Não é só sobre deixar homens desconfortáveis, mas sobre deixar o local de trabalho, as reuniões de amigos e os almoços de família desconfortáveis. É deixar mesmo mulheres desconfortáveis – porque discutir assédio e abuso não é, nem nunca deveria ser, algo confortável. Porque quem fala sobre abuso numa roda de amigos de maneira confortável muito provavelmente não acha que está falando sobre abuso, mas sobre o beijo que ele roubou daquela mina, sobre a foto de pinto que ele enviou pra outra garota ou sobre o dia que ele “dormiu” (aka estuprou) a amiga que caiu de bêbada.

Quando o movimento #MeToo começou a tomar força vieram os primeiros gritos de injustiça, de “caça às bruxas” de que agora tudo era assédio – de que iam começar os exageros. À medida que ele foi se fortalecendo esse discurso ganhou mais força, homens grandes da indústria do entretenimento começaram a reclamar que “o ambiente ficava desconfortável” quando se falava disso. Esse desconforto masculino vem do medo de que os dedos apontem para eles, de que ele tenha feito alguma coisa que ele “não sabia” que era assédio, que era permitido “até ontem”.

Mas nós precisamos deixar todo mundo desconfortável antes de conseguirmos fazer mudanças realmente grandes dentro do mercado de trabalho e da nossa sociedade como um todo.

Durante anos o ex-editor de Superman Eddie Berganza foi acusado de assediar sexualmente funcionárias da DC Comics. O caso foi relatado diversas vezes pela imprensa especializada, mas sempre em sites menores. O assédio acontecia não só com funcionárias, mas também com fãs e profissionais do meio em convenções de quadrinhos. TODO MUNDO SABIA. O problema era tão grande e tão de conhecimento público, que o departamento da DC que cuidava da linha editorial do Superman passou anos sem funcionárias femininas – a revista da Mulher-Maravilha fazia parte da mesma linha editorial. Ainda assim a DC demorou anos para fazer uma investigação, afastar e finalmente demitir Berganza.

John Lesseter e Eddie Berganza.

Neste ano a Pixar Animation afastou John Lasseter, diretor de Toy Story I e Toy Story 2, do seu posto de Chief Creative Officer depois de uma investigação que apontou comportamento impróprio e assédio com funcionárias femininas. Recentemente, Cassandra Smelc, uma designer freelancer que trabalhou na Pixar durante cinco anos, veio a público para falar sobre a sua experiência enquanto funcionária trabalhando com homens como Lesseter dentro da empresa. Eu separei algumas partes, mas o texto inteiro pode ser lido aqui.

“Quando eu comecei na Pixar como estagiária eu achava que tinha conseguido o emprego dos meus sonhos. Mas muita da minha empolgação foi rapidamente atenuada com uma enchente de avisos sobre a mão boba e os avanços de Lesseter em funcionárias mulheres. (…)

Também me avisaram para ficar longe de um outro chefe particularmente machista no meu departamento. Assim como John, os alvos femininos vinham relatando o comportamento não-profissional dele há anos, mas sua posição e seu comportamento continuou o mesmo. (…)

Durante os próximos cinco anos eu driblei várias interações objetificadoras e sem consentimento, de Lasseter e de outros homens, fui apalpada por outro colega homem, e fui deixada de lado de projetos pelo sistema de escolhas do “clube não-oficial” dos homens. (…)

Logo depois de começar Carros 2, eu fui informada por um superior que eu seria desconvidada de todas as reuniões semanais do departamento de arte porque Lesseter “tinha dificuldades de se controlar” perto de jovens mulheres. Eu fiquei devastada por ter a minha participação no processo de criação – e subsequentemente a trajetória da minha carreira – diminuída simplesmente porque eu era mulher. Estava muito claro que a instituição estava se esforçando para protegê-lo, às custas de mulheres como eu.”

O depoimento de Cassandra não é o primeiro do tipo a vir à tona, e nem será o último. Desde o começo do #MeToo diversas mulheres, famosas ou não, postaram histórias semelhantes – muitas tendo, inclusive, desistido de suas carreiras devido ao abuso e à decepção que sofreram.

Lesseter e Berganza se sentiam extremamente confortáveis com um comportamento obviamente impróprio, tal qual o seu colega de trabalho que faz massagens não requisitadas na colega mais nova, o cliente que comenta sobre o físico da funcionária do mercadinho da esquina, tal qual o seu vizinho com a filha da outra vizinha ou talvez o seu irmão com a colega dele. Homens se sentem confortáveis com assédio quando eles são os assediadores, e dois  dos grandes problemas é que ou eles não sabem que é assédio, ou sabem que existe uma rede silenciosa que vai protegê-los. 

Ninguém quer ser a primeira a levantar a mão e falar “este homem poderoso me assediou/assediou minha colega e me fez ficar desconfortável”, porque o desconforto que era só seu se torna da empresa inteira, e porque a vítima de perseguição não vai ser o homem poderoso, e sim a mulher que teve a coragem de falar.

Mas ao nos calarmos, seja sobre nossos colegas ou chefes, seja sobre nossos vizinhos ou amigos, para não criar um desconforto nós estamos dizendo às vítimas que fiquem quietas. E isso tem muitas implicações.

Cassandra achou que tinha conseguido o emprego dos sonhos, mas viu seu espaço dentro da empresa ser diminuído porque um homem poderoso não queria ter que se preocupar com o outro homem poderoso que queria assediar mulheres mais novas durante uma reunião. O mesmo aconteceu com as funcionárias da DC que perderam espaço para homens que não seriam assediados por Berganza. E é assim, nesse véu transparente da broderagem, que se retira mulheres dos lugares de decisão, dos espaços criativos e de seus trabalhos. É assim que se mantém um ambiente tóxico e excludente – limando mulheres para que outros homens não fiquem desconfortáveis com seus colegas abusadores. Essa é mais uma maneira de vitimar a mulher que já foi vítima de assédio, limitando o seu avanço profissional. Mulheres decididas, que falam sobre os problemas e se posicionam dentro da empresa são, constantemente, taxadas de pouco profissionais ou “difíceis”. 

Brenda Chapman, diretora de Valente, foi demitida e substituída por um homem. Disseram que ela era difícil de se trabalhar.

Assédio e abuso sexual são acontecimentos que podem destruir a vida da vítima, seja ela mulher ou homem. Terry Crews e Brandon Frasier vieram a público falar sobre a experiência deles com assédio em Hollywood, e os dois foram recebidos com uma série de críticas à decisão de falar sobre isso. A vida dos dois, assim como a das mulheres abusadas por Weinstein, foram afetadas pelas agressões que sofreram.

Mas se é difícil e complicado para atores e atrizes famosas, imagina para uma funcionária qualquer em uma empresa qualquer. Apesar de Hollywood parecer uma realidade tão longe da nossa, e desses atores receberem uma quantia tão exorbitante por seu trabalho, a realidade do assédio e do abuso é algo que atinge profissionais em todos os meios de trabalho.

Enquanto a gente não falar sobre assédio e abuso, enquanto não contarmos sobre os casos famosos e explicarmos porque eles são absurdos, ainda vamos ter muita gente achando que uma passadinha de mão é só uma brincadeirinha. Ainda vamos ter homens achando que tocar o corpo da mulher sem consentimento é natural, que ver o corpo feminino como um objeto é ok. Ainda vamos ter homens que abusam e assediam porque sabem que estão protegidos.

Em praticamente toda empresa tem alguém se sentindo desconfortável com uma piada, uma mão-boba, um comentário ou uma massagem não desejada. E em toda empresa tem alguém pronto para passar pano e excluir a vítima em prol de um ambiente de trabalho “mais tranquilo”. E em todos esses momentos existe uma pessoa, em imensa maioria uma mulher, perdendo chances de trabalho por causa de um abusador.

Nós precisamos falar e deixar todo mundo desconfortável sim, porque enquanto só a vítima estiver desconfortável nós nunca vamos conseguir alcançar a tão sonhada igualdade. E isso não quer dizer que homens precisam ser assediados também, ou que mulheres devem aprender a aguentar violência verbal como os homens, mas que nós devemos nos esforçar para criar um ambiente mais saudável.

Deixar os homens, deixar todo mundo desconfortável, é uma questão básica, um passo necessário para  educar aqueles que não compreendem o que é assédio e abuso. Que ainda acham que mais alguém, além da vítima, pode dizer se um comportamento é inadequado ou não. Nós precisamos colocar os abusadores contra a parede, abrir os olhos e os ouvidos de todas as pessoas, e escutar e proteger as vítimas.