Quando se trabalha no lugar criativo, seja ensinando, criando ou criticando, é muito comum escutarmos a máxima de “todas as histórias já foram contadas”, como se não houvesse nenhuma novidade narrativa a ser inventada.

Esse tipo de afirmação muitas vezes parte do princípio de que todos os formatos, todas as histórias já foram criadas e que nós estamos apenas trocando personagens e cenários. Da Grécia Antiga até Shakespeare, tudo já foi feito.

Eu nunca me conformei com essa afirmação, ela sempre me pareceu meio obtusa e vazia. Me parecia estranho que em tantos anos que separam Shakespeare dos criadores de hoje ninguém tenha conseguido criar uma história nova. Ontem eu voltei nessa questão através da thread de uma das minhas autoras favoritas, a Nnedi Okorafor, autora da Trilogia Binti entre outros livros incríveis:

Pra entender melhor porque eu considero essa afirmação categórica tão furada, preciso levantar duas questões muito importantes.

A Narrativa Única

A história mundial, da maneira como é apresentada para o mundo ocidental, é contada do ponto de vista branco, eurocentrista e masculino. É uma história que além de invisibilizar as pessoas não-brancas, não-européias e que fogem do padrão masculino, mas que fazem parte da história do mundo ocidental (olá, povos nativo-americanos e suas civilizações maravilhosas – seja Maia, seja Guaraní), diminui o impacto sangrento e destrutivo que a dominação branca, masculina, e européia teve nos povos não-europeus.

O impacto causado não apenas pela colonização, pelo imperialismo e pela escravidão, mas também pelas consequências dessas e outras políticas, ajudou a manter mulheres e pessoas não-brancas longe da arte e da educação. Mesmo no continente europeu, onde mulheres brancas dispunham de mais privilégios do que mulheres não-brancas, quem fugisse do padrão masculino e branco não tinha acesso ao mesmo tipo de cultura ou educação que homens brancos.

Esse afastamento forçado daquilo que permitiria a mulheres e pessoas não-brancas criar, possibilitou que a imensa maioria da arte criada e estudada tivesse origem exatamente nesse grupo dominador branco e masculino. Mesmo aqueles que conseguiam fugir desse afastamento não conseguiam o mesmo nível de exposição dos que cabiam dentro do padrão aceitável. Com isso, até hoje, a grande maioria da arte estudada e considerada de qualidade é exatamente a criada por homens brancos.

Por isso, mesmo hoje, a arte criada por mulheres e pessoas não-brancas acabam sendo classificadas como menores, “de gênero” ou de nicho. Como se elas não tivesse a capacidade da universalidade que se atribui ao autor e protagonista branco, masculino, heterossexual e cisgênero.

Não é que mulheres e pessoas não brancas não produzam. Mas até hoje os ambientes acadêmicos e de crítica se mostram reticentes e preconceituosos com aquilo que não se encaixa dentro do padrão masculino e branco. E, como muito do acesso que a população pode ter com arte, seja escrita seja audiovisual, precisa passar pelo crivo de uma editora ou de uma produtora, e como ainda vivemos num lugar onde a maioria dos executivos dessa área são homens brancos heterossexuais e cis, o que chega até o grande público, criado por artistas que fogem desse padrão ultrapassado, é muito pouco.

Por tudo isso a sociedade como um todo assume o homem branco como o default, o padrão. E é com esse conceito errado em mente que a gente chega ao pensamento de que “todas as histórias já foram contadas”. Porque considera-se que apenas as histórias contadas por homens e brancos são capazes de representar toda a humanidade.

Só que não.

Personagens diferentes, histórias diferentes

Jane Austin, uma das grandes escritoras da história, escrevia sobre o amor e as relações sociais na Inglaterra do século dezoito.

Mas como era o amor e as relações sociais na Nigéria do século dezoito? Ou a visão sobre o amor e as relações sociais de uma  mulher não-branca na Inglaterra do século dezoito?

Shakespeare escreveu sobre reis, família, poder e amor no século dezesseis. Como era a visão sobre realeza, poder e família de um homem durante o período Otomano na Arábia Saudita do século dezesseis?

Qual a visão de um homem branco norte-americano sobre a exploração espacial, colonização e o encontro com possíveis alienígenas? E qual a visão de uma mulher negra, nigero-americana, sobre esses mesmos temas?

O Audiovisual como conhecemos hoje nasceu com o cinema e evoluiu com a televisão. Nesses mais de cem anos, já assistimos diversas adaptações de livros escritos por homens. Já viajamos ao espaço inúmeras vezes, pegando carona na imaginação e no ponto de vista de homens brancos.

Mas quantas viagem nós fizemos sob o olhar de uma mulher? Quantas dessas viagens foram pelos olhos de uma escritora, diretora ou roteirista não-branca? Quantas aventuras intergaláticas nós vivemos em que uma mulher é a protagonista?

Se você assistiu Star Wars: Uma Nova Esperança, e teve a oportunidade de ler Binti, você sabe que apesar de ter um ponto de partida similar (jovem quer explorar o universo ao invés de ficar preso à família), os caminhos de Luke e Binti não podiam ser mais diferentes. E essa diferença não vem só de como as histórias discutem conflitos armados, mas do fato de que uma é protagonizada por um homem branco, a outra é protagonizada por uma mulher negra. Uma foi escrita por um homem branco na década de setenta, a outra escrita por uma mulher nigero-americana três anos atrás.

Quem gosta de falar contra feminismo ou contra inclusão de mulheres e outras minorias em espaços tradicionalmente masculinos e brancos – como o universo nerd ou o cenário competitivo de e-sports, por exemplo – adora dizer que homens e mulheres são diferentes, e que nós temos que aceitar isso.

E sim, nós somos diferentes. Mas isso não quer dizer que nós somos menos capazes, não tem nada mais antiquado do que a cartada do argumento biológico, isso quer dizer que nós temos visões, vidas, vivências e histórias diferentes.

Isso quer dizer que Star Wars nunca vai contemplar a história que Binti conta. Isso quer dizer que Orgulho e Preconceito nunca vai alcançar a história de Kindred.

Não, não contamos todas as histórias.

Ao longo da história da humanidade, desde a época rupestre até a era digital de hoje, nós já contamos muitas histórias. E às vezes elas podem parecer ecos daquelas já contadas porque muitos temas são universais, inerentes à natureza humana.

Mas mesmo temas universais, como amor e morte, são vividos e vistos de maneira diferente de acordo com o lugar em que o contador da história está inserido – seja a classe social, a etnia, a sexualidade ou o gênero. Tudo influencia no modo como nós vemos o mundo, assim como no modo com que contamos o nosso mundo.

Nós vivemos muito marcados por um tipo de narrativa que segue um padrão euro-centrista, que impede que vejamos que existem outras maneiras de contar histórias, maneiras que não foram contempladas pelo que a história nos contou entre a Grécia Antiga e Shakespeare.

Nós vemos as construções sociais, a organização das sociedades ao longo da história, de um ponto de vista eurocentrista, por isso acreditamos numa hierarquia de complexidade e evolução que considera menor, por exemplo, sociedades que não se encaixam num padrão de poder militar ou econômico. Onde valoriza-se a comunidade e a troca ao invés do militarismo e o poder concentrado.

Ao meu ver, essa sensação de que todas as histórias já foram contadas, vem exatamente do fato de que quem vem contando elas, quem vem tendo todo (ou quase todo) espaço para contar e ter a sua história escutada, são homens, brancos, heterossexuais e cisgênero. Porque sim, mesmo com o passar dos séculos, esse continua sendo um grupo com experiências muito similares.

Mas se mesmo entre homens brancos nós temos histórias tão diferentes (The Expanse e Fundação), imagina entre pessoas que fogem desse padrão?

Achar que todas as histórias já foram contadas, e que nós só estamos reciclando a criação de “grandes mestres”, é ignorar que existem vidas, temas, experiências, visões e sociedades completamente diferentes daquilo que consideramos erroneamente o padrão. Histórias organizadas e criadas de maneira completamente diferente do que o homem branco heterossexual cis imaginou até aqui.

Então não, nós definitivamente não contamos todas as histórias. O que nós precisamos é abrir espaço para essas histórias que ainda não foram contadas, ou que já foram contadas mas estão esquecidas debaixo de pilhas e pilhas de experiências similares e comuns ao homem branco padrão.

Imagina que chato seria se nós, como humanidade, tivéssemos contado todas as histórias que poderiam ser contadas só até 2018? O meteoro poderia vir já.

Até mais. 😉