A San Diego Comic Con 2018 chegou e logo no seu segundo dia um anúncio abalou a nerdosfera: a demissão de James Gunn, diretor de Guardiões da Galáxia Volume 1 e 2 pela Disney/Marvel. A internet entrou em combustão quase imediata, não só pelo motivo, tweets antigos em que ele fazia piada com pedofilia, mas também pela rapidez do anúncio.

Existe muita coisa a ser discutida com essa demissão sumária do Gunn e com o ultraje – mais do que justificado – aos tweets horríveis dele. Eu tenho visto muitas pessoas jogarem a culpa da demissão de Gunn no “politicamente correto” ou nos SJW.  A minha intenção com este texto é procurar entender todas as jogadas, todos os jogadores e tudo que está em jogo, com essa demissão. Então vamos lá.

Os tweets

Antes de assumir a posição como diretor da Marvel, James Gunn era diretor de filmes B, aqueles que possuem pouco orçamento e muita liberdade criativa – especialmente se você for um homem branco. Gunn sempre se destacou pelo humor “irreverente” e pela sua estética diferenciada. Como vocês sabem, “humor irreverente” muitas vezes é como se qualifica o humor ofensivo, aquele que é direcionado à minorias ou assuntos considerados tabus e mesmo criminosos – como pedofilia e racismo.

Na sexta-feira alguns desses tweets vieram novamente à tona:

Os tweets, que variam entre 2009 e 2012, são absolutamente horríveis – pedofilia não é nem nunca será engraçado. Fazer piada com pedofilia deveria ser algo absolutamente intolerável, mas quando falamos sobre humoristas/escritores homens, brancos, heterossexuais e cisgêneros, isso muitas vezes pouco importa – vide a cena com um pedófilo em Como se tornar o pior aluno da escola, filme do Danilo Gentili lançado no ano passado.

Apesar de terem ganhado impacto nesta semana, na realidade, esses e outros tweets já foram expostos pela mídia especializada em 2012. Lá, antes do lançamento do primeiro Guardiões da Galáxia, diversos sites e jornalistas que discutem representação e possuem um posicionamento mais à esquerda já haviam levantado esta questão. Na época, Gunn fez um pedido de desculpas:

“Alguns anos atrás eu escrevia um blog que tinha a intenção de ser satírico e engraçado. Ao lê-lo novamente ontem eu não acho ele engraçado. A tentativa de humor do blog não representa os meus sentimentos. No entanto, eu consigo entender que essas afirmações foram mal colocadas e ofensivas para muitos. Eu sinto muito e me arrependo completamente de tê-los feito. Pessoas que me conhecem, e como evidenciado pelo meu Facebook e por outros meios, sabem que eu sou um apoiador vocal pelos direitos da comunidade gay e lésbica, mulheres e qualquer pessoa que se sinta isolado, e me mata que outros outsiders como eu, independente do gênero ou sexualidade, possam ter se machucado ou atacados por algo que eu disse. Nós estamos todos no mesmo lugar, e eu quero fazer o meu melhor para fazer deste mundo um lugar melhor para todos nós. Eu estou aprendendo o tempo todo. Eu prometo ser mais cuidadoso com minhas palavras no futuro. E eu farei o meu melhor para ser mais engraçado também. Muito amor para todos.”

Esse pedido de desculpas é, em muitos aspectos, um pedido de desculpas muito bom – ele não só admite que errou, mas aceita os sentimento negativos pelas suas palavras, reconhece que suas palavras feriram pessoas, pede desculpas, diz que está aprendendo e promete melhorar. Mesmo hoje, em 2018, é muito difícil ver um pedido de desculpas que realmente parece sincero como esse parece.

Vamos deixar uma coisa muito clara: a Disney já sabia desses twittes. Mas vamos continuar.

O Pizzagate

Em 2016, quando Trump ainda estava na corrida eleitoral, e os Estados Unidos ainda acreditava que ele nunca iria ganhar, aconteceu o Pizzagate. Esse é o nome utilizado para resumir um escândalo político orquestrado por alguns Republicanos em uma tentativa de envolver os Democratas em uma polêmica envolvendo pedofilia – em especial a candidata à presidência Hillary Clinton.

O pizzagate começou como uma teoria conspiracional que dizia que Hillary Clinton, e seu então líder de campanha, John Podesta, estariam mantendo um ponto de prostituição infantil no porão de uma pizzaria em Washington, DC. Depois de semanas de assédio e ameaças de morte online, no começo de dezembro de 2016 um homem armado entrou na pizzaria e atirou. Ele estava lá para resgatar as crianças que nunca existiram de verdade. O site Vox tem uma reportagem muito completa sobre toda essa polêmica, e o BuzzFeed fez um bom apanhado de tudo também (as duas estão em inglês).

Esse movimento de fake news pelas redes sociais foi construído por supremacistas brancos e apoiadores do Trump. A teoria da conspiração ganhou força quando Mike Cernovich, ativista da alt-right norte-americana, retwittou uma dessas fake news. Cernovich foi uma das pessoas que trouxeram os twittes de Gunn à tona na quinta-feira.

A Alt-right e Mike Cernovich

Alt-right é o termo utilizado para denominar a parcela da direita americana que se diz uma alternativa à direita tradicional mas, na realidade, reúne tudo aquilo que há de pior: supremacistas brancos, homofóbicos, misóginos e racistas – a extrema direita, mas sob um novo nome.

Dentro do meio nerd nós já encontramos eles em outra oportunidade, o Gamergate é um movimento que tem como base exatamente essas pessoas e seus ideais. Além deles, o movimento Sad Puppies na literatura, tentando sequestrar o Hugo Awards anos atrás, também tem relação com este grupo.

A alt-right também é responsável pela marcha de Charlotteville em 2017, quando um grupo de supremacistas brancos marchou pela pequena cidade em um “protesto” contra a retirada da estátua de um general federalista. O “protesto” com a morte de uma ativista que protestava contra a marcha supremacista.

Mike Cernovich é uma das principais vozes da alt-right americana, tendo inclusive sido um das vozes à promover o GamerGate. Além de ser um ativista a favor de temas supremacistas brancos, racistas, misóginos e homofóbicos, Cernovich também já foi acusado de estupro (foi condenado por um crime menor), considera date rape uma invenção dos liberais, acredita  na teoria conspiracional sobre o genocídio branco na Africa do Sul, defende o teste de QI para imigrantes, apoia o Gamergate, dentre outros absurdos.

E já que estamos falando sobre tweets antigos, deixo um exemplo dos deles:

Eu vou voltar a falar de Cernovich daqui a pouco.

A demissão da Roseanne e a ABC

No final de maio o canal ABC, que faz parte da Disney, cancelou o reboot do seriado Roseanne apesar da sitcom estar trazendo números bons para o canal. A protagonista da série, Roseanne Barr, é uma pessoa horrível que fala e faz coisas horríveis há anos sem grandes consequências. Há alguns anos ela postou uma foto sua vestida de Hitler enquanto tirava biscoitos queimados de dentro de um forno, sua fantasia de halloween (Roseanne é judia, o que em nada justifica a falta de sensibilidade). Mas o que fez o ultraje tomar força recentemente foi um tweet em que Roseanne comparava a ex-conselheira do governo Obama com um macaco.

Pouco depois do tweet vir à tona, a ABC cancelou Roseanne, gerando revolta entre os fãs da série que apoiam o comportamento agressivo e racista da atriz protagonista. Roseanne insistiu que foi uma piada (como se racismo fosse engraçado) e tentou culpar o seu antidepressivo (não é o caso, a empresa farmacêutica que fabrica o remédio veio a público para dizer que racismo não é um dos efeitos colaterais do medicamento).

A demissão de Roseanne foi um marco para a alt-right, já que Roseanne é uma forte voz à favor do Trump e de tantos outros pontos que eles consideram importante. A ABC, e a Disney, foram atacadas por teoricamente cederem à esquerda/liberais.

A demissão de dois desenvolvedores pela ArenaNet

No começo de julho, a roteirista de Guild Wars 2, Jessica Price, fez uma thread no twitter colocando o seu ponto de vista profissional sobre as diferenças entre escrever para jogos como Tomb Raider, e jogos como GW2, MMORPGs. Um youtuber do jogo, Deroir, veio até a thread e explicou para ela que a roteirista estava errada. Na opinião do Youtuber era mais um problema de design e não de personagem. Jessica então retwittou a resposta do youtuber: 

Os dois continuaram a discutir e um outro dev, colega de Price, veio à sua defesa respondendo que as contas de tweet deles são pessoais, e ela não pediu a opinião do youtuber – desde então ele apagou estes tweets.

A fanbase de GW2 foi a loucura, dizendo que Price tinha atacado os fãs, agido de maneira pouco profissional. A ArenaNet (empresa responsável por GW2), através de Mike O’Brian, respondeu com a demissão dos dois profissionais.

Vamos lá, a conta de tweet de Price realmente era pessoal e, assim como tudo na internet, pode sim haver resposta de qualquer pessoa se o conteúdo que você publica é público. No entanto, dizer que o youtuber foi atacado sem razão, depois dele ter dado um grande mansplaning sobre algo que é a PROFISSÃO dela… Me parece um pouco demais.

Como Julia Alexander e Ben Kushera, da Polygon, disseram:

“A resposta de Price para o tweet foi mais agressiva do que a situação pedia, mas o tweet de Deroir não existe em um vácuo. A raiva de Price é o resultado de uma longa história de homens nos jogos que tentam explicar o trabalho de mulheres desenvolvedoras para elas, e faz completo sentido no contexto. (…)

Então você tem um jogador insensível e uma desenvolvedora exausta que chamou um fã de babaca. A questão foi então abraçada por algumas das comunidades tóxicas de games que existem como remanescentes do GamerGate, porque mulheres que não falam com os jogadores de maneira delicada tornam-se alvos tentadores. Nada disso é particularmente novo nos jogos, nem é inesperado. (…)

Líderes teriam olhado para a situação, atenuado a retórica e talvez colocado políticas de mídias sociais mais robustas. Mas O’Brian não queria liderar, ele queria satisfazer a turba, e ele fez isso da pior maneira possível ao demitir Price.”

Para entender mais sobre toda essa bagunça a Polygon tem três textos muito explicativos: Link 1, Link 2, Link 3. Eu volto a falar sobre isso, e como isso se liga à demissão de James Gunn, logo mais.

O ressurgimento dos tweets de James Gunn

Na última quinta-feira, dia 19/07, os tweets antigos de James Gunn vieram novamente à tona. Desta vez quem falou sobre eles foi ninguém menos que Mike Cernovich, aquele cara que deu impulso ao Pizzagate, entusiasta do Gamergate, e todas as credenciais que eu já falei lá em cima.

Os tweets causaram revolta por toda a internet – revolta mais do que justificável. Pedofilia, racismo, homofobia ou misoginia – nada disso é motivo de piada. Fazer de uma minoria, ou qualquer membro de uma comunidade vulnerável, o punchline da sua piada só diz que você é um humorista preguiçoso.

Nós ainda vivemos em uma sociedade que perdoa homens brancos heterossexuais e cis com muita facilidade. Apesar de todos os avanços do #MeToo no último ano nós ainda temos figurinhas como Jhonny Depp assinando contratos, estrelando filmes e fazendo aparições surpresa nos palcos da San Diego Comic Con. Nós ainda temos um caminho longo e provavelmente tortuoso até chegarmos a um momento em que possamos realmente estar em um lugar 100% positivo.

Não é novidade vermos homens sendo perdoados por cagadas que fizeram no presente, quem dirá por piadas que fizeram no passado. A memória da sociedade é curta e benevolente se você for branco e homem. Então a revolta gerada pelos tweets do Gunn é ABSOLUTAMENTE justificável, assim como é absolutamente entendível quem acredita que a Disney devia mesmo ter demitido Gunn.

A demissão de James Gunn

Assim que os tweets reapareceram a Disney tomou a decisão de romper os laços de trabalho com James Gunn. Em seu comunicado oficial:

As atitudes ofensivas e declarações descobertas no Twitter de James Gunn são indefensáveis e inconsistentes com os valores do nosso estúdio, portanto nós interrompemos qualquer relação mantida com ele.”

Gunn, por sua vez, falou sobre a demissão primeiro no twitter:

  1. Muitas pessoas que acompanham minha carreira sabem que, quando eu comecei, eu me via como um provocador. Fazia filmes e fazia piadas que eram vistas como tabus. Como eu já declarei publicamente várias vezes, meu trabalho e humor melhoraram à medida que eu melhorei como pessoa

  2. Não é para dizer que eu sou melhor, mas que eu sou muito, muito diferente da pessoa que eu era anos atrás, hoje eu tento conectar meu trabalho mais com o amor e menos com o ódio. Os meus dias de tentar dizer algo chocante só para conseguir uma reação acabaram.

  3. No passado, eu já me desculpei pelo meu humor que machucou as pessoas. Eu realmente me arrependi e fui sincero em cada palavra que disse.

  4. Só para reforçar, quando eu fiz essas piadas chocantes, eu não estava vivendo elas de alguma forma. Eu sei que isso é estranho de dizer, e parece óbvio, mas ainda assim acho bom reforçar isso.

  5. De qualquer forma, essa é a verdade: Eu costumava fazer várias piadas ofensivas. Eu não faço mais. Eu não culpo meu eu do passado por isso, mas eu agora gosto mais de mim e me sinto mais como um humano completo e um criador. Amo todos vocês.

Mais tarde, Gunn soltou um comunicado mais formal através do BuzzFeed:

Minhas palavras de quase uma década atrás, na época, eram uma tentativa falha de conseguir ser provocativo. Eu lamentei elas por muito tempo depois disso, não só porque elas eram idiotas, nem um pouco engraçadas, insensíveis e nem um pouco provocativas como eu achava, mas também porque elas não refletem a pessoa que eu sou hoje e que eu tenho sido há algum tempo.

Independente de quanto tempo tenha passado, eu entendo e aceito as decisões comerciais que foram tomadas hoje. Mesmo tantos anos depois, eu assumo completa responsabilidade pelo que eu fiz. Tudo que eu posso fazer agora, além de oferecer minhas sinceras desculpas, é ser um ser humano melhor: aceitando, entendendo, procurando igualdade e sendo mais sensível com as minhas próximas declarações e minhas obrigações. Para todos dentro da minha indústria e além, eu peço desculpas novamente.

Veja bem, a Disney tem todo direito de demitir quem ela quiser. Ela é uma organização imensa, a Marvel é apenas um de seus vários braços. E como tem sido o padrão dos últimos meses, frente à tantas acusações de estupro e assédio sexual dentro da indústria do entretenimento, cortar relações com Gunn parece ser a opção mais óbvia e direta. Livrar-se do problema o mais rápido possível.

Mas a demissão de Gunn não é tão simples e pode abrir um precedente perigosíssimo.

A demissão e o precedente perigoso

Não é a primeira, nem será a última, que uma empresa joga alguém embaixo do ônibus para abafar uma polêmica. Mas é a primeira vez que uma empresa do porte da Disney cede de maneira tão rápida à algo que é tão obviamente uma armação. Quando eu digo armação, de maneira nenhuma digo que Gunn não twittou aquele monte de atrocidades – ele fez isso sim, inclusive admitiu e pediu desculpas. A armação é essa manobra da alt-right americana para atacar um diretor que abertamente fala sobre assuntos progressistas, confronta pessoas no poder, confronta discurso de ódio e questiona as decisões do governo dos Estados Unidos.

É absolutamente entendível que a Disney, uma empresa que se sustenta como representante maior de produtos voltados para crianças, com parques de diversões, desenhos e a maior parte de seus produtos direcionados ao público infantil, não queira estar associada à um diretor que fez piadas de pedofilia. Mas a questão não é tão simples.

Ao demitir Gunn por tweets feitos anos atrás, a Disney em nada se difere da ArenaNet. Ao invés de lidar com o problema e procurar uma solução, algo que abra o diálogo com o público e com o próprio diretor, ela sede a uma turba. Não às pessoas honestamente ultrajadas e justificavelmente ofendidas e enojadas com os tweets de Gunn, mas às pessoas que estão usando os tweets como jogada política de poder.

Não é novidade que políticas progressistas dentro da cultura pop sejam perseguidas por um grupo de ódio. O GamerGate foi exatamente isso, a perseguição de mulheres dentro da indústria que ousaram simplesmente falar sobre a indústria. Desde que a Marvel começou a trazer minorias para dentro do seu quadro de heróis e funcionários, a turba de nerds enraivecidos vem tentando minar a editora e seus fãs – sem sucesso, já que, diferente do que eles gostam de gritar, diversidade não matou a Marvel. Rian Johnson, Kelly Marie Tran e Daisy Riddley tiveram as redes sociais invadidas por ameaças de morte, mensagens de ódio e etc, com Daisy e Kelly tendo que fechar a suas contas. Durante a própria SDCC a atriz, Anna Diop, intérprete da Estelar na série Teen Titans também saiu das redes sociais depois de receber uma enxurrada de ódio.

Dobrar os joelhos para uma horda de ódio nunca foi a resposta, fazer isso agora, quando a horda é obviamente comandada por membros da alt-right, um movimento que dissemina ódio, racismo, misoginia, homofobia e que se apoia em supremacia branca é absolutamente inaceitável.

A demissão de James Gunn nada tem a ver com o ultraje justificável, mas sim com o uma empresa imensa ceder às armações da alt-right americana. Ela abre um precedente gigante e extremamente perigoso, um que já existia em espaços menores (como no caso da ArenaNet), agora podem ganhar grandes corporações e espalhar-se como exemplo de validação de um comportamento de turba violento.

A Disney já vem desagradando os fãs alt-right com os rumos de Star Wars, e a demissão de Roseanne não ajudou a acalmar o relacionamento da empresa com a alt-right. Demitir James Gunn me parece a maneira imediata da empresa de livrar-se de uma polêmica ao mesmo tempo em que agrada a alt-right e a direita conservadora norte-americana.

Eu dividi o texto em tópicos para que vocês pudessem entender o tamanho do problema, e entender que a linha narrativa da alt-right é uma de destruição. Ela fomenta ódio e aproveita qualquer momento para disseminar mentiras e dominar o senso comum com ódio e preconceitos.

Depois que os tweets de Gunn vieram à tona e o diretor foi demitido, as mesmas figuras que “denunciaram” Gunn e o Pizzagate foram atrás de de Patton Oswald e outras personalidades conhecidas por terem discursos progressistas e de apoio à minorias e causas sociais. Hoje já existem diversas fake news rodando a internet, usando as mesmas técnicas do Pizzagate, para disseminar mentiras sobre Gunn.

Os algoritmos e a maneira com que as fake news viralizam são utilizados pela alt-right para dominar a narrativa com mentiras absurdas e polêmicas, que nunca serão de fato questionadas porque na internet mais vale uma mentira espetacular do que um google para informar-se sobre o assunto.

O perigo de uma empresa gigante como a Disney ceder à alt-right é exatamente o sequestro da narrativa, gerando precedente para que outras empresas também cedam à pressão mentirosa, vingativa e violenta desse grupo. O perigo dentro da cultura pop é voltarmos anos no que tange representação de minorias e narrativas inclusivas, mas na nossa sociedade, como um todo, o perigo é o crescimento ainda mais exponencial de um discurso de ódio agressivo que pode culminar em políticas ainda mais restritivas e violentas contra comunidades minoritárias.

Não ache que o quadrinho que você consome não representa a sociedade na qual ele está inserido. Não ache que cultura pop não possui poder de manipulação, não pense que empresas ou cultura não podem ser manipulados por grupos políticos. Saiba que você, como consumidor, está recebendo diferentes informações de diferentes lugares.

A cultura pop pode ser utilizada como modo de avanço social, trazendo um discurso inclusivo e positivo, semeando compreensão e respeito. Essa não é a agenda desse grupo de ódio, o que eles planejam tem muito mais em comum com o discurso de ódio que fomentou morte e guerra 80 anos atrás.

James Gunn foi responsabilizado pelos erros do seu passado, então ele também tem culpa pela própria demissão. Mas não foi o politicamente correto ou o SJW que demitiram James Gunn. Foi o conservadorismo vilanesco da alt-right americana.

A minha opinião

Não é fácil entender o quão complexa é a linha de acontecimentos que culminaram com a demissão de James Gunn, e mais difícil ainda é pensar na solução ideal para toda essa bagunça.

Na thread que eu fiz no twitter apareceram todo tipo de pessoas discutindo todo tipo de questão e eu, ao mesmo tempo, me tornei uma extremista e passadora de pano. Eu queria que a resposta fosse algo simples assim, binária assim.

Tivesse Gunn sido demitido em 2012, quando os tweets apareceram pela primeira vez, eu teria dito sem dúvida nenhuma que a decisão fora acertada. Porque quando alguém comete atrocidades como aquelas “piadas”, elas devem pagar pelo que fizeram sim. Eu sei sobre a leniência da nossa sociedade com homens brancos, heterossexuais e cisgênero. Eu luto todos os dias contra essa leniência. Gunn deve sim ser responsabilizado pelas merdas que ele fez no passado.

Mas Gunn não foi demitido em 2012, muito pelo contrário. Seguiu como diretor do primeiro e do segundo Guardiões. Ao longo desses anos, eu acompanhei o diretor pelo twitter e vi posições que sustentam não só o seu primeiro pedido de desculpas, lá em 2012, mas também o feito na sexta-feira. Eu obviamente não tenho contato pessoal com um diretor de Hollywood, e muito menos colocaria minha mão no fogo por um homem que eu nunca conheci. Mas tudo que eu vi vindo dele me faz pensar que sim, talvez ele tenha realmente aprendido com seus erros.

De novo, a Disney tem todo direito de demitir Gunn para afastar-se de uma polêmica que envolve tweetss sobre pedofilia – ela é uma empresa majoritariamente focada em crianças. Mas fazer isso sem tentar estabelecer uma discussão sobre o que aconteceu, sem promover uma conscientização sobre os problemas de conteúdos como os desses tweets, ou mesmo sem dialogar com os fãs honestamente preocupados e enojados com o passado de Gunn é ceder à turba alt-right. Infelizmente, eu realmente não consigo ver como a empresa poderia proceder de maneira satisfatória sem acabar demitindo Gunn do posto de diretor de uma das suas maiores franquias, mas a maneira como foi feita é, ao meu ver, insatisfatória.

Eu passo meus dias discutindo representação de minorias na cultura pop, advogando por mudanças na esperança de que cabeças com visões conservadoras e repugnantes sobre esses temas entendam e passem a ver minorias com olhos empáticos. Se eu não acreditar que pessoas podem mudar, mesmo do alto dos seus 40-50 anos, então eu teria parado de fazer o que eu faço anos atrás.

Se eu não acreditasse que nós, como sociedade, somos capazes de mudar e avançarmos, então eu já teria desistido de discutir. Eu já teria abandonado a escrita, eu teria me mudado para uma cidade pequena e vivido uma vida pacata fazendo pizza caseira sem me retorcer de tristeza toda vez que vejo alguém semear ódio. Eu não teria passado os últimos cinco anos da minha vida abrindo diálogos e fazendo um trabalho básico de educação com um público que está acostumado primeiro a atirar pedras e depois a continuar a gritar. Eu teria desistido.

Eu absolutamente entendo aqueles que não conseguem, ou não querem, ter a mesma visão que eu tenho. Eu absolutamente entendo os gritos de raiva e de revolta com os tweets, eu absolutamente entendo aqueles que acreditam que a demissão do jeito que foi feita era a única opção. Porque como eu disse antes, a nossa sociedade é leniente com homens brancos bem sucedidos e famosos. A nossa sociedade é leniente com qualquer homem branco. Porque eu sei o quão exaustivo é ter que lutar todos os dias para existir como pessoa, como humano digno de empatia.

Mas, porque eu sei que eu mudei, que nos últimos cinco anos eu me tornei alguém melhor do que eu era antes, alguém com mais entendimento de como as engrenagens racistas, homofóbicas e misóginas do mundo funcionam, alguém que está disposta a enfrentar os preconceitos que eu herdei de uma sociedade quebrada, eu preciso acreditar que todo mundo pode mudar. Mesmo se for um homem branco bem sucedido e famoso. Porque esse é o trabalho que eu tomei pra mim. E eu, honestamente, espero que vocês possam entender isso também.