Vocês acharam mesmo que eu ia deixar esse ship passar? Esse era o maior segundo motivo de eu querer ver o filme, porque o primeiro era a promessa de um homem peixe sexy com uma bunda bacana.

Brincadeiras a parte, é óbvio que o ship ia ser o ponto central da história. Guillermo del Toro estava nos apresentando uma história de amor, nós apenas não sabíamos como ia funcionar, se ia funcionar, que tipo de final os dois teriam, juntos ou não, etc.

Mas o filme finalmente está nos cinemas. Já escrevi uma crítica, agora eu vou focar na parte que realmente importa. Na relação entre Elisa e o Homem-Anfíbio, a criatura capturada pelos militares. Apenas relembrando, Elisa é a faxineira de uma base secreta nos Estados Unidos, onde Homem-Anfíbio foi preso por Strickland e seus homens para ser estudado. O ship vai criando uma relação aos poucos, se comunicando e se entendendo, virando esse conto de fadas para adultos.

O texto terá SPOILERS do filme.

Uma das coisas que eu acho mais lindas nesse ship é a delicadeza com a qual ele é construído. Elisa começa apenas alimentando a criatura, ela tem pena do Homem-Anfíbio, afinal né, ele está sendo torturado e preso. Durante essas madrugadas em que Elisa o visita, eles vão criando uma conexão. Os dois entendem que são tratados como menos, não porque são, mas porque os outros, os que estão no poder, os enxergam assim.

O começo do filme tem aquela tensão de quando eles vão poder aproveitar a companhia um do outro, sem amarras ou tubos entre os dois. Sem contar todo o risco que Elisa corre, quando é quase vista com o Homem-Anfíbio. Se não fosse por Hofstetler, ela teria sido encontrada e as coisas terminariam de forma muito diferente. Ainda mais porque Strickland tem um interesse quase doentio em Elisa.

Ela decide libertar o Homem-Anfíbio e, depois que alguma insistência, Giles concorda em ajudar. Eu vou confessar que o plano me lembrou muito as ideias que os meus grupos de RPG têm para salvar alguém: Bagunçados e com muita chance de dar ruim. Não me entenda mal, não é uma crítica ao roteiro. Eu até acho que alguns aspectos foram facilitados sim, mas considerando o conhecimento que eles tinham, e a ajuda inesperada (porém bem-vinda) de Hofstetler e Zelda, acreditei e me diverti com aquela sequência.

Agora mais livre, o Homem-Anfíbio precisa se adaptar à algumas coisas novas para ele. É nesse momento que ele e Elisa conseguem se aproximar mais, agora sem tanto medo de serem pegos. A fangirl em mim adorou que teve um momento do filme para explicar como eles fizeram sexo. É relevante? Provavelmente não, mas o fanservice do ship agradece muito, obrigada.

Por mais que Elisa saiba que vá sofrer quando o Homem-Anfíbio for embora, ela também sabe que ele precisa ser libertado. Então, quando o momento chega, ela e Giles o levam para as docas da cidade. Mas o timing da tensão do filme não decepciona, e por um momento no final, realmente acreditamos que Strickland conseguiu matar Elisa. O Homem-Anfíbio com certeza sobrevive, afinal de contas ele tem poderes que o permitem aguentar a bala, mas fica essa dúvida sobre a protagonista. O que vemos no filme é ela na água, com o Homem-Anfíbio, enquanto ele abre as cicatrizes em seu pescoço para criar guelras, assim Elisa pode respirar e os dois serem felizes. A verdade? Talvez ela tenha morrido mesmo, há sempre essa possibilidade, mas a conclusão final da história nos dá a entender que o final “mágico” é o mais possível, que o ship conseguiu ficar junto e feliz.

Uma das coisas que eu mais gosto em A Forma da Água é que ela dá a chance do final feliz. Traçando um paralelo com O Labirinto do Fauno, por mais que pareça que Ofélia conseguiu o que queria, o sentimento que fica mais evidente é o de tristeza, que a menina morreu mesmo. Aqui é o contrário, parece que Elisa foi sim afetada pelos poderes do Homem-Anfíbio, que foram mais fortes que a bala de Strickland. Algumas pessoas reclamaram que o filme não é tão melancólico, mas eu fiquei mais satisfeita assim. Todo o ódio e julgamento de Strickland não pode impedir o amor desse ship.

Considerando que é uma história que mostra preconceito contra minorias, é ainda mais significativo. O único homem dentro do padrão (mas que não é americano) e é uma pessoa aparentemente legal é Hofstetler. Giles enfrenta homofobia, Zelda aguenta o racismo diário e Elisa é vista como menos por ser muda. Todos os personagens preconceituosos e que reproduzem isso de alguma forma são mostrados pelo filme como ruins, inconvenientes e malvadas. E sabe, em uma época em que há cada vez mais ódio, que as pessoas não são todas completamente livres para amar, Elisa e o Homem-Anfíbio merecem um final feliz.

Quebrando o clima sério, a outra vantagem desse ship é que a expressão “sonho molhado” ganha outro sentido agora, não é? Desculpa pela piada ruim e não desiste de mim.