Jogador Nº1, o filme que você ama ou odeia, e eu estou pendendo mais para a segunda opção.

Tudo bem, ódio é uma palavra muito forte. O filme é dirigido por Steven Spielberg, afinal de contas, então o longa não é ruim não. Já falamos sobre o Jogador Nº1 aqui no Nebulla. O filme é divertido, mas, para mim, ele não vai além disso. Um dos meus maiores problemas com o longa é toda a valorização das referências, mas eu não vou falar disso agora. Na verdade, o texto tem mais relação com um vídeo do nosso canal, sobre o poema que o Ernest Cline, autor do livro do Jogador Nº1, escreveu.

O poema é todo sobre como ele é um cara legal por querer um tipo de pornô diferente. Desde que eu li aquilo, eu esperava que alguma personagem feminina no filme sofresse com essa mentalidade. Eu não li o livro, mas não me surpreendi ao descobrir que eu não estava errada.

O texto contém alguns spoilers de Jogador Nº1.

Na história, a realidade não é nada acolhedora ou agradável, por isso muitas pessoas vivem uma vida virtual em um lugar chamado OASIS, que lembra um pouco o universo de Sword Art Online. Lá, cada pessoa pode ter o seu avatar da forma que desejar. Wade, também conhecido como Parzival, conhece Samantha, ou Art3mis. No meio de toda a aventura, eles vão criando uma relação que vira um romance.

Até aí, nada de novo. Muito pelo contrário, é comum até demais. Samantha é toda diferente, incrível, mas precisa ser salva de vez em quando, afinal, como essa história poderia criar uma relação entre ela e Wade sem colocá-la na posição de donzela em perigo de vez em quando? Tudo pela nostalgia, eu imagino.

Enquanto eles estão se conhecendo em OASIS, Samantha comenta que Wade não pode estar apaixonado por ela. Eles nunca se viram de verdade, e ele poderia ficar decepcionado com o que veria caso se encontrassem. Já dá para imaginar que existe algo na aparência de Samantha que é uma questão para a personagem. Quando Wade a encontra no mundo real, descobrimos que ela tem uma mancha de nascença no rosto, mas Wade não se incomoda, afinal ele gosta dela mesmo assim. Olha como ele é um cara bacana!

Há alguns problemas nessa construção. Eu já comentei rapidamente como a relação deles é feita de forma clichê e padrão. Mas há alguns aspectos que me incomodaram bastante em toda essa questão da mancha no rosto dela.

Primeiro, quando Wade “aceita” Samantha, independente dela ter o rosto marcado ou não, o filme dá um ar de que ele é um cara muito legal por causa disso. O estereótipo do cara legal. “Olha como eu sou bacana, eu te aceito apesar dessa marca de nascença, então fica comigo por favor”. Isso obviamente não é dito com essas palavras, mas é a forma que o filme mostra esse ponto específico da relação dos dois.

Outro incômodo em relação a isso é que essa marca nunca mais é mencionada. Não que eu ache que ela necessariamente precisava ser uma questão para a personagem, mas foi assim que o filme construiu essa questão desde o começo. Samantha obviamente se importa com isso, mas no momento em que Wade, um cara “legal” que ela mal conhece, a “aceita apesar disso”, de repente a marca não é mais uma questão. Isso porque a personagem nunca tem espaço para se desenvolver, nem nesse ponto ou em qualquer outro. Aliás, tirando o Wade em alguns momentos, nenhum dos personagens tem muita chance de mostrarem sua complexidade. Talvez porque não tenham nenhuma.

Há também uma outra questão, que na verdade foi a primeira coisa que me saltou aos olhos. Jogador Nº1 começa fazendo um pouco de discurso de aceitação. De como não importa como você é no “mundo real”, porque em OASIS você pode ser o que quiser, e tudo bem. O filme tinha uma excelente oportunidade de aprofundar o tema, mas não acho que era a intenção e, se era, acabou se perdendo no caminho.

A questão é que, com o arco de Samantha, quase dá para esboçar um argumento de que o filme queria falar sobre isso. Não funciona porque a personagem não tem a complexidade necessária para isso, mas há um outro problema maior. Samantha é uma moça dentro do padrão de beleza. Sim, ela tem a marca de nascença. Mas ela é magra, branca e cis. Sem contar que tinha momentos que mal dava para ver a marca no rosto dela. Não há nada demais em colocar uma pessoa dentro do padrão de beleza se aceitando, muito menos depois que o cara legal a aceita “do jeito que é”.

Não estou dizendo que mulheres dentro do padrão não possam ter problemas em se aceitar, fisicamente ou de qualquer outra forma. Eu mesma estou dentro de vários padrões e só eu sei todos os meus problemas com baixa auto estima. A questão é que não existe um sistema opressor em cima de ser magra, branca e cis.

Eu revirei os olhos quando percebi como Wade estava sendo colocado em um pedestal por não se importar com a marca de nascença de Samantha. Esse tipo de narrativa nunca serve à mulher, mas sim ao homem que é “muito legal” por não se importar com a aparência da namorada. Mas ele é tão bacana que, olha só, até a Samantha, que não estava interessada nisso, resolve ficar com ele. Parece que a homenagem aos anos 80 vai até na mentalidade ultrapassada apresentada.

Não precisamos de mais uma história do cara legal, mas eu não estou surpresa de ter encontrado isso em Jogador Nº1.