Hugo Awards, um dos prêmios mais reconhecidos Ficção Científica e Fantasia do mundo, está lotado de mulheres e outras minorias!

Alguns dos nossos nomes favoritos do Sci-Fi e da Fantasia atuais estão indicados nas principais categorias da premiação. E o mais legal é que tanto os indicados quanto os premiados são escolhidos por voto popular, pelos membros da World of Science Fiction Society.

Nos últimos anos, tanto o Nebula Awards como o Hugo Awards sofreram ataques de “fãs” de sci-fi e fantasia alinhados com a extrema direita. Numa tentativa de reverter a maré de diversidade, eles fizeram inúmeras campanhas contra os indicados e tentaram sabotar o Hugo Awards ao indicar um autor de ficção científica pornô gay – tentativa que saiu incrivelmente pela culatra.

Hoje saíram os indicados para o Hugo Awards 2019 e que coisa mais absolutamente linda! A mudança nos indicados está diretamente ligada ao aumento do espaço que escritores que fogem do padrão masculino, branco, heterossexual e cisgênero vêm ganhando nos últimos anos. Não é que seus trabalhos não existissem ou não fossem tão incríveis antes, a questão era que até poucos anos atrás a sociedade como um todo – e também o universo literário – não era nem tão acessível, nem tão aberto para nomes que fogem desse padrão.

Mas, vamos lá!

Melhor Romance

  • The Calculating Stars, by Mary Robinette Kowal (Tor)
  • Record of a Spaceborn Few, by Becky Chambers (Hodder & Stoughton / Harper Voyager)
  • Revenant Gun, by Yoon Ha Lee (Solaris)
  • Space Opera, by Catherynne M. Valente (Saga)
  • Spinning Silver, by Naomi Novik (Del Rey / Macmillan)
  • Trail of Lightning, by Rebecca Roanhorse (Saga)

Na categoria principal, o único homem indicado é Yoon Ha Lee, que é um homem trans. Revenant Gun, inclusive, é o livro final de uma trilogia que trata, dentre muitos temas, de disforia de gênero, além de falar sobre resistência e rebelião contra o autoritarismo, tudo isso num universo de Space Opera militarista cheio de matemática. Esta é, também, a terceira vez que a trilogia é indicada para o Hugo de Melhor Romance. Para muita gente, Machineries of Empire é uma série “irmã” da trilogia Imperial Radch, da incrível Ann Leckie (cujo primeiro volume, Justiça Ancilar,  saiu no Brasil pela editora Aleph). Por enquanto, só tive a oportunidade de ler o primeiro da trilogia (Ninefox Gambit) e alguns contos dele, mas já é mais do que o bastante para recomendar a série toda! Infelizmente, não há previsão ainda para a série ser publicada no Brasil.

A Becky Chambers é uma autora que amamos demais aqui no Nebulla, e já falamos sobre ela bastante aqui no site. Record of a Spaceborn Few é o último volume da trilogia Wayfarers, que está sendo publicada no Brasil pela Editora Darkside  (os dois primeiros já saíram, quem ainda não leu precisa ir atrás agora mesmo!). O livro anterior, A Vida Compartilhada em uma Admirável Órbita Fechada, foi indicada ao Hugo de Melhor Romance em 2017.  Nós estamos ansiosos para ler o final da série e também pelo próximo projeto que ela anunciou: um par de novelas Solarpunk que vai sair pela Tor.

Trail of Lightning é o primeiro romance de Rebecca Roanhorse, uma autora nativo-americana que sempre traz protagonistas e temáticas que retratam sua ascendência. A obra vem sendo muito elogiada e o segundo volume sai ainda este mês. O livro está na minha lista de leitura desde o ano passado, mas ainda não consegui ler. Para quem lê em inglês e tiver interesse nos contos da autora, vale dar uma olhada no vencedor do Hugo de Melhor Conto em 2018, Welcome To Your Authentic Indian Experience (https://www.apex-magazine.com/welcome-to-your-authentic-indian-experience/) e em Postcards From the Apocalypse (https://uncannymagazine.com/article/postcards-from-the-apocalypse/).

Os outros livros indicados também são muito interessantes. A Naomi Novik, autora de Spinning Silver, é super elogiada e seu livro anterior, Enraizados, saiu aqui pelo selo Fantástica da Rocco. The Calculating Stars da Mary Robinette Kowal é parte de uma série de história paralela; a autora é bem premiada, e o início dessa série é The Lady Astronaut of Mars, premiada com o Hugo de Melhor Noveleta em 2014 (dá para ler aqui: https://www.tor.com/2013/09/11/the-lady-astronaut-of-mars/) que além de ótima, vai te fazer chorar com certeza. A Catherynne M. Valente tem uma carreira bem impressionante e uma voz única, que passa por livros middlegrade, poesia e prosa em vários estilos (fora um livro no universo de Mass Effect!), além de ser muito premiada também. Space Opera tem sido descrito como um livro único, com direito a comparações ao Guia do Mochileiro das Galáxias.

Melhor Novela

  • Artificial Condition, by Martha Wells (Tor.com Publishing)
  • Beneath the Sugar Sky, by Seanan McGuire (Tor.com Publishing)
  • Binti: The Night Masquerade, by Nnedi Okorafor (Tor.com Publishing)
  • The Black God’s Drums, by P. Djèlí Clark (Tor.com Publishing)
  • Gods, Monsters, and the Lucky Peach, by Kelly Robson (Tor.com Publishing)
  • The Tea Master and the Detective, by Aliette de Bodard (Subterranean Press / JABberwocky Literary Agency)

Nesta categoria, novamente, só há um homem indicado: P. Djèlí Clark, que é afro-caribenho e americano.

Binti: The Night Masquerade é a maravilhosa conclusão da trilogia Binti, escrita pela Nnedi Okorafor (por aqui, dela, saíram Bruxa Akata pela Galera e Quem Teme a Morte? pela Geração Editorial, que está sendo adaptado pela HBO). As novelas da trilogia estão dentre as obras mais legais e profundas que li nos últimos tempos, vale muito a pena conferir. Binti também foi indicada ao Hugo de Melhor Novela em 2016 e Binti: Home em 2018. Se você ainda não conhece a Nnedi e lê em inglês, a trilogia Binti é uma boa porta de entrada para uma das autoras mais conceituadas da atualidade.

Aliette de Bodard tem ascendência vietnamita e francesa, nasceu nos Estados Unidos e vive na França. Ela já recebeu vários prêmios e está terminando este ano sua segunda trilogia de romances fantásticos, com The House of Sundering Flames que sai em julho. The Tea Master and the Detective, sua obra indicada para o prêmio, faz parte de uma série de novelas do Universe of Xuya, um universo Space Opera com muita influência da bagagem cultural da autora e que, neste terceiro volume, conta uma história com traços de Sherlock Holmes. A primeira novela da série, On a Red Station, Drifting foi indicada ao Hugo de Melhor Novela em 2013.

Gods, Monsters, and the Lucky Peach da Kelly Robson recebeu ótimas críticas e, ao que tudo indica, tem uma trama e universo muito bem construídos, além de trazer um pano de críticas sociais. O livro foi elogiado, dentre outras pessoas, pela Annalle Newitz, só para ter uma ideia.

Seanan McGuire (que também assina como Mira Grant) é autora de mais de 40 livros, passando por vários gêneros, e também escreve o arco atual da Spider-Gwen, Ghost Spider. Por enquanto, só li alguns contos dela e a novela de terror Final Girls, que é bem legal. Beneath the Sugar Sky é o terceiro livro da série Wayward Children, cujo quarto volume saiu agora em janeiro. Aqui no Brasil, a série é publicada pela Morro Branco, que lançou o primeiro da série, De Volta Para Casa – ganhador do Hugo de Melhor Novela em 2017. O segundo volume, Down Among the Sticks and Bones também foi indicado ao Hugo de Melhor Novela em 2018.

Artificial Condition da Martha Wells é a segunda novela da série Murderbot Diaries, que já tem quatro livros e vai lançar um romance em 2020. O primeiro volume, All Systems Red, levou o Hugo de Melhor Novela em 2018. Os livros Murderbot são muito elogiados tanto pela profundidade da construção de seu protagonista, um ciborgue lidando com sua (falta de?) humanidade, quanto pelo humor sinistro. A Ann Leckie é uma das fãs confessas da série, então preciso começar a ler logo.

Voltando a falar de P. Djèlí Clark, The Black God’s Drum foi uma das leituras que mais me impactou desde o ano passado. A história se passa numa Nova Orleans situada num passado histórico alternativo, em que o Haiti venceu sua guerra por liberdade contra o imperialismo e a Guerra da Secessão nos Estados Unidos “terminou” num cessar fogo, sem resolução para o conflito e sua causa histórica, a escravidão. A protagonista da novela é marcante, os elementos de fantasia e tradições não-européias têm uma profundidade impressionante (ainda mais levando em consideração o tamanho do livro), o texto de Clark é poético e envolvente. Enfim, é uma baita obra, e eu mal posso esperar pra ler a novela do Clark que saiu há pouco, The Haunting of Tram Car 015, situada no mesmo universo da noveleta A Dead Djinn in Cairo (disponível aqui: https://www.tor.com/2016/05/18/a-dead-djinn-in-cairo/), que também é incrível.

Melhor Noveleta

  • “If at First You Don’t Succeed, Try, Try Again,” by Zen Cho (B&N Sci-Fi and Fantasy Blog, 29 November 2018)
  • “The Last Banquet of Temporal Confections,” by Tina Connolly (Tor.com, 11 July 2018)
  • “Nine Last Days on Planet Earth,” by Daryl Gregory (Tor.com, 19 September 2018)
  • The Only Harmless Great Thing, by Brooke Bolander (Tor.com Publishing)
  • “The Thing About Ghost Stories,” by Naomi Kritzer (Uncanny Magazine 25, November- December 2018)
  • “When We Were Starless,” by Simone Heller (Clarkesworld 145, October 2018)

Todas as noveletas indicadas estão aparecendo em listas de recomendações e recebendo elogios há alguns meses. A maioria delas, inclusive, está disponível para leitura gratuitamente nas publicações onde saíram. Novamente, é uma categoria com indicações de grande qualidade em que há apenas um autor homem, o Daryl Gregory.

Por enquanto, as únicas que li foram The Last Banquet of Temporal Confections  da Tina Connolly e The Only Harmless Great Thing da Brooke Bolander. A noveleta da Tina Connolly parte de uma premissa muito legal, é situada num ambiente histórico que dá muita densidade para a trama e termina com um desfecho de aplaudir de pé; recomendo muito a leitura! Já a noveleta da Brooke Bolander, além de ótima, é também uma pancada na boca do estômago; a história é um verdadeiro manifesto poético contra a forma bestial como os seres humanos tratam as outras espécies e o meio ambiente,  e também um um lembrete de que há outros seres na natureza que são “humanos” – a densidade que a Bolander chega num texto tão curto é de tirar o fôlego.

Melhor Conto

  • “The Court Magician,” by Sarah Pinsker (Lightspeed, January 2018)
  • “The Rose MacGregor Drinking and Admiration Society,” by T. Kingfisher (Uncanny Magazine 25, November-December 2018)
  • “The Secret Lives of the Nine Negro Teeth of George Washington,” by P. Djèlí Clark (Fireside Magazine, February 2018)
  • “STET,” by Sarah Gailey (Fireside Magazine, October 2018)
  • “The Tale of the Three Beautiful Raptor Sisters, and the Prince Who Was Made of Meat,” by Brooke Bolander (Uncanny Magazine 23, July-August 2018)
  • “A Witch’s Guide to Escape: A Practical Compendium of Portal Fantasies,” by Alix E. Harrow (Apex Magazine, February 2018)

Todos os contos indicados na categoria também estão sendo indicados por aí há alguns meses. O bom dessa lista, além da qualidade dos indicados, é que dá para ler todos os indicados online (e para quem não estiver acostumado a ler literatura na tela do computador ou celular,  é mais fácil ler contos do que noveletas ou novelas).

Por enquanto, o único que li foi o The Secret Lives of the Nine Negro Teeth of George Washington do P. Djèlí Clark. É uma história que lida com História e escravidão, a formação dos Estados Unidos, a resistência da população negra contra o apagamento das suas subjetividades e das suas tradições, dentre outros temas; enfim, é um conto bem denso e impactante, que vai ficar com você depois da leitura.

Melhor Série

  • The Centenal Cycle, by Malka Older (Tor.com Publishing)
  • The Laundry Files, by Charles Stross (most recently Tor.com Publishing/Orbit)
  • Machineries of Empire, by Yoon Ha Lee (Solaris)
  • The October Daye Series, by Seanan McGuire (most recently DAW)
  • The Universe of Xuya, by Aliette de Bodard (most recently Subterranean Press)
  • Wayfarers, by Becky Chambers (Hodder & Stoughton / Harper Voyager)

Esta é mais uma categoria em que prevalecem autoras mulheres, os únicos homens indicados são Charles Stross e Yoon Ha Lee, que também está concorrendo a Melhor Romance com o último romance da série Machineries of Empire.

Dentre as autoras que também concorrem em outras categorias este ano, estão a Becky Chambers (mais uma indicação para a série de romances Wayfarers, que está sendo lançada aqui pela Darkside), Aliette de Bodard (cuja série de novelas concorre este ano a Melhor Novela com The Tea Master and the Detective) e Seanan McGuire (desta vez indicada com outra série de romances, The October Daye, pela qual ela ganhou um John W. Campbell de Melhor Autora Estreante em 2010 com o primeiro volume da saga, Rosemary and Rue).

A série The Centenal Cycle da Malka Older também está na minha lista de leitura há tempos. Nela, a autora traz muito da sua bagagem de ativista e de mais de uma década trabalhando com causas humanitárias. Os livros da Malka estão sendo bastante elogiados e citados como uma das obras que serve de contraponto à persistência de clichês misóginos e preconceituosos tanto no Cyberpunk quanto nos Thrillers Políticos, além da trama ser bem contemporânea às questões mais polêmicas sobre política e tecnologia do dia-a-dia.

Melhor Narrativa Gráfica

  • Abbott, written by Saladin Ahmed, art by Sami Kivelä, colours by Jason Wordie, letters by Jim Campbell (BOOM! Studios)
  • Black Panther: Long Live the King, written by Nnedi Okorafor and Aaron Covington, art by André Lima Araújo, Mario Del Pennino and Tana Ford (Marvel)
  • Monstress, Volume 3: Haven, written by Marjorie Liu, art by Sana Takeda (Image Comics)
  • On a Sunbeam, by Tillie Walden (First Second)
  • Paper Girls, Volume 4, written by Brian K. Vaughan, art by Cliff Chiang, colours by Matt Wilson, letters by Jared K. Fletcher (Image Comics)
  • Saga, Volume 9, written by Brian K. Vaughan, art by Fiona Staples (Image Comics)

Esta categoria tem muitos indicados ótimos e tudo me faz sentir que estou atrasado na leitura. Deles, só li o começo de Paper Girls e Monstress, mas planejo ler todos assim que puder.

Melhor Filme

  • Annihilation, directed and written for the screen by Alex Garland, based on the novel by Jeff VanderMeer (Paramount Pictures / Skydance)
  • Avengers: Infinity War, screenplay by Christopher Markus and Stephen McFeely, directed by Anthony Russo and Joe Russo (Marvel Studios)
  • Black Panther, written by Ryan Coogler and Joe Robert Cole, directed by Ryan Coogler (Marvel Studios)
  • A Quiet Place, screenplay by Scott Beck, John Krasinski and Bryan Woods, directed by John Krasinski (Platinum Dunes / Sunday Night)
  • Sorry to Bother You, written and directed by Boots Riley (Annapurna Pictures)
  • Spider-Man: Into the Spider-Verse, screenplay by Phil Lord and Rodney Rothman, directed by Bob Persichetti, Peter Ramsey and Rodney Rothman (Sony)

Gente, que seleção linda pra essa categoria, que tem Pantera Negra, Homem-Aranha: No Aranhaverso e Sorry to Bother You concorrendo. Não tem como cancelar o Oscar 2019 de Melhor Filme e trocar por este prêmio aqui?

(E sim, Um Lugar Silencioso é um filme de terror bem legal, Aniquilação é uma excelente adaptação – ainda que a trilogia do Jeff Vandermeer vá bem mais fundo e seja muito mais bem construída do que o filme – e Vingadores: Guerra Infinita foi o blockbuster do ano passado, mas vocês viram que eles indicaram Pantera Negra, Aranhaverso e não esnobaram Sorry to Bother You? Sei lá, só sinto amor neste momento.)

Melhor Série

  • The Expanse: “Abaddon’s Gate,” written by Daniel Abraham, Ty Franck and Naren Shankar, directed by Simon Cellan Jones (Penguin in a Parka / Alcon Entertainment)
  • Doctor Who: “Demons of the Punjab,” written by Vinay Patel, directed by Jamie Childs (BBC)
  • Dirty Computer, written by Janelle Monáe, directed by Andrew Donoho and Chuck Lightning (Wondaland Arts Society / Bad Boy Records / Atlantic Records)
  • The Good Place: “Janet(s),” written by Josh Siegal & Dylan Morgan, directed by Morgan Sackett (NBC)
  • The Good Place: “Jeremy Bearimy,” written by Megan Amram, directed by Trent O’Donnell (NBC)
  • Doctor Who: “Rosa,” written by Malorie Blackman and Chris Chibnall, directed by Mark Tonderai (BBC)

Estou bem atrasado e não vi nada ainda da última temporada de Doctor Who. Mas, mesmo assim, uma categoria que indica essa temporada nova da série, The Expanse (melhor equipe de piratas espaciais da TV), The Good Place (melhor grupo de pessoas que me faz rir e chorar, tem vezes que ao mesmo tempo – nunca vou superar o fim da terceira temporada) e Dirty Computer da Janelle Monáe? Podiam premiar todo mundo de uma vez.

Best Art Book

  • The Books of Earthsea: The Complete Illustrated Edition, illustrated by Charles Vess, written by Ursula K. Le Guin (Saga Press /Gollancz)
  • Daydreamer’s Journey: The Art of Julie Dillon, by Julie Dillon (self-published)
  • Dungeons & Dragons Art & Arcana: A Visual History, by Michael Witwer, Kyle Newman, Jon Peterson, Sam Witwer (Ten Speed Press)
  • Spectrum 25: The Best in Contemporary Fantastic Art, ed. John Fleskes (Flesk Publications)
  • Spider-Man: Into the Spider-Verse – The Art of the Movie, by Ramin Zahed (Titan Books)
  • Tolkien: Maker of Middle-earth, ed. Catherine McIlwaine (Bodleian Library)

Aproveitando a deixa aqui pra dizer que a edição completa de Terramar com ilustrações do Charles Vess é linda demais. E que o hype no Brasil ao redor do Tolkien poderia ser o hype ao redor da Ursula K. Le Guin – quem sabe um dia, custa sonhar?

John W. Campbell Award for Best New Writer

  • Katherine Arden (segundo ano de elegibilidade)
  • S.A. Chakraborty (segundo ano de elegibilidade)
  • R.F. Kuang (primeiro ano de elegibilidade)
  • Jeannette Ng (segundo ano de elegibilidade)
  • Vina Jie-Min Prasad (segundo ano de elegibilidade)
  • Rivers Solomon (segundo ano de elegibilidade)

A categoria para autores estreantes está bem diversa e não tem nenhum autor masculino indicado. O legal desta categoria é que, além de falar sobre obras interessantes que estão saindo, ela aponta para o futuro que está sendo construído, tanto da ficção científica quanto da fantasia. E é um futuro muito promissor.

S.A. Chakraborty cresceu na comunidade árabe nos Estados Unidos e se converteu ao Islã, e suas bases culturais são intencionalmente a fonte de suas histórias, sob um prisma positivo que se contrapõe ao eurocentrismo e os preconceitos da fantasia tradicional. Seu primeiro romance, A Cidade de Bronze, foi lançado aqui pela Morro Branco, e a sequência Kingdom of Copper saiu em janeiro lá fora. Além disso, ela acaba de anunciar uma nova série, que está sendo descrita como “Simbad, o marujo, cruza com Onze Homens e Um Segredo, com protagonismo feminino” – ou seja, quero ler desde já essas histórias.

R.F. Kuang é nascida na China e mora nos Estados Unidos. Seu livro de estreia, The Poppy War, é uma fantasia que mistura a História política da China do meio do século XX (especialmente a segunda guerra sino-japonesa), a Dinastia Song, as guerras do ópio contra a Inglaterra, os traumas coletivos da guerra, com protagonismo feminino. É uma obra que estou bem ansioso para ler! A sequência, The Dragon Republic, sai ainda este ano. Dentre as autoras que elogiaram The Poppy War estão Kameron Hurley e Fonda Lee.

Rivers Solomon nasceu nos Estados Unidos, mora na Inglaterra e é negre. O primeiro romance de Rivers, An Unkindness of Ghosts, recebeu muitos elogios e prêmios, e me deixou doido para ler por conta da influência declarada de Octavia Butler; o segundo romance, The Deep, sai ainda este ano e já está sendo elogiado por Indrapamit Das, Ann Leckie, Aliette de Bodard e Martha Wells, dentre outros. Rivers têm sido elogiade pela profundidade na construção de personagens, a complexidade da construção do universo e uma capacidade brilhante de lidar com temas difíceis de uma forma envolvente.

Jeannette Ng nasceu em Hong Kong e mora na Inglaterra, ela é estudiosa do período Medieval e do Renascimento. Seu primeiro romance, Under the Pendulum Sun, uma fantasia com traços góticos, conta a história de uma protagonista cujo irmão desaparecido, um missionário católico, sumiu ao adentrar na lendária terra de Arcádia para tentar converter o povo feérico. É uma premissa que me deixou com bastante vontade de ler.

Vina Jie-Min Prasad é de Cingapura. Ainda que tenha começado a publicar há pouco tempo, em 2016, seu trabalho já saiu em publicações conceituadas, como a Clarkesworld, Uncanny Magazine e Fireside Fiction. Seu conto Fandom for Robots foi indicado ao Hugo de Melhor Conto em 2018, enquanto a noveleta A Series of Steaks foi indicada ao Hugo de Melhor Noveleta no mesmo ano (as duas histórias estão disponíveis online). No ano passado, ela já foi indicada ao John W. Campbell Award por Melhor Autora Estreante e ficou em segundo lugar.

Por fim, Katherine Arden é a autora da trilogia Winternight, uma série de fantasia que retrata o conflito da protagonista, moradora de uma vila russa medieval, contra a Igreja Ortodoxa que a acusa de bruxaria. O elogiado primeiro volume da série, O Urso e o Rouxinol, foi lançado aqui no Brasil pelo selo Fábrica 231 da Rocco. O último livro da série, The Winter of the Witch, foi lançado lá fora em janeiro. O primeiro livro infantil de Arden, Small Spaces, saiu em 2018.

Lodestar Award for Best Young Adult Book

  • The Belles, by Dhonielle Clayton (Freeform / Gollancz)
  • Children of Blood and Bone, by Tomi Adeyemi (Henry Holt / Macmillan Children’s Books)
  • The Cruel Prince, by Holly Black (Little, Brown / Hot Key Books)
  • Dread Nation, by Justina Ireland (Balzer + Bray)
  • The Invasion, by Peadar O’Guilin (David Fickling Books / Scholastic)
  • Tess of the Road, by Rachel Hartman (Random House / Penguin Teen)

Esta categoria tem uma mistura bem legal de autores iniciantes e nomes já reconhecidos. Novamente, só há um autor masculino indicado: Peadar O’Guilin, que escreveu The Invasion.

Dentre as autoras mais renomadas aqui no Brasil, estão: a Rachel Hartman, autora de Seraphina: A Garota com Coração de Dragão e Sangue de Dragão, ambos lançados aqui pela Editora Jangada – a história de Tess of the Road, seu livro indicado ao prêmio, acontece no mesmo universo dos livros anteriores (Tess, a protagonista, é irmã de Seraphina); a Holly Black, conhecida mundialmente pela série As Crônicas de Spiderwick, dentre outras obras – O Príncipe Cruel saiu aqui pela Jangada.

Justina Ireland já escreveu algumas obras, dentre elas uma série de livros infantis, além de ser a autora de Star Wars: Lando’s Luck, um tie-in sobre personagem mais charmoso da galáxia de Star Wars. Justina também já foi co-editora da premiada FIYAH Literary Magazine of Black Speculative Fiction, que este ano está indicada ao Hugo de Best Semiprozine. Dread Nation tem uma protagonista negra, a trama acontece durante a Guerra da Secessão – quando os mortos se levantam; o livro está bem alto na minha lista de leitura!

Belles é o segundo romance de Dhonielle Clayton; o livro saiu por aqui pela Plataforma 21. Belles introduz um universo fantástico cheio de intrigas de corte, com temáticas que passam pela identidade racial e por padrões de beleza. O segundo volume da série, The Everlasting Rose, saiu lá fora há poucas semanas.

A Tomi Adeyemi, ainda que seja uma nova autora, já está bem conhecida e elogiada aqui no Brasil. Filhos de Sangue e Osso, o primeiro livro da série O Legado de Orisha, saiu no Brasil pelo selo Fantástica da Rocco. Faz alguns meses que só tenho ouvido elogios e lido críticas positivas à obra, é um dos livros do ano passado que mais estou curioso para ler. O segundo romance da saga, Children of Virtue and Vengeance, está agendado para sair no meio do ano.

Enfim, a reação da comunidade ao redor do Hugo Awards, formada tanto pelo público leitor quanto pelos profissionais, é uma referência na resistência contra os ataques de grupos de ódio.  O prêmio tem se renovado constantemente, trazendo destaque para grandes talentos que estão construindo um novo patamar (tanto em termos de representação quanto de qualidade) para a literatura fantástica e de ficção científica, cada vez mais distante da realidade excludente de anos atrás.

Carlos Norcia é roteirista, diretor e nas horas vagas lê livros que dão ruim na cabeça dos desavisados.