Aparentemente vocês gostaram de La Casa de Papel aparecendo no ship da semana, então vamos voltar a falar do assunto. Não vou voltar para o assunto de Denver e Monica, pelo menos não hoje. Vamos falar de Raquel e Professor, esse ship que foi um dos principais focos da série, tanto na primeira quanto na segunda temporada.

Como sempre, esse texto tem spoilers das duas temporadas de La Casa de Papel. Então se você não assistiu, não veja.

Raquel é a policial responsável pelo caso do assalto na casa da moeda. Ela se separou do marido abusivo, então, enquanto carrega essa investigação gigante nas costas, também precisa lidar com esses assuntos familiares. Raquel precisa enfrentar muito preconceito no trabalho diariamente.

O Professor é a pessoa que juntou todos os criminosos para a operação na casa da moeda. Ele passou meses estudando a segurança do local, investigando a polícia e todas as formas possíveis de fazer o plano todo dar certo. Ele é a grande mente por trás do assalto, e consequentemente é a pessoa com quem Raquel fala durante a primeira parte da série no telefone.

Esse é o primeiro contato deles, mas Raquel não vê o Professor pessoalmente. Eles só vão se conhecer em um restaurante. Raquel entra, pede por um carregador para seu celular, e Professor aparece, com outra identidade, oferecendo ajuda. Assim eles começam uma relação de amizade que, eventualmente, vira para um romance.

Em vários momentos, Raquel suspeita que o Professor é um dos criminosos envolvidos no assalto, mas ele sempre dá um jeito de convencê-la de sua inocência. Até aí, não me pareceu necessariamente ruim. Ele está tentando enganá-la para ter vantagem na investigação. Não que isso seja bom, mas narrativamente e seguindo a lógica do personagem, faz sentido.

O meu problema com o ship, e sim, eu não shipo, é o desenrolar que vem depois, principalmente na segunda temporada. No começo, eu achei que poderia ter uma resolução interessante, mas eu ainda não estou acreditando no que eu vi. Já comentei um pouco sobre esse assunto no nosso canal do Youtube (que inclusive, aproveita e se inscreve).

Eventualmente, Raquel descobre que Professor é, de fato, o líder responsável pelo assalto na casa da moeda. No começo ela fica irritada, com toda a razão. Ela estava se apaixonando e o embuste só estava a usando para fazer seu plano funcionar. Raquel fica perdida com a revelação, mas ao invés de entregar Professor para a polícia, ela o prende por conta própria e usa um detector de mentiras para descobrir… Se o cara a amava de verdade. Pois é. A detetive encarregada pelo caso quer descobrir se o líder do assalto está de fato apaixonado por ela, porque eu imagino que ela não tem nada melhor para fazer (/sarcasmo).

Como se isso não fosse o bastante, depois de algum tempo eles se encontram de novo, Professor jura por tudo que de fato se apaixonou, que ele planejou sim se aproximar, mas que no final acabou se apaixonando mesmo. Não tem como alguém acreditar que isso é real, mas Raquel acredita. Ela compra tanto a ideia dele, que praticamente passa a ajudá-lo. Nessa altura do campeonato, ela já foi afastada do caso, então não pode fazer muito, mas Raquel segura a informação de onde é o esconderijo do Professor até o último segundo. Ela só fala, e mesmo assim relutante, quando ameaçam dar a guarda da filha para o pai abusivo. Ao menos assim ela abriu a boca, porque sacrificar tudo isso por um cara que conheceu há pouco mais de uma semana era demais.

Um ano depois do assalto, Raquel encontra algumas fotos que ela e o Professor viam de lugares que eles queriam visitar. Raquel encontra alguns sinais de onde ele poderia estar e vai para o lugar. Lá, ela fica sem bateria no celular e acontece exatamente o que você leria em uma fanfic: Ela procura por um carregador em um bar e lá está Professor, lindo e pleno, com um carregador para oferecer, assim como no dia em que se conheceram. Ainda bem que ele ficou um ano todo esperando, né?

Primeiro, eu quero deixar bem estabelecido que eu amo fanfic, e não acho que a qualidade de fanfics sejam ruins por natureza. Mas sim, quando escrevemos fanfics, nos permitimos algumas coisas só pela graça. É divertido, por mais que pouco provável, é um agrado para quem shipa e não vai ver isso na obra original. Porém, na série em si, só me fez dar risada. Eu sei que é necessário alguma suspensão de descrença quando vemos essas coisas, mas isso me pareceu exagero. Coincidências assim em romances são bacanas, mas não do jeito que foi feito.

Além desses aspectos exagerados, o ship não funciona. Tudo bem, vamos supor que, por algum acaso, Professor de fato se apaixonou e não foi só um plano bem calculado. Como que a série acha que é tudo bem romantizar uma relação que começa em uma situação de mentiras, e que provavelmente não viraria algo bom? Não vamos esquecer que Professor fazia tudo que Raquel ia contra. Mas aparentemente uma semana pode criar uma paixão grande o suficiente para que Raquel resolva esquecer tudo o que acredita e compre a história do cara que enganou ela.

Essa não é a única relação que La Casa de Papel romantiza, mesmo não devendo, mas aparentemente a série não se importa com isso. Não é nem só que não é uma relação bacana, o romance não funciona, é mal escrito e o foco da série fica muito nisso quando poderia ficar em outros temas mais relevantes.