Este texto contém spoilers da oitava temporada de Game of Thrones, até o episódio 3, The Long Night.

Depois da batalha mais esperada de Game of Thrones, algumas pessoas ficaram incomodadas com o final do conflito. Já fizemos uma análise do episódio em questão. Porém, na internet, algumas pessoas começaram a falar que Arya era uma Mary Sue da série, já que ela conseguiu matar o Rei da Noite, um dos maiores vilões da história, “do nada”.

Diminuir uma personagem feminina como “Mary Sue” porque ela fez algo que geralmente um personagem masculino sempre faz, expõe o machismo do fandom, que acha que os feitos fantásticos só fazem sentido se forem realizados por homens dentro do padrão. Mas dizer só isso não adiciona muito na discussão, então no melhor estilo Contrapoints (assistam esse canal, sério, é maravilhoso), nós precisamos também discutir o que é Mary Sue e se Arya se encaixa nesse estereótipo.

O termo Mary Sue vem de uma fanfic de Star Trek, escrita em 1974, chamada A Trekkie’s Tale. Essa fanfic foi escrita como uma paródia das histórias que incluíam self-insert, que é quando um autor se coloca na obra em forma de algum personagem. A Mary Sue era uma representação desse fenômeno que aparecia em várias fanfics, então o fandom adotou o termo com o passar do tempo. Geralmente, ele era usado de forma pejorativa.

O estereótipo da Mary Sue é o de uma personagem original do autor, que serve como uma representação da própria pessoa de maneira idealizada, através do self-insert. Ela é muito bonita, geralmente possui alguma característica marcante fisicamente, ou tem um nome memorável. A Mary Sue é muito boa em várias coisas, algumas dessas habilidades vêm até de forma natural. Ela não tem falhas, ou pelo menos as falhas que têm são um aspecto que tornam a personagem ainda mais cativante e especial.

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A Mary Sue possui um passado complicado, mas é uma pessoa que todos ao redor gostam, mesmo aqueles personagens que são mais fechados. Se alguém não gosta dela, a história mostra que há algo muito errado com essa pessoa em questão. Todos sempre ficam admirados com a forma que a Mary Sue lida com as coisas. Geralmente, ela possui algum laço forte com o personagem que o autor da fanfic mais gosta.

Hoje em dia, muitas pessoas usam o termo Mary Sue fora das fanfics, para certos personagens da ficção. Então, geralmente as características que fazem uma personagem ser uma Mary Sue são:

  • Se dar bem com todo mundo
  • Ser muito bonita
  • Ser boa em várias habilidades diferentes
  • Essas habilidades podem vir de forma natural
  • Ser de alguma linhagem especial
  • Ter algum aspecto especial que salta aos olhos
  • Não ter falhas

Então vamos pensar em Arya Stark. Ela é uma Stark, de uma família nobre do universo de Game of Thrones. Ela faz parte da principal família da franquia. Isso tudo faz com que ela, de certa forma, se encaixe no quesito de fazer parte de uma linhagem especial. Mas, se só isso faz dela uma Mary Sue, metade do elenco da série é. Agora, quanto ao resto, quem conhece a personagem sabe que esse é o único ponto em que ela poderia se encaixar.

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Arya nunca se deu bem com todo mundo, inclusive muito pelo contrário. Ela era conhecida por ser mal educada, até considerada meio selvagem, principalmente se comparada com sua irmã, Sansa. Arya teve poucos amigos ao longo da história, sendo Jon possivelmente uma das únicas relações que durou até agora. Ela está melhorando com a Sansa, gosta de Gendry e do Cão, até certo ponto. Por mais que as pessoas na lista de Arya sejam considerados personagens odiados pelo público, ou pelo menos vilões até certo ponto, não é o fato de Arya gostar ou não que faz com que nós, o público, gostemos do personagem em questão.

No livro isso fica mais evidente, mas Arya sempre foi comparada com Lyanna Stark, que apesar de tudo, nunca foi conhecida por ser uma das mulheres mais bonitas de Westeros. A descrição de Arya nunca foi feita para exaltar sua beleza, inclusive George R. R. Martin já escreveu que as pessoas achavam que Arya tinha “cara de cavalo”. Junto com isso, ela não possui nenhuma característica especial física que a faz chamar atenção, até porque se não, nunca teria ficado tanto tempo infiltrada entre os Lannisters, quando estava servindo Tywin.

Durante toda a história de Game of Thrones, um dos aspectos mais fortes de Arya foi sua vontade em aprender a lutar. Já na primeira temporada, vemos ela tendo aulas para aprender a usar sua espada. Mais tarde, ela vai até Braavos, para treinar na Casa do Preto e Branco, junto com os homens sem rosto, um grupo de assassinos treinados para serem mortais e imperceptíveis. Quer dizer, depois de aprender a usar a espada, sobreviver nas estradas de Westeros com poucos recursos, e treinar em uma guilda de assassinos, é óbvio que ela conseguiu ficar boa em habilidades de combate e furtividade.

Essas habilidades de Arya não vieram do nada, elas vieram depois de anos difíceis, e de treinamento, que Arya foi capaz de sobreviver. Esses já eram assuntos que sempre deixaram a personagem interessada, ela passou muito tempo aprimorando suas habilidades. Como ela mesma admite, Arya não é boa em tudo, nós a vemos dizer para Sansa que não teria sobrevivido à política de Westeros como a irmã fez. O ponto forte de Arya é lutar e se esconder, usando sua agilidade ao seu favor. Em outros aspectos, ela é uma personagem normal.

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Também podemos apontar as falhas de Arya. Ela não é muito de conversa, demorou anos para tentar entender o lado das outras pessoas, não é sutil e não tem habilidades o suficiente para planejar uma guerra ou alianças. Arya é grosseira e, muitas vezes, é cabeça dura e acha que a sua visão é a única certa. Tudo bem, faz parte da personagem, e com a idade que ela tem, faz sentido. Mas não dá para dizer que ela é uma personagem perfeita, como é esperado de uma Mary Sue.

Então por que as pessoas estão dizendo que ela é uma Mary Sue, se toda a construção da personagem diz o contrário? Porque, na grande guerra final, foi ela que derrotou o tão temido Rei da Noite. E aí voltamos para a questão do machismo. Se um homem tivesse derrotado o Rei da Noite, como Jon Snow, ou até mesmo Theon Greyjoy, que estava próximo de Bran, dificilmente eles seriam acusados de serem “Gary Stu”, a versão masculina da Mary Sue. O problema é que, quando é uma mulher realiza essa função, as pessoas acham esquisito, porque não estão acostumadas, ou apenas se recusam a aceitar, uma mulher em uma posição de destaque dessas.

Como falei na minha crítica, eu acho sim que a cena da morte do Rei da Noite teve problemas. Não por ter sido a Arya, ela era possivelmente a única personagem que poderia fazer isso naquelas circunstâncias. A construção da personagem não é o problema, e sim a construção do episódio em si. Nós vimos uma cena antes em que ela quase não conseguiu escapar da audição/olfato dos Walkers, então parece incoerente que ela consiga fazer isso quando tem muito mais inimigos por perto. Se aquela cena na biblioteca não estivesse no episódio, ou tivesse sido feita de forma diferente, essa construção de Arya derrotando o Rei da Noite seria muito melhor.

Para classificarmos Arya como Mary Sue, só há três opções: Não conhecemos Arya, não sabemos o que Mary Sue significa, ou estamos deixando nosso julgamento ser ditado por uma visão conservadora e machista da cultura pop. A construção de Arya a tornou perfeitamente capaz de fazer o que ela fez na série, o problema não está em Arya, e sim na construção do episódio. De qualquer forma, isso não tem nada a ver com Arya ser uma Mary Sue, porque ela não é. Portanto, é incorreto colocarmos a personagem dentro desse estereótipo só porque ela fez o que nenhum personagem masculino da série conseguiu.