Quando eu converso sobre doramas com amigos que não conhecem, ou que não acompanham, é muito comum receber de volta olhares ou comentários que podem ser resumidos a um sentimento mix de desprezo e/ou descrença.

Muitos desses olhares ou comentários vêm porque é muito comum associar doramas às novelas brasileiras. E como as próprias novelas já são vistas como uma arte inferior, então o preconceito artístico, regado de um tanto de elitismo intelectual e de classe (porque as novelas são vistas como “entretenimento da massa” – por si só um conceito já carregado de preconceitos), bate forte.

Mesmo entre pessoas que adoram o cinema asiático, em especial o coreano, há aqueles que tendem a virar os olhos ou sorrir com certo desprezo quando eu falo sobre dorama.

Particularmente, eu acho que esse preconceito acaba afastando essas pessoas de algumas das melhores histórias que eu já assisti nos meus 32 anos. Nos últimos três anos em que eu venho consumindo essas produções, eu aprendi muito sobre um monte de coisas, seja sobre relações interpessoais, sobre cultura e vivências diferentes da minha, sobre storytelling e sobre mim e meus próprios preconceitos.

Diferentes lugares do mundo contam histórias de maneiras diferentes. Com ritmos, narrativas e estruturas diferentes. Nós estamos tão acostumados com o modo como as histórias são contadas no ocidente, em especial nas histórias provenientes dos Estados Unidos, que algo que difere disso é enquadrado como inferior.

Mas a narrativa americana é imensamente baseada na tradição europeia, carregando o peso colonial e conquistador que ajudou a apagar também as diferenças narrativas e formatos de narrativas dos povos nativo americanos. Por ter se tornado predominante no ocidente, e porque o ocidente tem mania de achar que é o mundo todo, ela acabou sendo lida como a única verdade possível.

Ninguém é obrigado a adorar absolutamente tudo. Eu ainda tenho muita dificuldade em assistir os musicais de Bollywood, por exemplo. Mas é essencial que a gente respeite um formato diferente do que estamos acostumados, para que possamos respeitar a cultura como um todo. Porque filmes e séries são parte importante da formação das identidades culturais dos povos há muito tempo.

Algumas pessoas questionam como eu, feminista que sou, consigo assistir doramas de países tão conservadores e machistas como a Coreia do Sul, Japão ou China. Mas essas pessoas parecem achar que nós vivemos na utopia do feminismo, quando na verdade nossas novelas continuam trazendo histórias sobre rivalidades femininas e nosso cinema continua apaixonado pela pica mágica do diretor cult bacaninha.

Infelizmente não existe uma utopia feminista, e muitos doramas, assim como animes, trazem os preconceitos de gênero, etnia e contra LGBTs que as sociedades dentro dos quais estão inseridos carregam. Assim como as séries e filmes americanos e europeus também o fazem. Isso não quer dizer que, por não estar inserida naquela cultura, eu finjo que não vejo. Isso significa que, como em tudo que eu consumo, eu sinalizo os problemas e tenho um olhar crítico, e não consumo aquilo que ultrapassa os limites que eu estabeleci para mim mesmo.

A verdade é que em se falando de discussão sobre como o machismo afeta a mulher tanto no dia-a-dia, quanto como em situações profissionais e até no âmbito jurídico, o Brasil, e mesmo países vistos como liberais, podem aprender muito com a nova leva de doramas que vêm sendo lançados desde 2016.

Neste ano, Miss Hamurabi apresentou uma jovem juíza lidando com o machismo e a misoginia em todos os níveis do processo judiciário. Eu nunca vi nada que tenha sido produzido para o grande público ser tão didático e tão preciso ao falar dos traumas e consequências do assédio moral no ambiente de trabalho. E nem examinar de maneira tão crua o machismo e a misoginia da classe jurídica e as consequências disso para as mulheres da sociedade.

Age of Youth, um dorama voltado para um público mais novo, tratou a construção e os riscos de um relacionamento abusivo com um cuidado e empatia que é muito difícil de se ver mesmo em indústrias mais progressistas como a americana. Além disso, em sua 2ª. Temporada, a série expandiu o arco de uma personagem para falar das consequências do abuso sexual infantil, do silêncio, traumas e da dificuldade de expor criminosos perigosos – especialmente depois de muitos anos.

Além deles, A Bruxa do Tribunal, Enquanto Você Dormia e outros discutiram violência contra a mulher e machismo de maneira geral dentro da sociedade sul-coreana.

Enfim. Tudo isso para dizer que a gente precisa aprender a quebrar essa visão binária do que é bom ou não quando falamos de arte. Eu nunca gostei do termo guilty pleasure porque divide o gosto de alguém de acordo com os padrões de terceiros. Sinto que isso é uma maneira de julgar os outros, ao invés de só aceitar que pessoas diferentes têm gostos e maneiras diferentes de contar histórias.

Analisar a qualidade ou a relevância de algo baseado em padrões narrativos que são externos à cultura dentro da qual aquilo foi criado me parece só mais uma forma de ignorância e intolerância ao outro – àquilo que é diferente de você.