Pensar em escrever sobre The Witcher de novo me faz me lembrar de toda a polêmica que arrumei da última vez. Mas tudo bem, faz parte. Para você que não conhece, The Witcher é uma franquia de videogame, atualmente com três jogos, da CD Projekt Red. Os jogos são RPG onde o jogador controla Geralt, um witcher (Geraldão, o bruxão), que neste universo significa que ele é um caçador de monstros.

Ano passado foi anunciado que a franquia de jogos ganharia uma adaptação pela Netflix. Na semana passada, a produtora executiva e roteirista da série, Lauren Schmidt Hissrich, anunciou que o roteiro do episódio piloto está finalizado. Ainda não sabemos a data de estreia, nem quem pode interpretar o nosso bruxão favorito, mas os fãs andam se manifestando sobre o que eles querem ver. Pensando nisso, decidi fazer uma lista de como eu gostaria que a série fosse.

Antes de tudo, eu queria deixar claro que eu vou falar o que quero ver baseado no jogo. Não li os livros, mas joguei a franquia inteira e tenho algumas ideias. Sim, eu sei que a série vai se focar em adaptar o livro, então é possível que os gamers vejam uma versão bem diferente da história.

8. Geralt com personalidade definida

Não me entenda mal, Geralt tem bastante personalidade, mas do ponto de vista de quem jogou, isso sempre era pautado nas escolhas do jogador. O meu Geralt sempre foi voltado para defender quem precisava, ficar do lado dos elfos e ajudar aqueles ao seu redor, porque era assim que eu gostava do personagem, assim que eu queria jogar. O problema é que outros jogadores tiveram experiências diferentes da minha. De acordo com o que eles decidirem fazer com o protagonista, a experiência de quem é Geralt pode ter sido bem diferente da minha.

Não acredito que isso será um problema de fato, até porque a série se baseará nos livros, onde não há escolhas, só a forma que o autor criou seu personagem. Mas é importante para nós, os jogadores da franquia, entendermos que o que vivenciamos e o que vamos ver pode ser completamente diferente. E tudo bem, contanto que isso seja bem construído na jornada de personagem.

7. Assuntos políticos retratados

É um pouco assustador, para mim, como passa batido para muitos jogadores os aspectos políticos do mundo de The Witcher. Ainda mais quando é exatamente esse um dos pontos que deixa o universo mais rico. Os dois primeiros jogos são muito focados nas desigualdades sociais entre as raças e classes. Eu, particularmente, não acho que a resolução da busca por Ciri (foco do terceiro jogo) deva acontecer em uma primeira temporada, então usar essas discussões políticas seriam uma boa forma de construir uma temporada de estreia interessante.

Sem contar que é um assunto importante e poderoso para deixar de fora. Eu não acho que o jogo fez completa justiça ao tratar os assuntos dos elfos, as opressões que eles e outros não humanos enfrentam, etc. O lado certo é o lado que o Geralt se encontra, o que até é uma escolha que faz sentido considerando que é um jogo de escolhas, mas há uma classe opressora e um grupo oprimido muito bem definido ali, que talvez seja mais evidente em The Witcher 2. Sem contar toda a questão das “bruxas más”, mas isso fica para o próximo tópico.

6. Respeita as minorias

Eu tenho um texto inteiro falando sobre como as mulheres são mal representadas no jogo, ainda defendo meus argumentos da época (inclusive ainda sou xingada por isto, mas né, internet). As mulheres nunca tem um espaço decente nos jogos, mesmo que a Ciri tenha de fato um grande destaque, assim como Yennefer e Triss, mas ainda assim é possível ver um tratamento diferente. Esse tipo de história em que mulheres de classes mágicas não são confiáveis, são manipuladoras e cruéis é muito batido e quase entediante. É 2018, nós podemos mostrar essas personagens de outras formas. Sim, eu entendo que exista todo um contexto político complicado entre as feiticeiras, o que na verdade é muito interessante, mas tratar todas elas como manipuladoras, a menos que tenham uma queda por Geralt, é de revirar os olhos. Ah sim, e por favor, será que podemos escolher roupas funcionais para elas agora?

Além disso, os jogos não deram praticamente nenhum espaço para qualquer outro tipo de minoria, e eu não vou falar de novo sobre como o “naquela época” não vai colar (tenho alguns textos sobre isso já). Tragam atores negros, façam com que alguns personagens sejam LGBT+ (imagina o próprio Geralt ser, o homem nerd padrão pira), queremos ver pessoas de todos os tipos. A Netflix já mostrou que consegue andar no caminho certo se quiser, então espero que não se deixe intimidar por uma história focada em homens brancos e tenha coragem de mudar certos pontos.

5. Não ter pena dos cortes e do material original

Não adianta, adaptação é cortar, mudar, repensar coisas e trazer elementos novos. Não dá para assistir essa série e querer que tudo seja igual ao que está no livro, muito menos no jogo, que existe toda uma árvore de escolhas e possibilidades. Há inúmeros livros, jogos e material de The Witcher, nem tudo vai caber na série ou fará sentido com os planos da equipe criativa. E é possível que outras coisas sejam adicionadas por inúmeros motivos.

É importante lembrar que mídias diferentes exigem recursos diferentes. Por isso é bem complicado quando as coisas são adaptadas de forma direta, por mais que alguns fãs prefiram. Eu sempre dou o exemplo do filme A Chegada. O conto original e o longa são bem diferentes, mas ambos são ótimos e funcionam muito bem para os seus propósitos. Eu espero que a equipe criativa da série consiga se desprender e trabalhar de forma livre em cima do material original. Não vai dar para ver tudo, mas isso não é o problema, a questão é se o que vai para a tela vai ser bom ou não.

4. Tom sombrio e mais sério

Quem me conhece sabe que eu geralmente prefiro histórias mais sérias e dramáticas do que comédias. Isso é gosto, não atestado do que é melhor ou pior. Obviamente, há histórias que pedem mais um tom do que outro, e The Witcher pede algo mais sério. É um mundo cruel, injusto e que inúmeras coisas pesadas acontecem. A própria história de Geralt nunca foi uma comédia, por mais que o jogo se permitisse fazer uma piada aqui ou ali.

Isso não pode ser desculpa para ser irresponsável com a narrativa. Eu perdi a conta de quantas cenas desnecessárias foram justificadas em histórias fantásticas porque “o mundo é cruel”. É muito possível tornar esse universo injusto e pesado sem uma narrativa que apoie violência contra minorias, por exemplo. Um mundo cruel não é desculpa para um roteirista colocar uma cena de estupro desnecessária na televisão. Assuntos sérios e pesados precisam ser tratados com responsabilidades, não só como ferramentas baratas de choque. Eu quero sim uma história mais pesada, mas com uma equipe criativa responsável.

3. Evitar “monstro da semana”

Eu ainda tenho algumas dúvidas sobre esse tópico, mas acredito que essa de fato seja a melhor maneira de evitar que os episódios fiquem muito do mesmo. Vários de nós estão acostumados com séries no estilo Supernatural, em que todo o episódio existe uma ameaça diferente, e enquanto o protagonista a resolve, vamos descobrindo coisas sobre ele e a trama principal. Isso com certeza é uma forma de lidar com a história de Geralt, considerando que o trabalho dele é caçar monstros, mas eu acho que pode ser uma fórmula que mais reduza o potencial da série do que ajude.

Por mais que Geralt sempre esteja atrás de monstros, isso sempre foi algo secundário na narrativa dos jogos. Existia um objetivo maior, um motivo para Geralt se envolver com todas aquelas histórias, e acredito que amarrar tudo dessa forma seja melhor que “Qual contrato em preciso completar hoje?”. Posso estar errada também, é possível fazer exatamente esse “clichê” e funcionar, mas não achoque seja um modelo que o espectador vai curtir ver hoje em dia.

2. Olhar um pouco para Game of Thrones

Calma, respira. Eu sei que você deve estar pensando que é hipocrisia da minha parte, considerando o tópico em que eu falo sobre o tom sombrio e o fator choque. Por isso eu escrevi “um pouco”. O que eu acho que pode inspirar a equipe criativa de The Witcher é como a trama fantástica e política se entrelaçam em Game of Thrones. Eu não acho que a série é perfeita, concordo com o fato da qualidade ter caído ao longo dos anos, mas há pontos em que eles acertam e que valem ser observados. Até porque, querendo ou não, ainda é um produto que faz muito sucesso.

Sem contar que olhar para uma referência não é só para usar o que ela tem, mas também ver como não fazer. O fator choque de violência, que já falei lá em cima, é algo que a Netflix deve ver para fazer diferente. Outro ponto que não é ruim em Game of Thrones, mas pode atrapalhar The Witcher, é a quantidade de núcleos de foco. A história de Westeros foi montada dessa forma, para ter um ponto de vista em cada lugar da guerra toda. Já The Witcher, querendo ou não, é muito focado em Geralt, então ele precisa ser o centro das atenções.

1. Mads Mikkelsen como Geralt

Bom, eu posso sonhar, né?