Estou chegando na coluna da Clarice para dizer que eu consigo entender aquele que talvez seja, dentro dos ships não-incestuosos, o mais controverso de Star Wars: Rey e Kylo Ren (Ben Solo) – Reylo.

Quem nunca shipou, mesmo que por poucos segundos, a heroína e o vilão? O mocinho e a bandida? Quem nunca sentiu que “os oposto se atraem” e que o amor pode vencer tudo? Quem nunca escutou isso?

Rey. Uma jovem sozinha, sem família e com uma queda por causas perdidas. Determinada a ajudar seus novos amigos, a salvar a galáxia e todos que estão dentro dela. Kylo. Ben. Um jovem guerreiro dividido entre o bem e o mal, entre o certo e o errado. Incompreendido desde cedo por todos a sua volta, injustiçado. Mas não por ela.

Em Os Últimos Jedi estão os dois perdidos, procurando respostas. Ele, sobre qual caminho seguir, ela, sobre quem é e qual o seu lugar no mundo/galáxia/força.

Rey aparece para Kylo como alguém disposta a apoiá-lo, a ficar ao seu lado. Alguém que entende porque Ben se tornou Kylo, o quão injusto Luke foi com ele – alguém que entende a sua dor. Ele se mostra para Rey como alguém que ela precisa, que pode ser seu companheiro, a família que ela tanto procura. Ele não se importa com o fato de Rey não ser alguém importante, porque para ele só ela (e a dominação da galáxia) já é o suficiente.

Kylo aparece para Rey quando ela está em seu momento mais vulnerável. A figura paterna morta, o amigo em coma, presa em um planeta perdido nos canfudós da galáxia com um símbolo de esperança desesperançado. Perdida e sem as respostas que gostaria de ter, Rey vê em Ben alguém em um momento similar, precisando se reconciliar com seu passado, precisando de apoio e compreensão. Alguém que parece disposto a mudar, a quem ela pode ajudar.

E não é essa a história de amor dos últimos séculos?

O homem atormentado entre o bem e o mal, com temperamento difícil, talvez com um passado sombrio, com ataques súbitos de violência… Mas que, por dentro, onde realmente importa, guarda a possibilidade da mudança. Se ao menos alguém o amar direito, se ao menos alguém estiver disposto a ficar ao seu lado e ajudá-lo a mudar.

Nós nascemos e crescemos prontas para acreditar em #Reylo. Está tão incrustado nas nossas memórias que parece genético.

  • Ele destruiu um planeta inteiro, cometeu genocídio.
    • Mas ele vai mudar por você.
  • Ele colocou seu amigo em coma.
    • Mas ele vai mudar por você.
  • Ele assassinou o próprio pai.
    • Mas ele vai mudar por você.

Eu consigo entender quem shipa Kylo e Rey. Nós somos educadas em uma dieta nada básica de amor romântico e violento. É um dos tropos heteronormativos mais fortes, tão pesado que até mesmo relacionamentos LGBTQs sofrem para se desfazer dessa lógica tóxica.

“O amor é difícil.”

Não, ele pode e de preferência deve ser fácil. Não é que você não vá encontrar dificuldades em um relacionamento. Qualquer relacionamento, romântico ou não, passa por dificuldades. Mas se essas dificuldades são causadas por atos de violência passadas ou presentes do seu companheiro, isso não é amor. É outra coisa.

  • Ele tentou me matar com um sabre de luz.
    • Mas por mim ele vai mudar.

Tire o sabre de luz e troque por um cinto, uma faca ou uma .38 – tanto faz. A história dos dois podia ser a história de várias mulheres nesta galáxia, neste tempo, no seu bairro, na sua rua e até no seu prédio.

Por isso é importante quando Rey se recusa a segurar a mão de Kylo, quando ela fecha a porta da nave. Kylo não quer mudar, ele quer continuar em um caminho de autodestruição egocêntrico, quer levar a galáxia inteira junto com ele. Kylo não quer alguém com quem dividir a vida, ele quer uma companheira que lhe forneça afirmação, amor na forma de validação da sua superioridade perante os outros. É um caminho auto-destrutivo e auto-infligido, mas que é muito bem disfarçado (ao menos para ele) sob um manto de jovem incompreendido e injustiçado.

A Cultura Pop tem um poder de disseminação e manutenção do status quo gigante, é por meio de obras culturais que essa visão romântica de uma amor violento, mas que pode mudar por você, ficou depositado em nossos poros. A Cultura Pop precisa refletir, não só o mundo em que estamos, mas as mudanças que nós queremos ver nele. Fechar a porta na cara de homens mimados, violentos e que se acreditam injustiçados por não conseguir aprovação para tudo que desejam, é a história que mulheres como Rey, fortes mas esperançosas, precisam para quebrar essa visão doentia de violência como algo romântico.

Com tantos ships incríveis circulando o universo de Star Wars, tenho certeza de que é possível encontrar um casal menos problemático e mais saudável do que #Reylo. Finn e Poe, Finn e Rey, Poe e Rey, Rose e Finn, Finn e Poe e Rose e Rey, Rey e Rey, Holdo e Leia. Todos esses opções são ships mais legais e saudáveis. Eu sei que o coração muitas vezes não escolhe o ship, mas isso não quer dizer que a gente não pode parar e pensar sobre ele.

Até a próxima! 😉