Ontem a Disney lançou o primeiro trailer de Aladdin, live-action que adapta a animação clássica de 1992 e, enquanto todo mundo falava sobre o Will Smith estar estranho ou não de gênio azulão, um texto me chamou a atenção para a verdade que sempre é um pouco perturbadora sobre as princesas disney – elas são todas menores de idade.

Jasmine, a princesa da vez, na animação tinha só 15 anos e uma quantidade perturbadora de momentos em que ela se insinuava sexualmente para o vilão Jafar (que era um homem de meia-idade), enquanto escrava do vilão (incluindo correntes), e para Aladdin (que eu espero seja um adolescente como ela). 

No texto Princess Jasmine is 15-years-old and that is bananas, no The Mary Sue, Princess Weekes levanta um ponto muito importante sobre as animações da época de Aladdin:

“(..) mostra a maneira estranha com que animadores homens sexualizam garotas adolescentes. Jasmine é, para todos os efeitos, uma criança. A roupa que ela está usando, a maneira com que seu corpo é animado, e a situação em que ela está (forçada a se casar até o seu próximo aniversário – dezesseis anos) é muito adulta para um filme para crianças.”

E antes que você possa considerar, sim, eu sei que NAQUELA ÉPOCA adolescentes desta idade eram consideradas em idade apta para casamento e etc. Eu também sei que até hoje, em lugares do mundo todo (inclusive no Brasil), existe um número assustador de meninas noivas.

Crianças e adolescentes que são forçadas ao casamento, muitas vezes com homens muito mais velhos. Então por mais incômodo que seja falar sobre como essa narrativa em filmes de princesa seja problemática, é um tema muito importante.

E assim como Princess Weekes, a intenção aqui não é destruir a sua infância:

“Isso não é para destruir a sua infância com discurso feminista, ou para dizer que essas características tiram de Jasmine o que faz dela incrível: ela é gentil, corajosa, e a série de TV Aladdin permite que ela seja uma heroína por si só. O que estamos discutindo é a maneira com que o filme decide que a sua sexualidade precisa ser parte da sua personalidade. Quando eu penso nas personagens animadas da Disney, os que chamam atenção por serem muito ultra-sexualixzadas são Kida (Atlantis), Jasmine e Esmeralda (O Corcunda de Notre-Dame).”

É interessante notar também que essas três personagens são mulheres não-brancas, ou seja, fortalecendo ainda mais o estereótipo de que enquanto mulheres brancas são puras e angelicais (vide todas as princesas brancas da Disney nessa época), mulheres não-brancas possuem uma sexualidade exótica e exacerbada. Talvez a única exceção à este padrão seja Mulan.  

Além disso tudo, é impossível olhar para o corpo de Jasmine (e de outras princesas, sejamos sinceros) e não vermos um ideal inalcançável para a imensa maioria de meninas adolescentes. Esse tipo de representação, que é o padrão utilizado pela Disney, ajuda a sustentar uma cultura não só de sexualização do corpo adolescente, mas também de beleza que leva diversas meninas à espirais de ódio contra si mesmo.

Não que isso tudo seja culpa exclusivamente da Disney, mas são pontos importantes que precisam ser lembrados e discutidos – mesmo em obras com mais de 20 anos de lançamento. Se a gente não discutir e problematizar o passado, como vamos evoluir? Pois é. 

Jasmine é uma personagem incrível, mas seu impacto fora do filme é muito maior do que ser uma princesa. Ela foi a primeira princesa não-branca da Disney, é uma personagem muçulmana e que tem um impacto grande na narrativa do filme.

São esses fatores que fazem com que seja tão importante acertar na sua representação, e essa preocupação só aumenta especialmente agora que estamos perto do lançamento do filme live-action. No texto Princess Weekes diz também o quão legal foi ver Jasmine em Wifi Ralph, com a pela mais escura e com seus traços característicos ainda mais acentuados. 

Com A Bela e a Fera (2017), a Disney tentou transformar Bela em um símbolo feminista para aproveitar a onda feminista do momento – e eu acho ótimo isso. A cultura pop tem potencial transformador de mentes que precisa ser usado para o bem. Infelizmente o filme foi uma bagunça, incluindo a grande transformação da Bela vir do fato de que ela inventou uma máquina de lavar… Enfim.

Eu lembro quando descobri que as princesas disney eram todas adolescentes/menores de idade. A surpresa veio exatamente por, nem mesmo quando eu era adolescente, eu vê-las como adolescentes. Isso não quer dizer que eu não me identificava com elas, claro que não. Isso quer dizer que a percepção masculina sobre a representação de garotas adolescentes, e de corpos femininos adolescentes, foi bastante distorcida e adultizada durante muitos anos.

Eu não odiei o Will Smith azul, e apesar das ressalvas e daquele medinho que eu sempre carrego comigo quando vejo live-actions, pessoas brancas representando culturas que não são delas, e do fato do diretor, Guy Richie, ter um histórico de ultra-violência, eu ainda quero assistir Aladdin e ver como o filme vai se sair. Não só na qualidade como um todo, mas também como a Jasmine vai ser retratada.

Lembrando que, na animação, Jasmine é a única personagem feminina. ¯\_(ツ)_/¯