Paula von Sperling foi a vencedora do BBB19. É difícil que uma pessoa não tenha ouvido falar no que é BBB, um reality show da Globo que está quase em sua vigésima edição. Algumas edições ficam conhecidas por inúmeros motivos, mas a desse ano chamou a atenção porque, segundo os fãs, o elenco era muito fraco.

Imagino que algumas pessoas, como eu, que geralmente não acompanham BBB, ficaram curiosas com alguns dos casos que apareceram na internet sobre o programa. Alguns deles protagonizas pela campeã da edição atual, Paula.

A questão é que Paula foi racista em vários momentos do programa, agindo como se o que ela dissesse não fosse nada demais, ou fosse apenas uma brincadeira, algo que não devia ser levado a sério. Ela não foi a única, participantes como Diego e Maycom deram declarações machistas e racistas também.

Ela é o tipo de participante que tinha altas chances de ganhar: Uma mulher dentro do padrão, engraçada e considerada “sem noção”. Por falar o que pensa, foi considerada por muitos uma das únicas participantes “autênticas”, como se a militância de outros participantes (especificamente das pessoas que os fãs chamavam de ‘gaiola’) não fosse verdadeira. Não é nada surpreendente que uma participante, após dizer tantas coisas racistas, tenha ganhado. Só quem não está prestando atenção se surpreende com o racismo na nossa sociedade.

Resultado de imagem para paula bbb19 racismo

Acho importante apontar aqui alguns episódios:

  • Paula comentou sobre o caso de uma mulher que foi esfaqueada pelo marido. Ela diz que esperava que fosse chegar “o maior faveladão“, mas que se surpreendeu ao ver que o criminoso era “branquinho” e morou no exterior.
  • Quando algumas participantes estão falando do cabelo de Elana, uma das mulheres na casa, Paula diz que também tem “cabelo ruim“.
  • Paula afirmou ter medo do participante Rodrigo porque, segundo ela, ele mexe com “essas coisas de oxum“, fazendo referência à religiões de matrizes africanas. Por causa disso, ela teria medo de um dia indicá-lo para o paredão. Isso adicionou intolerância religiosa ao combo do racismo (ela não foi a única, Maycom e Diego também disseram que tinham medo de Rodrigo e Gabriela por causa disso).
  • Paula insistiu com Danrley, nos primeiros dias de confinamento, sobre o assunto de drogas, logo para o participante que veio da Rocinha. Ela continuou insistindo mesmo depois que Danrley disse que ele nunca tinha usado.
  • Ela afirmou que cotas para negros em universidades é uma forma de “racismo do Estado“.

Esses foram os exemplos que ficaram mais famosos, mas a internet está cheia dessas declarações da participante, tanto que ela está sendo processada por racismo.

Com a quantidade de pessoas militantes no BBB desse ano, não é surpreendente que a Globo tenha decidido colocar participantes como Paula, e outros nomes, na casa também, exatamente para causar conflito e possíveis brigas. Por mais que muitos participantes tenham escolhido não brigar, isso não impediu que inúmeros comentários preconceituosos fossem feitos.

Resultado de imagem para gaiola bbb
Os participantes do grupo “gaiola”

Como se não bastasse, na edição da Globo, esses comentários não apareciam. Há pessoas que acompanham BBB pelo site, e acabam tendo acesso à maioria das coisas ditas, assim como aqueles que acompanham pelas redes, como pelo Twitter. Porém, boa parte do público só assiste pela TV, dependendo apenas da edição do programa. Quando a Globo decide omitir a questão, ela está relativizando o assunto, como se não fosse importante. Inclusive muitos fãs acusaram a emissora de estar fazendo uma edição parcial, para proteger suas favoritas, que seriam Paula, Hariany e Carol.

Não acredito que exista edição imparcial, mas concordo completamente que foi um grande erro a Globo não ter transmitido esses diálogos de Paula, da mesma forma que não tomou nenhuma medida durante o programa sobre o assunto. Mas eu não acredito que a edição da Globo foi a única responsável pela vitória de Paula. Por mais que as pessoas que acompanham na internet tivessem acesso a todas essas falas, Paula conseguiu inúmeros fãs, seus mutirões de votação tinham muitas pessoas engajadas e dando força para a torcida. Essas pessoas sabiam do que ela falava, só acreditavam que não tinha nada demais, que ela não dizia por mal, ela só era “autêntica”. Outros provavelmente concordavam com as coisas que ela falavam, afinal de contas, a nossa sociedade é racista, e intolerância religiosa com religiões de matriz africana é comum.

Considerando que ano passado elegemos Bolsonaro, um homem abertamente machista, homofóbico e racista, como nosso presidente, não é surpreendente que em um reality show de voto popular, uma participante racista tenha ganhado com a maioria dos votos. Nós somos uma sociedade que, mesmo que não diga o preconceito com todas as palavras, o expressa ao concordar com certas atitudes, ou fingir que alguns problemas não existem.

Resultado de imagem para tiago paula bbb

Eu já queria falar sobre o assunto antes da vitória ser anunciada. Já imaginávamos que Paula ganharia, mas o discurso do apresentador Tiago Leifert, ao anunciar o resultado, piora a situação. Durante o discurso, Tiago diz:

vence o BBB19 a pessoa que teve a audácia de ser imperfeita, a pessoa que, na frente de todo mundo, teve a ousadia de ser real em 2019

Não existe nada de ousado ou audacioso em ser racista em 2019, ser preconceituoso é padrão da sociedade em que vivemos. Quem teve audácia e ousadia, em um país preconceituoso e que acabou de eleger Bolsonaro como presidente, foram os participantes que continuaram falando sobre militância, mesmo tendo que ouvir e passar por situações ruins durante o programa. Ousado e audacioso é ter orgulho de ser uma minoria social, em uma das emissoras mais conservadoras do país.

Paula seria imperfeita se fosse uma pessoa que brigasse por qualquer motivo, deixasse a louça suja, coisas do tipo. Ser racista a faz ser preconceituosa, e racismo é crime.

Existe essa ideia de que, se uma pessoa for militante, ela não está sendo real e verdadeira. Que a pessoa só é honesta quando pensa de acordo com o senso comum, quando faz os comentários feitos por Paula, Maycom, Diego, etc. Independente de quem essas pessoas machuquem no processo, só é considerado “real” se a pessoa se mantém no padrão esperado da sociedade.

Talvez essas pessoas que consideram que militância é “forçada”, inconscientemente queiram pensar assim. Porque se pensar no outro, se ser militante, pensar criticamente sobre a sociedade e tentar ir além do padrão for tão real quanto qualquer outro pensamento, significa outras pessoas podem ser assim também. O que significa que essas pessoas que acusam “militância” e outros assuntos de não serem reais, na verdade podem pensar de outra forma, mas escolhem ficar na zona de conforto. E, para alguns, essa ideia é inaceitável.

Eu não acredito que todas as pessoas tenham consciência completa de tudo o que fazem, até porque a desconstrução é um processo constante e todos nós temos algo para desconstruir. Pessoas podem mudar. Mas isso não quer dizer que podemos ignorar nossos privilégios, nem assumir que está tudo bem uma pessoa falar as coisas que a Paula disse no BBB.

Tiago Leifert, como comunicador, devia ter ciência da responsabilidade que ele têm ao fazer um discurso desses, em um programa com muita audiência que vai repercutir em várias mídias. Dizer que Paula foi “ousada” e “autêntica” ao ser “real” ao dizer tudo o que ela disse, é legitimar um discurso racista e preconceituoso que já existe na nossa sociedade. É dar ainda mais força para que inúmeras pessoas continuem a sofrer com preconceito.