Algumas semanas atrás, a Netflix liberou imagens da nova animação da She-ra, personagem oitentista que povoou a infância de muitas pessoas, hoje adultos. Semanas antes, o Cartoon Network havia feito o anúncio de uma nova animação de ThunderCats, também um desenho da década de 80 e que fez bastante sucesso aqui no Brasil. muitas pessoas amaram os dois anúncios, já existem cosplays sendo preparados e diversas fanarts maravilhosas ganhando espaço.

Mas também existem aqueles que odiaram as novas animações, mesmo sem nem terem visto um só episódio delas. Eu quero destrinchar esse ódio todo, para tentar entender de onde ele vem, porque algo me diz que a base de muito desse ódio é o machismo e o modo como nós vemos, representamos e consumimos masculinidade.

Quando os dois casos de backlash começaram nós escrevemos sobre eles, tanto falando sobre a birra infantil de alguns adultos contra ThunderCats, como sobre o que revela o ódio que o novo design da She-ra recebeu.

Mas a gente precisa deixar algumas coisas muito claras antes de continuarmos:

  1. adultos não são o público alvo desses desenhos
  2. desenhos infantis que incluem o público adulto como Adventure Time são ótimos, mas isso não é uma obrigação. Exatamente porque:
  3. Adultos não são o público alvo de desenhos infantis (sim, eu sei que já falei isso antes).

A representação da masculinidade nos desenhos infantis

Todo mundo tem aquele desenho do qual se lembra com muito carinho na época de infância, mas que, ao olhar para trás percebe que nem tudo era tão interessante – ou bem animado – como a gente se lembra. Observar com olhos críticos aquilo que consumimos não quer dizer que estamos apagando a importância que aquilo teve para gente. Só significa que nós somos adultos conscientes de que em 20-30 anos muita coisa muda, e que a gente deveria estar sempre evoluindo – inclusive na representação.

Pra quem cresceu nos anos 80 e 90, as representações masculinas nos desenhos normalmente vinham em forma de heróis de ação. Aqueles que não cabiam dentro desse padrão eram os nerds de tecnologia ou vilões e geralmente eram inferiorizados exatamente por não serem heróis de ação.

Os heróis de ação, como He-Man, Wolverine, Batman ou Lion-O eram sempre homens muito fortes e musculosos, que resolviam os problemas com violência e que, quando expressavam algum tipo de sentimento, tendia a ser apenas um reforço da sua masculinidade pouco vulnerável ou dominadora. Esses desenhos apresentavam só a masculinidade que reforça um ideal violento, musculoso e emocionalmente distanciado como opção.

A mulher forte dos desenhos infantis

Se você foi uma garota durante a década de 80 e 90, então você teve a sua cota de mulheres fortes dentro dos desenhos infantis ocidentais. Elas não eram muitas, normalmente funcionavam dentro da síndrome de smurfette, mas estavam por alí, perdidas em um mar de heróis de ação masculinos.

Desta leva de desenhos, a Sheetara de ThunderCats e a própria She-ra são bons exemplos de animações que seguiam um padrão para essas representações femininas: Mulheres esbeltas, bonitas, loiras e que remetiam à um ideal de beleza ariano – mesmo que Sheetara seja uma mulher-gato. Elas eram mulheres que chutavam bundas, mas sem descer do salto ou borrar a maquiagem.

Elas também não tinha um corpo exatamente atlético, apesar de existirem corpos atléticos de todas as formas e tamanhos, as personagens femininas sempre acabam caindo em um modelo que puxa mais para o magro e bem encorpado. O mesmo pode ser dito das personagens de X-Men, desenho dos anos 90, ou das personagens de um dos meus desenhos favoritos de infância: Batman – A série animada, também dos anos 90. Todas lindas, todas magras, todas dentro de uma padrão de beleza impossível de ser alcançado.

Mesmo quando nós ganhamos uma personagem feminina completamente nova e boa de basquete, como Lola Rabbit de Space Jam, ela também caia dentro do padrão de beleza feminino. Apesar de ser uma coelha, ela tinha os pelos claros, seios, a voz e o caminhar sexy.

Uma nova onda de representação feminina e masculina

Olhando os desenhos a partir dos anos 2000, é possível ver uma mudança exponencial na maneira como as personagens femininas e masculinas começam a ser apresentadas de maneiras diferentes.

Teen Titans, animação de 2003, já traz personagens masculinos mais emocionalmente complexos, com Mutano, Ciborgue e mesmo o Robin explorando mais os seus sentimentos, seja no que tange o romântico, como aquilo que fala sobre quem ou o que eles são. O mesmo pode ser dito de Liga da Justiça e Liga da Justiça – Unlimited. Os personagens clássicos da DC, como Lanterna Verde e Batman, se apaixonam e demonstram sentimentos com mais nuances do que em animações anteriores. Tudo isso é feito de maneira natural, mas ainda fortemente preso à padrões de masculinidade heróica e violenta.

Também em 2003, a Nickelodeon lançou um divisor de águas, ao me ver, no que tange representações masculinas e femininas de desenhos infantis: Avatar – O Último Dobrador do Ar. No desenho, Aang é um garoto de baixa estatura, em contato não só com os seus sentimentos, mas também com a natureza. Suas ações são movidas por amor e empatia e, apesar da série ter diversas cenas de lutas, muitos dos conflitos também são resolvidos sem violência. O vilão da série, Zuko, teve um desenvolvimento extraordinário. Tanto ele como sua irmã, Azula, foram ótimos exemplos do tipo de traumas que uma educação violenta pode deixar nas crianças. A Lenda de Korra, desenho que substituiu o primeiro Avatar, trazia uma personagem feminina fisicamente forte, emocionalmente complexa e abordou temas importantíssimos, não só para a representação feminina e LGBT, mas também sobre traumas e resolução de conflitos.

Depois de Avatar nós tivemos diversas animações que desafiaram a estética e a narrativa tradicional para desenhos infantis – além de trazerem representações mais positivas e divertidas de personagens femininos e masculinos, tanto heróicos como não-heróicos. Adventure Time, Gunball, e Gravity Falls, entre outros. Não são perfeitos, mas definitivamente foram importantes para a animação infantil.

Mas, o desenho que realmente conseguiu brincar com os padrões de masculinidade heróica, tanto feminina como principalmente masculina, foi Steven Universe.

Steven Universe

Steven é um garoto de 14 anos que mora com as tias emprestadas, amigas da sua mãe. Assim como a mãe e tias, Steven é uma Gema. As gemas são alienígenas que vieram para a Terra muitos anos atrás. O pai de Steven é presente e vive uma vida que pouco se encaixa dentro do padrão de masculinidade da nossa sociedade. Ele é hippie, clima de surfista, tem cabelos longos, é músico e gordo. A mãe de Steven, Rose Quartz, deu a vida para que Steven pudesse nascer.

A série explora amor de maneira bonita e natural, discutindo não só o amor romântico, mas também o amor entre amigos e amigas. Existem sim batalhas entre as Gemas e suas inimigas, mas a animação é, essencialmente, sobre a importância de estar em contato com os seus sentimentos, e Steven é um garoto extremamente empático e amável.

Os episódios são cheios de aventura e de maneira nenhuma demonizam emoções normalmente relacionadas ao feminino, muito pelo contrário, aplica essas emoções à todos os personagens. Por isso, o desenho consegue trazer histórias divertidas e personagens complexos, de uma maneira que as animações da minha infância nunca conseguiram.

Acho importante ressaltar que muito do ódio que Steven Universe vem recebendo tem a ver com a quebra do padrão de masculinidade que o desenho traz. Isso também acaba vazando para essas novas animações, que tem um traço tão simplificado como Steven Universe, e que parecem promover uma mudança nesse paradigma de masculinidade e heroísmo. Mas eu vou falar mais sobre isso no próximo texto explorando esse backlash contra ThunderCats Roar! e She-Ra.

A Calart e os designs das animações atuais

Uma das críticas aos novos desenhos de ThunderCats e da She-ra é que o mercado da animação estaria passando por uma padronização dos designs. Alguns apontam a CalArt, California Institue of Arts, como responsável por essa “StevenUniversificação” dos desenhos animados. Aqui existem alguns pontos a serem abordados.

Não é incomum que animações de diferentes épocas tenham estilos similares, afinal, animação é um tipo de arte. E a arte mesma é feita de períodos com artistas que possuem similaridades dentro da escola que eles se encaixam. Dalí e Miró foram surrealistas, suas obras apresentam similaridades, porém são muito diferentes entre si. Animação funciona mais ou menos da mesma maneira.

Diferente de Dalí e Miró, que não necessariamente criavam pensando em um público específico, as animações infantis buscam alcançar um público. Este muda a cada época, sendo necessário adaptar não só o tipo de história e personagens, mas também o tipo de animação. Assim como nos anos 80/90 havia uma predominância de desenhos com uma pegada mais realista, nas décadas anteriores a Hanna Barbera fez muito sucesso com um design mais cartoon.

“Mas e Batman – O Desenho Animado”, esse foi uma grande exceção à regra. Tão grande que ficou marcado nas nossas memórias exatamente por causa do design único do Tim X, que acabou influenciando os desenhos da DC do início dos anos 2000.

Então quando alguém fala que “a culpa desses designs são da CalArt”, de certa maneira eles estão certos. Porque toda uma geração de animadores saíram de lá, dividem influências ou foram influenciados por lá. Mas não é culpa, é só um processo natural de movimentos artísticos. Assim como os anos 90 foi recheado de quadrinhos no estilo Jim Lee. Você pode gostar ou não, mas odiar um design só porque não cabe dentro do seu gosto pessoal me parece um esforço desnecessário.

A escolha por um traço mais simples, como acontece em Steven Universe, Gumball e similares, vem por muitos fatores. Além dessa questão artística, há também a questão de velocidade. Animação não é um trabalho fácil nem rápido, e produzir esse monte de episódios, com qualidade não só narrativa mas de animação, também requer um esforço imenso. Então essa necessidade de agilidade, dos tempos rápidos de hoje em dia, também devem estar sendo levados em consideração na hora de optar por um design mais “simples”. Mas simples não quer dizer pior.

Talvez porque antes a gente não visse desenho animado como arte essa similaridade como movimento artístico não esteja sendo levado em consideração. Mas animação é um tipo de arte, e do tipo que tem um grande poder de influência direta no público e na população em geral.

Ou Seja:

Tá tudo bem você não curtir o traço simplificado, tá tudo bem você não curtir o design dos personagens porque prefere o que era mais “realista” como na década de 80-90. É normal que a sua infância tenha um gostinho especial a sua memória e tá tudo bem. Mas quando a gente cresce, muitas das coisas que nós consumíamos quando mais novos param de ser feitos para a gente. Porque nós crescemos, e esse mercado precisa continuar existindo.

Acho que vale a reflexão, entender que não é só que tudo que está sendo produzido agora parece não ser feito pra vocês. Mas que talvez essa sua visão negativa dos novos desenhos tenham a ver não só com uma nostalgia exacerbada, mas com conceitos pré-formados do que é bom e do que é ruim. Do que deve e como deve acontecer. E a única pessoa que sai perdendo nessa história é você, porque o desenho vai continuar sendo produzido, e as crianças vão continuar assistindo aquilo que conversa com elas.

Assim como eu amava She-Ra, vai ter uma menininha de 10 anos que vai amar essa nova She-Ra. Assim como eu adorava ThunderCats, vai ter uma menininha de 10 anos que vai adorar ThunderCats Roar!

E tá tudo bem!