Não é de hoje que eu falo sobre The Witcher, ou do fandom tóxico que a franquia tem. Quem conhece mais o Nebulla sabe como isso me rendeu comentários de ódio, dores de cabeça e até um dos maiores vídeos do canal porque resolveram invadir o meu inbox para me ofender. Mas acho importante, independente disso, falar do que aconteceu com a showrunner da adaptação do jogo.

Já sabemos que The Witcher ganhará uma série. Recentemente, foi anunciado que Henry Cavill interpretará Geralt, o protagonista do livro, do jogo e da série. Também saiu a notícia de que a produção estaria procurando atrizes negras, asiáticas e de outras minorias étnicas para interpretar o papel de Ciri. Para quem não conhece a história, Ciri é uma das personagens mais importantes e poderosas da história, criada por Geralt.

Alguns dias depois disso, a showrunner da série, Lauren S. Hissrich, começou a receber ofensas e ataques na sua conta do Twitter. A situação chegou em um nível tão complicado que a showrunner teve que se afastar da rede social.

“É hora de fazer um hiato do Twitter. O amor aqui é incrível e o ódio é revelador, como uma Prova das Ervas da vida real, exceto que eu preciso ler menos e escrever mais, ou não teremos um final. Estarei de volta em breve com mais comentários. Sejam bons uns com os outros, tá bem?”

A showrunner ainda conversou com o autor dos livros, Andrzej Sapkowski, sobre incluir diversidade na adaptação.

“Mas vai ter minorias? Sim. Um homem seria minoria na floresta Brokilon. Uma pessoa racializada seria minoria em uma vila pequena. Um ilhéu seria uma minoria em Cintra. Mr. Sapkowski disse, publicamente e para mim, que o continente é grande e diverso na população, de todas as formas (etnia, cultura, gênero e sim, cor de pele, que ele disse que nem sempre especificava). Não sei porque as pessoas estão insinuando que eu destruí os livros por reconhecer isso. Eu estou honrando as intenções do autor. Ele mesmo me disse”

Porém, sabemos que não importa o que Lauren diga, muitos fãs dos livros e dos jogos vão continuar caindo em cima dessa questão e, consequentemente, serão ofensivos nas redes sociais.

Não é a primeira vez que o fandom de The Witcher faz algo parecido, e nem que o fandom  geral de cultura pop se comporte de forma racista e machista. Não aceitar que uma personagem tenha um casting de uma atriz por ela ser negra ou asiática é racismo. A história não é alterada em nada se Ciri não for branca, como ela é no jogo. Além de tudo, é machismo, porque os fãs se sentiram no direito de mandar tantas mensagens ofensivas para a showrunner, tanto que ela precisou deixar as redes. Não é coincidência que isso aconteça principalmente com mulheres nas redes sociais.

Um ponto a se levar em consideração é que, mesmo Ciri sendo filha adotiva de Geralt, há outros parentes de sangue de Ciri na história. Caso ela fosse interpretada por uma atriz negra, por exemplo, o resto do casting dessa família teria que ser semelhante. Isso fez com que os fãs ficassem mais revoltados, até porque, se eles não aguentam uma minoria na tela, imagina mais de uma, ainda mais em papéis tão relevantes.

É compreensível que os fãs queiram que a adaptação seja o mais fiel possível, é legal ver um ator parecido com o personagem que gostamos. Mas isso não altera em nada a história, no final das contas. É um mundo fantástico onde os fãs aceitam tudo, menos uma Ciri que não seja branca. Mesmo que a história fosse afetada de alguma forma (não é), isso não dá o direito de ninguém de mandar mensagens ofensivas para uma das pessoas envolvidas na produção.

Como a obra é polonesa, alguns estão dizendo que só poderiam ter personagens brancos protagonizando. Mesmo que o próprio autor do livro diga que não é o caso, as pessoas insistem que isso estaria errado, que desrespeitaria a obra de alguma forma. Até porque, mesmo que a obra seja polonesa ou de qualquer outro lugar da Europa, o universo de The Witcher é ficcional. Estamos tão acostumados com o padrão branco, que pensar em mudar isso já causa toda essa confusão.

Todos os tweets abaixo foram respostas aos tweets de Lauren.

“Por favor, escolha atores que pareçam com os personagens dos livros. Eu fiquei horas imaginando e vendo eles se amarem, correrem e lutares contra monstros. Se eles não se parecerem com o que eles devem, eles serão completos estranhos para mim. Dito isso, mal posso esperar!”

Além da pessoa achar que tudo gira em volta do próprio umbigo, essa questão da fidelidade dos personagens sempre aparece nessas discussões. Os personagens não serão “estranhos” por causa da aparência, isso depende muito mais de caracterização, escrita e construção do que qualquer outra coisa. Mudar a aparência dos personagens é um detalhe mínimo. Mudanças em adaptações são comuns e necessárias. Pensando assim, o próprio Henry Cavill não parece tanto o Geralt. Mesmo assim, ninguém foi brigar por causa da escalação dele. Talvez porque, independente de qualquer coisa, ainda tenha sido um homem branco.

“O que podemos fazer?

  1. Assinar a petição
  2. Falar contra o racismo – SIM! Excluir mulheres brancas do casting é racista e desrespeitoso com a cultura polonesa e do leste europeu
  3. Cancele a assinatura do Netflix, não assista à série”

Repitam comigo: Racismo reverso não existe. Não existe racismo contra pessoas brancas, porque elas nunca foram e nunca serão oprimidas por serem brancas. A cultura européia não é apagada, diminuída e alvo de preconceito. O nome disso é falsa simetria.

É muito absurdo, a pessoa não só está deixando de ver uma série porque não concorda com um casting, como está boicotando algo por causa de uma possível atriz negra, asiática, etc. Sem contar que, se a questão é a cultura polonesa, novamente os fãs teriam que reclamar de Henry Cavill. Afinal de contas, é um ator britânico.

“Não é ódio. Qualquer um que falar com você ou outra pessoa da produção quer que isso dê certo. E agora parece que o show não está indo para o caminho do sucesso. Nós amamos The Witcher, se você quer que a série seja como GOT você pode continuar a alienar os fãs que você já tem”

Primeiro, eu espero que não seja como Game of Thrones, porque mesmo gostando, reconheço que há uma lista de problemas. Assumir que uma série não dará certo por causa de um casting é um absurdo, não existe provas de que a série será ruim ou não. Sem contar que ofender uma pessoa por incluir diversidade é sim discurso de ódio.

“Por favor, eu imploro que vocês mantenham a Ciri (e os outros personagens) do livro. Eu amo a Ciri e odiaria que ela fosse retratada de maneira errada apenas para encaixar em uma agenda de guerreiros da justiça social”

Tava demorando para alguém mencionar os “guerreiros da justiça social”. É esperado que alguns personagens sejam cortados na adaptação, faz parte. Agora, não dá pra assumir que os personagens não serão “aqueles dos livros” por causa de um casting que não é exatamente o que está na sua cabeça. Caso fosse uma atriz branca, mas que não se parecesse com a imagem que temos de Ciri, ninguém reclamaria, porque a questão continua sendo o racismo.

Também vale falar que, sempre que incluem representação em qualquer obra, já gritam que os “guerreiros da justiça social” estão tentando tomar e estragar tudo. Porque ainda há uma barreira muito grande em aceitar diversidade. Eu entendo a lógica de querer que novos personagens sejam criados, já sendo minorias desde o começo. Isso também é importante, mas também é significativo que esses personagens já consolidados possam ser representados fora do padrão.

Escolher uma atriz que não seja branca para o papel não é o mesmo que whitewashing, como vi alguns dizerem. Exatamente porque não há um histórico de apagamento de outras etnias, sendo substituídas por pessoas brancas. Novamente, pessoas brancas não sofrem preconceito por serem brancas. Então não é a mesma coisa.

Eu não esperava que a produção de The Witcher fosse ativamente atrás dessa representatividade, buscando falar com o autor e fazendo questão de não limitar o casting da Ciri à atrizes brancas. Colocar uma das personagens principais, e uma das mais fortes, como minoria é importante para a diversidade, ainda mais porque inclui os personagens que são da família de sangue de Ciri. O que é um grande avanço, considerando que, como já falei aqui (o tal texto polêmico), o jogo de The Witcher tem vários problemas em representar minorias.

Infelizmente, o fandom de The Witcher ainda sofre com muito preconceito, que fazem comentários de ódio e se sentem no direito de ofender tanto alguém que, essa pessoa, mesmo sendo showrunner da série e tendo conversado com o autor da obra, precisa sair do Twitter. Que sim, não é só “sair das redes sociais”, é alguém ser forçado a parar de fazer algo por causa de ofensas.

Por quanto tempo isso ainda vai acontecer quando diversidade aparecer na cultura pop? Espero que esse exemplo mostre como ainda precisamos nos preocupar com essas questões.