito de lugar de fala. Djamila Ribeiro é pesquisadora na área de Filosofia Política, com ampla pesquisa e discurso sobre a questão da mulher negra na sociedade brasileira.

Sobre o livro:

Partindo de obras de feministas negras como Patricia Hill Collins, Grada Kilomba, Lélia Gonzalez, Luiza Bairros, Sueli Carneiro, o livro aborda, pela perspectiva do feminismo negro, a urgência pela quebra dos silêncios instituídos explicando didaticamente o que é conceito ao mesmo tempo em que traz ao conhecimento do público produções intelectuais de mulheres negras ao longo da história.”

5. Faça a Coisa Certa

Dirigido por Spike Lee, Faça a Coisa Certa segue alguns dias na vida de um grupo de pessoas que vive ao redor de uma pizzaria italiana dentro de um bairro majoritariamente negro (Brooklyn da década de 80).

O filme discute as relações entre a comunidade negra do bairro e os donos da pizzaria, como as dinâmicas raciais podem afetar essas relações e como a violência policial pode acabar com a aparência de tranquilidade do dia-a-dia. Além disso, o filme discute o comportamento e o nível de controle inatingível que a sociedade espera de um homem negro, fala sobre as dicotomias e intersecções entre Martin Luther King e Malcom X, e como essas questões são vistas não só pela comunidade negra, mas como tudo isso será decodificado por pessoas brancas.

4. Branco Sai, Preto Fica

O filme, que ganhou diversos prêmios, é um misto de documentário com ficção, tendo como base um massacre que aconteceu durante um baile funk, na Ceilândia, cidade periférica de Brasília. No evento, policiais entraram atirando no baile e gritando “Branco Sai, Preto Fica”.

Branco Sai, Preto Fica, acompanha a vida de dois homens que ficaram para sempre marcados pelos acontecimentos daquela noite. Um terceiro homem vem do futuro para investigar o acontecido, procurando provar que a culpa é da sociedade repressiva.

O filme está disponível na Netflix Brasil.

3. Moonlight

O filme que ficou conhecido por tirar com todo direito o prêmio de Melhor Filme de La La Land, é muito mais do que isso.

Dirigido por Barry Jenkins, Moonlight segue a história de um homem negro e gay em três momentos diferentes: Sua infância, adolescência e vida adulta tentando existir em uma sociedade que o quer heterossexual, violento ou morto. É um filme tanto sobre opressão e desespero, como é sobre aceitação e amor.

2. Entre o Mundo e Eu

Ta-Nehisi Coates é um jornalista norte-americano que você talvez conheça pois ele foi roteirista da revista do Pantera Negra, da Marvel.

Em Entre o Mundo e EU, Ta-Nehisi compila uma série de cartas que escreveu para o seu filho adolescente. Nas cartas, ele fala sobre suas experiências como negro nos EUA, articulando discussões sobre questões políticas e históricas com o seu papel de pai.

1. O Caso do Homem Errado

Dirigido por Camila de Morais, o documentário conta a história de Júlio César de Melo Pinto, homem negro, executado pela Polícia Militar na década de 80 em Porto Alegre, no Rio Grande do Sul.

O caso tomou notoriedade quando a imprensa revelou fotos de Júlio César entrando com vida na viatura policial e chegando sem vida ao hospital, 37 minutos depois, morto a tiros. O Caso do Homem Errado possui depoimentos de Ronaldo Bernardi, o fotógrafo das imagens, Juçara Pinto, a viúva de Júlio César e nomes conhecidos e respeitados da luta pelos direitos humanos e do movimento negro no Brasil.

Se você possui mais indicações, vai postando nos comentários para irmos pensando e refletindo juntos.

Até mais.