Nós é o novo filme de terror de Jordan Peele , que chegou com tudo nos cinemas, se tornando o filme de terror que mais lucrou no primeiro final de semana. Nós conta a história de Adelaide (Lupita Nyong’o) e sua família, que vão passar as férias na praia de Santa Cruz. Adelaide tem um problema com esse lugar, pois já passou por um trauma no passado na mesma praia. Depois da família aproveitar o dia juntos, durante a noite, uma família aparece na porta da casa de Adelaide. Em pouco tempo, eles invadem a casa e prendem a família que está lá dentro. Nessa hora, o público percebe que a família que invadiu são doppelgängers, ou seja, pessoas iguais à eles, como se fossem cópias.

Este texto não possui spoilers do filme.

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Desde o lançamento de Corra!, a barra de expectativa estava alta para Nós. O filme consegue bater todas as expectativas e nos mostrar ainda mais, apresentando uma história que talvez te faça perder o sono, mas com certeza vai te fazer pensar em todas as camadas que Nós possui.

A primeira parte do roteiro apresenta os personagens, o trauma de Adelaide e o lugar onde os acontecimentos vão se passar. A partir do primeiro ponto de virada, que divide o segundo e o primeiro ato, o filme entra em uma montanha russa de medo, tensão e revelações. Nós possui alguns alívios cômicos no meio, talvez até um pouco demais para o meu gosto, mas é um filme que deixa o público tenso do começo ao fim. Mesmo nos momentos de “descanso” o terror ainda está muito próximo para dar uma tranquilidade real.

As atuações são uma das melhores partes do filme. Todos os atores estão ótimos, tanto em suas versões “normais” quanto nas versões doppelgängers. Lupita Nyong’o é o maior destaque do filme, é ótima como Adelaide e assustadora como Red. Não apenas nos gestos e movimentos, mas também na voz que deixa qualquer um arrepiado.

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Nós é um filme muito bonito. a fotografia e a direção de arte conversam bem com a temática trazida pela narrativa. Para quem assiste uma segunda vez, dá para ver muito bem que alguns aspectos estéticos estão quase dizendo o que vai acontecer depois. Aliás, Nós é um filme cheio de símbolos que são interessantes de serem avaliados uma segunda vez, que se encaixam com a revelação que será feita no final do filme.

O longa possui uma série de camadas de simbolismos e mensagens, debates que ele busca levantar ao longo da narrativa. A imagem dos doppelgängers é muito boa para levantar debates como as pessoas lidam com as coisas, seja em um caráter social ou mais intimista, de questões pessoais. Os doppelgängers aparecem nesse filme, sem serem convidados, causando problemas para as outras pessoas, o que pode ser visto como aquelas coisas que não queremos encarar, mas que estão ali e um dia será impossível de ignorar.

Em Nós, Jordan Peele faz uma discussão sobre essas “outras pessoas”, os doppelgängers, serem os vilões, aquilo que aparece de repente, toma o que “já tem dono” e causa tanto medo em quem já está no lugar. É uma metáfora que pode ser colocada em vários aspectos da sociedade, mas é importante essa imagem do “outro” trazer medo. Nossa sociedade é uma que exclui o que considera como o “outro”, que cria em cima disso uma imagem de algo perigoso, a qual devemos temer e evitar, pois pode nos destruir. Sim, é um imaginário baseado em preconceitos e Jordan Peele vai apresentando essa ideia com suas metáforas ao longo do filme. O que é ainda mais esperto, porque Nós é um filme que sabe que se passa nos Estados Unidos, e usa isso para fazer a sua crítica.

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Mas os outros são, como o filho mais novo aponta, “nós”. Não é à toa que a imagem do doppelgänger foi escolhida para este filme. Jordan Peele quer nos dizer que, essas pessoas que são colocados como inimigos na nossa sociedade, são pessoas como nós, como qualquer outra, por isso elas são tão semelhantes. A mensagem fica ainda mais forte ao decorrer do filme (mas aí já é spoiler, fica para outro texto).

O longa lida muito bem com a questão da dualidade também, outro aspecto que a imagem de doppelgängers costuma trazer no imaginário coletivo. Aquela nossa outra parte, aquilo de nós que não sabemos que existe ou não queremos encarar. Eles carregam tesouras grandes e assustadoras, mas o que são as tesouras se não duas lâminas, que juntas formam um objeto? Mais um ponto onde o filme mostra a dualidade.

Nós é um filme cheio de camadas, com muitas mensagens e interpretações que podem ser feitas. Além disso, é um filme assustador e que sabe balancear bem o clima de terror com os sustos. Com certeza um dos melhores filmes do ano.