Apesar do Nebulla ser um espaço para falar de cultura pop, parte da ideia do projeto era para que nós, editoras, nos sentíssemos confortáveis para debater qualquer assunto. Hoje eu, Clarice, sinto necessidade de conversar com quem quer que queira ler, sobre esse assunto que tem ficado muito na minha cabeça. Querendo ou não, é uma questão que eu vejo muito entre grupos nerds em geral, mas acho que dá para levar além disso. Por isso este é um texto com um certo tom pessoal.

Não tenho qualquer pretensão de dar uma fórmula pronta aqui, eu quero desenvolver um assunto e que você pense sobre ele.

Eu comecei meu processo de desconstrução em 2011. Antes disso, eu já tinha aquelas ideias de “era feminista, mas não sabia”, porém só quando eu entrei na faculdade que eu comecei a me reavaliar. Na época, eu fiz amizade com uma amiga muito querida, que era talvez a única feminista declarada da turma. Ela me ouviu falando conceitos muito ruins sobre o feminismo, mas mesmo assim ela teve paciência de ir desenrolando eles.

Outra experiência marcante para a minha desconstrução foi entrar no Tumblr em 2013. Lá eu me deparei com inúmeros materiais explicando questões de minorias sociais, privilégios, etc. Algumas questões são diferentes entre Estados Unidos e Brasil, que eu fui aprendendo depois, mas lá eu tive muito contato com essas questões que fui expandindo para outros espaços.

Acompanhei vários momentos de debate sobre feminismo na internet e percebi certas mudanças. Vi que, ao longo dos anos, as pessoas foram aceitando que não precisavam ser a personificação da calma em pessoa. E não precisam mesmo, antes que vocês acham que eu vou dizer o contrário. Então, alguns meses atrás, eu me deparei com um vídeo da Debora Baldin falando sobre comunicação não-violenta.

Desde então, eu tenho reavaliado muito a questão da comunicação nos espaços de militância e de desconstrução. Inclusive, e principalmente, a minha. Afinal, estamos todos em constante desconstrução. Talvez por isso eu tenha demorado tanto para escrever este texto.

Apesar de estar há anos escrevendo textos para internet, explicando algumas questões, eu não me considero uma pessoa paciente. Eu perco a paciência fácil, visivelmente não me conformo quando falam um absurdo perto de mim e posso ficar reclamando sobre o assunto por um bom tempo. E não, eu não dialoguei sempre.

Até porque, vamos concordar, às vezes é um saco, né? A gente sofre constantemente com inúmeras questões, no ambiente nerd especificamente, nos privamos de espaços e experiências por causa desses problemas. Ninguém é de ferro, todo mundo é humano e com direito a ficar bravo, triste, com raiva e perder toda a paciência. Ainda mais quando a outra pessoa está querendo mesmo que você perca a postura.

Outro episódio marcante para a minha desconstrução foi outubro de 2018. Sim, épocas de eleições, segundo turno chegando e a eleição de Bolsonaro. Várias pessoas foram para as ruas antes do segundo turno converter voto e eu fui uma delas. Encontrei muito eleitor de Bolsonaro e votos nulos, de todos os tipos, não só o famoso bolsominion. Quando eu parei para ouvir várias daquelas pessoas, eu entendi muitos motivos pelos quais várias pessoas achavam que ele era uma opção viável. Ali, eu estava em uma situação que ou eu dialogava, ou eu perdia um voto.

Por que eu me prestei a esse papel, de me irritar nas ruas e converter voto ao passo de formiguinha? Por que ouvir xingamentos, homens raivosos e me menosprezando, três noites por semana, quando podia estar descansando? Acordar cedo em um sábado para ouvir ameaças no meio da praça, com seguranças ao redor? Porque eu tinha um objetivo, eu queria mudar a situação. Não mudamos, mas eu tentei, e se não tivéssemos feito isso nos 45 do segundo tempo, talvez tivéssemos alcançado algo muito maior.

A palavra chave aqui é mudar.

Ao longo desses anos de internet, de grupos e acompanhar inúmeras discussões eu já vi muita coisa boa. Eu também já vi muita briga à toa, perda de paciência, mal entendidos, exposições, puxões de tapete, etc. Perdi as contas de quantas vezes vi discussões, que deveriam ser sobre assuntos sérios, se tornarem disputa de quem tá mais certo, sai com razão e divulga prints para mostrar a “vitória”. Inclusive entre pessoas que estão “do mesmo lado”, podemos colocar assim. Tudo bem, acontece.

Mas no que isso ajuda?

Entendam, eu sei perfeitamente que há pessoas com quem não dá para dialogar. Muitos não querem saber, tem gente que só é troll mesmo, que quer ser o senhor treta da internet e não está nem aí. Assim como eu também não vou achar que todo mundo vai ter paciência quando descobrimos que alguém fez algo terrível, como alguém que abusou de outras pessoas. Há casos e casos, por isso eu disse no começo que não é fórmula pronta, tudo precisa ser avaliado.

Mas muitas coisas que eu vejo poderiam ter sido resolvidas se as pessoas tivessem pensado dois minutos antes de tentar mostrar que são melhores de alguma forma, antes de partirem para a ofensa. E sabe onde isso também acontece muito? Entre pessoas desconstruídas, que estão lutando pela mesma coisa, que também querem espaços melhores e inclusivos. Mas então por que elas estão discutindo? Ora, pessoas se desentendem, pessoas discordam, pessoas, por mais desconstruídas que sejam, cometem erros. Errar vai além de qualquer coisa, errar é humano, nós já sabemos disso. Todos nós já erramos e vamos continuar errando.

E aí eu acho que chego finalmente no ponto em que eu quero chegar. Se hoje você é desconstruído, entende as coisas, têm informações que outros não têm, é porque alguém teve paciência para te explicar. Nem que não tenha sido diretamente para você, pode ser a paciência de escrever um texto na internet, fazer um vídeo, que chegou para você. Ainda assim, envolveu alguém querendo dialogar e não só brigar.

Eu entendo, não é fácil e ninguém é calmo todos os dias da semana. Você não precisa mesmo segurar a mãozinha de todo mundo, ainda mais se é uma pessoa que de fato não está interessada em ouvir ou resolver alguma questão. Tem dias que você só quer ficar de boa, o modo militante precisa descansar. Mas aí, algumas vezes, a alternativa vira ofensas, tretas e brigas. Às vezes a pessoa sabe que não vai conseguir dialogar, mas ela procura a briga e transforma o que podia ser um diálogo em um problema.

Sabe o que isso ajuda? Nada.

Nós vivemos em uma sociedade que gosta de vingança, do famoso ditado “olho por olho, dente por dente”. Às vezes fazemos a tal vingança, sem reconhecer o que é, e dizemos que é justo. Mas será mesmo? Será que humilhar, brigar e até expor a pessoa a certas situações é a melhor coisa a se fazer? Ainda mais quando é alguém que está no caminho da desconstrução? Ainda mais quando conhecemos e temos algum contato com esta pessoa?

Isso não é passar pano, é pensar que poxa, se eu conheço a pessoa que está fazendo algo que eu considero ruim, e tenho alguma relação, eu poderia dar para essa pessoa a chance do diálogo. Sem contar que, mesmo que você nunca tenha visto a pessoa, o mínimo que deveríamos ter é respeito uns pelos outros. Obviamente se ela começa a te ofender, ou é um troll, ninguém precisa ser o Aang, avatar da calma, e continuar tentando. Mas a gente também pode só fechar a janela e não alimentar aquilo.

Escrevo esse texto porque, ao longo da minha vida, achei que muita coisa era justa quando era apenas vingança. Já fui grossa em vários diálogos que só queria me sentir vingada, sim, é essa a palavra. Quando deixei a minha frustração falar mais alto que o resto. E muita gente age dessa forma, mesmo sem saber. Não é à toa que histórias de vingança são tão populares.

Ninguém é um arauto da calma todos os momentos na vida, e algumas pessoas não vão ter estrutura mesmo para certos diálogos. Mas eu tenho percebido, ao longo dos anos, que parte de ser militante é saber que nós temos que passar o nosso conhecimento adiante. Ninguém nasceu desconstruído. Sou mulher e sou bissexual, muita coisa do que eu consegui foi na base do grito sim, e às vezes a gente só consegue as coisas gritando, deixando nossa existência tão visível que ninguém possa ignorar.

Mas não são todas as situações assim. Como eu aprendi nas eleições, tem muitas pessoas que basta conversar. E ouvir também, por que como queremos argumentar se não ouvimos o que o outro tem a dizer? Sem contar o tanto de problemas que acontecem dentro de espaços que deveriam ser seguros, onde pessoas se desentendem e não pensam por um momento que aquela é uma pessoa que valha a pena tentar conversar. Se já tentamos o diálogo e não funcionou, tudo bem, às vezes não funciona mesmo, mas nem sempre essa é a primeira opção.

Como eu disse, não é fórmula pronta, comunicação não faz parte da área de exatas. Precisamos sim avaliar cada situação. Mas o diálogo precisa ser uma das opções, não só quando a pessoa concorda com você. O nosso objetivo não  é que a situação melhore? Como lutamos por esse objetivo se não acreditamos que as pessoas têm essa capacidade? Sendo que não queremos dialogar tanto com minorias como nós, mas também com outras pessoas que podem estar dispostas a ouvir?

Ninguém tá falando para você ser o mestre do perdão, é só uma questão de pensar no que vai funcionar. Se queremos mudanças, nós temos sim que passar o nosso conhecimento adiante, e para isso que serve o diálogo. Não precisa ser o tempo todo, não achar que vai ser paciente todo o minuto, mas temos que estar dispostos a diferenciar as situações. Caçar treta na internet não adianta de nada, então nós temos que focar as nossas energias em algo que de fato vai mudar. E se não for ajudar, também não precisa atrapalhar.

Eu entendo que esse conceito não é fácil de absorver, ainda mais em uma época em que estamos ouvindo absurdos, em que as pessoas não têm medo de serem preconceituosas e já estamos de saco cheio, até de termos paciência com pessoas que estão do nosso lado. Mas a gente precisa avaliar como fazemos a nossa comunicação se queremos continuar militando. Não é fácil, mas é essencial.

Como eu disse no título, se hoje você é desconstruído, e sabe das coisas que sabe, é porque alguém já teve a paciência de dialogar com você de alguma forma. E sim, muitas pessoas não se dão ao trabalho de nada e só querem ter um comportamento tóxico. Isso não é inclusivo, isso não ajuda e isso não muda. Nós queremos ser diferentes dessas pessoas, queremos mudar as coisas para que não sejam mais assim, né?

A desconstrução não é só para os outros, a autoavaliação precisa acontecer, sempre.