Nós já sabíamos que She-Ra – A Princesa do Poder, animação da década de 80, ganharia um reboot feito pela Netflix. Assim como foi com o caso de Thundercats, nós já imaginávamos que o design novo, se seguisse a tendência dos desenhos infantis de hoje em dia, receberia ódio na internet. Bem, nós estamos desapontadas, porém não surpresas.

O design novo da She-Ra é lindo. Sim, ele segue uma tendência dos dias de hoje para desenhos infantis. É óbvio que segue, é uma animação com um público alvo bem definido, as crianças, e são alguns tipos de traços que elas estão consumindo. Porém, ao contrário do que alguns vem dizendo, o traço de She-Ra está longe de ser uma cópia dos desenhos mais populares hoje, como Steven Universe. Só porque alguns traços específicos estão sendo a tendência de hoje, não significa que está tudo igual.

Mas as reclamações sobre os traços estão entre as minhas menores preocupações, honestamente. O novo design recebeu muito comentário de ódio, que vem de bases machistas e lgbtfóbicas, e isso sim é preocupante. Enquanto as crianças estão vendo desenhos mais inclusivos, com representatividade melhor e exemplos mais saudáveis, os adultos continuam insistindo no próprio preconceito, incapazes de buscar ver além disso.

Uma das maiores reclamações é que agora She-Ra não está parecendo uma mulher. De acordo com eles, seus traços, seu corpo, seu rosto e suas roupas são todas masculinas, o que estragaria o desenho de alguma forma. Essa reclamação vem porque, antes, She-Ra tinha em seus traços muito estereótipos de uma mulher sexy. Ela tinha as curvas muito mais acentuadas, lutando com pouca roupa.

Os homens dentro do padrão acreditam que tudo no mundo deve ser feito para eles, isso em si já é um problema, mas o fato de eles quererem essas características até em um desenho infantil é alarmante. Mesmo em uma produção direcionada para crianças, eles querem que a protagonista mulher se encaixe nos padrões irreais do que é considerado sexy. Se isso não é absurdo, eu não sei o que é. Sem contar que mostra como a visão deles do que o que é uma mulher é extremamente limitada. Há mulheres de todos os tipos, com todos os corpos, ao contrário do que o padrão de beleza quer nos vender.

Sem contar que essa nova visão da She-Ra é muito saudável. Não sabemos se nesse reboot ela terá 16 anos, mas se tiver, faz muito sentido que ela seja retratada desse jeito, jovem, sem as curvas consideradas sexy e com roupas que condizem mais com as ações que ela tomará na animação. Ela é uma guerreira, ela precisa lutar, a roupa que usaram agora é uma escolha óbvia.

Alguns ainda mais patéticos reclamam que agora, tudo que era bonito está sendo tirado deles, ó pobre homens adultos dentro do padrão. Eu não sei vocês, mas eu tô achando o design novo lindo e muito mais coerente. Mas nós sabemos bem porque esses caras estão tão incomodados com a “falta de beleza”, não é? Spoiler: Porque foge da visão absurda e preconceituosa deles do que é bonito.

Também vi comentários de pessoas reclamando que o desenho era para eles sim, porque se não fosse, não tinha porque usar a mesma personagem dos anos 80. Ninguém está proibido de assistir a nova She-Ra, mas sim, desenhos infantis têm como público alvo as crianças. Se os adultos que gostavam do primeiro aproveitarem esse, ótimo, é lucro, mas qualquer pessoa dentro da produção de uma animação infantil sabe que as crianças são prioridade.

Mas o tipo de comentário que mais me irritou foram aqueles que colocaram a Noelle Stevenson no meio. Em maio, foi anunciado que ela seria co-produtora da animação. Eu adoro a Noelle, ela fez uma das HQs que de longe é uma das minhas favoritas, Nimona. Ter o nome dela na produção é dar uma qualidade incrível para a animação. A questão é que esses homens padrão que estão caindo em cima de She-Ra são lgbtfóbicos, eles nem fazem questão de esconder. Noelle Stevenson é lésbica, inclusive em seu twitter ela já falou de episódios de preconceito contra ela, como a vez em que escreveram insultos em seu carro após a verem se despedir da namorada com um beijo.

Alguns haters compararam a imagem nova da She-Ra com uma foto da Noelle, dizendo que ela era “boy-ish” (que parece com um menino) e egoísta, em tese por estar fazendo um desenho que era igual à ela fisicamente.

Primeiro que quantas mulheres ainda vão ter que ouvir que suas histórias são elas se introduzindo de alguma forma nas próprias narrativas? Depois que, mesmo que isso fosse um argumento minimamente válido (não é), a She-Ra não está parecida com Noelle. É desrespeitoso e preconceituoso expor a artista dessa forma, como se ela não estivesse trabalhando com mais um monte de gente, e jogando a “culpa” de tudo (que não tem nada ruim para ter culpa, mas enfim) justo em cima da mulher lésbica. Mas nós sabemos que as minorias sempre são o primeiro alvo desse tipo de gente.

Essa onda de ódio contra o desenho da She-Ra revela não só o preconceito do público nerd (que não é de hoje, nós sabemos bem), mas também as atitudes absurdas e incoerentes dos homens dentro do padrão. Não é tudo que vai ser feito para você, muito menos dentro dos padrões absurdos que você aprendeu a consumir, achando que é normal. É ótimo que tenhamos pessoas fora do padrão, como Noelle Stevenson, criando animações que também fujam desse padrão de alguma forma. É muito melhor para a representatividade, mas, acima de tudo, muito mais saudável para as crianças. Sabe? O público alvo da produção.