Eu perguntei no nosso Instagram e Twitter se as pessoas já tinham deixado de consumir algo por causa do fandom. Sem surpresa nenhuma, eu percebi que nas duas enquetes, a maioria das pessoas tinham respondido sim. Caso eu tivesse participado da votação, eu também teria respondido sim.

Recentemente eu comecei a assistir Steven Universe, estou na terceira temporada agora. Eu sei, todo mundo diz que é a melhor animação de todas, que tem muita diversidade, que fala de assuntos super importantes, que é narrativamente muito bom, que a Rebecca Sugar manda muito bem… Eu já ouvi isso de inúmeras pessoas, vários amigos meus inclusive, mas só até esse último final de semana que eu de fato sentei para assistir.

Por causa do fandom.

Eu faço parte das pessoas que passou uma época no Tumblr. Não acho que é um lugar completamente horrível, aprendi muito lá, conheci pessoas bacanas e me diverti demais, principalmente em experiência de fandom. Mas como eu e uma amiga gostamos de dizer, no Tumblr é preciso viver na superfície, ou você entra em piras que te fazem mal, que era o meu caso nos últimos meses que eu acessava o site. O fandom de Steven Universe lá, e em alguns pontos de outras redes, me fazia perder qualquer vontade que eu tinha de ver o desenho. As pessoas brigavam entre si o tempo todo, desmereciam aqueles que gostavam de outras coisas que não SU, mandavam um ou outro se matar dependendo do tamanho da discussão, faziam onda de hate para quem falasse qualquer coisa sobre o desenho… Parece exagero, mas não é. Quem viveu o Tumblr a fundo sabe que não é. Então eu só queria o máximo de distância possível.

Depois de muito tempo, eu venci o meu desgosto por essas partes do fandom, assisti o desenho e estou amando, me divertindo, chorando… Todo o tipo de experiência que marca Steven Universe como uma das melhores animações criadas.

Um exemplo mais antigo é a minha relação com The Witcher. Apesar do fandom ainda me xingar por causa de um texto que fiz há dois anos, eu gosto muito dos jogos. É um RPG de fantasia medieval, muita história e decisões cinzas, exatamente o meu número. Mas o que me mantinha afastada? O fandom. Eu sempre vi várias pessoas que gostavam da franquia, principalmente homens, menosprezando jogos com representatividade, falando que The Witcher era o único jogo atualmente que não os “fazia ter vergonha de ser um homem padrão”. Você pode achar que eu estou mentindo, mas até tirei print dessa pérola. O comportamento tóxico do fandom me manteve afastada de jogar The Witcher por muito tempo, até que um dia eu resolvi testar e adorei, mesmo vendo alguns problemas.

Fun fact: Recentemente uma pessoa veio no meu perfil pessoal do Facebook escrever mais de 10 parágrafos gigantescos, e completamente grosseiros, sobre como eu tava errada nas minhas críticas ao The Witcher. Eu ainda recebo ódio e esse ano teve um vídeo resposta ao meu texto de um canal qualquer que me rendeu uma nova onda de ódio.

Isso não deve soar esquisito para muitas pessoas. Quantas mulheres nem chegam a conhecer algum jogo específico por causa do fandom? Há vários outros fandoms que pessoas não querem entrar porque, assim como no caso de SU, as pessoas não são preconceituosas como nesses exemplos de jogos, mas algumas agem de maneira tóxica na internet. Assim como acontece em alguns pontos do fandom de Rick and Morty, por exemplo. Obviamente eu não tô falando que todos que consomem esses exemplos, ou outros que você pense, são dessa forma. Nenhum dos meus amigos que assiste SU e Rick and Morty manda ódio anonimamente para alguém por causa do fandom.

Mas se pararmos para pensar de forma racional, o fandom e a obra em si não são a mesma coisa. A obra foi um grupo de criadores que fez e publicou, o fandom é a comunidade que se forma, troca artes, fazem teorias e debatem sobre o assunto. Então é perfeitamente possível você gostar de algo e não ter nenhuma participação com o fandom. Eu mesma passei anos amando Dragon Age sem conhecer qualquer pessoa que gostava do jogo.

Sim, é possível, mas não é só sobre isso.

Desde que a internet se tornou grande parte das nossas vidas, o público de obras em geral foi deixando de ser apenas consumidor passivo. Assim como a internet é uma forma de mídia interativa, a cultura de consumo dessas obras, incluindo de cultura pop, também foi se tornando interativa. Entendemos isso como a cultura da participação, onde o público também interage. Assim nós temos fanarts, fanfics, fóruns de discussão, teorias…

Consumir algo de forma passiva e de forma interativa são duas experiências diferentes. Atualmente, nós esperamos e buscamos por essa interatividade na internet. Quando eu vejo algo novo, a primeira coisa que faço quando acabo é procurar fanfics, por exemplo. Não é que todo mundo haja dessa forma, mas é algo que fica cada vez mais frequente com os anos.

Portanto, a experiência que temos com o fandom se torna parte da experiência de assistir algo ou jogar algum game específico. Consumir o produto e interagir sobre ele se tornam experiências complementares. A maioria das pessoas preferiria não deixar o microfone desligado durante uma partida online, fazemos isso porque é mais seguro, não tanto por escolha própria. É divertido compartilhar experiências de algo que você ama com outras pessoas que amam aquilo também. O que acontece no fandom acaba se mesclando com a experiência de consumir a obra. Então é por isso que, às vezes, o que vemos do fandom nos faz perder a vontade de começar qualquer uma dessas experiências.

Pessoalmente, eu tento cada vez mais procurar saber mais da obra em si antes de decidir consumir algo, independente de como o fandom atua na internet. Tento agir assim porque não quero perder coisas ótimas, como SU. Mas entendo também cada vez mais porque pessoas se afastam de fandoms com atitudes tóxicas, mesmo que as obras em si sejam ótimas. Ainda mais quando a comunidade do fandom não se preocupa em fazer um ambiente inclusivo e não proíbe disseminação de ódio e preconceito, como é o caso de jogos online.

Precisamos entender que a experiência de comunidade do fandom é importante, e assim como qualquer outra relação no mundo, exige respeito e empatia. Ainda há um pouco a ideia de que tudo na internet é liberado, mas é uma pessoa do outro lado da tela.

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Clarice França
Connect to Database. Origem: Reino do Sonhar. Campeã do Labirinto e de Kirkwall, Heroína de Ferelden, Herdeira de Andraste, Comandante Shepard, Paragade, Dovahkiin, Witcher, Dobradora de Fogo, Targaryen e Corvinal.