É sempre um risco fazer um remake de um filme antigo, ainda mais quando o filme em questão marcou os fãs de um gênero inteiro. Suspiria é, originalmente, um filme de terror da década de 70 dirigido por Dario Argento. O remake é dirigido por Luca Guadagnino e possui diferenças bem evidentes do primeiro filme.

Esta crítica não terá spoilers do filme.

Suspiria conta a história de uma companhia de dança em Berlim, no ano de 1977, o mesmo ano de lançamento do filme original. Susie Bannion (Dakota Johnson) chega na companhia na mesma época em que a dançarina Patricia (Chloe Moretz) sai do grupo. Susie rapidamente impressiona as mulheres da companhia com suas habilidades de dança, mas enquanto elas se preparam para a próxima apresentação, coisas estranhas vão acontecendo com as mulheres ali.

Vários filmes de terror que conhecemos nos últimos anos se baseiam em sustos para construir o desconforto do público, reduzindo todos os outros aspectos de construção. Felizmente, Suspiria segue a linha dos filmes que não fazem isso, como A Bruxa e Babadook. São histórias que constroem sua tensão com clima, história e atuação, tendo um susto ou outro sim, mas não resumindo o seu trunfo a isso. Toda a obra trabalha para construir a tensão.

Suspiria é um filme bem tranquilo no sentido susto, mas muito complexo e bem feito no aspecto da construção do terror. Desde o começo, sabemos que há algo fora do lugar naquele grupo de dança. O clima deixa o espectador desconfortável e esperando para ver quando a primeira coisa esquisita vai acontecer. Não demora tanto, depois do começo do filme, para uma cena que vai ditar o clima de Suspiria e pode ficar na sua cabeça por alguns dias.

O passo da história é lento. Ainda penso que o filme não precisava de duas horas e meia, mas ser lento não é o defeito. No começo fica um pouco cansativo, mas a partir do primeiro momento em que vemos que há algo esquisito de verdade naquele grupo, estamos tão pegos pela curiosidade que o ritmo do filme não atrapalha. É uma tortura lenta até o final que esperamos algo terrível acontecer.

A arte do filme é muito boa em agregar ao clima sombrio de terror. Ao contrário do primeiro Suspiria, com suas cores saturadas que chamavam a atenção, o remake de 2018 possui tons acinzentados, bem menos chamativos, aparecendo mais o vermelho em momentos muito específicos da história. Assim como a arte, as atuações estão alinhadas com o filme, de forma que a presença de um personagem pode tornar a cena toda mais tensa. Simples diálogos são capazes de intensificar o clima de Suspiria.

Pode ser que o filme não seja para todo mundo. Além de ser lento, Suspiria deixa muitas pontas abertas para interpretação. Algumas respostas só aparecem nos últimos momentos do filme e muito fica no ar para os espectadores. Suspiria é um filme construído para permitir que essas dúvidas apareçam, mas nem todo mundo vai mergulhar nos questionamentos que o filme propõe. No entanto, Suspiria entrega todo o clímax da tensão que vinha apresentando.

Falar sobre remakes pode ser cansativo, há muita expectativa. É inevitável que as pessoas comparem os dois filmes. Por mais que muitos queiram que o remake seja a mesma coisa que o original, só que atualizada, os remakes são muito mais interessantes quando estão dispostos a se reinventar. Usar a essência do primeiro filme e criar em cima disso. Em Suspiria, temos os mesmos personagens, assim como a premissa também é mantida, mas a medida que vamos assistindo o remake de Suspiria, percebemos como ele é diferente do primeiro e isso é bom. Por mais que o perigo seja semelhante, o desenrolar da história e a construção dos personagens nesse ambiente é diferente e única.

Suspiria também tem um fator interessante em como ele usa os símbolos femininos. É comum vermos mulheres em histórias de terror, seja porque elas são consideradas mais “frágeis” ou porque há alguma lição moral para passar, que perpetua o esperado do papel da mulher na sociedade. Em filmes mais recentes, vemos que essa tendência está ficando menos frequente. Suspiria é um filme só composto por mulheres, com relações de amizade entre si, também de mestre e aprendiz. Várias imagens que aparecem em histórias de terror relacionados à personagens femininas aparecem de uma forma ou de outra no filme, dando uma camada de complexidade a mais para Suspiria.

Talvez Suspiria não seja para todo mundo, mas com certeza é uma boa pedida para quem aprecia o gênero, incluindo os fãs do primeiro filme. É um universo bem construído, interessante e que, caso consiga te pegar, vai te fazer ficar pensando por dias sobre o que aconteceu naquela companhia de dança.