Por Sara Storrer

Imaginem um mundo em que é não somente moral, mas também legal, judicialmente falando, um juiz – ou um conselho de juristas – determinar que você não pode ser quem você é. Um mundo em que tirar de você uma das características biológicas básicas com a qual você nasceu é uma condenação aceitável. Conseguem imaginar? Alguém imaginou.

Vocês já jogaram Dragon Age?

No universo criado pela Bioware, existem pessoas que nascem com a capacidade de se conectar com uma dimensão chamada The Fade. Graças a essa conexão e com algum treinamento, os chamados magos podem manifestar poderes na dimensão mundana, no mundo real. Por outro lado, a ligação com o Fade pode tornar essas pessoas mais suscetíveis a possessões demoníacas, o que nesse universo é um problema muito grave.

Algumas pessoas que nascem conectadas ao Fade são arbitrariamente consideradas sem vocação para serem magos, seja por dificuldade de controlar seus poderes, ou por problemas relacionados ao seu caráter. A solução para esse problema é uma condenação. Esses indivíduos são julgados e se considerados (por pessoas) uma ameaça à sociedade, são obrigados a passar por um ritual que extirpa seus poderes e corta a conexão com a dimensão paralela, os transformando nos chamados Tranquil (ou “tranquilos”).

O Rite of Tranquility, ao acabar com a ligação entre o individuo e o Fade, destrói também a capacidade dessas pessoas de sonhar e de sentir. Então, a elas são destinadas funções “menos importantes”, à margem da sociedade. No livro Dragon Age: Asunder, um Tranquil afirma que “Antes só conhecia o medo, agora só conhece a servidão”.

Com isso explicado, podemos traçar um paralelo com a vida real.

Neste ano, Janaína e Tatiene foram condenadas a serem submetidas a procedimentos de esterilização por determinação judicial. Estamos agora falando de Brasil, ano de 2018, e não mais de histórias de ficção criadas para entretenimento. Estamos falando de duas mulheres reais de quem foi retirado arbitrariamente seu direito de reproduzir. Estamos falando de pessoas decidindo se outras pessoas podem ou não perpetuar a espécie.

Estamos falando do fim trágico do direito ao próprio corpo.

Quando, jogando Dragon Age, você se depara com um Tranquil e com sua história, a primeira reação natural é se emocionar. No mundo real, enquanto mulher, a minha primeira reação é pensar “e se fosse comigo? E se amanhã, por qualquer motivo que seja, alguém determinar que eu sou incapaz de ser mãe?”.

Existem dois pontos que vocês, leitores, vão contestar. Então já me adianto.

  • Essas mulheres são usuárias de drogas.

O vício é uma doença. Assim como diversos transtornos mentais também são. Impedir que uma pessoa viciada tenha filhos é exatamente a mesma coisa que impedir que uma pessoa com câncer tenha filhos. Guarde seu preconceito.

  • Uma das mulheres apresentava interesse em fazer o procedimento, então foi consensual.

Consensualidade é um conceito que tem a ver com contexto. Muita gente não entende isso. Eu posso querer fazer sexo agora e daqui a 20 minutos não querer mais. O meu interesse anterior não me obriga a fazer sexo, obriga? (resposta: não, não obriga.)

 

A questão aqui não é o individual, é a abertura do precedente, é o desrespeito à mulher. Uma mulher passa anos com processo aberto para conseguir passar por um procedimento de laqueadura. Tem que estar na idade certa, ter o número certo de filhos, precisa até de autorização do marido. Então por que a justiça, que nada mais é que um conjunto de regras e pessoas, pode determinar o mesmo procedimento de forma não consensual em muito menos tempo?

Nossos corpos são nossos. A vida não é um videogame.

Mais informações sobre os casos de Janaína e Tatiene você encontra aqui:

Justiça obriga Prefeitura de Mococa a fazer laqueadura em mulher usuária de drogas

Laqueadura de Janaína é a decisão da Justiça que mais se aproxima do que se fazia no nazi-fascismo, afirma constitucionalista

Tatiene Dias, 2ª mulher condenada à esterilização forçada pela Justiça