O que classifica um personagem como bom personagem? Uma história pregressa bem construída? Personalidade bem definida ou desenvolvida ao longo da narrativa? Desejos, medos e anseios bem estruturados? O caminho que ele vai seguir ou a sua motivação?

Um bom vilão é um bom personagem, mas por servir como antagonista ao herói do filme, é comum vermos vilões mal construídos nos filmes de super-heróis. Porque eles precisam ser o oposto do protagonista, aos vilões normalmente permite-se ir apenas o suficiente para que fique claro que ele é ruim. Não se explora a fundo o que o trouxe até ali, como ou porque ele se tornou quem é ou o que o motiva.

Erik Killmonger ( Michael B. Jordan) é o filho abandonado de Wakanda, e também um dos diversos filhos marginalizados dos Estados Unidos. Preso entre essas duas realidades, pobre, negro e com o pai morto de maneira violenta, Erik é a representação não só do garoto pobre americano, mas uma representação que pode ser vista hoje nas periferias do Brasil.

Nas mãos de roteiristas menos conscientes ou talentosos, talvez usar a imagem de um garoto pobre e negro, como vilão de um filme sobre um país utópico africano que não sofreu com a colonização, pudesse dar muito errado. Mas tanto Ryan Coogler quanto Joe Robert Cloe sabiam muito bem o que estavam fazendo.

O que torna Killmonger um vilão tão bom é exatamente o fato do espectador conseguir entender a sua raiva, aquilo que o motiva. O roteiro equilibra isso não só ao colocá-lo em confronto com a trajetória de T’Challa (Chadwick Boseman), mas também ao pontuar os atos violentos dele como algo negativo. O filme faz isso voltando estes atos contra pessoas que o auxiliaram ou que já haviam sido estabelecidas como boas.

A trajetória de Erik até Wakanda é o tipo de história que, não tivesse a violência que tem, seria usada para vender a ideia de que qualquer um pode vencer frente adversidades. Em uma sociedade classista e racista como a norte-americana, e como a brasileira, essa visão é ignorante e desonesta – uma grande mentira. O garoto que saiu da periferia, formou-se no MIT e juntou-se ao serviço secreto americano. Uma história de sucesso.

Mas, diferente do que move as histórias similares à de Killmonger, o que move Erik não é a ânsia pela estabilidade financeira, pelo sucesso ou por uma vida melhor. O que o motiva é uma raiva que não é só contra o Tio ou contra T’Challa, é uma raiva contra o sistema e tudo que ele representa e exclui.

Killmonger tem o corpo marcado pelas mortes que carrega, incluíndo as vidas de seus irmãos negros que ele mesmo tirou. Todas as mortes, para ele, justificadas por seu objetivo final: dar o poder de fogo às minorias para que se rebelem contra seus opressores, tendo Wakanda como líder dessa revolta. Mas as marcas em seu corpo não possuem o valor simbólico que ele gostaria, são marcas vazias e que apenas serviram para quebrar ainda mais a alma do garoto que procurou respostas no livro de seu pai.

Depois de tomar a erva em formato de coração, Killmonger chega ao outro plano e, diferente de T’Challa, não é esperado por todos os panteras antes dele, mas apenas por seu pai. Os dois, unidos pela visão violenta de vingança, sozinhos no apartamento do qual nunca conseguiram sair, presos em um ciclo de ódio, revolta e frustração.

Tudo em Killmonger é entendível, da motivação à lógica de levar Wakanda para além de suas fronteiras. O que nos coloca para longe da motivação de Erik é querer vencer sistemas de opressão com uma violência autoritária, aquele que autoritariamente causou violência ao mundo. É possível entender que, às vezes, só o diálogo não é o suficiente, mas quando o que o vilão clama é exatamente a mesma estratégia que a utilizada pelo colonizador, então a linha entre a empatia com a motivação de Killmonger e a vilania de seu ego começa a ficar mais evidente.

Essa divisão fica ainda mais forte porque o que se contrapõe a Killmonger não é uma violência desgovernada, mas uma política externa de divisão de conhecimento, apoio e acolhimento. Se de um lado temos Killmonger e W’Kabi (Daniel Kaluuya), apoiando praticamente um golpe contra o mundo, do outro temos Nakia (Lupita Nyong’o) e Shuri (Letitia Wright).

Nakia quer que Wakanda se envolva, ela acredita que eles podem ajudar o mundo ao mesmo tempo em que protegem e mantém o seu modo de vida. Shuri quer dividir com o mundo seu conhecimento e tecnologia, a ciência como forma de comunicação, não de guerra.

Além disso, Killmonger é apresentado como alguém que vê mesmo relações íntimas como meios para seus fins. Ele não hesita em eliminar a namorada para garantir a sua chegada à Wakanda, na verdade, não há nada que garantisse a sua intenção de levá-la ao seu lado até lá. Isso é importante para mostrar a índole do personagem, disposto a matar mesmo aqueles que lutam ao seu lado. É importante notar que Klaue nunca foi um parceiro, apenas um facilitador que também servia como a chave de entrada em Wakanda. Killmonger não resgata Klaue, ele apenas o pega para si, para usar como moeda de troca ao entrar em Wakanda.

Outro acerto do filme foi em não reduzir a raiva de Erik a uma picuinha pessoal pelo trono. Isso não só fortaleceu o tema do filme, como também a jornada do vilão até seu último suspiro, assim como a jornada de T’Challa até se tornar o primeiro líder a abrir o país para o mundo.

Apesar do embate final ser o mano-a-mano entre Pantera e Killmonger, o que está em jogo é muito mais do que o trono de Wakanda. São dois sistemas de poder, um apenas começando a se estruturar, sustentado por incertezas, culpa e a vontade de ser melhor (T’Challa). O outro, um sistema violento, autoritário e construído em cima de um anterior que só permite violência, sangue e guerra como resposta para os problemas (Killmonger).

Killmonger não representa a luta negra pela libertação, ele não é um símbolo disso, ele foi construído para que você entendesse de onde ele vem, o que o forma e porque ele é perigoso.

Benjamin Dixon, do Progressive Army, explicou:

Ele falou da liberação Negra e da situação ruim da população negra ao redor do mundo. Ele diagnosticou com precisão o problema de Wakanda em seu isolamento e abandono da pessoas negras ao redor do mundo. Desta maneira Killmonger é um herói. (…)

Como nos quadrinhos, Killmonger é um assassino psicótico. Sua motivação não é a liberação do povo negro, não mais do que é liderar Wakanda. Ele diz que o “sol nunca vai se por sob o império de Wakanda”, e ainda assim ele destrói o jardim das hervas em forma de coração – a planta mística que garante ao Pantera Negra habilidades sobre-humanas. Isso quer dizer que, depois de Killmonger, não haverá outro Pantera Negra para proteger Wakanda, deixando-a vulnerável para o mundo exterior, que agora teria acesso à tecnologia e às armas feitas de Vibranium. (…)

 

O radicalismo negro não foi representado como o mau final, a dominação mundial pela violência, mesmo nas mãos de pessoas negras, foi o mal que os wakandianos pararam.

No fim, a mensagem que fica, é que Wakanda não pode mais ignorar os que precisam de seu apoio como Erik precisou. Mas que não há nada para se aprender com as técnicas imperialistas e violentas dos colonizadores, políticas que criaram o ambiente e estruturas que marginalizaram Erik nos Estados Unidos.

É comum pensarmos no Brasil fora de uma história colonizada, já que a narrativa tradicionalmente consumida no país mostra o período colonial com uma luz muito mais positiva do que ela foi. Essa mesma narrativa diminui os efeitos da escravidão e da servidão dentro da nossa sociedade, jogando nas mãos das crianças como Erik a responsabilidade total por sua posição marginalizada. Como pessoa branca, dentro do Brasil, apesar de entender as motivações e a raiva de Killmonger, eu guardo o privilégio de poder ter a visão mais próxima de T’Challa, vendo uma solução menos violenta que é sustentada exatamente pelos privilégios que eu possuo dentro de uma sociedade colonizada.

Killmonger é o melhor vilão da Marvel, ao meu ver o melhor vilão de filmes de super-heróis de maneira geral, porque a narrativa não teme em nos fazer entender a sua motivação. Ao fazer isso, ela desconstrói essa motivação ao longo do filme, mostrando que existe uma solução para que mudemos, para que corrijamos os erros do passado, sem que nos tornemos, nós mesmos, os monstros colonizadores de antes.