Este texto terá spoilers dos dois filmes de Os Incríveis, mas principalmente o segundo.

Desde a nossa infância (ao menos se você regula de idade comigo de alguma forma), nós vimos o casal da família Incrível. A maior parte dos filmes sempre gira ao redor deles. No primeiro filme, nós vimos o Senhor Incrível tentar se habituar a uma vida de trabalhar de 9h às 18h, quase começar um caso, se envolver com super-heróis de novo e precisar ser praticamente resgatado.

O primeiro filme se prende em alguns clichês de gênero, da Mulher-Elástico ficar em casa e o Senhor Incrível sair para tratar de assuntos que envolviam sair de casa. Na época eu não vi dessa forma, mas hoje dá para ver esses traços. No final do dia, a família se uniu e derrotou todos os inimigos.

Os Incríveis 2 busca trazer alguns questionamentos a mais, até sobre questões de gênero. Agora as posições invertem, ao invés do Senhor Incrível sair para trabalhar, é a Mulher Elástica que vai ser a super-heroína enquanto ele cuida dos filhos em casa.

Mas existe uma questão a mais aí que me fez achar a representação muito mais interessante. Nós sabemos que os dois se amam, e apesar dos problemas eles se resolvem. Antes do Winston fazer a proposta dos super-heróis, os dois estão juntos tentando entender como resolver a situação. Depois que oferecem para Mulher-Elástica a oportunidade de ser a cara do novo projeto, o Senhor Incrível fica perdido.

Ninguém está duvidando do seu amor por ela e por sua família, mas ele não sabe lidar com o fato de que sua esposa é considerada melhor do que ele. Para alguns isso pode ser chocante, mas para mim, que sou mulher, só pareceu mais um dia comum. Eu tive a sorte de nunca me relacionar com um homem que me tratasse como menos, mas as pessoas ao meu redor sempre lidavam como se o homem ao meu lado fosse mais importante e mais capaz do que eu.

O Senhor Incrível, assim como todos os homens dentro do padrão como ele, foram ensinados que o mundo é deles, que eles são a primeira opção, e é óbvio que eles serão escolhidos para a tal coisa importante no lugar dos outros. Às vezes nem é de caso pensado, mas há um estereótipo do consciente coletivo que aponta essa tendência da mulher ficar de lado para o homem poder brilhar.

Com o filme, ele vai colocando de lado a parte de “ficar bravo porque não é ele” e substituindo por “fazer sua parte” para que tudo funcione. Porque é isso, os dois são um casal passando por um momento difícil, eles precisam segurar as pontas até as coisas darem certo. E essa situação de companheirismo no final que me deixa feliz com a relação num todo. As pessoas erram, são egoístas e às vezes reproduzem besteira, mas o importante é se reavaliar e entender o quanto está sendo injusto, como é o caso do Senhor Incrível. Ninguém tá passando a mão na cabeça, só mostrando que dá para se tocar do erro. Não é um ship tão romântico com momentos tão impactantes quanto outros na ficção, mas essa rotina também é legal de ser representada. Por mais que seja uma rotina de super-heróis.

Eu gosto da naturalidade e dos problemas do dia-a-dia, mesmo em uma situação fantástica, que Os Incríveis coloca em sua história e no arco dos personagens. E isso se reflete no ship, nos problemas que eles têm, nas soluções, em como a própria história do casal é um arco narrativo por si só. Sem contar que esse comportamento, e melhora, do Senhor Incrível dá muito espaço para as pessoas refletirem como essas coisas acontecem, até entre casais, e são comuns.

Não dei muito spoilers da história em si, então por favor, se não viu o filme ainda, aproveita.