Ou precisamos repensar o que consideramos um bom filme.

Durante a 91ª premiação do Oscar, ontem a noite (dia 24), Green Book ganhou o prêmio mais esperado da noite, como Melhor Filme. O longa também ganhou os prêmios de melhor ator coadjuvante, para Mahershala Ali, e também melhor roteiro original.

É muito complicado eleger um melhor filme do ano. O que seria o melhor filme? Aquele que atendeu o que se propôs a fazer? O que tem a melhor excelência técnica em todos os aspectos? O que conseguiu mais público? O que é mais relevante politicamente? Como avaliar um filme como o melhor sem deixar nossos gostos pessoais intervirem? Não é uma tarefa simples, não é à toa que nem sempre concordamos com a decisão.

Além disso, não é preciso dizer, mas muitas premiações, como o próprio Oscar, possuem uma agenda ao premiarem certos filmes. Como foi o caso que aconteceu este ano com Green Book e também acontece com frequência. No sábado, antes do Oscar, postei nas minhas redes sociais que acreditava que Green Book ia levar Melhor Filme, não porque eu acho que mereça, mas porque anos estudando cinema e premiações não me surpreendem tanto nessas decisões.

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Já faz um tempo que eu venho pensando em como obras de entretenimento são julgadas, como decidimos as melhores do ano. As premiações de games me fizeram pensar sobre o assunto primeiro e ontem, vendo Green Book ganhar, como toda a sua indicação, me fez pensar nesse aspecto de novo. Esta linha de pensamento não é só sobre Green Book, mas ele é o assunto da vez então será o exemplo.

Dito tudo isso, Green Book é um filme bom.

Pensando de um ponto de vista analítico, o roteiro é bem amarrado, a fotografia e a edição funcionam bem com a proposta do filme. Os atores estão ótimos, Mahershala Ali e Viggo Mortensen fazem um excelente trabalho com seus personagens. A relação entre os dois funciona, os personagens se complementam e dá vontade de saber o que vai acontecer. Os personagens passam por mudanças e são complexos. Ignorando completamente sobre o que é o filme, o longa é bem produzido.

Mas aí que está a questão, nós não vivemos em uma bolha, não é possível ignorar sobre o que o filme está falando.

Green Book discute racismo sobre a perspectiva de um homem branco, que é bem racista durante boa parte do filme. Por mais que Tony ajude Don em vários momentos, e no final pareça ter desconstruído parte de seu racismo, no final do dia a mensagem é “nem todo branco”. Há inúmeros episódios de racismo durante o filme, mas ao invés de Tony passar por reflexões sobre suas ações, é Don que aprende o que é “ser um homem negro”. Sim, eu sei, Tony fica do lado de Don em vários momentos e sim, no final tem um diálogo que mostra a mudança do protagonista. Mas essa é uma visão simplista, com um recorte ruim e desrespeitosa sobre racismo. O filme que quer falar sobre racismo é racista ao tratar a sua própria história com este viés.

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Um filme muito melhor do que Green Book

Por que eu sabia que Green Book ia levar melhor filme? Bom, primeiro os termômetros. As premiações que acontecem antes do Oscar costumam indicar os vencedores, sendo que as guildas específicas costumam ter uma boa porcentagem de acerto para o Oscar. Não é matemática perfeita, mas costuma acertar. No caso da categoria Melhor Filme, teríamos que olhar o filme premiado pela guilda dos produtores. E adivinha? Green Book levou melhor filme. Além disso, entra o fator político. Este Oscar tinha filmes de peso que falavam sobre racismo e faziam representações boas de personagens negros. Nós tínhamos o primeiro filme de super-heróis indicado para Melhor Filme, Pantera Negra, que também era o primeiro filme da Marvel com um herói negro protagonista. Pantera Negra fez história ao ser indicado, assim como fez com seu lançamento no começo do ano passado. Também tínhamos Infiltrado na Klan, de Spike Lee, um filme excelente que não tem medo de realmente falar sobre racismo. Um filme frenético, divertido e que também sabe mostrar a verdade. Infiltrado na Klan mostra como o racismo não é um problema de anos atrás, e sim uma questão muito presente hoje, o que faz o longa ser muito atual, por mais que a história se passe em 1978. Outro que tinha uma boa chance de levar o prêmio de Melhor Filme era Roma, de um diretor já reconhecido pela cerimônia.

A Academia queria provar que não era racista, que eles olham sim para o que está acontecendo na atualidade politicamente. Mas Pantera Negra? Muito popular para o Oscar, a Academia ainda gosta de virar o rosto para super-heróis e ficções que saíam muito do tradicional (basta ver a injustiça com Um Lugar Silencioso perdendo Melhor Edição de Som). Infiltrado na Klan? Muito “agressivo”, não tem imagem do branco salvador, o foco são as pessoas negras e ainda assim temos os momentos de cenas recentes, mostrando que o racismo é um problema de hoje, não de antes. Roma? Por mais que os Estados Unidos aceite ter alguns diretores mexicanos consagrados, ainda seria um passo grande demais para o conservadorismo da Academia dar Melhor Filme para o México. Sem contar a resistência com plataformas digitais, como a Netflix, onde Roma foi disponibilizado.

Green Book se torna o candidato perfeito. Além de ser bom nas categorias de um ponto de vista técnico, é um filme que fala de racismo de forma que, como já li por aí, “é leve”. A Academia se vê em Viggo Mortensen, no salvador branco, porque eles não se entendem como racistas. Green Book é o filme que faz pessoas brancas se sentirem bem, porque “nem todo o branco”, porque é o ponto de vista branco ditando o que é racismo ou não.

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Outro filme melhor que Green Book

Que o Oscar não reflete necessariamente a opinião geral de cinema é chover no molhado, muitos questionam qual é a relevância de se importar com a premiação. O problema é que, querendo ou não, o Oscar ainda é a maior premiação de cinema do mundo, que dita tendências e marca a história do cinema. Gostando ou não, ao premiar certos filmes no lugar de outros, uma mensagem é passada, não só para a indústria do cinema, mas para todos os consumidores de entretenimento. Como nós sempre falamos aqui, obras de entretenimento passam mensagens que influenciam a sociedade, não vivemos em bolhas.

Por isso nós não podemos mais avaliar as melhores obras só pensando nos aspectos técnicos. Nós precisamos ser responsáveis e reconhecer que, por mais que filmes como Green Book tenham produções boas, eles passam mensagens que são ruins. Esse é a minha grande crítica com O Lobo de Wall Street, que sim, tem uma boa produção, boas atuações e tudo o mais, mas é um filme carregando mensagens péssimas.

A mensagem, o subtexto de uma obra, não pode ser visto como algo à parte das outras características de um produto de entretenimento. Nós vamos interpretá-la, vamos assimilar suas mensagens e elas vão influenciar o público. No momento em que vivemos atualmente, é crucial que essas mensagens não sejam ignoradas, pois não são um fator secundário. O Oscar é uma celebração dos Estados Unidos, mas no Brasil também passamos por momentos delicados, tanto na política quanto na cultura, até porque arte é política.

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Spike Lee saindo quando Green Book foi anunciado me representa

Eu não consigo mais aceitar prêmios, e até indicações, para Melhor Filme, que não levem em consideração o subtexto da obra. Posso até gostar de certas obras do ponto de vista técnico, mas é impossível, como crítica e profissional, ignorar as mensagens da obra. Green Book não merecia nem estar no Oscar, mas por causa do conservadorismo da Academia, e essa ideia de que mensagem é um aspecto secundário ao técnico, Green Book foi o vencedor.

Sim, eu sei que este Oscar teve mais diversidade do que o que estamos acostumados, mas a categoria Melhor Filme não é a última da noite por acaso. Nós precisamos ser críticos quanto aos filmes que são premiados, ainda mais quando uma das maiores referências de cinema do mundo ignora um dos aspectos mais importantes de um filme: A mensagem que ele passa. Sem contar que isso não é só sobre os Oscar, é sobre a produção de entretenimento como um todo.

PS.: Acho também importante comentar, para caso alguém não saiba, que a família de Don Shirley ficou bem incomodada com a representação dele no filme. Mahershala Ali chegou a ligar pessoalmente para alguns membros da família para se desculpar, pois não queria ofender ninguém.