O metagame é um assunto um tanto quanto complicado de se tratar. Para aqueles que não estão familiarizados, o metagame no RPG é aquele conhecimento que o jogador tem, mas que o personagem não tem. Quando o jogador faz algo que não condiz com o conhecimento do personagem, apenas baseado no que o jogador sabe, é metagame. Por exemplo: O jogador sabe que um NPC tem uma informação, mas o personagem não tem como saber. Por causa desse conhecimento, ele força um diálogo ou um encontro com o NPC que não aconteceria naturalmente, o que pode atrapalhar ou dar uma vantagem injusta naquela situação.

O esperado das mesas de RPG é que o metagame não seja usado. O conhecimento do jogador não é o mesmo que o do personagem. Usando um exemplo pessoal: Eu conheço bastante do universo e as regras de Dragon Age, incluindo o RPG. Quando jogo com um personagem que não teve contato com assuntos como Guardiões Cinzentos, eu não posso colocar na boca do personagem esse conhecimento que eu, jogadora, tenho. Isso porque eu, Clarice, estudei o livro, mas meu personagem não teria como saber o assunto a fundo, só o básico que as pessoas não envolvidas na ordem saberiam.

O problema é que isso não é tão simples ou fácil, ainda mais para jogadores novos. Por mais que exista o ON e o OFF, e em tese todo mundo entenda isso, muitas vezes a interpretação nos deixa mais perto do personagem do que imaginamos, o que resulta em sangramentos. Esses são os momentos em que as “emoções” do personagem passam para o jogador e vice e versa, o que não é necessariamente ruim. Sem contar que, por mais que RPG não seja um jogo de “ganhar ou perder”, há inúmeras sensações de derrotas e vitórias. Conseguir fazer algo é ótimo, mas falhar em uma missão que você sabe o que fazer, por causa do meta, que deu errado porque o dado não ajudou, pode ser frustrante. Nesses momentos, os jogadores podem tentar salvar a cena com o metagame, o que às vezes é injusto.

Particularmente, acredito que o metagame tem suas vantagens e suas desvantagens. Começando pela segunda, que é a mais óbvia. Quando os metagame contam como vantagem ou atrapalham o jogo dos outros envolvidos, ele não pode ser aceito. Afinal de contas, isso seria injusto e também permitiria que acontecesse em outras situações, tirando vários aspectos do RPG que mantém o jogo funcionando.

Então, por exemplo: Alguém está mestrando uma cena de incidentes contra um personagem A. A única relação na história, por enquanto, entre os incidentes, é que o personagem A tem passado por dias difíceis, mas não tem como traçar que os eventos tenham tido um mesmo culpado. Quando o jogador de personagem B resolve sugerir que está tudo conectado, mesmo que dentro do jogo não tenha nada comprovado, isso é metagame. Às vezes, para o jogador querer mostrar que seu personagem é útil, esperto ou pelo jogador querer ter a sensação de “ganhar” ou ajudar, ele acaba fazendo isso. O problema é que isso pode atrapalhar não só o jogador do personagem A, como o mestre que tinha planejado algo. Uma coisa planejada não acontecer em RPG é normal, todo o mestre já passou por isso, mas é chato quando isso se dá por metagame.

Agora, há também outras coisas que podem ser consideradas metagame, mas tendem a melhorar a mesa de RPG. Por exemplo, se um personagem quebrou, as pessoas da mesa podem conversar em OFF ações para fazerem em ON e melhorar a situação. Um personagem quebra quando ele chega em um ponto que não dá mais para jogar, seja por mecânica ou qualquer outro motivo. Outra situação é um personagem ter ficado desinteressante, ou gatilho, para o jogador em questão e ele resolver trocar com a autorização do mestre. Assim, as próximas cenas também são organizadas em ON, portanto o metagame funciona.

Esse tipo de metagame, que não atrapalha, geralmente é usado para resolver problemas, criar ambientes seguros e até criar momentos que podem só ser divertidos, mas não aconteceriam naturalmente e não atrapalhariam nada. Trazer assuntos do ON pro OFF, e para levar de novo para o ON, pode ser necessário para resolver problemas. Mesas de RPG não funcionam sem conversas, então querendo ou não, pode ser que isso aconteça.

A questão é que cada mesa, jogador e mestre precisa avaliar quando o metagame é necessário para o bem da mesa, e quando ele é uma vantagem injusta, algo que atrapalhe. É preciso ser usado com cuidado, para não quebrar regras básicas do jogo, mas também não precisa ser completamente banido. Por isso é crucial que as pessoas envolvidas em um RPG estejam dispostos a conversar e se entender da melhor maneira possível.